Legionários de Cristo no Chile. Deus, dinheiro e poder. Entrevista com Andrea Insunza e Javier Ortega

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10 Janeiro 2019

Há 21 dias, especificamente no dia 14 de dezembro, John O'Reilly teve que deixar o país, expulso após cumprir uma sentença por abuso sexual contra uma estudante do Colégio Cumbres. A cena final da queda de uma das principais peças dos Legionários de Cristo – que no auge de sua era gloriosa gozava de fortes redes entre empresários e políticos – foi sucedida poucos dias depois por outra, ligada a numerosos escândalos de pedofilia liderados pelo fundador da ordem, Marcial Maciel Degollado: o Vaticano reconheceu que há documentos sobre o assunto que remontam à década de 1940 e que tinham sido ocultados.

A entrevista é de Sebastián Minay e publicada por La Tercera, 04-01-2019. A tradução é de André Langer.

Os jornalistas Andrea Insunza e Javier Ortega são membros do Centro de Pesquisa e Publicações da Universidade Diego Portales. Em 2008, eles publicaram o livro Legionários de Cristo no Chile. Deus, dinheiro e poder. Como especialistas no assunto e baseados em seu trabalho, aqui detalham ao jornal chileno La Tercera PM que “os escândalos perseguiram desde sempre” a Maciel; que o Papa João Paulo II e seu secretário de Estado, Angelo Sodano, foram seus acobertadores, e que aqui no Chile a Legião agiu de maneira semelhante para proteger O'Reilly.

Eis a entrevista.

Vocês investigaram a história das redes de poder que Maciel tinha no Vaticano. Por que é surpreendente que a Igreja reconheça agora que havia documentos sobre ele já desde a década de 1940?

Javier Ortega: O reconhecimento é surpreendente, mas não a existência desses antecedentes. Marcial Maciel sempre foi perseguido por escândalos e rumores de abuso sexual, mesmo antes da fundação dos Legionários de Cristo, em 1941. Quando era noviço foi expulso de um seminário clandestino no México, quando tinha 18 anos, em circunstâncias pelo menos estranhas. A mesma coisa aconteceu meses depois em um seminário jesuíta nos Estados Unidos. Algo semelhante aconteceu em 1946 na Espanha, quando foi expulso de uma mansão de verão em Santander. Os escândalos o perseguem desde sempre.

Vocês descreveram a forma como ele teceu esses laços durante décadas, tanto lá como no Chile. Esse novo “dado” assumido pelo Vaticano fecha um círculo que explica por que Maciel se livrou tantas vezes de ser investigado e punido?

Javier Ortega: Não acredito. Se aprendemos alguma coisa com Marcial Maciel em todos estes anos é que seus escândalos e arbitrariedades parecem infinitos. Não há sequer uma contagem oficial de todas as vítimas que ele abusou ao longo de décadas.

Quais são os principais marcos no seu histórico de impunidade na Igreja?

Javier Ortega: Um é a primeira investigação que o Vaticano abriu contra ele em 1956, devido ao seu vício em dolantina, um derivado da morfina. De acordo com vários testemunhos, em 1956 um cardeal o pegou em Roma completamente drogado, e a Congregação para a Doutrina da Fé abriu uma investigação canônica contra ele. Foi afastado da sua congregação e proibido de ver seus seminaristas. Nós entrevistamos um ex-legionário, José Barba, que foi informado do episódio da dolantina por três testemunhas diretas. Até o próprio Barba e outros seminaristas foram interrogados na investigação. Mas como Maciel tinha vários amigos cardeais, em outubro de 1958 foi restituído em sua posição e a investigação foi engavetada.

Lembre-se, isso aconteceu apenas quatro dias após a morte do Papa Pio XII e duas semanas antes da entronização de seu sucessor, João XXIII. Ou seja, não havia papa para restituí-lo ao cargo. Tampouco havia funcionários da cúria autorizados a fazê-lo, porque quando um papa morre automaticamente todos os funcionários da cúria cessam em seus cargos.

