“Fomos confrontados com o mistério do mal”. Entrevista com Jean-Marc Sauvé, presidente da Comissão Independente sobre os abusos sexuais na França

Foto: Reprodução Youtube | Europe1

13 Outubro 2021



A Comissão Independente sobre os abusos sexuais na igreja entregou seu relatório em 5 de outubro. Seu presidente, Jean-Marc Sauvé, relata três anos de trabalho exaustivo, com grande proximidade às vítimas. Com a esperança de ver a igreja assumir a responsabilidade e finalmente restabelecer a confiança.

 

Jean-Marc Sauvé. Porque ele chega segurando nas mãos o "Nouveau manuel de civilité chrétienne", um velho volume de 1913 que pertencia ao seu sogro e do qual especifica que "não é estranho ao nosso tema sobre as violências sexuais na Igreja Católica ". Em seguida, lê alguns trechos escolhido sobre o "caráter sagrado" do padre que se deve "venerar em todas as circunstâncias".

 

Encarregado em 13 de novembro de 2018 pelos bispos e superiores religiosos da França, Jean-Marc Sauvé é o homem que chefiou por quase três anos a Comissão Independente encarregada de lançar luz sobre os abusos sexuais cometidos na Igreja Católica desde 1950.

 

Quem teria imaginado que este alto funcionário da República, ex-vice-presidente do Conselho de Estado, de impressionante envergadura gaullista, se teria deixado abalar tanto assim pelos depoimentos das vítimas recolhidos durante dezenas de horas de audições? Movido por um ardor insuspeitável, em nome da sua vontade de católico fiel de “servir a Igreja”, colocou todo o seu peso nesse trabalho, cujo rigor se deve também ao percurso humano que comportou.

 

A entrevista é de Céline Hoyeau e Isabelle de Gaulmyn, publicada por La Croix, 10-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini

 

Eis a entrevista. 

 

Há três anos o senhor trabalha sobre os abusos sexuais na Igreja, a pedido de bispos e congregações religiosas. Como espera que esse relatório será recebido?

O relatório será um choque para os católicos. Um choque que irã além dos fiéis, porque coloca em evidência aquelas que foram as violências sexuais, para além da Igreja, na sociedade como um todo. Além disso, a comissão percebeu de forma bastante tardia que a sensibilidade às questões de crimes de pedofilia era muito desigual, mesmo dentro da Igreja. Os bispos se viram enfrentando os problemas das violências sexuais a partir de 2000 e ainda mais de 2016.

Percebemos que os padres são os menos envolvidos, embora sejam as pessoas que mais estão em contato com os fiéis.

Além disso, uma parte dos fiéis acredita que já se tenha falado o suficiente sobre esse tema e que se deva seguir em frente. Outros pedem, ao contrário, para investigar ainda mais. Em suma, nas paróquias haverá o choque da descoberta de uma realidade antiga, escondida e amplamente subestimada.

 

Voltemos ao começo. O senhor foi nomeado em 13 de novembro de 2018 para chefiar a Comissão sobre os Abusos Sexuais na Igreja (Ciase). O que o fez aceitar a missão?

Quando vi, em setembro de 2018, a publicação do relatório da Igreja Católica na Alemanha, realizado por historiadores que trabalharam nos arquivos de várias dioceses, disse à minha esposa: “A essa altura, a Igreja Católica na França não pode mais se esquivar da criação de uma comissão e você verá que vão me procurar”. De qualquer forma, quando o Padre Ribadeau-Dumas me chamou após a Assembleia Geral da Conferência Episcopal de novembro de 2018 para propor que assumisse essa responsabilidade, hesitei muito. À minha volta, na minha família, não tinha apenas pessoas favoráveis, umas imaginavam a carga de trabalho, outras suspeitavam que seria um teste particularmente cáustico.

 

O senhor é um alto funcionário público, como foi sua imersão no mundo eclesial?

Claro, eu sou um católico, praticante, fui noviço nos jesuítas. Tive contato por algum tempo com o arcebispo de Paris e com o presidente da Conferência Episcopal enquanto era secretário-geral do governo na época da JMJ, ou como vice-presidente do Conselho de Estado. Mas, na realidade, não conhecia todo o aparato da Igreja. Existe um tipo de sociabilidade própria da Igreja Católica e uma relação com a sociedade civil que eu desconhecia.

