A “jornada sinodal” da Alemanha mudará o mundo católico?

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09 Agosto 2019

Tudo pode estar sobre a mesa – questões sobre a sexualidade e a crise dos abusos sexuais, a ordenação de mulheres e até mesmo o celibato. É a primeira vez que bispos e leigos na Alemanha terão uma conversa face a face, e é uma conversa que pode mudar a Igreja como ela é hoje. Até mesmo o Papa Francisco sentiu a necessidade de ter uma voz na discussão, emitindo uma carta preventiva que parece sugerir alguns limites para o diálogo vindouro.

A reportagem é de Renardo Schlegelmilch, publicada por America, 07-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas, para ser claro, a jornada que os católicos alemães estão prestes a empreender não é um sínodo. Um sínodo tem que ser aprovado pelo Vaticano e tem que seguir regras estritas estabelecidas pela Cúria.

Os católicos alemães estão embarcando naquela que está sendo chamado de “jornada sinodal”, mas que promete ser uma jornada potencialmente árdua, concentrando-se em assuntos que a Igreja geralmente evita: por que as mulheres não podem ser ordenadas como diáconas ou padres? O celibato obrigatório é a melhor maneira de um padre viver no século XXI? Como a Igreja alemã deveria responder à crise dos abusos? De acordo com a pauta definida pela Conferência dos Bispos da Alemanha [disponível aqui, em alemão], todos esses tópicos e muitos mais farão parte da jornada.

O estilo da jornada sinodal – isto é, como uma conversa entre bispos e leigos alemães, colocando-os em pé de igualdade – não tem precedentes, de acordo com lideranças dos leigos alemães. Eles serão representados pelo Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK), a mais importante organização de leigos do país. Tudo o que será decidido será feito de uma forma democrática e transparente, com ambos os lados dando as suas opiniões, de acordo com Thomas Sternberg, presidente do ZdK e chefe da delegação de leigos.

Como a Igreja alemã chegou a decidir essa abordagem radical?

Ultimamente, ligar os noticiários da TV na Alemanha não deixa os espectadores com uma impressão particularmente boa da Igreja Católica. Revelações de novos escândalos são transmitidas quase diariamente. No ano passado, um estudo descobriu mais de 3.000 casos de abuso sexual na Alemanha nas últimas décadas [disponível aqui, em alemão]. O movimento “Maria 2.0” (www.mariazweipunktnull.de) tem mobilizado as mulheres católicas em toda a Alemanha para faltarem à missa em uma “greve” contra o sexismo na Igreja e a exclusão das mulheres do sacerdócio.

No rastro das notícias negativas quase constantes, houve um aumento alarmante no número de pessoas que estão abandonando a Igreja, de acordo com o relatório anual da Conferência Episcopal [disponível aqui, em alemão]. Na Alemanha, um “imposto eclesiástico” de cidadãos registrados como católicos é coletado pelo governo e usado para apoiar a Igreja e seus esforços. Muitos fiéis que abandonam a Igreja dizem que a carga tributária faz parte do motivo pelo qual se separaram da Igreja, um processo burocrático na Alemanha, assim como o divórcio ou o registro de um novo nascimento. Muitos mais dizem que simplesmente não confiam mais na Igreja. Em 2018, mais de 200.000 alemães encerraram oficialmente a sua filiação à Igreja Católica, o segundo maior número desde a Segunda Guerra Mundial.

As implacáveis más notícias e a corrida para fora da porta forçaram os bispos alemães a enfrentar os problemas da Igreja de forma transparente e democrática.

“De certo modo, a democracia sempre fez parte da Igreja. Os cardeais até elegem o papa”, disse Sternberg. Ele está entre os representantes que estarão em diálogo com os bispos. Ex-político, ele está acostumado a tomar decisões de maneira democrática, uma prática que ele também deseja para a Igreja. Ele está esperançoso sobre a vindoura jornada sinodal que os bispos estão prestes a iniciar. “Podemos conversar uns com os outros, discutir”, disse ele. “É somente a força do argumento que deve contar.”

O processo deve começar no primeiro domingo do Advento. Mas já existem vários grupos de trabalho se reunindo durante o verão alemão para construir um marco para as discussões. Eles devem concluir seus trabalhos em setembro.

Um grupo se concentra no tema do poder na Igreja – como ele é usado ou abusado. Outro grupo discutirá o papel do celibato na vida sacerdotal, perguntando se ele ainda é apropriado no século XXI. Outro grupo falará sobre a sexualidade e a Igreja Católica. Pesquisas mostram que os católicos na Alemanha não prestam atenção aos pontos de vista da Igreja, por exemplo em relação ao sexo antes do casamento ou à homossexualidade.

