A luta do Papa Francisco para levar adiante uma Igreja sinodal. Artigo de Massimo Faggioli

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06 Novembro 2018

“Para Francisco, a sinodalidade não é apenas uma forma de governo da Igreja, mas também um modo de ser Igreja.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em La Croix International, 05-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A crítica mais visível à recém-concluída assembleia do Sínodo dos bispos sobre os jovens concentrou-se nas seções do documento final que pedem um fortalecimento da sinodalidade em todos os níveis da Igreja.

É absolutamente surpreendente como muitos bispos sabem tão pouco sobre sinodalidade, um método que o Papa Francisco procurou desenvolver ao longo de seu pontificado e um conceito que os teólogos católicos vêm discutindo há pelo menos duas décadas.

A fim de entender como a eclesiologia do papa está sendo recebida atualmente, devemos voltar a olhar para o conceito de colegialidade episcopal, como foi introduzido no Concílio Vaticano II (1962-1965).

É bem sabido que esse era um conceito “novo” para os Padres do Concílio, que debateram e finalmente o aprovaram por princípio, de modo mais notável na constituição sobre a Igreja, Lumen gentium, que foi promulgada em novembro de 1964.

Menos sabido é que os teólogos católicos fizeram um trabalho substancial sobre a colegialidade durante a fase de preparação do Vaticano II. Um exemplo notável foi o livro de 1961, editado por Yves Congar e Bernard-Dominique Dupuy, “O episcopado e a Igreja universal”.

Durante as sessões reais do Vaticano II, outros teólogos e historiadores publicaram ainda mais livros e artigos acadêmicos sobre o assunto.

Esses foram fundamentais para convencer o Concílio dos bispos em ambos os extremos do espectro de que a colegialidade episcopal não era, de fato, algo novo, mas fazia parte da tradição mais profunda da Igreja.

Giuseppe Alberigo argumentou que ela se enraizava na fidelidade ao princípio do ressourcement, em seu livro sobre a história da doutrina do poder na Igreja universal. Embora o texto tenha sido publicado em italiano em 1964, ele já estava disponível aos Padres do Concílio um ano antes, durante a segunda sessão do Vaticano II.

Recepção desigual aos esforços de Francisco em relação à sinodalidade

Um intercâmbio similar entre teologia e magistério está atualmente em andamento em relação à sinodalidade eclesial.

Mas isso está acontecendo em um grau muito menor e em uma Igreja que está mais ideológica e geograficamente fragmentada. Isso é resultado da crescente lacuna entre teólogos e lideranças da Igreja, especialmente por causa de uma fraqueza na teologia de língua inglesa.

Uma busca pela palavra “sinodalidade” nos títulos oferecidos pelas livrarias online mais populares produz apenas um punhado de resultados em inglês. E apenas alguns deles lidam com a sinodalidade na Igreja Católica.

Mas a situação é muito diferente em outras línguas – como francês, alemão e italiano –, em que a reflexão teológica sobre a sinodalidade na Igreja Católica vem ocorrendo desde antes de Francisco se tornar papa.

Como essas obras são mais antigas e mais abundantes, a sinodalidade não é tão problemática e menos “nova” para os teólogos e lideranças da Igreja.

Essa recepção desigual à contribuição do Papa Francisco à sinodalidade é notável, considerando-se que essa é uma das principais percepções eclesiológicas do seu pontificado, já elaborada em vários documentos substanciais.

Eles incluem o discurso do papa em outubro de 2015 para marcar o 50º aniversário da instituição do Sínodo dos bispos; a publicação, em março de 2018, do texto da Comissão Teológica Internacional sobre a sinodalidade na vida e na missão da Igreja; e a publicação, em setembro de 2018, da constituição apostólica Episcopalis communio, que define e modifica ainda mais o Sínodo dos bispos.

Além disso, há também a nova instrução, publicada em outubro passado, que estabelece os procedimentos a serem seguidos nas assembleias do Sínodo e delineia as responsabilidades da Secretaria Geral do Sínodo.

Ainda mais importante, existe a experiência de preparar e celebrar as duas assembleias sobre o matrimônio e a família em 2014 e 2015 – na minha opinião, o momento mais importante para a compreensão deste pontificado do ponto de vista eclesiológico e institucional.

Mas a falta de reflexão sobre a sinodalidade em algumas áreas do catolicismo global está contribuindo para a confusão e a incompreensão do atual deslocamento de uma Igreja governada pela colegialidade episcopal para uma Igreja em um processo de reforma rumo à sinodalidade.

