Entrevista com o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Para responder aos questionamentos da atualidade

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14 Agosto 2018

Nascido na ilha de Maiorca e teólogo, o jesuíta Luis Ladaria, indicado cardeal no consistório do último 28 junho, é desde 2017 prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois de ter sido um consultor por mais de vinte anos e então secretário. Em uma entrevista descontraída com este escritor e o diretor de L'Osservatore Romano falou de seus estudos e de sua longa docência, da teologia e do trabalho do dicastério, da Comissão Teológica Internacional, da qual foi membro e secretário geral, da relação da Congregação com o Papa e da urgência de formar mais fiéis.

A entrevista é de Nicola Gori, publicada por L'Osservatore Romano, 10/11-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Quem é Luis Ladaria? E como surgiu a ideia de se tornar um jesuíta?

Nasci em Manacor, na ilha de Maiorca, de uma família originária daquela região. Meu pai era médico e eu sou o mais velho de cinco filhos: três meninas e dois meninos. Da minha infância e adolescência tenho lembranças muito boas e agradáveis. Depois do ensino médio, fui para a universidade em Madri, onde estudei jurisprudência. Ao terminar a faculdade, decidi me tornar um jesuíta e assim, aos vinte e dois anos de idade, em 17 de outubro, 1966, entrei na Companhia de Jesus. Sete anos depois, em 29 de julho de 1973, fui ordenado sacerdote.

Qual foi a sua formação?

Estudei filosofia e teologia na Pontifícia Universidade Comillas, que acabara de se mudar para Madri. Então me mudei para Frankfurt, na Alemanha, para continuar teologia na famosa Philosophisch-theologische Hochschule Sankt Georgen. Naquele tempo ensinavam grandes mestres, nomes importantes da teologia alemã: basta lembrar Karl Rahner, com quem fiz um curso, e Alois Grillmeier, historiador dos concílios e autor da grande síntese de referência sobre a cristologia antiga, depois cardeal. E foi justamente Grillmeier que me sugeriu para vir a Roma para um doutorado em patrologia, que, acabei concluindo na Universidade Gregoriana com uma tese sobre Hilário de Poitiers, orientada por Antonio Orbe, bem conhecido por seu coirmão e colega alemão.

Como nasceu o interesse pelos padres da Igreja?

Durante as aulas de teologia em Frankfurt, muitas vezes líamos os textos patrísticos. Assim nasceu o interesse, que depois aumentou em Roma nas aulas do Padre Orbe, que possuía um conhecimento extraordinário dos textos antigos. Entre outras coisas, guardo uma memória particular de Eugenio Romero Pose, também seu aluno, depois bispo auxiliar de Madri, que morreu prematuramente. Ele era um amigo próximo e uma pessoa muito experiente, cujo desaparecimento foi uma perda enorme.

Quando os estudos foram concluídos, qual caminho o senhor seguiu?

Comecei a ensinar em Comillas e depois na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde em 1984 me tornei professor de teologia dogmática. Também fui vice-reitor da Gregoriana, de 1986 a 1994. Continuei a ensinar por mais um ano, depois em 9 de julho de 2004, João Paulo II me nomeou secretário da Congregação para a Doutrina da Fé.

Como se lembra do período em que trabalhou ao lado do prefeito, o cardeal Ratzinger?

Temos que dar um passo atrás, porque eu fui nomeado membro da Comissão Teológica Internacional em 1992 e permaneci até 1997. A partir de 1995 também fui consultor da Congregação para a Doutrina da Fé. Depois, em 2004, ocupei o cargo de secretário geral da comissão teológica internacional. Como consultor, trabalhei em contato direto com o secretário do dicastério, mais que com o prefeito. Essa função foi uma experiência muito boa, que conseguia conciliar, como todos os demais consultores, com as exigências da docência, enquanto isso se tornou impossível uma vez nomeado secretário.

Quais matérias o senhor ensinou?

Essencialmente teologia dogmática, exceto na área da eclesiologia e dos sacramentos. Naturalmente, meu ensinamento era baseado nas Escrituras, nos padres da Igreja, na tradição e no magistério da Igreja. E, claro, eu seguia as indicações teológicas do Concílio Vaticano II, que aconteceu enquanto eu estudava Direito em Madri.

Em relação à época do concílio, o senhor considera que hoje a teologia esteja um pouco em declínio?

Eu não diria isso. No entanto, sempre houve grandes momentos, e aquele do concílio deve ser considerado um deles. No Vaticano II havia teólogos ilustres e alguns deles tive oportunidade de conhecer pessoalmente. Hoje esses grandes nomes estão faltando. Mas isso não significa que não exista um alto nível teológico nas universidades e, de qualquer modo, não acredito que a teologia esteja em declínio. Estamos mais em um momento de assimilação e de crítica depois do concílio.

Durante séculos, a teologia foi acima de tudo europeia. E agora?

A esse respeito, é muito interessante considerar a composição atual da Comissão teológica internacional. Desde que foi instituída há quase meio século, dentro dela cresceu a presença de pessoas vindas de países não europeus: asiáticos, africanos, americanos. Nas últimas décadas, a teologia, assim como a Cúria Romana, tornou-se mais universal. Desde que entrei para a comissão em 1992, a maior novidade foi a presença de algumas mulheres, que trouxeram suas competências específicas. Acredito, no entanto, que os membros não devam ser escolhidos por serem homens ou mulheres, mas porque se demonstram capazes e competentes. E a atenção para o papel da mulher na Igreja por parte do dicastério também se manifestou concretamente com a organização de um seminário sobre esse tema em 2016, seminário do qual já foram publicados as atas.