Um documento publicado pelos bispos e pelo comitê leigo pergunta abertamente se a Igreja deve mudar o seu ponto de vista sobre esses assuntos. “Nós perdemos a capacidade de conversar com as pessoas sobre isso. A Igreja não entende o que a sexualidade significa para o indivíduo”, disse o cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, em março, quando ele anunciou a jornada sinodal. “Não reconhecemos o que a teologia ou as ciências humanas têm a dizer sobre isso.”

Uma das preocupações mais importantes é a questão das mulheres na Igreja. As mulheres católicas de toda a Alemanha se uniram à greve “Maria 2.0”, recusando-se a participar da missa ou a fazer qualquer trabalho voluntário nas suas paróquias durante uma semana em maio.

Os bispos tentaram responder. Ordenar mulheres como diáconas ou sacerdotisas está fora de questão, admite a maioria deles, mas eles argumentam que essa barreira não significa que as mulheres não sejam capazes de assumir posições de poder na Igreja. Várias dioceses alemãs estão estabelecendo novos cargos de gestão geral e financeira que estão explicitamente abertas a mulheres e leigos. A Conferência Episcopal se comprometeu com uma cota de contratações que reserva 33% dos cargos de liderança para mulheres ao longo dos próximos anos.

A ordenação de mulheres pode ser um dos maiores pontos de conflito no próximo processo sinodal. O comitê de leigos promove abertamente a ordenação de mulheres. “Temos demandado que haja diáconas há muito tempo”, disse Sternberg. Ordenar mulheres como sacerdotisas é uma questão que teria que ser tratada em um concílio romano oficial, disse ele, mas a ordenação de diáconas na Alemanha poderia ser realizada hoje, sem qualquer barreira dogmática ou teológica.

Para os alemães, a demanda por diáconas não é novidade. Em 1971, a Alemanha abriu um sínodo de verdade para implementar as ideias do Vaticano II. Mesmo naquela época, os bispos discutiam sobre as diáconas e os “viri probati”, homens casados de fé e virtude fortes que possam ser ordenados como padres. As recomendações desse sínodo foram encaminhadas ao Vaticano, mas não levaram a mudança alguma, como lembra Sternberg.

O Vaticano está acompanhando de perto o sínodo informal da Alemanha. No fim de junho, o Papa Francisco enviou uma carta à Igreja alemã. Não se dirigindo aos bispos, mas ao “povo de Deus a caminho na Alemanha”, ele explicou seus pontos de vista sobre o processo vindouro.

Sternberg chamou a intervenção do papa de “sensacional”. Uma carta como essa não havia sido enviada por nenhum Santo Padre desde a Segunda Guerra Mundial, disse ele. “O Papa Francisco nos diz para continuarmos no espírito do Vaticano II”, disse ele, e é isso que ele acha que os católicos alemães estão prestes a fazer.

Mas o conteúdo da carta do papa é uma questão de interpretação. O Papa Francisco encorajou o diálogo, mas também aconselhou os alemães a seguirem, acima de tudo, o Evangelho e a não romper com o restante do mundo católico.

É exatamente essa possibilidade que alguns católicos na Alemanha temem quando ouvem que o celibato ou a ordenação de mulheres serão postas em debate. “A Igreja deve seguir Jesus, não o zeitgeist”, advertiu o cardeal Rainer Maria Woelki, de Colônia, logo após a publicação da carta do papa.

O Pe. Michael Fuchs, vigário geral da Diocese de Regensburg, exige uma nova abordagem para a jornada sinodal. A carta do papa sugere que a Igreja alemã não deve continuar “seguindo como planejado” em relação à jornada sinodal, disse ele. Ele acredita que a Igreja alemã deveria encontrar um tipo diferente de processo, mais próximo do Evangelho.

Então, o que realmente resultará disso?

Qualquer coisa que os bispos e os leigos decidirem durante essa jornada sinodal não precisa ser aprovada por Roma, mas deve seguir o ensino católico, advertiu o papa em sua carta. Como ele salientou, os resultados da jornada sinodal não serão canonicamente vinculantes.

No que diz respeito à implementação dos resultados, isso caberá a cada diocese e a cada bispo individual, disse Sternberg. Esse resultado segue o desejo do Papa Francisco de uma “Igreja sinodal”, que não dependa do Vaticano para cada decisão individual.

Mas, independentemente do que quer que surja daí, uma coisa é clara. Com tudo o que aconteceu nos últimos meses na Alemanha – mulheres em greve, a perda de confiança devido ao escândalo dos abusos e até a carta do papa – os católicos de toda a Alemanha acompanharão essa jornada particular com um olhar atento.

Para alguns católicos, a jornada parece ser a última chance para reconquistar a confiança que a Igreja perdeu; para outros, ela sugere a possível separação da Igreja do modo como Jesus a estabeleceu e a rendição aos tempos modernos.

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