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19 Fevereiro 2016

“Continuo a achar que Trump não será presidente”, afirmou o presidente Barack Obama em entrevista coletiva na Califórnia, na terça-feira 16. “A razão é que tenho muita confiança no povo norte-americano. Ser presidente é um trabalho sério. Isto aqui não é apresentar um ‘talk-show’ ou um ‘reality show’.

“Quem ocupar a posição na qual estou agora terá consigo os códigos das armas nucleares, pode ordenar que jovens de 21 anos abram fogo, precisa garantir que o sistema bancário não afunde e frequentemente é responsável não só pelos Estados Unidos da América, mas também por outros 20 países que têm grandes problemas, ou que estão se desintegrando, e olham para nós esperando que façamos alguma coisa”.

O artigo é de Antonio Luiz M. C. Costa, publicado por Carta Capital, 19-02-2016.

Infelizmente, há razões para não compartilhar do relativo otimismo de Obama. No dia seguinte, uma pesquisa divulgada pela Universidade Quinnipiac, do Connecticut, mostrou um Trump ainda mais forte. Entre os republicanos, tem agora 39% das preferências, ante 19% de Marco Rubio, 18% de Ted Cruz, 6% de John Kasich, 4% de Jeb Bush e 4% de Ben Carson. Entre os democratas, Hillary Clinton tem 44% e Bernie Sanders, 42%.

O bilionário apresentador do programa “O Aprendiz” em seu país obviamente entende do riscado. Conseguiu mesmo fazer da campanha republicana um reality show no qual a disposição de satisfazer a ânsia do telespectador por polêmicas divertidas e chamar a atenção com linguagem agressiva e propostas absurdas se tornou a chave para ganhar o jogo enquanto concorrentes menos insensatos são eliminados a cada primária.

Donald Trump fala ao Pato Donald que existe dentro de cada conservador branco pouco instruído, ou seja, um fracassado enfezado e mal-educado, com a maturidade e o egoísmo de um pirralho de doze anos. Terceiro colocado no concurso, o arquiconservador senador Ted Cruz, intimidado após ser chamado por Trump de “pussy” (algo como “bichinha”) ao fazer restrições mínimas à defesa incondicional da tortura pelo concorrente (Cruz condena apenas a tortura “que provoca dor excruciante equivalente à perda de órgãos ou sistemas”), tenta não ficar atrás.

Na mesma terça-feira, ao falar a eleitores da Carolina do Sul, prometeu não fornecer refeições sem glúten ao Exército porque isso seria reflexo da “cultura do politicamente correto”, um dos espantalhos preferidos de Trump. Danem-se os soldados celíacos. Perto da insolência do atual favorito, trata-se, porém, de uma imitação patética. A querela entre Trump e o papa Francisco mostra como fala um verdadeiro Pato Donald.

Quando Jorge Bergoglio foi à fronteira do México denunciar a tragédia da migração forçada e homenagear os migrantes para os Estados Unidos que Trump promete deter com uma muralha de oito bilhões de dólares paga pelo governo mexicano, o pré-candidato reclamou: “O papa é uma pessoa muito política.

Acho que ele não entende os problemas do nosso país. Não entende o perigo da nossa fronteira aberta com o México e acho que o México conseguiu dele que fizesse isso. Porque o México quer manter a fronteira do jeito que está porque eles estão fazendo uma fortuna e nós estamos perdendo”, disse à Fox.

No voo de volta a Roma, indagado por jornalistas sobre se um católico deveria votar em Trump, o papa respondeu. “Graças a Deus ele disse que eu era um político, porque Aristóteles definiu o homem como o animal político. Assim, pelo menos eu sou uma pessoa humana Quanto a saber se eu fui usado, bem, talvez, eu não sei, eu vou deixar isso para o seu julgamento e do povo . Agora, uma pessoa que pensa apenas em construir muros, onde quer que sejam, e não em construir pontes, não é cristã. Isso não está no Evangelho.”

Vale a pena resumir a furiosa resposta oficial do Donald: “Se e quando o Vaticano fosse atacado pelo Estado Islâmico, garanto a vocês que o Papa só desejaria e rezaria para que Donald Trump tivesse sido presidente, porque nesse caso isso não teria acontecido. O governo mexicano fez muitos comentários insultuosos sobre mim ao Papa, porque querem continuar a escorchar os Estados Unidos no comércio e na fronteira. Estou orgulhoso de ser cristão e como presidente não permitirei que o cristianismo seja atacado e enfraquecido. Nenhum líder, especialmente um líder religioso, deve ter o direito de questionar a religião ou a fé de outro homem. Estão usando o Papa como um peão”.

É irônico que Trump negue ao papa o direito de questionar a fé de outro homem e tenha dito a jornalistas que isso é “vergonhoso”, porque ele mesmo questiona publicamente a fé de Barack Obama ao insinuar repetidamente que ele é muçulmano, o cristianismo de Ben Carson ao sugerir que sua igreja adventista é herética e a religião de Ted Cruz ao dizer que ele é “mentiroso e desonesto demais para um cristão evangélico”. É típico, porém, do eleitor de Trump ignorar suas contradições.

A questão é se essa estratégia tão bem sucedida com os eleitores republicanos funcionará com o conjunto do país. Como aponta o matemático Nate Silver, para entrar na Casa Branca ele precisa não de 20% ou 25% dos votos do país, quer dizer, os 40% a 50% de apoio entre republicanos que poderiam garantir sua vitória na convenção partidária, mas algo como 51%. Comprar uma briga com o eleitorado católico, como já comprou com negros e latinos, pode parecer uma boa ideia neste momento, mas vai prejudicá-lo mais tarde.
O problema é que talvez não sejam necessários os 51%.

Uma pesquisa recente da Universidade de Suffolk, de Massachusetts, indica Trump empatado com Hillary Clinton (44,6% a 43,1%) ou Bernie Sanders (44,4% a 43,3%). Entretanto, quando se acrescenta o bilionário Michael Bloomberg, que cogita se lançar como candidato independente, Trump fica com 37%, Bloomberg com 16,3% e Sanders com 30,3%. No fim das contas, os Estados Unidos da América podem mesmo acabar como um reality show ainda mais ridículo e catastrófico do que aquele previsto pelos “Jogos Vorazes” de Suzanne Collins.

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