Quando vim falar com vocês no La Croix em dezembro de 2018, vocês me disseram: “Você vai fazer esse trabalho, será agradecido, mas ao mesmo tempo não poderá receber um agradecimento”. Respondi sim à proposta que me fora feita com a ideia de que a Igreja iria estaria empreendendo um trabalho inédito e corajoso. Não para encobrir os fatos, mas para revelá-los. Evidentemente, com o passar dos anos, entendi melhor a premonição que vocês me fizeram.

 

No início da Ciase, o senhor disse: “Não vamos sair ilesos”. E hoje?

Efetivamente foi assim. Colocamos deliberadamente as vítimas no centro de nosso trabalho. Consideramos que elas possuíam um conhecimento único sobre as violências sexuais. A sua palavra serve, portanto, de linha mestre para o nosso trabalho. Para a observação, para o diagnóstico, para a maneira de sair disso. Eram vítimas, tornaram-se testemunhas e atores da verdade. E tudo isso não havia sido claramente pensado com antecedência, o descobrimos ao longo do caminho.

Nada poderia ter sido feito sem a contribuição das vítimas. Se a capa de silêncio que encobriu por décadas esses crimes acabou se rasgando e se desmantelando, se despertou uma onda de choque e apoio na opinião pública, isso se deve às vítimas. A essas pessoas que conseguiram superar seus sofrimentos, o peso do silêncio, às vezes o peso das conveniências, ainda que a sociedade em que se vive tenha favorecido uma libertação da palavra que nos anos 1950 era absolutamente impensável.

 

Qual foi o teste mais difícil de enfrentar?

O encontro com as vítimas. Perceber o poder destrutivo do que aconteceu. Tomar consciência do peso da verdade e da humanidade que percebíamos através de análises históricas e sociológicas. Para muitas vítimas de violências sexuais, as consequências são pesadíssimas para a vida afetiva, familiar, sexual e até social e profissional. Um quarto das vítimas leva uma vida quase normal sem ter sido particularmente ferida, mas três quartos ainda hoje são particularmente marcadas por isso. Metade delas ainda vive mal ou, inclusive, muito mal. São realidades psicológicas e sociais aparentemente abstratas. Mas quando essas pessoas estão na nossa frente, é algo totalmente diferente.

 

O senhor está entre aqueles que participaram do maior número de audiências de vítimas na CIASE ...

Algumas sessões, principalmente durante os deslocamos para o interior da província, foram particularmente difíceis. Mais de 80% das vítimas são homens. Em uma cidade, me encontrei com cinco pessoas em dois dias. Felizmente, estava acompanhado por um colega com mais experiência na escuta do que eu. Cinco homens com cinco histórias completamente diferentes, de 47 anos. Em determinado momento da história, a voz de cada um deles se quebrava. Eram momentos de angústia dilacerantes e de grande dignidade. Em qualquer caso, assuntos muito sensíveis e profundos estavam sendo tocados. Quando, em um caso de estupro repetido por um padre contra cinco de dez irmãos em uma família - o padre foi posteriormente condenado a dezesseis anos de prisão no tribunal - o bispo foi pessoalmente com seu vigário geral procurar os pais, pequenos agricultores, bons católicos do oeste, para lhes pedir em nome da Igreja, que seus filhos retirassem a denúncia ... Esta é também a história da nossa Igreja. E isso aconteceu na década de 1990, não na década de 1950!

 

Que sentimentos o senhor provou?

Indignação, revolta, é claro. Mas talvez ainda mais do que isso, foi choque. Ficamos profundamente tocados. Nenhuma história é igual à outra ... Certa vez enfrentei uma audição dizendo a mim mesmo: “É a última da semana, vai ser mais fácil. Claro, é um caso nojento, mas comparado ao que se pode ver e ouvir às vezes, não será tão duro”. Mesmo assim, saímos destruídos ... Era uma mulher, adolescente na época. Cada um tem suas fragilidades, cada um tem suas vulnerabilidades, mas não se pode culpar alguém por ser vulnerável a ponto de não poder resistir às agressões de um padre!

Assim nos encontramos em uma sexta-feira no final da tarde nos questionando: o que vamos fazer? Como essa pessoa vai passar o fim de semana? Tínhamos uma pesada responsabilidade.

 

Até o senhor sentiu a necessidade de ser acompanhada psicologicamente. Tinha previsto isso?

