Teólogos repreendem bispos da Alemanha sobre reforma da Igreja

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29 Março 2019

Recentemente, os teólogos da Alemanha foram convidados a falar à hierarquia católica do país sobre a crise dos abusos clericais e usaram essa rara oportunidade para repreender os mais de 60 bispos por serem lentos demais para pressionar por grandes reformas da Igreja.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por La Croix International, 28-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os teólogos foram convidados a preparar um “dia de estudos” com a Conferência dos Bispos da Alemanha durante a sua assembleia de primavera, entre os dias 11 e 14 de março, na Diocese de Osnabrück.

Eles não mediram suas palavras, dirigindo os bispos abertamente para os “defeitos sistêmicos” da Igreja.

Revisar o ensino sobre sexualidade humana

O professor Eberhard Schockenhoff disse aos bispos que é imperativo que a Igreja adote uma atitude positiva em relação à sexualidade humana e abandone a “visão envenenada” de Santo Agostinho de que o prazer sexual erótico é uma consequência do pecado original.

No entanto, o professor de teologia moral de 66 anos da Universidade de Friburgo, disse que a crise dos abusos não é a razão pela qual a visão da Igreja sobre a moral sexual não é mais confiável.

Ao contrário, ele culpou o fato de que a Igreja não conseguiu integrar proposições científicas contemporâneas em seu ensino sobre ética sexual.

Schockenhoff disse que a Igreja não deve mais condenar o uso da contracepção artificial pelos casais como um ato hostil à vida.

Em vez disso, ele disse que o uso de contraceptivos deve ser reconhecido como uma decisão de consciência baseada no respeito mútuo dos cônjuges no interesse do bem-estar de seus filhos.

O teólogo moral disse que a Igreja também deve reconhecer que existem outras relações sexuais legítimas além do casamento heterossexual.

Embora o casamento vitalício possa ser o melhor marco para viver a sexualidade, ele disse que não é o único.

A Igreja deve reconhecer incondicionalmente as parcerias entre pessoas do mesmo sexo e parar de “desqualificar suas práticas sexuais como imorais”, disse Schockenhoff.

Ele admitiu, no entanto, que a promiscuidade e manter vários relacionamentos levantam sérias questões morais.

Schockenhoff chamou a visão positiva da sexualidade e a dimensão erótica do amor que o Papa Francisco expõe em sua exortação apostólica, Amoris laetitia, de “um verdadeiro raio de esperança”.

Verificações necessárias no poder administrativo

Gregor Maria Hoff, que ensina Teologia Ecumênica e Fundamental na Universidade de Salzburgo, disse que a crise dos abusos precipitou a Igreja em uma “armadilha da sacralização”, que só pode ser resolvida com a introdução de um sistema de freios e contrapesos.

O teólogo de 55 anos disse que, como uma instituição religiosa com padres que são vistos como representantes de Jesus Cristo, a Igreja possui um poder sagrado baseado na confiança.

Assim, ele disse que é “fatal” e “desastroso” quando essa confiança e o poder ligado a ela são destruídos, como ocorre quando os padres abusam sexualmente de outras pessoas.

Ele disse que a única solução é que a Igreja introduza um sistema de freios e contrapesos para que o poder seja controlado tanto de dentro quanto de fora da Igreja.

“Essa é a única maneira de evitar que um poder profano, que ainda acredita na sua santidade mesmo quando a abusa, ganhe independência”, enfatizou Hoff.

“Por outro lado, por que alguns dos mais altos representantes da Igreja se recusaram a admitir sua culpa, como, por exemplo, o cardeal Hans Hermann Gröer (arcebispo de Viena de 1986 a 1995), que simplesmente se recusou a admitir a sua culpa tanto publicamente quanto para as vítimas até o fim da sua vida (em 2003)?”, questionou o teólogo.

Hoff argumentou que o poder se dividiria e “o poder sacralizado se dissolveria” se a Igreja introduzisse um sistema de freios e contrapesos.

O lugar das mulheres na Igreja

“A questão para a Conferência dos Bispos da Alemanha é se ela meramente quer delegar poder ou se quer que o Povo de Deus participe independentemente do poder da Igreja e se ela está preparada para tornar isso possível”, disse.

Mais tarde, em uma entrevista concedida no dia 15 de março à Kathpress, o professor Hoff disse que os processos decisórios da Igreja devem ser mais transparentes, afirmando que essa é a única maneira de lidar com os chamados “pontos quentes”.

Estes incluem o modo de lidar com o poder, o ensinamento da Igreja sobre a moral sexual, a questão do celibato sacerdotal e, “por último, mas não menos importante, o lugar das mulheres em uma Igreja clerical”. Ele disse que esta questão final deveria ser a prioridade da pauta.

Hoff observou que o Papa Francisco está continuamente pedindo à Igreja que vá para as periferias, dizendo que isso abriu o caminho para experimentos nas Igrejas locais. Ele disse que introduzir o poder participativo seria um experimento desse tipo.

Julia Knop, professora de Teologia Dogmática na Universidade de Erfurt, foi a mais crítica dos teólogos que se dirigiram aos bispos.

Ela os acusou de terem se oposto, por muito tempo, a qualquer discussão sobre o poder na Igreja, o celibato sacerdotal compulsório e os ensinamentos sobre a moral sexual.

Knop, de 42 anos, disse que os bispos, durante anos, haviam transformado esses temas em tabus.

“E eu suponho que alguns de vocês gostariam de continuar essa tradição”, disse ela aos bispos atordoados.

A professora Knop disse esperar que o dia de estudos com a Conferência Episcopal, no mínimo, leve os bispos a participar das discussões em andamento.

“Vocês estão em posições de liderança na Igreja e representa, uma Igreja cujos defeitos sistêmicos se tornaram óbvios”, advertiu ela.

Abrir os olhos para a realidade

A teóloga admitiu que questões de poder, celibato e moral sexual não são, de modo algum, uma novidade para a Igreja.

“Mas o que é novo é que a sua conexão destrutiva não pode mais ser negada”, alertou.

“Elas não podem mais ser postas de lado como questões prediletas do catolicismo de esquerda. Elas simplesmente não podem mais ser tabus. O que é novo é a percepção de que a autocorreção da Igreja é imperativa agora”, disse ela.

Em uma entrevista alguns dias depois, com o Katholisch.de, o site oficial da Igreja Católica alemã, Knop explicou que não queria dar uma “bronca” nos bispos.

Em vez disso, ela queria abrir os olhos deles para a precariedade da situação atual e desencadear um debate sério sobre as questões mais candentes.

Ela também defendeu sua afirmação de que alguns bispos queriam continuar interrompendo a discussão sobre questões controversas no interior da Igreja e mantê-las como tabus.

“Nos últimos meses, alguns bispos repetidamente advertiram que não se deve falar de perigos sistêmicos tipicamente católicos, mas se deve ver o abuso clerical como um fenômeno que pode ser encontrado na sociedade em geral”, disse ela.

“Quem argumenta desse modo mantém os tabus a fim de impedir a reforma da Igreja"” disse Knop.

“Eu acho realmente dramática a situação atual na Igreja na Alemanha. Muitas pessoas estão dizendo que a Igreja está ameaçando entrar em colapso”, afirmou.

Knop então fez esta consideração final: “Nenhum bispo se levantou e saiu durante a minha fala, e nenhum bispo desde então me disse que o que eu falei estava errado”.

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