Luta contra a pedofilia: dois cardeais com posturas opostas sobre as responsabilidades institucionais e pessoais

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07 Junho 2021

 

No dia 1º de dezembro de 2018, a propósito de algumas declarações confusas e ambíguas sobre a pedofilia na Igreja Católica feitas pelo então prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, cardeal Fernando Filoni, hoje Grão-Mestre da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, e com base naquilo que a agência SIR informou a respeito das reflexões do purpurado durante a coletiva de imprensa para apresentar o Mês Missionário Extraordinário de 2019, comentamos esses posicionamentos.

O comentário é de Luis Badilla, publicada em Il Sismografo, 04-06-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis algumas declarações do cardeal Filoni:

“O abuso é um crime pessoal, não da sociedade ou da Igreja. Infelizmente, envolve também a instituição em que se encontra, seja ela civil ou religiosa.

“Se tomarmos a doutrina da Igreja, não há nada a favor do abuso (...) Pelo contrário, o abuso é a contradição, porque se assume um certo status, neste caso clerical, e se abusa do papel. O abuso não desfigura a Igreja, que permanece o que é.

“A questão da pedofilia não diz respeito à Igreja como instituição, mas às pessoas que, por meio da instituição, fazem o que fazem. É justo que quem tem a responsabilidade sobre essas pessoas intervenha, mas isso não pertence à natureza da Igreja.”

* * *

“Erros pessoais e fracasso institucional”: Reinhard Cardeal Marx, arcebispo renunciante de Munique e Freising

 

Na carta de renúncia que o cardeal Marx enviou ao Papa Francisco, publicada nessa sexta-feira, 4, com a autorização de Francisco, podemos ler reflexões como estas:

“Sem dúvida, a Igreja da Alemanha está atravessando tempos de crise. Naturalmente, há muitas razões para essa situação – também para além da Alemanha, em todo o mundo –, que eu acredito que não é necessário explicar detalhadamente aqui. Mas essa crise também é causada pelo nosso próprio fracasso, pela nossa própria culpa. Isso tem ficado cada vez mais claro para mim ao olhar para a Igreja Católica como um todo, não só hoje, mas também nas últimas décadas.

“A minha impressão é de que estamos em um ‘ponto morto’, que – e esta é a minha esperança pascal – também pode se tornar um “ponto de virada”. A ‘fé pascal’ também se aplica a nós, bispos, na nossa pastoral.

“Desde o ano passado, tenho pensado mais intensamente sobre isso e tenho me perguntado o que isso significa para mim pessoalmente, e – encorajado pelo Tempo Pascal – tomei a decisão de lhe pedir que aceite a minha renúncia ao cargo de arcebispo de Munique e Freising.

“Em essência, para mim, trata-se de compartilhar a responsabilidade pela catástrofe dos abusos sexuais por parte das autoridades da Igreja nas últimas décadas. As investigações e relatórios dos últimos 10 anos têm mostrado consistentemente que houve muitas falhas pessoais e erros administrativos, mas também falhas institucionais e ‘sistêmicas’.

“As discussões recentes mostraram que alguns membros da Igreja se recusam a admitir esse elemento de corresponsabilidade e, portanto, a cumplicidade da Igreja como instituição, opondo-se a qualquer diálogo sobre reformas e renovação em relação à crise dos abusos sexuais.

“Eu vejo isso de um modo diferente. Ambos os aspectos devem ser considerados: os erros pelos quais somos pessoalmente responsáveis e o fracasso institucional que requer mudanças e reformas da Igreja. Do meu ponto de vista, um ponto de virada para sair dessa crise só pode ser um ‘caminho sinodal’, um caminho que realmente possibilite o ‘discernimento dos espíritos’, como o senhor repetidamente enfatiza e reiterou na sua carta à Igreja da Alemanha.

“Eu sou padre há 42 anos e bispo há quase 25 anos, dos quais 20 anos como ordinário de uma grande diocese. E sinto dolorosamente como a reputação dos bispos, na percepção eclesiástica e secular, decaiu e possivelmente chegou ao seu nível mais baixo.

“Na minha opinião, para assumir a responsabilidade, portanto, não basta reagir apenas quando os erros e omissões podem ser comprovados a partir dos autos dos processos. Em vez disso, como bispos, temos que deixar claro que nós também representamos a instituição da Igreja como um todo.

“Também não é aceitável simplesmente relegar essas denúncias, em grande parte, ao passado e às autoridades eclesiásticas da época, ‘enterrando-as’ dessa forma. Eu sinto a minha culpa e responsabilidade pessoais também pelo silêncio, pelas omissões e pelo foco excessivo na reputação da Igreja como instituição.

“Foi somente a partir de 2002 e, cada vez mais, a partir de 2010, que as vítimas de abuso sexual foram trazidas para o centro da questão de forma mais consistente, mas essa mudança de perspectiva ainda não foi completada. Negligenciar e desconsiderar as vítimas certamente foram a nossa maior falta do passado.

“Depois do estudo MHG sobre o abuso sexual de menores encomendado pela Conferência dos Bispos da Alemanha, eu afirmei na catedral de Munique que nós havíamos fracassado. Mas quem é esse ‘nós’? Eu também pertenço a ele. E isso significa que eu também tenho que tirar consequências pessoais disso. Isso está ficando cada vez mais claro para mim.

“Eu acredito que uma forma para expressar essa minha disposição de assumir a responsabilidade é a minha renúncia. Ao fazer isso, talvez poderei enviar um sinal pessoal para um novo início, para um novo despertar da Igreja, não só na Alemanha. Quero mostrar que o foco não é o ministério, mas a missão do Evangelho. Isso também faz parte da pastoral.”

 

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