(Suspiros) Não, não era esperado. Eu sabia que seria difícil, mas não previ no início o quanto seria. A pergunta é: como receber aquela verdade, aquela dor e aquele sofrimento, como ser humano e não apenas como especialista e, ao mesmo tempo, não ser seu refém?

Existem profissionais mais acostumados com esse tipo de atitude do que eu, mas no geral, a maioria dos ouvintes não estava pronta. Precisamos de uma supervisão, de um acompanhamento para resistir. Mas não estamos falando apenas sobre nós. O trabalho de testemunho foi árduo acima de tudo e principalmente para as vítimas: algumas delas resistiram muito em aceitar nos encontrar. Outras desistiram depois de dizer sim, muitas tiveram dificuldade em confidenciar-se, depois reler e enviar o relato de seu testemunho. Cada audiência leva a vítima a vivenciar novamente o que aconteceu, com a dor e o trauma que o acompanha. Percebemos a grande dificuldade de testemunhar. Neste momento estou pensando ainda mais em todos aqueles, tantos, que teriam gostado de fazer uma audição, mas que não puderam porque era algo além das suas forças.

 

Ainda acredita no homem, em Deus, depois de tudo isso?

A pergunta fundamental que sou levado a me fazer e que os cristãos estão tendo que enfrentar é justamente saber onde estava Deus em tudo isso. Onde estava? Nas pessoas de sacerdócio que cometiam aquelas violências, senão em nome de Deus pelo menos com seu álibi, que assumiam a figura de Cristo, ipse Christus, e se serviam dela para satisfazer seus impulsos? Acredito que a resposta seja clara. Deus estava tragicamente ausente daquelas cenas em que muitas vezes seu nome havia sido pronunciado. Ou então, se estava presente, e necessariamente estava, estava ali, humilde e sofredor, na pessoa daqueles garotos e garotas que haviam sido, senão submetidos a um suplício, no mínimo maltratados, feridos, quase martirizados. A resposta não pode estar alhures. Fomos confrontados com o mistério do mal, de um mal que se insinua no próprio cerne do que é mais sagrado - a vida de uma criança - e assume as roupagens do ministro da salvação. Foram verdadeiros disfarces aos quais assistimos à distância: zombavam da obra de Deus.

Todos sofremos uma forte carga emocional, ficamos chocados, indignados, revoltados. Saímos dessa travessia mudados e ao mesmo tempo mais preocupados em fazer jus à confiança que nos foi depositada. Essa experiência foi, por um lado, muito abrasiva, cáustica e, ao mesmo tempo, provavelmente era o que eu procurava. Sempre se acaba encontrando o sentido profundo do que existe dentro de nós. A este respeito, estou extremamente impressionado com a minha capacidade de reproduzir, mutatis mutandis, o que meus pais fizeram, em sua vida cristã e social. Só que eu faço isso trinta anos depois deles e em uma posição e um contexto sociocultural radicalmente diferentes. Mas, na realidade, a minha bússola é exatamente esta. Servir a Igreja. E ao mesmo tempo servir aos outros e a tudo o que nos é comum. Isso às vezes leva a caminhos bastante inesperados ...

 

A Igreja permanece para o senhor não uma instituição que vai mal, mas algo muito mais profundo ...

Sim, muito mais profundo. Certamente vivi, apesar de tudo, com uma imagem idealizada da Igreja. Uma imagem que agora está sendo questionada. A Igreja cometeu graves erros no longo prazo sobre os crimes de pedofilia. Ao mesmo tempo, as gravíssimas deficiências da instituição não questionam a minha fé. Ela se alicerça em outros recursos, que são a palavra de Deus, os sacramentos e a oração.

 

Sobre a gravidade dos abusos sexuais, a Igreja não ficou para trás enquanto a sociedade mudava?

Não. A mudança começou na década de 1990. A escola pública passou para tolerância zero em 1998. A Igreja Católica fez sua mudança em 2000. Não houve atraso, só que, para a escola pública, a distância das relações interpessoais fez com que a mudança ocorresse com bastante rapidez. Quanto à Igreja, porém, devido à relação entre o bispo e seus padres, a situação teve uma evolução mais difícil. O bispo é o pai dos seus padres, mas também é, por interposta pessoa, promotor da justiça, juiz e responsável pela aplicação das penas ... Também a vontade de salvar o pecador, de perdoar os pecados e de testemunhar. a misericórdia de Deus pesou muito e negativamente na gestão daqueles casos. A teologia da salvação tornou muito mais difícil para a Igreja articular a indispensável lógica civil da retribuição, da sanção e, a montante, da denúncia, juntamente com um caminho de misericórdia e de salvação. Assim, de fato, a Igreja não soube aplicar sua nova doutrina estabelecida em 2000 aos sacerdotes já identificados. Com, a seguir, um retorno extremamente violento ao que havia sido removido ...