Sobre quais temas está se ocupando a Congregação para a doutrina da fé?

Essencialmente daqueles sobre os quais o dicastério está obrigado a dar respostas: agora em especial de eclesiologia, liberdade religiosa e sacramentos. E estamos concluindo uma reflexão sobre a antropologia bíblica, da qual aguardamos respostas para os questionamentos do nosso tempo. Deve ser também mencionado o recente documento sobre moral e economia Oeconomicae et pecuniariae quaestiones, que teve uma ampla ressonância, inclusive em ambientes leigos.

No trabalho do dicastério que espaço ocupa a comunicação?

Após o Concílio Vaticano II, além da proteção e da defesa da fé, para a congregação também foi confiada a tarefa de promovê-la. Não esqueçamos, contudo, que nossos interlocutores diretos são os bispos e os teólogos. É difícil que os nossos documentos cheguem ao grande público, pois esse não é, no fundo, o nosso objetivo.

Entre as questões que surgiram nos últimos tempos está aquela dos abusos sexuais contra menores por parte de eclesiásticos. Quais são as tarefas do dicastério?

Entre suas competências, a congregação tem aquela de estudar e julgar os casos de abusos cometidos por clérigos. Autorizamos os bispos a proceder contra supostos culpados. Devo dizer que muitos casos que chegam ao dicastério sobre abuso infantil remontam há décadas atrás. Isso poderia levar a crer que é, acima de tudo, um fenômeno do passado, mas infelizmente não temos certeza de que tenha se exaurido.

Outro tema crucial é o ecumênico. Em que ponto está o recente debate sobre a questão da comunhão para o cônjuge não católico nos casamentos mistos?

É um tema que deve ser cuidadosamente estudado e para o qual deve ser dada uma resposta em um nível universal. Sem esquecer que a questão, que emergiu na Alemanha, é da competência de três dicastérios: o da promoção da unidade dos cristãos, o dos textos legislativos e, claro, o nosso. Acredito que serão estudadas normas gerais.

Vocês também estão envolvidos no trabalho do próximo Sínodo sobre os jovens?

Claro. O tema da juventude, fé e discernimento vocacional nos chama diretamente em causa. Naturalmente, estaremos envolvidos em conjunto com os outros dicastérios, em primeiro lugar, com a secretaria geral do Sínodo dos Bispos. Por outro lado, a transmissão da fé é sempre uma questão de grande atualidade. Também no sínodo da Amazônia, marcado para 2019, esse tema se impôs com muita força. E é claro que não se trata de uma preocupação limitada a determinadas áreas geográficas: não há necessidade de se afastar de Roma para constatar o quanto seja atual.

Até o final do Concílio Vaticano II, o Papa era prefeito da congregação. Hoje, qual é a sua relação com o dicastério?

Paulo VI quis um prefeito também para o dicastério, mas, de fato, antes do concílio, embora o papa fosse formalmente o prefeito, quem desempenhava efetivamente o papel era o secretário. No entanto, isso não significa que o pontífice esteja agora seguindo a atividade da congregação com menos interesse. E posso testemunhar que, com Bento XVI e Francisco, o Papa sempre seguiu e segue nosso trabalho diretamente e com grande atenção.

Existe a urgência da formação dos fiéis à qual muitas vezes se referiu Bento XVI e que reforça hoje o Papa?

Sim, claro. Muitos não tiveram uma catequese e hoje precisamos de mais esforço e empenho para esse percurso de formação. A secularização nas últimas décadas tem sido muito forte, especialmente nos países europeus. Na Ásia e na África, ao contrário, há um verdadeiro florescimento da vida cristã e das vocações, principalmente em alguns países como o Vietnã e a Coreia.

O cardeal Ratzinger, com viagens a diferentes continentes, começou a levar a congregação no mundo. Essa novidade continua?

Sim, como secretário, já estive na Tanzânia, na Índia e na Hungria. E estamos planejando outras viagens fora da Europa. E falo no plural porque com o prefeito sempre está junto o secretário e alguns funcionários do departamento

Dois mestres jesuítas

Foi especialmente o encontro com dois mestres, ambos jesuítas, que marcou o itinerário de estudo de Luis Ladaria. Chegando a Frankfurt da Espanha, o jovem coirmão maiorquino seguiu os cursos de Alois Grillmeier (1910-1998), e depois este sugeriu que para o doutorado fosse para Roma para trabalhar sob a orientação de Antonio Orbe (1917-2003).

O estudioso alemão, nomeado cardeal em 1994, tinha tratado com Heinrich Bacht de uma importante obra em três volumes (1951-1954) sobre o Concílio da Calcedônia e tinha sido membro da Comissão Teológica do Vaticano II. Em 1979 começou a ser publicada na Alemanha sua fundamental história da cristologia antiga, concluída em 2002, quatro anos depois de sua morte, graças ao cuidado da teóloga Theresia Hainthaler, traduzida em várias línguas e publicada em italiano pela editora Paideia, em seis volumes, agora finalmente concluídos (Jesus, o Cristo na fé da Igreja, 1982-2018).

Igualmente relevantes são os estudos do patrologista espanhol que ensinou na Gregoriana. Leitor e conhecedor extraordinário das fontes antigas, pagãs, judaicas e cristãs (especialmente os escritos gnósticos e de seu grande adversário católico, Irineu de Lyon), o incansável pesquisador publicou mais de sete centenas de estudos, somando um total de trinta mil páginas. Entre estes, os seis volumes dos Estudios Valentinianos (1955-1966), e em 1987 uma teologia extremamente original Introducción a la teologia de los siglos II y III em dois volumes, publicados também em italiano (Piemme) em 1995 e em francês (Cerf) em 2012.

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