O reino financeiro de Marcial Maciel

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19 Março 2011

A administração das finanças dos Legionários de Cristo é um tema turvo, restrito a um pequeno grupo centralizado em Roma e que utiliza todos os subterfúgios legais necessários para operar não como uma congregação religiosa, mas como uma holding empresarial: os recursos do Movimento Regnum Christi, administrados pelo Grupo Integer Ethical Funds (IEF) vão a fundos de investimento sujeitos à volatilidade própria dos mercados financeiros, o que fez com que fossem varridos pela atual crise econômica, revela o livro El reino de Marcial Maciel (México, Planeta, 2011), escrito por Nelly Ramírez Mota Velasco.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 16-03-2011. A tradução é do Cepat.

Ainda é um mistério o destino do dinheiro dos colégios e universidades dos Legionários – 15 universidades, 50 centros universitários denominados Interamericana de Desarrollo, 177 colégios e 133.000 alunos –, pois as construções e a infra-estrutura dos mesmos foram obtidas através de doações, ao passo que o seu pessoal, quando não é voluntário, costuma ser pago com salários mínimos do mercado.

Como exemplo, Ramírez expõe a falta de transparência dos recursos para a construção da piscina do Instituto Cumbres Vistahermosa, projeto para o qual foram arrecadados três vezes os recursos necessários, tanto de pais de família como de outros benfeitores, e a obra ainda não foi concluída e assim como se desconhece o destino do dinheiro.

O cérebro financeiro dos Legionários foi o religioso Luis Garza Medina, que, como diz a autora, assinalou a necessidade de utilizar todos os subterfúgios legais para fazer a obra crescer. Por isso, para a operação administrativa, Garza Medina criou o Grupo IEF, que, por ser administrado por leigos assalariados – estes sim de até 200.000 pesos mensais – e não por religiosos legionários – como estabelecem os estatutos dos Legionários –, se afastaram do controle das estruturas da Ordem; por isso, seu trabalho foi questionado na auditoria realizada pelo delegado apostólico, o cardeal Velasio de Paolis, que qualifica o IEF como uma "emaranhada e rebuscada estrutura corporativa", que opera à margem do Direito Canônico ao conceder autoridade tão ampla aos seculares, inclusive maior que a dos diretores territoriais dos Legionários de Cristo.

Para a administração de todas as obras apostólicas, os Legionários contam com os fundos sob custódia, que são controlados também desde Roma: ali são recebidas as doações e é onde se centraliza a aquisição dos bens necessários para a Ordem.

Destaca a autora: "Se um sacerdote precisou adquirir um computador e solicitou ajuda à sua família, que lhe enviou, digamos, 1.200 dólares, estes são transferidos para Roma e depois é mandado ao solicitante o computador, mas um adquirido nos Estados Unidos a 700 dólares. Do resto do dinheiro, ninguém sabe o destino".

Da mesma forma operam as casas dos e das Consagradas, cuja maioria dos orçamentos, detalha Ramírez, se sustenta por doações; ou seja, "boa parte do gasto operacional é coberto com doações, e o critério administrativo para as casas de Consagradas em vigor em 2009 foi conseguir 40% do orçamento através de doações e 60% através da administração geral". Todo o dinheiro obtido por doações para a casa ou como presente pessoal, inclusive esses 40%, é depositado na conta territorial.

Nelly Ramírez conseguiu romper com as amarras dos Legionários, após ser durante sete anos diretora da primeira casa de Consagradas em León, Guanajuato. Destaca em seu livro seu profundo conhecimento da forma como trabalha a estrutura religiosa e econômica dessa Congregação, além de como é a vida de submissão e obediência no interior dessa Ordem fundada pelo padre Marcial Maciel Degollado: "Têm-se ali autômatas, não pessoas, têm-se escravos, não homens nem mulheres"; não há discernimento, nem maturidade, razão pela qual algumas consagradas se comportam como crianças, não como adultas. Ramírez dedica um capítulo especial para explicar os mecanismos que a Ordem utiliza para conseguir esta submissão; por exemplo, como as Consagradas são recrutadas e afastadas de suas famílias, como lhes impõem normas para defender os Legionários mesmo acima das críticas familiares ou sociais, e como se incute nelas a crença de que o bem da Ordem está acima de qualquer outra coisa.

Um dos sucessos deste controle responde pelo nome de "saudável desconfiança", que debitam na crença de uma fragilidade humana que só Deus pode suprir e, por extensão, os superiores legionários. Através deste mecanismo, se inculca neles que tudo deve ser referido aos seus diretores. Assim, é comum e incentivado dar informações de seus companheiros.

Através desta mecânica de espionagem interna, que se vende como benéfica para o bom andamento da ordem, a hierarquia conhece cada movimento de seus subalternos, o que cria um clima generalizado de paranoia institucional que raras vezes é mostrado aos externos. A autora cita que o manual das Consagradas especifica que, quando receberem visitas, sempre devem se mostrar alegres e sorridentes, sem se importar como realmente se sentem.

Justo Mullor e Alberto Athié

O padre Marcial Maciel desprestigiava os seus críticos mostrando-os não como tais, mas como inimigos das verdadeiras virtudes cristãs dos Legionários de Cristo; um caso é o daquele que fora núncio apostólico no México, Justo Mullor, responsável por ter referido a Roma as denúncias dos abusos sexuais feitas pelos ex-legionários. Imediatamente, quando este não quis jogar o jogo de cumplicidades de Maciel, entre os amigos com influência do michoacano [referência ao local de origem de Maciel] circulou a versão de que o núncio era um perigo para as relações da Santa Sé com o México, e o trabalho de Mullor se viu seriamente obstaculizado no país.

