Rumo ao Sínodo para a Amazônia. Entrevista com cardeal Cláudio Hummes

Foto: Rede Eclesial Pan-Amazônica — REPAM

17 Maio 2019

Em 15 de outubro de 2017 o papa Francisco convocou a Roma uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, indicando como principal objetivo “identificar novos caminhos para a evangelização dessa porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem a perspectiva de um futuro tranquilo, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de vital importância para o nosso planeta”[1]. Em 8 de junho de 2018 foi publicado o Documento Preparatório.[2]

O Sínodo para a Amazônia é um grande projeto eclesial que busca superar as fronteiras e redefinir as linhas pastorais, adaptando-as aos tempos contemporâneos. A Pan-Amazônia é uma região integrada por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Essa região é uma importante fonte de oxigênio para toda a Terra, posto que ali se encontra mais de um terço das reservas florestais primárias do mundo. É uma das maiores áreas de biodiversidade do planeta.


Região Pan-Amazônica. Fonte: Blog do Enem

Participam do Sínodo bispos eleitos pelas diversas regiões do mundo, incluídos todos os bispos da Região Amazônica. O papa nomeou como relator-geral do Sínodo o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, franciscano, arcebispo emérito de São Paulo. Outra figura de grande relevo é o cardeal jesuíta Pedro Barreto, arcebispo de Huancayo. Eles são, respectivamente, presidente e vice-presidente da Rede Eclesial Pan-AmazônicaREPAM.

Essa rede transnacional gera uma colaboração harmoniosa entre os diversos componentes da Igreja: circunscrições eclesiásticas, congregações religiosas, Cáritas, diversas associações ou fundações católicas e grupos de leigos. Entre seus objetivos principais está a defesa da vida das comunidades amazônicas ameaçadas pela contaminação, pela mudança rápida e radical do ecossistema do qual dependem e pela falta de tutela de direitos humanos fundamentais.

Em 31 de outubro de 2006, o cardeal Hummes foi nomeado pelo papa Bento XVI prefeito da Congregação para o Clero. Em maio de 2007, participou da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida (SP), como membro designado pelo papa. Hoje é presidente da Comissão para a Amazônia da Conferência Episcopal do Brasil.


Cardeal Cláudio Hummes. Foto: Cristina Guerini Link | IHU

Considerando sua experiência e sua atividade, decidimos fazer essa conversa com ele, para introduzir os trabalhos do Sínodo e o seu significado.

A entrevista é de Antonio Spadaro, SJ, publicada por La Civiltà Cattolica, em 13-05-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

Eminência, estamos nos aproximando do Sínodo para a Amazônia, um grande evento eclesial que coloca no centro da reflexão uma área específica e particular do mundo, embora ampla e de incrível riqueza e complexidade. Precisamente por isso, há quem expresse preocupação com o possível impacto que o Sínodo para a Amazônia pode ter na unidade da Igreja, dada a particularidade dessa realidade territorial tão ampla, complexa e diversa.

Hoje fala-se muito da unidade da Igreja. Isso é fundamental, muito importante. Mas deve ser entendido como uma unidade que acolhe a diversidade de acordo com o modelo da Santíssima Trindade. Isto é, igualmente necessário é enfatizar que a unidade nunca pode destruir a diversidade. Precisamente, o Sínodo acentua a diversidade dentro dessa grande unidade. A diversidade é a riqueza da unidade, preserva-a de ser uma uniformidade e uma justificativa para o controle.

A diversidade é importante para a Igreja?

Hoje, mais do que nunca, a Igreja esteve aberta à diversidade. Os países latino-americanos da Pan-Amazônia são hoje uma expressão da diversidade latino-americana, que deve ser acolhida sem medo e de maneira muito aberta pela Igreja da Europa e pelo mundo inteiro. De fato, queria enfatizar isso porque o Sínodo para a Amazônia é um reconhecimento de nossa peculiaridade. Eu digo assim: a Igreja da América Latina pode trazer novas luzes para a Igreja da Europa e do mundo, assim como a Igreja da Europa deve nos dar luzes antigas e muito importantes.