Subjugando a Cúria Romana à sinodalidade eclesial mundial

Embora a sinodalidade eclesial se baseie na colegialidade episcopal, os dois termos não são sinônimos.

Primeiro, a colegialidade episcopal dá voz apenas aos bispos, enquanto a sinodalidade procura dar voz a todo o Povo de Deus – ou seja, aos outros componentes da Igreja (especialmente as mulheres), mas também às periferias do nosso mundo e da Igreja.

Segundo, a colegialidade episcopal – do modo como foi formulada pelo Vaticano II – deixou muita discrição ao bispo de Roma para escolher se e quando agirá colegialmente. Mas Francisco fala sobre a sinodalidade como uma dimensão fundamental do ser Igreja, que não pode encontrar expressão apenas em eventos celebrados no Vaticano.

Terceiro, o ensinamento e as ações dos papas no período pós-Vaticano II enquadraram a colegialidade de uma maneira que protegeu o poder da Cúria Romana, tanto teologicamente quanto na prática.

Mas, nos últimos cinco anos e meio, Francisco começou a mudar isso.

Espera-se que ele articule a precedência que o Sínodo dos bispos (e a sinodalidade) tem sobre a burocracia central da Igreja quando ele emitir a futura constituição apostólica sobre a reforma da Cúria.

A sinodalidade para Francisco não é apenas uma forma de governo da Igreja, mas também um modo de ser Igreja. Isso requer não apenas a mudança das instituições, mas também a mudança de toda uma mentalidade. Há toda uma agenda que ainda está sendo elaborada e exigirá muito tempo para ser abordada.

Naturalmente, existem problemas que precisarão ser resolvidos.

Em primeiro lugar, não está claro quanta sinodalidade eclesial uma instituição como o Sínodo dos bispos (concebido em 1965 como um instrumento de colegialidade episcopal e dependente do primado papal) será capaz de suportar.

Em segundo lugar, uma Igreja verdadeiramente sinodal não pode assumir que todos os participantes em eventos sinodais em Roma sejam fluentes em italiano. O italiano não deveria se tornar o novo latim.

Em terceiro lugar, a sinodalidade necessita de experiência sinodal em nível universal, mas também deve acontecer em nível nacional e local.

Nesse sentido, Francisco está abrindo caminho para a sinodalidade, enquanto, ao mesmo tempo, está tentando curar as feridas que as políticas e as práticas de seus dois antecessores infligiram à colegialidade episcopal.

No início do período pós-Vaticano II, houve uma onda de sínodos e concílios locais que pararam de acontecer no fim do pontificado de Paulo VI.

A decadência da vida conciliar e sinodal da Igreja após o Concílio Vaticano II é semelhante ao que aconteceu no período posterior ao Concílio de Trento (1545-1563).

A única diferença é que isso aconteceu muito mais rapidamente, dado que a atividade conciliar e sinodal local no período tridentino permaneceu bastante vital até meados do século XVIII.

Em certo sentido, o Concílio Vaticano II foi apenas uma breve pausa em mais de dois séculos de sentimento antissinodal típico do ultramontanismo. E é isso que Francisco está enfrentando.

O delicado ato de equilíbrio do papa

A eclesiologia da sinodalidade do Papa jesuíta lança luz sobre sua profunda percepção da Igreja de hoje.

Seu impulso por uma maneira diferente de governar e de ser Igreja mostra sua intenção e tentativa de manter correntes opostas unidas – mantendo uma estrutura institucional em uma cultura católica que tende a se tornar cada vez mais não apenas pós-clerical, mas também pós-eclesial e pós-eclesial e pós-Igreja; escutando o sensus fidelium de todo o Povo de Deus, preservando o papel de discernimento para os que ocupam posições de liderança; e promovendo a colegialidade episcopal do Vaticano II com a sinodalidade eclesial em uma época em que a Barca de Pedro também é abalada pelo populismo e pela demagogia.

Mas, ainda mais importante, a sinodalidade é uma resposta necessária ao paradigma pré-global de governança eclesial.

A Igreja Católica é hoje muito maior e muito mais diversificada do que nos anos 1960.

Tornou-se cada vez mais urgente encontrar uma maneira de lidar com a conciliaridade em uma Igreja global, em que é difícil imaginar – no mínimo, por razões logísticas – a convocação de outro concílio ecumênico limitado apenas a bispos, como o Vaticano II.

A ideia de que a conciliaridade baseada na colegialidade episcopal está mostrando seus limites é um dos tabus mais fortes no ensino oficial da Igreja Católica hoje. Não é de se surpreender que tenha sido um jesuíta que encontrou a coragem para enfrentar isso.

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