De Berlim ao Vaticano: o que acontecerá depois do pedido de renúncia de Marx

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07 Junho 2021

 

De uma Igreja clerical a uma Igreja sinodal. De Colônia, chega ao Vaticano a carta ao Papa Francisco em que o cardeal Reinhard Marx anuncia a sua renúncia e impõe uma reflexão que vai muito além das fronteiras da Alemanha.

O comentário é de Riccardo Cristiano, publicado por Formiche, 06-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ainda existe alguém que ama a Igreja e pode contribuir para mudar o seu caminho. É o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising. A carta com a qual ele pediu a Francisco para acolher a sua renúncia da liderança dessa importantíssima diocese é muito significativa, além de comovente.

Por isso, é preciso partir das suas palavras ou pelo menos dos pontos decisivos que a carta contém, para entender o sentido da missiva e, sobretudo, as suas possíveis consequências.

O cardeal Marx parte do desastre dos abusos sexuais:

“Para mim, trata-se de compartilhar a responsabilidade pela catástrofe dos abusos sexuais por parte das autoridades da Igreja nas últimas décadas.

“As investigações e relatórios dos últimos 10 anos têm mostrado consistentemente que houve muitas falhas pessoais e erros administrativos, mas também falhas institucionais e ‘sistêmicas’.

“As discussões recentes mostraram que alguns membros da Igreja se recusam a admitir esse elemento de corresponsabilidade e, portanto, a cumplicidade da Igreja como instituição, opondo-se a qualquer diálogo sobre reformas e renovação em relação à crise dos abusos sexuais. Eu vejo isso de um modo diferente.”

Para enfrentar tal fracasso, ele vê a necessidade de um sínodo, que não se parece exatamente ao que está em andamento, visto que não há autocríticas relevantes por parte das atuais hierarquias.

Eis como ele afirma isso:

“Não é aceitável simplesmente relegar essas denúncias, em grande parte, ao passado e às autoridades eclesiásticas da época, ‘enterrando-as’ dessa forma. Eu sinto a minha culpa e responsabilidade pessoais também pelo silêncio, pelas omissões e pelo foco excessivo na reputação da Igreja como instituição. [...]

“Negligenciar e desconsiderar as vítimas certamente foram a nossa maior falta do passado. Depois do estudo MHG sobre o abuso sexual de menores encomendado pela Conferência dos Bispos da Alemanha, eu afirmei na catedral de Munique que nós havíamos fracassado. Mas quem é esse ‘nós’? Eu também pertenço a ele. E isso significa que eu também tenho que tirar consequências pessoais disso.”

Essa é a abordagem que muitas vítimas teriam desejado, em todo o mundo. Em vez disso, prevaleceu um estilo diferente, atento à “glória da instituição”. A abordagem sinodal de que fala o cardeal Marx torna as vítimas dos abusos partes concretas da Igreja.

Esse ponto nodal emergiu claramente na polêmica de algum tempo atrás entre o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e um membro da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, que pedia que a Congregação também ouvisse as vítimas.

A resposta recebida, de forma impecável, foi de que os processos canônicos da Congregação dizem respeito aos padres envolvidos, e as dioceses deveriam se ocupar das vítimas. É assim. Mas pode funcionar perante uma emergência desse tipo?

Fazer com que a Igreja seja de todo o Povo de Deus significa que os abusos foram cometidos contra a carne da Igreja... A instituição ferida inclui os feridos. Essas feridas são feridas que fazem a sua carne sangrar.

Em uma carta ao povo de Deus que vive no Chile, depois de ter convocado todos os bispos chilenos justamente por causa do escândalo dos abusos, Francisco disse que os ungidos do Senhor são todos os batizados. E qualquer pessoa que tenha participado de um batismo sabe que é assim.

A questão levantada pelo cardeal Marx não diz respeito apenas à Alemanha. O escândalo, que explodiu anos atrás nos Estados Unidos, também diz respeito aos Estados Unidos, onde os sombrios depositários da ortodoxia gostariam de negar a Comunhão ao segundo presidente católico da história estadunidense, Joe Biden, porque, apesar de ser pessoalmente contrário ao aborto, ele votou a favor da lei que permite a escolha, mas pouco fizeram para curar a ferida dos abusos. Esses abusos não danificaram a fé mais do que as orientações de Biden?

No caso de McCarrick, o cardeal removido do Sacro Colégio e depois do estado clerical por Francisco, surgiram tendências para deslegitimar o papa, para legitimar a si mesmos.

A mudança de paradigma obviamente não diz respeito apenas a alemães e estadunidenses, mas também a inúmeras Igrejas particulares. Mas a Alemanha e os Estados Unidos são os dois pontos focais de hoje.

O que a hierarquia alemã, que busca recuperar o terreno perdido avançando muito em questões fortes como o celibato e o sacerdócio feminino, dirá sobre os abusos?

E aqueles bispos estadunidenses prontos para um “ataque” totalmente novo à Casa Branca não perceberão que o padrão está sendo elevado para todos? É possível questionar sem se questionar?

A carta do cardeal Marx foi publicada na íntegra no site da Diocese de Munique, com a aprovação de Francisco. Ninguém sabe se o papa vai ou não vai aceitar a sua renúncia, mas o que está claro é que, a partir de hoje, mais do que de cisma alemão, vamos começar a falar sobre os verdadeiros problemas da Igreja da Alemanha, e, então, também aqueles que existem em outros lugares poderiam encontrar uma representação diferente. Talvez a decisão de fazer da Igreja um partido seja sólida em alguns: mas em quantos?

Uma nova época parece ter começado em Colônia, a época que poderia demonstrar o que é realmente uma “Igreja sinodal”, não clerical. Pode não ser assim, mas dificilmente a coragem do cardeal Marx poderá permanecer dentro dos limites diocesanos.

 

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