O diaconato feminino questiona história e teologia. Entrevista com Angelo Lameri

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16 Abril 2020

A primeira comissão do diaconato feminino foi instituída pelo Papa em 2 de agosto de 2016 e completou o trabalho em dezembro de 2018. Francisco falou a respeito na assembleia da União Internacional das Superioras Gerais (UISG) em 10 de maio de 2019, respondendo à pergunta de uma religiosa. “A comissão trabalhou bem, mas no final - explicou ele – cada um tinha sua própria ideia. E isso deve ser estudado, porque não posso fazer um decreto sacramental sem um fundamento histórico e teológico. Mas já se trabalhou o suficiente. O resultado não é muito. Mas é um passo adiante”.

A entrevista é de Luciano Moia, publicado por Avvenire, 15-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Mas o que os estudiosos haviam verificado?

"Havia uma forma de diaconato feminino no começo - continuou o papa – principalmente na Síria. Elas ajudavam no batismo, em caso de dissolução do casamento, etc." Quanto à forma de ordenação, "não havia uma fórmula sacramental", mas de acordo com o que os estudiosos verificaram - acrescentou Francisco - poderia ser "como é hoje a bênção abacial de uma abadessa, uma bênção especial para o diaconato das diaconisas... Para isso, devemos procurar o que havia no início do Apocalipse e, se havia algo, fazê-lo crescer”.

A segunda comissão para o estudo do diaconato feminino foi instituída pelo Papa Francisco em 8 de abril passado. Refletir sobre o diaconato feminino significa realizar um discernimento cuidadoso e árduo entre história e teologia, entre ministérios leigos e ministérios ordenados, mas, acima de tudo - aponta Monsenhor Angelo Lameri, professor de liturgia e de sacramentária geral na Lateranense - significa colocar mais ênfase no substantivo do que no adjetivo.

"Se não tivermos um entendimento claro dos contornos do diaconato, entendido como ministério em si e não como um mero momento de passagem para o sacerdócio, corremos o risco de entender com mais dificuldade qual seria o papel da mulher", segundo as indicações do Papa que algum dia atrás, criou uma nova comissão de estudos à qual Lameri foi chamado a participar junto com outros nove especialistas. Os únicos italianos, além dele, são o presidente, o arcebispo de L'Aquila, o cardeal Giuseppe Petrocchi e a estudiosa bíblica Rosalba Manes, professora da Gregoriana.

Como se sabe, a primeira comissão instituída em 2016 pelo Papa, a pedido da UISG (União Internacional das Superioras Gerais), concluiu seu trabalho há cerca de um ano sem chegar a uma conclusão única. Foi o próprio Papa quem o explicou durante a entrevista coletiva no avião que retornava da viagem a Skopje, na Macedônia, em 8 de maio, e depois em uma reunião sempre com a Uisg. "As fórmulas de ordenação diaconal encontradas até agora não são as mesmas da ordenação do diácono do sexo masculino, e se assemelham ao que hoje seria a bênção abacial de uma abadessa." O papa também disse que essas ordenações eram frequentes, especialmente na Síria, e que a comissão, apesar de ter trabalhado bem, não havia chegado a uma conclusão única.

Monsenhor Lameri, depois do trabalho da primeira comissão, quais serão as linhas que vocês serão chamados a investigar?

Na minha opinião, teremos que trabalhar de duas maneiras: antes de mais nada, o dado objetivo histórico, na medida do possível. Pelo outro, o dado de natureza teológica, porque o histórico, embora importante, não é suficientes e deve sempre ser entendido em relação a uma hermenêutica, ou seja, a um esforço interpretativo da vontade de Jesus, que direciona o discernimento para o hoje, na perspectiva do nosso tema.

O quanto será importante o dado do Evangelho, isto é, a predileção que Jesus parece mostrar em relação às mulheres?

De um certo ponto de vista, é verdade que Jesus em relação às mulheres não se mostra totalmente alinhado com a cultura de seu tempo. Sabemos que as mulheres fazem parte de seu séquito e é uma mulher a primeira pessoa a quem ela aparece após a ressurreição. Mas o dado do Novo Testamento também pode ser interpretado de maneiras diferentes. É verdade que Jesus mostra que tem uma alta conceituação de dignidade feminina, mas entre as doze não há mulheres. Como interpretar essa escolha? Por um lado, de fato, a tradição eclesial atribuiu a uma mulher - Maria Madalena - o título de "apóstola dos apóstolos" como a primeira testemunha da ressurreição; por outro lado, no entanto, isso não se concretizou numa sua assunção no ministério apostólico.

Mas também é verdade que aqui o ministério sacerdotal não está em jogo, mas o diaconal. E foi apontado que se trata de responder a necessidades pastorais específicas, de acordo com práticas eclesiais que já estão amplamente presentes em muitas áreas geográficas, por exemplo, na Amazônia. De fato, somos chamados a raciocinar sobre o diaconato, especificamente aquele feminino. Portanto, antes do adjetivo, muita atenção ao substantivo. O que é o diaconato? Por mais de mil anos, estamos acostumados a lê-lo quase exclusivamente como um passo em direção ao sacerdócio, em função litúrgica. Depois, com a decisão do Concílio Vaticano II de restaurar o diaconato permanente, também assumiu uma função de serviço à comunidade eclesial, conforme a imagem de Cristo servo. Mas é uma fisionomia ainda a ser definida completamente. Ainda mais se a perspectiva for de vincular esse serviço ao papel da mulher.

Desse ponto de vista, talvez exista outro equívoco a ser esclarecido. Estamos falando de ministerialidade laica ou também de ministerialidade ordenada?

Se tivéssemos que considerar especificamente a ministerialidade em geral, o quadro seria menos complexo. Já depois do Concílio, São Paulo VI havia deixado em aberto o discurso sobre os ministérios leigos.

Além do lectorato e do acolitado, válidos para toda a Igreja, na perspectiva pastoral, foi deixada em aberto às conferências episcopais individuais o estabelecimento de outras figuras ministeriais em relação às necessidades locais específicas. São João Paulo II, na exortação pós-sinodal Christifideles laici, solicitado pelo Sínodo dos Bispos de 1987, havia pedido uma revisão do documento de Paulo VI sobre os ministérios, a fim de levar em consideração o uso das igrejas locais. Ora, o debate que surgiu nos últimos anos, e em particular durante o Sínodo da Amazônia, parece exigir mais estudos.

Ou seja, uma reflexão mais corajosa também sobre a possibilidade de abrir aos ministérios ordenados, mesmo que apenas em termos de serviço pastoral?

Quando falamos de ministério ordenado, não podemos apenas ter em mente os objetivos pastorais, mas devemos respeitar a própria natureza do sacramento, também em referência à realidade de sua instituição. A Igreja não tem o poder de adaptar ao seu gosto o que Jesus Cristo instituiu. E é aqui que temos que acertar as contas com a história. Entender por que a consolidação do que a Igreja deduziu da vontade de Cristo seguiu numa certa direção e que existem espaços para uma eventual evolução.

É previsível imaginar quais caminhos de inovação poderão ser percorridos?

Difícil dizer agora. Teremos que ter a humildade de retomar as conclusões da comissão anterior, ver até onde chegaram, colocar as perguntas de volta em campo e começar a partir daí. Será um trabalho longo e difícil.

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