 

O senhor ocupou cargos nas mais altas funções do Estado. Considera que a Igreja Católica esteja muito mais envolvida do que outras instituições?

Nenhuma instituição foi ou está livre de violências sexuais contra menores. A primeira e de longe a mais envolvida é a família. Nossa comissão mostra que a Igreja é, depois da família e dos amigos, o ambiente no qual a prevalência das violências sexuais é de longe a mais forte. Para todo o período considerado (1950-2020), as pessoas vítimas de violências sexuais cometidas por clérigos, religiosos e religiosas católicos representam 4% do total das vítimas de violências sexuais. Aparentemente é pouco, mas os valores absolutos, como os podemos estimar, são alarmantes: são cerca de 216.000 pessoas. Outra constatação dolorosa: as violências sexuais na Igreja Católica não desapareceram e até se constata que depois de uma diminuição de 1970 a 1990, pararam de diminuir desde o início dos anos 1990. Não é um problema do passado.

No plano qualitativo, as medidas tomadas pela Igreja Católica foram certamente significativas. mas as respostas dadas, no que diz respeito ao mal cometido, foram globalmente insuficientes, tardias ou tomadas como reação ao evento e aplicadas de forma desigual. Nossas recomendações abrangem o conjunto dos pontos que podem contribuir para um tratamento mais eficaz e para a erradicação da cultura dos abusos. Vão desde o acolhimento à escuta das vítimas e da reforma do direito canônico penal. É um problema grave. Os princípios do processo justo, tal como estabelecido pelos supremos tribunais de todos os países e pelo Tribunal Europeu dos direitos humanos, não são contemplados pelo direito canônico e as vítimas são as grandes ausentes do procedimento! Tenho em mente o exemplo de uma mulher para quem o tribunal eclesiástico ordenou um exame psiquiátrico - para verificar sua credibilidade - mas ela nunca teve acesso ao resultado. Recebeu uma indenização, mas não teve conhecimento do juízo. Recorreu a Roma, onde lhe foi atribuído um advogado, que, no entanto, não fala francês ...

 

É a Igreja a responsável?

A sua responsabilidade deve ser reconhecida no mal que foi cometido: a Igreja não pode entrincheirar-se atrás de derivas individuais de ovelhas negras. Não se sustenta. Nossa comissão não nega o que a Igreja decidiu e fez desde 2000. Mas as vítimas também devem poder ouvir da Igreja que ela também está profundamente ferida, comovida e indignada. Uma vítima nos disse: "Gostaríamos que os bispos ficassem indignados e não apenas clericamente compassivos". Para além das palavras, a Igreja deve saber dizer que assume a responsabilidade pelo que aconteceu. A nossa convicção é clara: não houve empreendimento criminoso, exceto em episódios muito raros. Aconteceu em algum seminário menor ou em alguma comunidade, mas foi algo muito limitado. Em vez disso, a Igreja não foi capaz de ver, ouvir, captar os sinais fracos e, consequentemente, não foi capaz de tomar as medidas certas e apropriadas, mesmo no contexto de cada época. A Igreja transferiu as pessoas com grande discrição. E nem soube prevenir os abusos sexuais com o vigor necessário.

 

Como se pode consertar?

Em nossa sociedade, quando se cometem erros, a pessoa responde por eles. Quando se cometem infrações penais, acaba-se diante de tribunal ou de um júri; quando se cometem infrações civis, acontece um processo civil. Se um padre é conhecido como pedófilo, não é posto em contato com crianças e, se o for, o bispo ou o superior do religioso podem ser processados. Mas, além das culpas, o nosso código civil estabelece uma responsabilidade sem culpa. Uma responsabilidade pelo que é feito por outros. É a responsabilidade do mandante para com o seu subordinado, do empregador para com o seu empregado. Discutimos muito com juristas sobre as consequências dessa legislação. E nossa conclusão é que é muito provável que, mesmo na ausência de culpa, um bispo ou um superior de congregação seja responsável pelo dano de um padre ou de um religioso colocado sob sua autoridade. Certamente não é a opinião de todos na Igreja. Teve que chegou a nos dizer que um bispo não tem autoridade sobre o seu padre ... Porém, lembrei do rito da ordenação, no qual o futuro padre promete obediência nas mãos do bispo, a ele e aos seus sucessores.

