Abusos sexuais: bispos e especialistas elogiam o reconhecimento de “falhas institucionais”

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07 Junho 2021

 

Vários bispos e especialistas em teologia e em proteção aos menores expressaram admiração pelo cardeal alemão Reinhard Marx, da Alemanha, depois que ele anunciou, na sexta-feira passada, o seu pedido de renúncia ao cargo de arcebispo de Munique, pedindo mais responsabilidade pelas falhas na gestão da crise dos abusos sexuais clericais.

A reportagem é de Elise Ann Allen, publicada por Crux, 06-06-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma carta publicada no dia 4 de junho, Marx disse que pediu ao Papa Francisco que aceitasse a sua renúncia como arcebispo de Munique e Freising por causa daquilo que ele disse ser a “catástrofe” da crise dos abusos e o “fracasso sistêmico” da Igreja ao lidar com ela.

Embora ele mesmo não tenha sido acusado de nenhum delito, Marx disse: “Como bispos, temos que deixar claro que nós também representamos a instituição da Igreja como um todo”.

Em uma declaração no dia 4 de junho, o bispo Georg Bätzing, de Limburg, presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, expressou um “grande respeito” pela decisão de Marx de apresentar sua renúncia, dizendo que Marx fez “um trabalho pioneiro na Igreja na Alemanha e em todo o mundo” durante seu tempo à frente da Conferência desde 2014.

“Com esse passo, o cardeal Marx quer dar um exemplo e assumir pessoalmente a responsabilidade institucional que a Igreja detém em relação aos casos de abuso sexual e seu encobrimento”, disse ele.

Os escândalos de abuso expuseram “fraquezas sistêmicas na Igreja que também exigem respostas sistêmicas. Uma revisão puramente legal e mudanças administrativas não são suficientes”, disse Bätzing, observando que a decisão de Marx foi uma “resposta pessoal” às falhas do passado.

Observando que Marx, em sua carta, reafirmou seu apoio ao “caminho sinodal” da Igreja alemã, que foi inicialmente lançado para ajudar os bispos da Alemanha a trilharem um caminho de reforma no rastro da crise dos abusos sexuais clericais no país, Bätzing disse que os bispos devem continuar nesse caminho.

“O Caminho Sinodal foi criado para buscar respostas sistêmicas à crise. Os debates teológicos de base que determinam o Caminho Sinodal, portanto, são uma parte essencial e importante desse processo”, disse ele.

Bätzing disse que a decisão de Marx de apresentar sua renúncia é compreensível e “deixa claro que a Igreja na Alemanha deve continuar o Caminho Sinodal que começou”.

Da mesma forma, o cardeal Jean-Claude Hollerich, de Luxemburgo, presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece), cargo que Marx também ocupou de 2012 a 2018, expressou seu “profundo respeito” após ouvir a decisão de Marx.

“A decisão do cardeal deve ser o resultado de uma reflexão interior profunda e corajosa, pela qual devemos ter um profundo respeito”, disse Hollerich, dizendo que a decisão “reflete a seriedade que sempre caracterizou a sua atividade pastoral”.

Refletindo sobre o tempo de Marx como presidente da Comece, Hollerich chamou a contribuição do antecessor de “extremamente preciosa”, dizendo que a Comece sob a liderança de Marx se tornou “um ator mais dinâmico no diálogo com as instituições da União Europeia, como um contribuinte para as políticas centradas no ser humano em apoio ao bem comum”.

O cardeal Ranier Maria Woelki, de Colônia, que atualmente está passando por uma grande convulsão devido à crise dos abusos, também se pronunciou.

No dia 28 de maio, a Arquidiocese de Colônia anunciou que passaria por uma visitação apostólica tanto sobre o modo como geriu os casos de abusos do passado quanto sobre as ações de bispos individuais, incluindo Woelki, o arcebispo Stefan Hesse, de Hamburgo, que atuou como vigário-geral da Arquidiocese de Colônia de 2012 a 2015, e os bispos auxiliares de Colônia Dominikus Schwaderlapp e Ansgar Puff.

Em sua declaração do dia 4 de junho, Woelki também expressou respeito por Marx, dizendo que a decisão de apresentar sua renúncia é “sua consequência pessoal nestes tempos difíceis para a Igreja Católica”.