15ª Estação da Via Crúcis Latino-Americana: "Um novo céu, uma nova terra". Arte: Adolfo Pérez Esquivel

Inicialmente, o cristianismo encontrou um lugar de inculturação na cultura europeia, e foi um processo muito bem-sucedido que perdura até hoje. Mas essa inculturação única não é suficiente. O papa diz: uma cultura única não pode esgotar a riqueza do Evangelho. A Igreja não quer dominar outras culturas, mesmo que respeite esta inculturação europeia inicial.

Nós devemos respeitar a diversidade das culturas. Isso enriquecerá a Igreja e não a ameaçará. A diversidade não ameaça a unidade da Igreja, mas fortalece sua verdadeira unidade. É muito importante não ter medo dessas coisas. Então, se falamos e encontramos novos caminhos para a Igreja na Amazônia, isso vai beneficiar toda a Igreja, mas sempre a partir da reflexão específica sobre a Amazônia.

Vocês, que formam a Rede Eclesial Pan-Amazônica, tiveram um encontro com o papa Francisco. O que você pode nos dizer sobre essa reunião e sobre as novidades, os desafios e as esperanças que o santo padre coloca no processo sinodal?

No dia 25 de março, o cardeal Barreto, Mauricio López — secretário-executivo da REPAM — e eu nos encontramos com o papa. Nós apresentamos o estado em que se encontra o processo de preparação para o Sínodo, uma vez que a fase de escuta e consulta das Igrejas particulares da Pan-Amazônia foi completada. Neste processo sinodal, a nossa Rede tentou "escutar", não apenas "ver, julgar e agir". Ouvir vem em primeiro lugar. Para preparar um sínodo, é preciso ouvir, não apenas organizar e fazer planos.

Então, o sínodo está caracterizado pela sua capacidade de ouvir e superar a mentalidade de "marcos" e "planos"?

Para realmente "ver" é necessário ouvir, não basta fazer uma análise do que é a Amazônia, ou quem é a Igreja na Amazônia. Um sínodo não é uma abstração sinodal, uma ideia genérica. Para nós, é necessário ouvir primeiro os povos da Amazônia. Você tem que ouvir a realidade, ouvir os gritos. Isso já enriqueceu muito a nossa metodologia de ver, julgar e agir. Nosso "ver" não era mais o de um analista que, de longe, examina a situação. Nós começamos a realmente ouvir.

E seu diálogo com o papa?

Perguntamos ao papa se tinha alguma recomendação a nos fazer. Ele insistiu muito em não diluir o objetivo específico do Sínodo, no que não deve se converter na ocasião para falar de todas as coisas, como antigamente se dizia em latim, com ironia: de omni re scibili et de quibusdam aliis. O Sínodo, disse o papa, não é para falar de todas as coisas, de todos os desafios ou de todas as necessidades da Igreja no mundo: não devemos perder o foco, disse o papa. Claro que todo o processo tem e terá também uma repercussão universal, inclusive planetária, porém o Sínodo tem um foco do qual é preciso não desistir para não permanecer em generalidades. O papa Francisco foi muito claro neste ponto: não perder o foco, que é a Amazônia. “Novos caminhos para a Igreja” significa novos caminhos para a Igreja na Amazônia e novos caminhos para uma ecologia integral na Amazônia. Esse tema delimita o objetivo do Sínodo.

Francisco fala frequentemente de processos novos, de caminhar, de não deter-se a repetir o passado, mas sim de aderir à tradição que cresce e que faz crescer sem ter que repetir sempre as mesmas coisas. Conseguiram? É possível?

Certamente não estaremos no Sínodo para repetir coisas que já foram ditas, não importa se são importantes, bonitas e partam de uma boa teologia. Estaremos ali para procurar novos caminhos. Necessitamos muito novos caminhos, não ter medo do novo, não nos defendermos contra isso, não resistir à novidade. Devemos nos cuidar para não trazer o antigo como se fosse mais importante que o novo. O antigo deve se conjugar com o novo, a novidade deve reforçar e apoiar o caminho. Essa palavra do papa é muito forte: devemos caminhar e não resistir a avançar e ir adiante.

