Chile. Resposta ao cardeal Medina, de Jorge Costadoat

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25 Junho 2018

“Se por Igreja entendemos o Povo de Deus, é equivocado afirmar que ela ‘perdeu toda autoridade ou credibilidade’. Quando as vítimas católicas dos abusos do clero tiveram tanta autoridade? Isso deveria nos comover. As vítimas se atreveram a falar. (...) Os demais católicos que se juntaram a elas em sua defesa também têm autoridade”. A reflexão é de Jorge Costadoat, teólogo jesuíta chileno, em artigo publicado por Reflexión y Liberación, 21-06-2018. A tradução é de André Langer.

Segundo ele, "a dor da Igreja chilena hoje é indescritível. É uma dor crível. A fonte da autoridade, não se pode esquecer, é a credibilidade".

Eis o artigo.

Há poucos dias, em carta ao jornal chileno El Mercurio, o cardeal Jorge Medina sai em defesa da instituição eclesiástica. Ele diria defesa da “Igreja”. Mas lida a coluna com atenção, descobre-se que ele se refere à instituição e não ao Povo de Deus em seu conjunto.

Eu não concordo com aquele uso do termo “Igreja”. Nem com a coluna de Jorge Medina. Vou comentar algumas de suas ideias.

Sobre a gravíssima situação da Igreja chilena, o cardeal disse: “Ampliar indiscriminadamente as deficiências e comportamentos certamente condenáveis e tirar conclusões generalizadas de fatos, infelizmente verdadeiros e graves, se bem que pontuais, ainda que tenham sido repetidos, seria dar mostras de um lamentável sinal de pouco amor à verdade e até de superficialidade”. Concordo com ele em que “ampliar”, aumentar, exagerar, é sinal de “pouco amor à verdade e até de superficialidade”.

Sempre é e poderia ser o caso em que nos encontramos. Poderia ser, digo, porque todos os dias nós, católicos, descobrimos que é ainda mais grave o que nós, padres e bispos, fizemos para ocultar o que aconteceu. A questão, hoje, não é lamentar os exageros, mas celebrar com as vítimas. Finalmente a justiça é feita! No entanto, o cardeal Medina não dedica uma única palavra de amor compassivo às vítimas. A única coisa que importa é a defesa da instituição.

Outra questão. O cardeal aplaude o fato de que o atual Pontífice está entre aqueles que querem aumentar a fidelidade ao Evangelho: “Nessa linha inscreve-se o atual Papa Francisco, com seu estilo pessoal”. A que estilo refere-se o cardeal?

Nada diz. Eu vou dizer. Este Papa, no caso chileno, cometeu vários erros. Seu estilo, bastante “portenho”, solto de língua, ofendeu a Igreja de Osorno e as vítimas dos abusos sexuais, de consciência e espirituais. Mas pediu-lhes perdão. Qual Papa pede perdão? Uma coisa é fazê-lo pelos pecados de papas anteriores, como foi feito pelo tratamento dado a Galileu. Mas um papa pedir perdão pelos seus próprios erros é inédito. Este será lembrado como um gesto que, além de portenho, é tipicamente cristão.

No Chile, nós eclesiásticos, devemos recordar, somos criticados pelo estilo. Quem dos bispos diz o que pensa? Nisso dom Medina é uma exceção. Os outros, talvez por medo das cartas que o cardeal manda a Roma, denunciando meio mundo, expressam-se com muito cuidado. Eles usam palavras refinadas para nunca dizer o que realmente pensam. Basta assistir televisão. Poucos bispos respondem ao que lhes é perguntado.

Muitos de nós gostam do estilo deste Papa. Ele fala sem ler os discursos. Busca e encontra palavras, algumas mais felizes que outras, para comunicar o Evangelho tal como Jesus teve que encontrar as palavras certas para proclamar o Reino de Deus. Por falar claramente, foram para cima dele. Jesus, com suas parábolas e sua piedade com o ser humano caído, minou a religiosidade da época. Este Papa, quando fala com a liberdade de Jesus, quando diz uma coisa e não tem medo de errar e recuar, gera liberdade no Povo de Deus para que todos os outros possam dizer o que pensam e ensaiar novas maneiras de ser cristãos.