Apontando para o problema em seu próprio quintal, Woelki observou que, depois de enfrentar acusações de má-gestão de casos de abuso nos últimos meses, ele pediu ao papa em dezembro de 2020 para intervir diretamente, lançando uma investigação sobre a Arquidiocese de Colônia e sobre a sua própria gestão pessoal da crise dos abusos.

“Com isso, eu confiei o meu destino nas mãos do papa”, disse Woelki, destacando o fato de ter publicado recentemente os resultados de uma investigação independente sobre a gestão dos casos de abuso por parte da Arquidiocese de Colônia, conduzida pelo especialista jurídico Björn Gercke.

No chamado Relatório Gercke, “nomes foram citados, e os responsáveis tiraram as conclusões necessárias”, disse Woelki, afirmando que o Papa Francisco “respondeu ao relatório e ao meu pedido” de enviar visitadores para avaliar a situação mais ampla e as suas próprias ações.

“Essa é uma comissão direta do Santo Padre para a cooperação, que eu irei acompanhar responsavelmente até o fim”, disse ele.

O professor Thomas Schüller, membro do corpo docente de Teologia da Universidade de Münster, concordou que a decisão de Marx foi um “passo sensacional” no qual ele assumiu “a responsabilidade pessoal pelos seus fracassos como bispo de Trier e como arcebispo de Munique-Freising no enfrentamento do abuso sexual”.

“Por outro lado, ele atesta à Igreja alemã e aos seus coirmãos bispos que eles chegaram a um ponto morto. Ele gostaria de ver responsabilidade, conversão e coragem para reformas de verdade”, disse Schüller.

Ele sugeriu que Marx estava se referindo a Woelki em sua declaração quando disse: “As inspeções dos arquivos e as pesquisas sobre erros e falhas específicas do passado, incluindo a questão das respectivas responsabilidades, são componentes inevitáveis para lidar com o passado, mas não constituem a renovação inteira”.

“Esta mensagem também vai diretamente para o Papa Francisco: se você quer as reformas de Francisco, então nenhuma pedra é deixada sobre pedra no que diz respeito à violência sexualizada na Igreja. Seja tão corajoso quanto eu e, finalmente, dê início às reformas”, disse Schüller.

Cada um dos bispos da Alemanha “agora terá que se medir com essa soberana e grande disposição de renunciar ao cargo e, assim, assumir responsabilidades”, disse ele, acrescentando: “O cardeal Reinhard Marx merece um grande respeito e agradecimento pela sua decisão”.

Em declarações ao jornal italiano La Reppublica, o padre jesuíta alemão Hans Zollner, chefe do recém-criado Instituto de Antropologia, Estudos Interdisciplinares sobre Dignidade Humana e Cuidado, da Pontifícia Universidade Gregoriana, também elogiou a decisão de Marx.

“Foi um grande passo a ser admirado, porque foi pessoal e difícil de ser dado”, disse Zollner, chamando a medida de “um gesto exigente feito diante de questões delicadas e importantes, como a crise sistêmica, como o próprio cardeal a definiu, da Igreja em relação aos abusos sexuais cometidos por padres contra menores”.

“O que o cardeal Marx diz a todos é que é necessária uma nova abordagem. A crise, se sistêmica, não pode ser resolvida seguindo em frente como sempre, mas sim com uma mudança de ritmo”, afirmou.

Reconhecer que “uma crise sistêmica está em andamento” é um novo passo que foi dado, disse Zollner, acrescentando que os bispos, juntos, devem “pedir um passo diferente para que o problema seja resolvido de uma vez por todas”.

Zollner insistiu que o pedido de renúncia de Marx não teve impacto sobre a relação dele com o Papa Francisco, já que Marx é um dos principais conselheiros do papa e presidente do Conselho para a Economia, dizendo que “há plena harmonia” entre Marx e o pontífice.

“O que ele diz a todos é que o caminho que Francisco está trilhando é bom, mas deve ser seguido com mais força”, disse Zollner, ao afirmar que esse caminho foi definido durante a cúpula vaticana sobre proteção aos menores em fevereiro de 2019.

Durante aquele encontro, que contou com a presença dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, o Papa Francisco destacou a necessidade de assumir a responsabilidade pessoal. Zollner, que fazia parte da comissão organizadora do evento, disse, acrescentando: “Marx fez essa assunção”.

O que Marx fez, segundo ele, “é uma mensagem para a Alemanha e para a Igreja de lá: o caminho é lutar contra os abusos com responsabilidade e sem hesitação”.

 

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