Devemos confiar no Espírito que nos leva para frente, diz o papa. Desde o início do seu pontificado ele exorta e motiva a Igreja a se levantar e não ficar acomodada e demasiado segura de sua teologia, de sua visão das coisas, defendendo-se do mundo. O passado não está petrificado, deve formar sempre parte da história, de uma tradição que segue para frente. Cada geração deve seguir avançando para contribuir para a riqueza dessa grande tradição. Conseguiremos? Confiaremos no trabalho do Espírito.

O passado está marcado também por uma herança colonial...

Sem dúvidas. Essa atitude colonialista foi uma das mais importantes queixas dos povos indígenas para Igrejas pentecostais protestantes que estão entrando agora no território.

O papa denuncia essa prática neocolonialista e exorta a Igreja a não reproduzir tal espírito e prática na sua missão evangelizadora. É um chamado a não fazer da Igreja na Amazônia uma força colonizadora, a não querer colonizar os povos indígenas na sua fé, sua espiritualidade, sua experiência de Deus.

Como se situa, então, a Igreja diante das populações indígenas? Como se deve entender a evangelização desses povos?

A inculturação da fé e o diálogo inter-religioso são necessários, pois é uma verdade que também nos povos indígenas originários Deus esteve sempre presente em suas formas e expressões próprias e em sua história. Eles têm já uma experiência própria de Deus, semelhante a outros antigos povos no mundo, em especial aos povos do Antigo Testamento. Todos tiveram uma história na qual estava Deus, uma bela experiência da divindade, da transcendência e de uma consequente espiritualidade. A evangelização dos povos indígenas deve ter como objetivo suscitar uma Igreja indígena para as comunidades indígenas. Na medida em que os povos indígenas acolhem Jesus Cristo, devem poder expressar essa fé desde a sua cultura, identidade, história e espiritualidade.

Quais resistências estão gerando essa visão sobre a Igreja indígena nos distintos espaços e no caminho para o Sínodo?

Está provocando resistência e também mal-entendidos. Alguns se sentem ameaçados de alguma forma, porque não se sentem considerados em seus projetos e ideologias. Eu diria, sobretudo, os projetos de assentamento na Amazônia que continuam fortemente com o espírito dominante e predatório: vem para explorar e, em seguida, sair com os bolsos cheios, deixando a degradação e a pobreza para o povo local que, então, estará mais pobre e com o seu território devastado e contaminado.

A indústria, a agricultura e muitas outras formas de produção afirmam cada vez mais que sua atividade é "sustentável". Mas o que realmente significa "ser sustentável"? Significa que tudo o que extraímos da terra ou devolvemos à terra como lixo não impede que a Terra se regenere e permaneça fértil e saudável.

É muito importante reconhecer essas resistências na Igreja, fora dela, por exemplo, em governos, empresas e outros lugares. Precisamos reconhecer como nos comportarmos diante dessas resistências, sabermos o que fazer.

Por que essas resistências? O que as produzem?

Os interesses econômicos e o paradigma tecnocrático repelem qualquer tentativa de mudança e estão dispostos a se impor pela força, violando os direitos fundamentais das populações no território e as normas para a sustentabilidade e preservação da Amazônia. Mas não devemos desistir. Será necessário ficar indignado. Não uma violenta indignação, mas firme e profética.

É possível ter um diálogo, uma reunião?

Nós não podemos cair em uma espécie de ingenuidade para pensar que todo mundo está disposto a conversar. Não é verdade. Há muitas pessoas que não estão dispostas a falar. Primeiro você tem que ficar indignado, profetizar, mas então você tem que tentar negociar, chegar a um acordo, e talvez pedir à outra parte que fale. Jesus já estava falando de negociar em tais situações (Lc 14, 28). A Igreja na Amazônia sabe que deve ser profética, não acomodada, porque a situação é avassaladora e há uma situação de constante e persistente violação dos direitos humanos e degradação do lar comum. E, o que é pior, esses crimes geralmente ficam impunes.

A Igreja deve ser profética. Na América Latina vivemos muito isso depois do Concílio Vaticano II, da Conferência de Medellín e das outras grandes conferências do episcopado latino-americano. Esse profetismo cresceu, mas também foi se intensificando.

O que significa ser profético?