Durante muitos anos, os católicos chilenos viveram intimidados. Nós sofremos o estilo de uma geração de bispos preocupados com sua posição na constelação eclesiástica. Espero que o estilo deste Papa faça com que os futuros bispos, em vez de olharem “para cima”, para pessoas mais importantes, olhem para “o lado”.

O Concílio Vaticano II estabeleceu que o batismo deve ser o patamar das relações entre os cristãos. Somos irmãos e irmãs. Jesus pediu: “Não chamem a ninguém de pai”. Por que alguns são chamados de “Eminência Reverendíssima” ou “Monsenhor”? Seu Pai, entendia Jesus, haveria de irmanar todos os seres humanos.

Outra declaração do cardeal Medina também merece um comentário: “Não seria conforme ao amor da verdade negar a existência de fatos graves e devidamente comprovados, que tiveram como autores pessoas que exercem ministérios eclesiásticos, mas seria dar mostras de uma fé muito pouco madura tirar daí a equivocada conclusão de que a Igreja perdeu toda autoridade ou credibilidade”.

Sim e não. Se por Igreja entendemos o Povo de Deus, é equivocado afirmar que ela “perdeu toda autoridade ou credibilidade”. Quando as vítimas católicas dos abusos do clero tiveram tanta autoridade? Isso deveria nos comover. As vítimas se atreveram a falar. Os meios de comunicação, graças a Deus, concederam-lhes um microfone. Os demais católicos que se juntaram a elas em sua defesa também têm autoridade. A dor da Igreja chilena hoje é indescritível. É uma dor crível. A fonte da autoridade, não se pode esquecer, é a credibilidade.

Mas Jorge Medina, quando se refere à “Igreja”, está pensando na instituição eclesiástica. Não perdeu ela “toda autoridade”? É credível? Certamente nem todos os padres são abusadores. Eu conheço muitíssimos que não o são. A Igreja que começa sua reconstrução certamente encontrará padres que acompanharão suas comunidades com humildade e espírito de serviço. Mas hoje os clérigos, em geral, são suspeitos. Os bispos, um depois do outro, estão caindo como pombos. Dói ver isso, mas é verdade.

Dói, mas também, sob outro aspecto, nos traz alegria. Estamos cada vez mais próximos da Igreja na qual Cristo ficou estampado. Os cristãos creem na Igreja que acreditou em Jesus. Nenhum de nós acreditou ou poderia acreditar diretamente em Cristo. A Igreja é a única imagem que temos Dele. Para reconhecê-Lo, temos as memórias herdadas pela Igreja, começando pelos Evangelhos que ela mesma escreveu. Se amanhã as pessoas deixassem de acreditar em Cristo por nossa causa, elas teriam alguns textos, que têm dois mil anos, escritos por cristãos não muito diferentes de nós.

O cardeal conclui: “Nunca é demais recordar, em toda circunstância, que ‘tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus’ (Rm 8, 28), verdade que a sabedoria popular traduziu na afirmação de que ‘Deus escreve certo por linhas tortas’”.

Sim e não. Concordo com o cardeal Medina enquanto o testemunho do Evangelho passa por testemunhas como nós, medíocres, pecadores, implausíveis. Nada engana mais sobre Deus do que o puritanismo. Mas, usada neste contexto, a frase popular citada pelo cardeal é uma auto-absolvição de uma institucionalidade que não dá para mais nada. Este tipo de autoperdão dos eclesiásticos – vale a pena sublinhá-lo – exasperam o povo crente que nas últimas décadas foi maltratado por sua maneira de compreender a vida afetiva e sexual, revelando-se ultimamente que o problema, a este propósito, era nosso, dos consagrados.

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