O segundo é a investigação iniciada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1999, a cargo de Joseph Ratzinger. Foi a investigação freada pelo cardeal Angelo Sodano, sob o argumento de que Maciel era alguém muito amado por João Paulo II. Perguntamos ao cardeal Jorge Medina, o chileno que chegou mais alto no Vaticano, se essa versão lhe parecia factível, já que ele era muito amigo de Ratzinger. Ele nos disse que achava isso “bastante plausível” e reconheceu o carinho que João Paulo II tinha por Maciel.

Ratzinger só pôde reabrir a investigação em dezembro de 2004, quando a vida de João Paulo II já estava se extinguindo e o próprio Ratzinger parecia forte como “papável”. Então, o poder de Angelo Sodano tinha data de validade vencida. Essa foi a investigação que permitiu banir Maciel do sacerdócio em 2006, quando João Paulo II já tinha morrido e Ratzinger havia se tornado Bento XVI.

Vocês também descreveram a amizade entre Maciel e Angelo Sodano, o ex-secretário de Estado da Santa Sé. Qual a importância de sua figura na blindagem de Maciel e da Legião?

Andrea Insunza: Pelo menos desde o final da década de 1980, Sodano era um aliado fundamental de Maciel no Vaticano e, assim como João Paulo II, era um de seus acobertadores. Sodano e Maciel se conheceram no Chile em meados da década de 1980, durante a ditadura, quando o mexicano visitou o país. Sodano, que era núncio desde 1978, mantinha uma relação muito fluida com os Legionários e a Opus Dei no Chile. Um ex-ministro de Pinochet nos contou que Sodano considerava que esses movimentos eram um “oásis” em uma Igreja em que se enfrentou o cardeal Raúl Silva Henríquez.

Já no Vaticano, Sodano interveio diretamente para impedir uma investigação contra Maciel. No final dos anos 1990, nove ex-legionários acusaram Maciel de abuso sexual. A Congregação para a Doutrina da Fé, então chefiada por Joseph Ratzinger, aceitou a denúncia em 1999. Mas a investigação não prosperou. Em 2002, alguns dos acusadores foram para Roma. “Isso não prospera porque Sodano está pressionando Ratzinger”. Naquela época, Sodano era secretário de Estado – o número dois no Vaticano – e, além disso, era cardeal membro da Congregação para a Doutrina da Fé. E nada poderia avançar sem o acordo dessa instância.

Sodano tem 91 anos e, aparentemente, não pagou grandes custos por este caso. Como se pode explicar isso?

Andrea Insunza: Provavelmente isso responde a uma mescla de razões. Por um lado, a Igreja ainda não sabe o que fazer quando confrontada com denúncias de abusos sexuais. Por outro lado, sempre soube que punir os acobertadores poderia não ter fim uma vez aberta a porta. Terceiro, Sodano – que foi o número dois no Vaticano – continuou a ter uma parcela significativa de poder depois da morte de João Paulo II. De fato, é muito provável que continue a ter o apoio de não poucos cardeais.

Há um certo consenso em torno do papel do Papa João Paulo II na proteção de Maciel? Ou ainda está em disputa? Ficou para os registros que a amizade do fundador da Legião com João Paulo II foi fundamental para que não fosse submetido a um processo.

Javier Ortega: Pelo menos para quem investigou o assunto, não resta nenhuma dúvida de que o protegeu. João Paulo II era um Papa da Guerra Fria, surgido na Polônia comunista. Para ele, era muito importante ter uma congregação como os Legionários, com um forte viés anticomunista, que dava à Igreja muitos recursos econômicos e dezenas de vocações sacerdotais. Além disso, os legionários tinham surgido no México, o segundo país com o maior número de católicos depois do Brasil, e que fazia fronteira com os Estados Unidos, onde, em consequência da migração, os católicos eram cada vez mais numerosos.

João Paulo II acreditava que a Igreja católica estava assediada por seus inimigos, especialmente da esquerda. Eu penso que para ele era muito mais intolerável um sacerdote comunista do que um padre molestador de crianças e adolescentes. João Paulo II viajou quatro vezes ao México durante o seu papado. Marcial Maciel fez parte de sua comitiva pelo menos na primeira viagem, porque possibilitou a turnê. E quando as denúncias sexuais já eram públicas, porque estavam na imprensa dos Estados Unidos, ele o nomeou oficialmente como “guia eficaz da juventude”.