Não é só gritar, reportar e apontar. O profetismo é muito mais. Talvez pudéssemos enriquecer esse espírito de denúncia e diálogo com um pouco mais de ternura. Mas como fazer isso? Esse profetismo deve continuar, mas é um profetismo que também deve apontar para novos caminhos que iluminem, que ajudem o outro a aceitar um diálogo. Acredito que na reunião de diálogo poderemos ouvir, entender uns aos outros, estar dispostos a receber a luz do evangelho de Jesus Cristo.

Há aqueles que se opõem à inculturação, ou seja, a imersão na cultura e a interculturalidade, o diálogo entre culturas: temas que estão muito presentes nas expressões de uma Igreja que busca contato com os povos indígenas da Pan-Amazônia. Qual é a sua posição a respeito e como isso pode ser incorporado ao processo sinodal de forma criativa e construtiva?

A inculturação e a interculturalidade não são opostas. Não devemos pensar neles como opostos. Eles devem ser conjugados. A inculturação é absolutamente necessária, assim como a interculturalidade. Especialmente porque temos muitas culturas na Amazônia. A inculturação e a interculturalidade são muito importantes quando vemos a quantidade de povos indígenas que existem no mundo e na Amazônia.

E a questão da maneira pela qual a Igreja deveria ser colocada para os indígenas?

Temos que distinguir entre a Igreja "indigenista" e a Igreja "indígena". Nós, especialmente das grandes Conferências do Episcopado Latino-americano, procuramos ser uma Igreja indígena, que considera os indígenas como um objeto de pastoral, mas ainda não como protagonistas de sua própria experiência de fé. Mas isso não é suficiente. Agora sabemos que devemos dar outro passo: devemos promover uma Igreja indígena.

Pelo que entendi, o Conselho Indigenista Missionário Brasileiro - Cimi está fazendo um bom trabalho.

O Cimi é, sem dúvida, um exemplo muito forte nesse sentido. Ele fez e continua a fazer um trabalho extraordinário nesse aspecto, e ele faz uma contribuição muito consistente: ele nos traz dados, apresenta fatos, publica eventos de violência que ocorreram, com números, com estatísticas. Os dados não podem ser negados, podem ser bem ou mal interpretados, mas não podem ser negados. Os dados sobre a injustiça, sobre violações de direitos humanos, sobre assassinatos, sobre a criminalização de defensores de direitos, esses dados estão lá, e o Cimi está sempre alerta para isso, e é por isso que também incomoda alguns governos e todos os que têm outros interesses.

Neste caso, a expressão dessa Igreja indígena é desconfortável, mas para nós, como Igreja, é muito importante ter dados para apresentar e mostrar por que estamos indignados. O Cimi no Brasil nos ajudou muito a ser uma Igreja Indigenista, que defende os direitos dos povos indígenas; e não apenas dos povos indígenas, mas de todos os povos, especialmente nas regiões missionárias.

Sentimo-nos chamados a ser uma igreja que defende os direitos humanos, que defende os direitos indígenas, dos ribeirinhos e de outros. Esta é uma igreja indígena.

Qual é o passo que deve ser dado em direção a uma Igreja indígena?

Agora sabemos que devemos dar um passo adiante: devemos promover uma Igreja indígena para os povos indígenas, ajudar no nascimento e crescimento de uma Igreja indígena. As comunidades indígenas que, de um modo ou de outro, escutam o anúncio do Evangelho e abraçam esse Evangelho, que abraçam Jesus Cristo, devem estar em uma condição que, através de um processo apropriado, sua fé seja incorporada e inculturada à sua realidade cultural. Então, de dentro de sua cultura, identidade, história e espiritualidade pode nascer uma Igreja indígena com seus próprios pastores e ministros ordenados, sempre unidos em total comunhão com a Igreja Católica universal, mas inculturados nas culturas indígenas.

De fato, na história dos povos indígenas já existem muitos vestígios de Deus. Como eu disse antes, Deus sempre esteve presente em sua história. Como extrair de sua própria identidade, de sua história, de sua cultura, aqueles sinais claros da presença de Deus? Esses povos milenários vêm de outra raiz que não é a europeia, de outra perspectiva histórica, como os africanos, os povos da Índia, os chineses. Então, dentro de sua história, sua identidade, sua espiritualidade, sua relação com a transcendência, devemos gerar uma Igreja com um rosto indígena.