Por esta razão jurídica, mas também por evidentes razões morais, é necessário que a Igreja reconheça a sua responsabilidade pelo passado, mesmo na ausência de culpa por parte dos seus representantes. Não se pode mais dizer hoje que não se sabia, mesmo que nunca tenha se sabido de tudo. É necessário que reconheça sua responsabilidade em um drama que assumiu um caráter sistêmico. Levando em conta o peso da Igreja na sociedade, da mensagem que ela traz, da radical ilegitimidade do que aconteceu dentro dela, é indispensável que a Igreja se empenhe ...

 

Mas os bispos dizem que são responsáveis pelo futuro, mas não pelo passado ...

Depois do que aconteceu, não pode haver futuro comum sem um trabalho de verdade, de pedir perdão e de reconciliação. Somente ao final desse processo é que pode ser posta a questão da indenização. A comissão fala de indenização financeira ou ajuda. De acordo com a comissão, a Igreja deve pagar uma dívida. É uma diferença muito importante em relação à conclusão da Assembleia Geral dos Bispos da última primavera, que falou de uma contribuição financeira para ajudar as pessoas a se reconstruírem. A Igreja certamente quer contribuir para a reconstrução das pessoas, mas descartou qualquer reconhecimento de sua responsabilidade pelo passado.

Em vez disso, segundo a comissão, no momento em que existe responsabilidade, é preciso passar de uma lógica de ajuda para uma lógica de dívida. As vítimas têm um crédito em relação à Igreja. Devemos enfrentá-lo agora!

 

Como é possível que o catolicismo tenha tais desvios?

Investigamos em profundidade a raiz dos abusos e examinamos os problemas de teologia, de moral sexual, de eclesiologia e de governança. Não estamos dizendo ou insinuando que o dogma, a doutrina ou os ensinamentos da Igreja estejam na origem dos abusos. O que dizemos é que houve desvios e distorções da autoridade do padre, do acompanhamento espiritual, da obediência, do sacramento da penitência, dos carismas, do celibato e das Escrituras. Essas derivas favoreceram os abusos.

Também questionamos o tabu da sexualidade. O acúmulo de proibições sobre o tema prejudica uma luta eficaz contra os delitos mais graves e a moral sexual da Igreja Católica leva a uma espécie de nivelamento das falhas em relação à castidade, colocando quase no mesmo plano comportamentos de natureza radicalmente diferente: por exemplo, relações sexuais fora do casamento entre pessoas que consentem, a masturbação e praticamente o estupro! Essa moral também desconsidera completamente o dano que pode ser causado à integridade física e psicológica da pessoa. Na realidade, enfoca a materialidade do ato e vincula toda falha de castidade ao sexto mandamento ("Não cometer adultério"). Em vez disso, a convicção íntima da comissão, após conhecer as vítimas, é que as violências sexuais são uma obra de morte e, portanto, é o quinto mandamento: “Não matar!” que está em jogo. Dizemos muito claramente que o celibato dos padres - ou o voto de castidade dos religiosos - não pode, por si só, ser considerado a causa dos abusos, mas que uma forma de excessiva valorização ou heroicização do celibato pode ser um terreno fértil para os abusos, e que nem todos podem assumir para si o celibato. Também nos parece oportuno que os leigos em geral, e as mulheres em particular, devam participar mais dos órgãos de decisão da Igreja.

 

O senhor ficou tentado a largar tudo?

Não. Em vários momentos explodi, fui muito provado pelo que sentia e pelo que descobria, mas nunca tive vontade de parar. Tenho apenas uma qualidade e um enorme defeito, não sei fingir e, principalmente, não sei fingir que trabalho. Como resultado, chego ao fundo das coisas. Os bispos deveriam ter sido cautelosos ao solicitar minha intervenção.

 

O que vai fazer agora?

Eu vou me curar. E vou descansar ... Estarei mais presente nas fundações que presido e com certeza farei o trabalho que queria iniciar em outubro-novembro de 2018, ou seja, escrever e ensinar.

 

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