Andrea Insunza: Para João Paulo II, além disso, os abusos sexuais eram antes um pecado e não um crime. E acreditava que era um assunto que não deveria ser discutido. Ele se recusou a aceitar todas as propostas que foram surgindo quando a questão provocou uma crise em diferentes países: ele não estava disposto a autorizar um “fast track” para afastar os abusadores do sacerdócio; nem que os casos fossem investigados pela justiça penal. Ele tinha uma frase para isso: “Cada casa tem quartos especiais que não estão abertos a todos os visitantes”. E tudo isso era conhecido quando foi canonizado.

A responsabilidade do Papa João Paulo II é um tema tabu? Estamos falando de um Pontífice canonizado.

Javier Ortega: Não sei se tabu, mas, sim, pouco conhecido entre muitos fiéis. Mas o fato de que os escândalos de abusos sexuais da Igreja em todo o mundo terem sido enfrentados tardiamente pela Igreja católica foi em grande parte responsabilidade de João Paulo II. Um exemplo: somente em abril de 2002, após os escândalos na Arquidiocese de Boston, narrados no filme Spotlight, João Paulo II reuniu-se com os 12 cardeais estadunidenses e aceitou que os abusos sexuais eram crimes e não apenas pecados. Ele não fez um mea culpa pelo acobertamento sistemático e deixou uma pesada herança para o seu sucessor.

Se Maciel já estava blindado, pode o fato de que João Paulo II tenha sido canonizado impedir uma revisão do seu papel nesta história ou não?

Javier Ortega: Claro que não, especialmente para o jornalismo. Tão somente um ano após a sua morte, em 2006, o jornalista britânico David Yallop escreveu uma biografia muito crítica sobre ele. E Yallop sabia como se reportar ao Vaticano: escreveu antes uma famosa investigação sobre a morte de João Paulo I. Entre outras coisas, teve acesso aos arquivos soviéticos da Polônia comunista, dos anos em que Wojtyla era cardeal. Ele o retrata como um Papa forjado nas rivalidades da Guerra Fria, muito bom político para essa lógica, mas incapaz de lidar com questões como os abusos sexuais. Basicamente, João Paulo II não entendia bem – ou não queria entender – como funcionavam a democracia e a imprensa livre.

No caso do sucessor de Wojtyla, o Papa Bento XVI, vocês relatam que ele experimentou uma mudança em relação à culpabilidade de Maciel. Como se explica isso? Foi decisivo ou não para o que veio a seguir?

Andrea Insunza: Maciel foi punido porque Ratzinger teve a vontade que Wojtyla não tinha. Ratzinger aceitou a denúncia dos nove ex-legionários em 1999, mas essa investigação ficou parada até o final de 2004. Em dezembro daquele ano, Ratzinger anunciou à advogada dos ex-legionários: “Vamos ao fundo deste assunto”. Eles nos contaram que esta foi uma surpresa para eles, o primeiro sinal de que as coisas poderiam mudar. É muito provável que a essa altura Ratzinger estivesse convencido da culpa de Maciel. Central, em todo caso, foi que a saúde de João Paulo II já se deteriorara a tal ponto que ele não teria como deter o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Então, Maciel perdeu decisivamente o poder com o fim da era João Paulo II?

Andrea Insunza: No Vaticano, sim. Maciel renuncia em janeiro de 2005 à liderança da Legião, mas deixa um homem de extrema confiança no comando. Esse gesto é interpretado como uma última tentativa de Maciel de se livrar da investigação. Mas a essa altura, Ratzinger já havia nomeado Charles Scicluna, seu homem de confiança, procurador para a investigação, o mesmo que veio investigar o acobertamento no caso Karadima.

Em abril de 2005, João Paulo II morre e Ratzinger é eleito Papa. Aí Maciel perde toda a influência em Roma. Um ano depois, Maciel é sancionado a uma “vida de oração e penitência” (a maneira como a Igreja pune, que, certamente, é muito questionável).

