A renúncia do Cardeal Marx e a longa crise da Igreja alemã

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07 Junho 2021

 

"A decisão do Cardeal Marx de destronar-se também aumenta as divergências com a Santa Sé. O diafragma com a Igreja alemã acabou de se ampliar em março passado com o “não” do Vaticano para as bênçãos dos casais homossexuais, intensificando-se há poucos dias com a última reforma do Código de Direito Canônico", escreve Marco Greco, em artigo publicado por Domani, 05-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

"Esta é a minha impressão: ter chegado a um beco sem saída". O cardeal Reinhard Marx não mede as palavras, que em uma carta divulgada ontem pediu ao Papa Francisco que fosse destituído do cargo pela "responsabilidade na catástrofe de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja nas últimas décadas". A iniciativa do arcebispo de Munique e Freising, figura destacada dos bispos teutônicos, é a faísca antes do trovão que ecoará no céu carregado da Igreja alemã, quando ficar entendido se o polêmico caminho sinodal terá levado a uma ruptura com Roma. Enquanto isso, em seu discurso, o cardeal não absolve a si mesmo nem a toda a Igreja, traçando em seu harakiri pessoal o alvorecer de um "novo despertar da Igreja".

 

Culpar a Igreja

 

O cardeal alemão não é novato em iniciativas sensacionais. Já o tinha demonstrado em fevereiro de 2020, quando declarou que renunciava à liderança da Conferência Episcopal alemã, da qual era presidente desde 2014, para lançar o caminho sinodal. Desde os trabalhos preparatórios do Synodale Weg, os bispos teutônicos esperavam abordar a gestão dos abusos, também levando em consideração os casos que já haviam caído em prescrição pelo direito civil. Um amplo papel também havia sido confiado às dioceses através da instituição de comissões independentes compostas por um pool heterogêneo de eclesiásticos, leigos e vítimas. Foi o próprio cardeal quem o pediu, em resposta a um pedido escrito por nove teólogos alemães e publicado nas colunas do Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Dois anos depois daquela carta pedindo tolerância zero, os esforços não foram suficientes para o cardeal: “As investigações e perícias dos últimos dez anos demonstraram que alguns representantes da Igreja não querem aceitar esta corresponsabilidade e, portanto, também a culpa da Instituição”. Fiéis na linha. O discurso do cardeal não era inesperado, mas mostrou as antinomias que se aninhavam sob as cinzas de Synodale Weg. Há algumas semanas havia acenado ao conceito de responsabilidade, palavra-chave na carta de Marx, também o atual presidente da Conferência Episcopal alemã, Georg Bätzing, que, questionado sobre o tema dos abusos pelo periódico Herder Korrespondenz, admitiu: “A atribuição incerta da responsabilidade é algo que devemos mudar. Deve ficar claro quem é responsável pelo quê. Precisamos, portanto, de uma elaboração independente, para podermos aprender”.

 

Prestação de Contas em Colônia

 

Quem tinha dúvidas sobre o caminho sinodal alemão foi o arcebispo de Colônia, o cardeal Rainer Maria Woelki. O cardeal de uma das arquidioceses mais importantes e ricas do país – conta com quase dois milhões de católicos ativos e um patrimônio de 3,8 bilhões de euros - havia, pelo contrário, defendido uma abordagem mais orientada para a evangelização do que para a doutrina. Woelki não é a primeira vez que discorda de Marx: em 2018 foi ele quem pediu a mediação da Santa Sé sobre a concessão da Eucaristia aos protestantes cônjuges de católicos, apesar de a maioria dos bispos alemães ter votado sim na assembleia da Ingolstadt.

Com o início dos trabalhos sinodais, o cardeal Woelki acabou no olho do furacão com a acusação de não ter sinalizado nenhum caso de violência no Vaticano em 2015. As acusações posteriormente tomaram a forma de crítica quando o próprio arcebispo havia se recusado a divulgar o relatório sobre os casos de pedofilia em sua arquidiocese. Nem mesmo um segundo relatório foi suficiente, encomendado por ele mesmo à direção do escritório de advocacia Gercke & Wollschlàger, para acalmar o descontentamento do episcopado.

Sete dias atrás, o Papa Francisco confiou ao bispo de Estocolmo, Cardeal Anders Aborelius, e a D.Johannes van den Hende, bispo de Rotterdam e presidente da Conferência Episcopal holandesa, uma visita apostólica à arquidiocese para ver esclarecer a situação: “Eu estou ciente e entristecido porque perdemos a confiança. Cometemos erros, eu carrego a responsabilidade”, tinha admitido o Cardeal Woelki no início do caminho sinodal. Com a ação direta de Roma e o motu proprio Vos estis lux mundi, o acerto das contas parece inevitável.

 

Um ar de desconfiança

 

Mas a decisão do Cardeal Marx de destronar-se também aumenta as divergências com a Santa Sé. O diafragma com a Igreja alemã acabou de se ampliar em março passado com o “não” do Vaticano para as bênçãos dos casais homossexuais, intensificando-se há poucos dias com a última reforma do Código de Direito Canônico. Entre as revisões preconizadas pelo Papa Francisco está, de fato, a do cânon 1379, que excomunga "quem tenta conferir uma ordem sagrada a uma mulher": deste modo, o Vaticano fecha a porta a qualquer abertura que contemple o diaconato feminino, que os alemães almejam. Para eles, os tempos estão maduros, mas é o próprio papa que não compartilha totalmente sua linha.

As duas abordagens surgiram preto no branco na carta que o pontífice dirigiu inesperadamente ao clero teutônico na véspera do caminho sinodal de 2019: “As questões atuais, assim como as respostas que damos, exigem uma longa fermentação da vida e a colaboração de todo um povo durante anos”, escreveu o papa. Mesmo assim, para muitos deles não está claro quanto tempo deveria durar o processo de amadurecimento da Igreja. Explicaram-no várias vezes, embora tenham posto em causa a mesma “descentralização saudável” presente na Evangelii Gaudium.

“O interesse é imenso, porque os temas e os desafios do nosso caminho sinodal também podem ser vistos em outros lugares. O Sínodo sobre a Amazônia nos mostrou isso mais uma vez”, declarou Marc Frings, o influente secretário-geral do Comitê Central dos Católicos Alemães, entrevistado por Sarah Numico. Para os alemães, o que acontece na Alemanha também deveria acontecer em outros lugares, inclusive admitir que há um tempo para plantar e um tempo para colher.

 

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