A carta do Papa à Igreja alemã. Um comentário

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03 Julho 2019

Francisco dirigiu uma longa carta ao "povo de Deus que está a caminho na Alemanha". A modalidade é insólita e a mensagem permanece pouco clara. O Papa apoia então um novo sínodo alemão ou não? E este sínodo, quanto deve refletir a "revolta da base"?

O artigo é de Michael Schromin, publicado por Publik-Forum, 02-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Disputa monástica": com essas palavras, um papa, Leão X, havia liquidado os pedidos de Martim Lutero. Um erro fatal de avaliação, como mostra a história. A disputa monástica levou à divisão da Igreja, uma divisão que - apesar de todos os esforços ecumênicos - presumivelmente não poderá mais ser anulada.

Que as mudanças religiosas e a pesquisa teológica da Alemanha não sejam favoravelmente acolhidas no Vaticano, é uma tradição. Em um período que vai de Lutero, do infeliz dogma da infalibilidade e da cisão dos vétero-católicos, até a falta de respeito do sínodo de Würzburg (1971-1975). Amargas rupturas e emigrações internas poderiam ter sido evitadas.

O Papa Francisco parece pelo menos ter a vontade de romper com essa infeliz tradição, dirigindo-se, com sua carta de 29 de junho, diretamente ao "povo de Deus que está em caminho" na Alemanha. Ele também escolhe um tom diferente. Ele afirma que a Igreja alemã não é apenas generosa, mas também ofereceu à Igreja universal "grandes teólogos e teólogas". Tal elogio, seu antecessor dificilmente teria expressado. E Francisco prossegue dizendo que hoje estamos vivenciando uma "mudança de tempo" e que é "certo e necessário" confrontar-se com novas e antigas questões. Em tal situação, ele gostaria de oferecer seu apoio em "promover a busca para responder com parrésia à situação presente".

Até agora tudo bem. A pergunta é saber com quanta parrésia seja possível responder. Os bispos alemães tiveram oportunidade de experimentar recentemente como uma resposta franca e inovadora possa ter um caráter vinculante extremamente frágil: quando quiseram permitir que casais mistos (isto é, em que os cônjuges têm uma fé cristã distinta) recebessem a Eucaristia juntos. Embora esse problema pastoral não tenha uma dimensão igualmente vasta em qualquer outro país, embora os bispos tenham votado essa proposta com uma maioria de dois terços, Roma enviou um sinal de parada, que teve como consequência que cada diocese acabou decidindo por si mesma. Peculiaridades de tipo católico. E ao mesmo tempo um exemplo negativo por excelência de sinodalidade. E agora, mais uma vez, este "sim, mas ...". Pior ainda: os pontos controversos do percurso sinodal não são sequer abordados. Com formulações pedantemente abstratas, é feita uma grande enrolação e se defende com riqueza de palavras a unidade e a alegria de ser cristãos.

Também serve pouco que a palavra "atualização" seja usada. Algumas linhas mais adiante, de fato, se fala de sutis tentações. Se elas não forem reconhecidas, "podemos acabar girando em torno de um complicado jogo de argumentações, dissertações e resoluções que só nos afastarão do contato real e cotidiano com o povo fiel e com o Senhor". O que está sendo dito aqui, realmente? O que mais a teologia pode fazer se não oferece argumentações, produzir análises e propor soluções? Então, significa que aqui - pelo menos indiretamente – se defende a primazia do devoto tradicionalismo, do "sempre foi feito dessa maneira", em oposição aos "maus" teólogos? Cada um e cada uma sabem que nas questões que serão discutidas no percurso sinodal - abertura às mulheres de ministérios ordenados, delegação e democratização do poder clerical e revisão da moral sexual - não haverá unanimidade. Cada um e cada uma, no entanto, também sabem que um percurso sinodal não tem sentido se esses temas - mais uma vez - forem excluídos.

O Papa Francisco deveria ponderar os argumentos teológicos – com base no conhecimento da antropologia atual. E deveria indicar como a unidade católica deve ser pensada em termos de variedade. É isso que o princípio da subsidiariedade oferece. Mas a isso o papa se recusa, usando uma grande variedade de expressões. E o leitor se depara com criações nebulosas de palavras como, por exemplo, "conversão pastoral". Seja o que for que isso signifique, não oferece nenhuma orientação. Por que se deveria colocar a própria esperança em um "percurso sinodal" que começa sem caráter vinculante, não oferece nenhuma orientação e, ainda por cima não deseja abrir qualquer perspectiva sobre os objetivos a serem perseguidos?

Também Leão X queria contrapor uma "conversão pastoral" à "disputa monástica" de Wittenberg. Somente o Concílio de Trento finalmente levou a sério a necessidade de uma reorientação teológica. Mas a palavra concílio - seja qual for a forma concreta que poderia assumir - não é pronunciada pelo papa. Embora os problemas sejam suficientemente graves e os tempos já estejam maduros há tempo.

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