Francisco fala ao México: “vocês vivem seu pedacinho de guerra”

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Por: Jonas | 06 Fevereiro 2016

“O México vive um pedacinho de guerra, seu pedacinho de sofrimento, de violência, de tráfico organizado”. Uma realidade que Francisco conhece bem, porque está constantemente informado sobre o que ocorre nesse país. Circunstância que não poupou durante um inédito diálogo à distância com os mexicanos, uma “entrevista coletiva” que concedeu através da agência de notícias Notimex.

A reportagem é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada por Vatican Insider, 03-02-2016. A tradução é do Cepat.

“Se estou indo aí, é para receber o melhor de vocês e para rezar com vocês, para que os problemas de violência, de corrupção e tudo o que vocês sabem que está acontecendo, se solucione, porque o México da violência, o México da corrupção, o México do tráfico de drogas, o México dos cartéis, não é o México que a nossa mãe deseja, e é claro que eu não quero esconder nada disso, ao contrário, desejo exortá-los à luta de todos os dias contra a corrupção, contra o tráfico, contra a guerra, contra a desunião, contra o crime organizado, contra o tráfico de pessoas”, afirmou.

De uma sala da Casa Santa Marta, sua residência no Vaticano, o Papa pôde ver e escutar as mensagens pré-gravadas que 33 mexicanos lhe dirigiram. Vieram de 16 mulheres e 17 homens procedentes de 10 cidades diferentes, a maior parte das quais não será visitada na viagem apostólica, prevista de 12 a 17 do próximo mês de fevereiro.

Divididos em períodos de 3 minutos cada uma, as vozes se ocuparam de quatro temas: “Mensagens de boas-vindas”, “A Virgem de Guadalupe”, “Mensagens de paz” e “Expectativas em relação à visita do Papa”. Participaram jovens e adultos, anciãos e famílias de diversos setores sociais. Gente comum, com a realidade à flor da pele. Ao final de cada bloco, alguns mexicanos fizeram perguntas e o Pontífice respondeu improvisando.

“Como mexicano, eu lhe peço que ore por todos os países, que a violência termine”, solicitou-lhe José Ángel Herrera, do átrio da Basílica de Guadalupe, na Cidade do México. “Que intervenha pelos mexicanos, já que estamos passando por uma situação muito difícil”, acrescentou Carlos Espinoza, de Querétaro. Nos depoimentos ficou claro que a delinquência é a principal angústia dos mexicanos.

Francisco respondeu falando de paz, uma realidade pela qual se deve trabalhar “todos os dias”. E lançou uma “contradição”: “É preciso brigar pela paz todos os dias, é preciso batalhar por ela, não pela guerra!”. Para isso, pediu para semear mansidão e entendimento. Insistiu que a paz é um “trabalho artesanal”, um “trabalho de todos os dias, que se amassa com as mãos” e surge desde o mais simples: desde a forma como educo uma criança até o modo como acaricio um ancião. Porque a paz “nasce da ternura”, da compreensão e do diálogo, não da ruptura.

“Padre, mas com um criminoso não se pode fazer isso”, exclamou. E imediatamente ele mesmo acrescentou: “Isso é verdade, mas eu posso dialogar com quem pode mudar o coração desse criminoso. Temos a mesma mãe, e diga-lhe: ‘Olha, se a senhora me disse para eu não ter medo porque é a minha mãe, a senhora que é minha mãe arrumará isso’. Eu faria uma pergunta a cada um de vocês: ‘Eu peço à Virgem de Guadalupe a paz para tal lugar, para o outro, ou seja, a oração à mãe para que traga a paz?”.

Instou a não ter medo, a escutar o outro e a conhecer suas razões. E acrescentou uma súplica para os mexicanos: “não entrar em nenhuma armadilha” que, para ganhar dinheiro, escravize-os por toda a vida em uma “guerra interior” e tire a sua liberdade. “Porque a paz dá liberdade”, enfatizou.

A conversa contou com momentos de distração, como quando o Papa desfrutou a melodia de Sergio “Lennon”, um cantor de Guanajuato (centro do país) que lhe deu as boas-vindas com sua guitarra e sua gaita.

O programa foi gravado em uma tarde de sexta-feira, 22 de janeiro, em Santa Marta. No mesmo salão onde Bergoglio saudou, no passado – por exemplo –, os mandatários de Israel e Palestina, Shimon Peres e Mahmoud Abbas e a ex-presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner. A partir de um improvisado set montado pelo Centro Televisivo do Vaticano, Bergoglio pôde escutar as vozes com tranquilidade.

Ao responder as mensagens de boas-vinda, afirmou que não viajará ao México como um “Rei Mago carregado de coisas para levar” como mensagens, ideias ou soluções para os problemas, e pediu para que todos fiquem tranquilos porque “não irei passar a cesta”.

“Vou ao México como um peregrino, vou buscar no povo mexicano, para que me deem algo. Não irei passar a cesta, fiquem tranquilos, mas buscarei a riqueza de fé que vocês têm, procurarei me contagiar com essa riqueza de fé. Tenho vontade de ir ao México para viver essa fé com vocês. Ou seja, vou com o coração aberto para que se encha de tudo aquilo que vocês podem me dar”, acrescentou.

Manifestou uma especial predileção à Virgem de Guadalupe. Revelou que em oportunidades esteve no santuário da Cidade do México: uma em 1970 e a outra em 1999. Surpreendeu ao recitar de memória as palavras pronunciadas pela Virgem em suas aparições ao indígena Juan Diego: “Não tenha medo, não estou aqui eu que sou tua mãe?”.

“O que sinto por ela? Segurança, ternura. Quantas vezes estou com medo ou aconteceu algo feio, não sei como reagir e gosto de repetir para mim mesmo. São palavras dela: ‘Não tenha medo’”, exclamou. E como favor peculiar pediu que, nesta terceira vez que pisa em solo mexicano, deixem-no “um pouquinho só diante da imagem”. E mais, com candura perguntou: “Vão deixar?”.

No final do programa, dois depoimentos o impactaram. Um deles, José Ranulfo Lobato de Guanajuato, que o descreveu com a simplicidade “dos bons anciãos”. Afirmou que, para ele, Francisco disse duas coisas: “Estou aqui, preciso fazer, já lhes consta que estive tratando de mudar ou modernizar a religião, preciso de sua ajuda”.

O Papa captou em suas palavras um desejo de renovação. E garantiu que chegará ao México como “peregrino”, como “servidor” da fé do povo, uma fé “pública”, que sabe “sair” e “não ficar fechada como em uma lata de conserva” ou como parte de “uma Igreja de museu”.

Estimulou uma fé “na rua”, porque “se a fé não saí à rua, não serve”. Esclareceu que isso “não significa somente fazer uma procissão”, mas, ao contrário, que os cristãos se mostrem como tais em seus lugares de trabalho, em suas famílias, na universidade e nas escolas.

Reconheceu que essa “fé em saída” implica um compromisso com o povo e, de certo modo, “um perigo”. Porém, concluiu citando novamente as palavras da Virgem: “Não tenha medo filhinho, filhinha. Não estou aqui, eu que sou a tua mãe?”.

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