Outro caso é o do então sacerdote Alberto Athié, que denunciou os abusos cometidos por Maciel contra José Manuel Fernández Amenábar, ex-reitor da Universidade Anáhuac. Os legionários se encarregaram logo de espalhar que Athié "havia deixado o cargo de secretário-executivo da Comissão Episcopal da Pastoral Social levando consigo o dinheiro da Cáritas, para depois fugir para Chicago", quando na realidade o cardeal Norberto Rivera, amigo e sem dúvida cúmplice de Marcial Maciel, fechou àquele que fora seu braço direito todas as portas de suas atividades no México.

Cúpula legionária e Grupo Monterrei

Ao fazer uma análise dos homens do poder dentro dos Legionários, detalha-se como a concentração dos principais postos está no denominado Grupo Monterrei: os religiosos Luis Garza Medina, Evaristo Sada Derby e Gabriel Sotres.

Garza Medina, o atual vigário-geral, durante anos concentrou o poder econômico e territorial ao ser o responsável pela direção da Itália, das Consagradas e da formação intelectual e espiritual de toda a Congregação: ainda administra o Grupo IEF, em cujos cargos mantém familiares e amigos.

Evaristo Sada Derby é, há mais de 30 anos, o secretário-geral da Ordem e organiza o pessoal, assim como o arquivo de correspondência que inclui os dados de "consciência" enviados copiosamente pelas Consagradas e demais integrantes do Regnum Christi. É amante do scuba-diving [mergulho], esporte proibido por seu custo e risco para os legionários, mas que ele pratica constantemente em Cozumel. Tem outros dois irmãos, Salvador e Alfredo, que antes eram sacerdotes legionários e que necessitaram de forte tratamento médico e psiquiátrico, e que hoje estão totalmente marginalizados dos Legionários.

Gabriel Sotres, homem de confiança de Evaristo Sada, foi o responsável pela correspondência privada de Marcial Maciel e pela comunicação externa da Congregação. "Sua posição sempre foi a de manter longe dos refletores o funcionamento interno da Congregação. Este sacerdote possui em seu escritório os testemunhos de muitos que foram abusados pelo padre Maciel, e as cartas de denúncia às quais nunca se deu atenção. Foi o principal cérebro do encobrimento". Sotres está hoje brigado com Garza Medina, a quem "não perdoa o fato de ter tornado público os últimos dias de vida do padre Maciel", sendo ainda da ideia de purificar os Legionários dos rebeldes para ficar sozinho com os mais velhos e os mais jovens, e expulsar os demais "para construir os Legionários como Deus quis desde o início".

Para a autora, este poderoso grupo tem em suas mãos os Legionários, e qualifica o atual diretor oficial, Álvaro Corcuera, como um homem "bondoso", "muito fraco" em seu governo e sem muita margem de manobra. Em geral, os superiores dos Legionários são "uma casta" à parte, porque ninguém sabe ao certo o que fazem: eles têm um regime de vida especial. Por exemplo, quando adoecem são internados em hospitais dos Estados Unidos em vez dos seus centros de saúde locais, podem dirigir carros luxuosos de uso exclusivo e comer em lugares seletos.

"O diretor-geral, inclusive, tem sua capela, refeitório e escritórios à parte, em um apartamento construído na mesma estrutura da casa onde vivem os outros legionários". Os membros dessa cúpula são "reverenciados como se fossem mais deuses que homens. Ninguém pode contrariá-los, por isso é considerada uma falta grave criticá-los e existe o dever de sempre falar bem deles".

Diante desta realidade, Nelly Ramírez considera que o esforço realizado pela Santa Sé é insuficiente para renovar os Legionários de Cristo, suas estruturas e convicções, a menos que "haja uma conversão pessoal de cada legionário e de cada Consagrada(o)".

Até o momento, apesar das descobertas escandalosas da vida dupla de seu fundador, ainda há aqueles que se negam a qualquer mudança: para os legionários "o silêncio toma conta deles, é a atmosfera que priva: a autocomplacência dos Legionários".

Arrecadação legionária

"A arrecadação feita nas obras de cada território pode variar de uma região para outra. Assim, os territórios do México e Monterrei podem ultrapassar os 20 milhões de dólares anuais, mas o Chile e a Argentina chegariam apenas aos 10 milhões. Do mesmo modo, no montante de gastos, a Itália seria um dos que mais gastam, acima dos 30 milhões, seguido da Espanha, cujas despesas beiram os 20 bilhões".

"Existe um curioso sistema de arrecadação de dinheiro para bolsas de seminaristas que se chama Pro-Beca. Os padres e as consagradas, literalmente, se matam para conseguir pessoas que apadrinhem a formação de futuros sacerdotes ou de consagrados, quer seja com doações anuais ou mensais. No Pro-Beca se costuma dar um recibo dedutível aos benfeitores. A senhora Adriana Lemus é a encarregada de recolher esse dinheiro no México. Mensalmente o entrega à administração territorial e esse dinheiro é entregue a uma sociedade que, por sua vez, o envia aos Estados Unidos, às contas de três sociedades constituídas nesse país. Estas sociedades entregam depois o dinheiro a Roma em forma de distribuição de dividendos de seus sócios".

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