Em princípio, essa sanção permaneceria em segredo, mas o vaticanista John Allen a vazou no The National Catholic Reporter. E então a sanção tornou-se pública. Mesmo assim, a Legião resistiu até 2010: apenas neste ano, e quando já havia sido divulgado que Maciel tinha uma vida paralela – mulher, filhos, tudo pago pela Legião – se reconheceu formalmente que era um abusador. A essa altura, ele já estava morto. Uma questão que os fiéis deveriam aprender é que um abusador triunfa quando se recusam a ver quem é.

Vocês receberam o depoimento do cardeal Jorge Medina. Além do perfil público que teve no Chile, como definiriam sua atitude em relação a este caso?

Andrea Insunza: Medina era cardeal membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Em 2004, morava em Roma. Na época, recebeu um ex-legionário chileno, Patricio Cerda, que lhe entregou um dossiê de 300 páginas, que incluía testemunhos de quatro jovens da Irlanda e da Espanha, que tinham sido abusados por sacerdotes ou consagrados da Legião. Este dossiê mostrava como na Legião o abuso sexual era uma cultura amparada por uma estrutura que protegia os perpetradores e, por outro lado, deixava as vítimas ao desamparo.

Segundo nos contou Patricio Cerda, Medina desmoronou. Conseguiu uma audiência com Ratzinger, que também recebeu o dossiê. Depois, como cardeal membro da Congregação para a Doutrina da Fé, Medina integrou o grupo que em 2006 teve que decidir se impunha a Maciel uma punição ou não. A votação é secreta e sua revelação é punida com a excomunhão. Ele não quis revelar qual foi a sua posição. Mas se nos basearmos em suas ações até o presente momento, tudo indica que ele era a favor da punição de Maciel.

Sem prejuízo de tudo o que sabe e vocês sabem sobre este caso, está perto ou longe de se exaurir em matéria de novos antecedentes ou surpresas? Quais perguntas pendentes vocês ainda se fazem?

Javier Ortega: Ainda há muitos segredos para se conhecer sobre Marcial Maciel, porque o cara era um predador sexual de marca maior, que agiu impunemente ao longo de décadas. Ele construiu um império econômico, que era ao mesmo tempo uma congregação religiosa, em grande parte para ter vítimas indefesas para serem abusadas. Ele criou os Legionários à sua imagem e semelhança: com um forte culto à sua personalidade e ao segredo, onde a dissidência e a crítica interna foram silenciadas pelo chamado “quarto voto” ou “voto segredo”, o que impedia a denúncia dos abusos dos superiores. Maciel era considerado um santo em vida e ninguém podia questionar suas ordens.

O que simboliza a expulsão de John O'Reilly do Chile para o poder que a Legião tem ou teve aqui? Podemos falar de fim de uma era?

Andrea Insunza: A Legião no Chile perdeu parte do seu poder em 2009, quando se tornou pública a vida dupla de Maciel, e, depois, em 2010, quando a ordem reconheceu oficialmente que o mexicano tinha sido um abusador sexual. Esse foi um importante golpe à reputação, e desde então o papel público da ordem sofreu um forte desgaste, principalmente porque depois da punição de 2006, os Legionários continuaram alegando publicamente que Maciel era inocente. A cara dessa defesa no Chile foi O'Reilly. E, no entanto, houve um tempo em que a ordem o destinou a outras tarefas e o tirou do burburinho. Depois veio a denúncia e a subsequente condenação contra ele por “abuso reiterado” de menores.

Olhando de fora, isso poderia parecer um golpe mortal. Mas os Legionários agiram com O'Reilly como fizeram com Maciel: na época, a promotoria se queixou de que o Colégio Cumbres não colaborou com a investigação; foram os legionários que tornaram pública a identidade da denunciante como forma de intimidação, e ainda há quem acredite – e isso é importante, acreditam – que O'Reilly é inocente.

Novamente, enquanto as pessoas ligadas à Legião – sacerdotes, leigos, pais, doadores – estiverem dispostas a tapar o sol com o dedo, uma ordem como esta vai sobreviver.

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