O tema de uma Igreja indígena é muito importante para a Pan-Amazônia, mas que tipo de ministério é necessário para essa realidade? Que perfil de sacerdotes, missionários etc. é necessário nesta realidade, nessas culturas particulares que você descreveu?

Muitas vezes há uma preocupação em transplantar modelos de padres europeus para eventuais padres indígenas. Mas alguém advertiu, corretamente, que há muita preocupação e prioridade sobre o perfil do ministro ordenado em vez da comunidade que deveria receber o ministro. Deve ser ao contrário, a comunidade não é para seu ministro, mas o ministro para sua comunidade. O ministro deve ser adequado às necessidades da comunidade.

É essa necessidade da comunidade que deve nos levar a pensar, talvez, em ministérios diferenciados, porque a comunidade precisa de uma presença adequada. Não queremos defender um tipo de figura histórica de como um ministro deve ser, sem possíveis variações, para que as comunidades o aceitem como tal, porque o enviamos dessa maneira.

Sim, os ministros são enviados, mas temos que saber como enviar de maneira a respeitar a comunidade concreta, que tem suas próprias necessidades específicas. Os ministérios também devem pensar sobre a comunidade, sua cultura, sua história e suas necessidades. Tudo isso significa abrir.

Esta Igreja indígena não é feita por decreto. O Sínodo tem que abrir o caminho para que isso seja possível e pode ser provocado um processo que tenha liberdade suficiente e que reconheça a dignidade que todo cristão e todo filho de Deus tem. Essa é a grandeza deste Sínodo. O papa sabe quão histórico este Sínodo pode ser para toda a Igreja. Mas devemos caminhar nessa direção e tomar cuidado para não reproduzirmos algo que já existe.

Na encíclica "Laudato si", o papa afirma claramente que a atual situação de crise planetária é inegável e incorpora isso ao tema do Sínodo através da chamada por uma "ecologia integral". Como avançar eclesialmente nesta situação de grave crise ecológica?

A ecologia integral é algo maravilhosamente novo que o papa nos trouxe. Questiona minuciosamente os atuais modelos de desenvolvimento e produção que, por sua vez, apelam para as luzes racionais, científicas e tecnológicas dos tempos modernos que estão na base do paradigma tecnocrático e não estão dispostos a aceitar as consequências de uma ecologia integral. O paradigma da tecnocracia e da dominação prevalece, se impõe e faz o que quer.

De fato, esse esquema ou este paradigma tecnocrático vem da modernidade. É resultado do que se chama a “revolução copernicana” da filosofia moderna: já não se trata do objeto pensado e analisado, como na filosofia clássica, mas sim do sujeito pensante, da subjetividade. Esse foi um grande avanço; foi, de fato, a grande riqueza da modernidade.

Porém os grandes interesses em jogo transformaram essa conquista em algo distinto. Se transformaram no subjetivismo, individualismo e, depois, em liberalismo, que, junto com a revolução copernicana da filosofia, pôde contar com o nascimento da ciência moderna exata e sua aplicação à técnica. Daí resultou um enorme progresso tecnológico, cada vez mais sofisticado, que pôs nas mãos dos homens um extraordinário poder de intervenção na natureza para produzir cada vez mais bens, a qualquer custo, seja da natureza, seja das pessoas ou das comunidades humanas. Essa tecnologia cada vez mais sofisticada é utilizada para explorar o planeta, é aplicada como se nós viéssemos de fora e como se o planeta fosse algo que encontramos pelo caminho e podemos explorar, degradar e depredar sem escrúpulos. A tecnologia dá ao homem atual essa possibilidade de acumular cada vez mais bens materiais. Os povos indígenas, ao contrário, não acumulam bens, mas sim relações sociais, relações com as pessoas e com o todo: não acumulam bens materiais. Os povos indígenas nos ensinam que são muito mais importantes as relações humanas, as relações comunitárias.


Foto: Repam

Esse paradigma tecnocrático de que você fala se centra como uma grande ameaça para nosso planeta...

Sim, e é por isso que este paradigma não aceita uma ecologia integral, não aceita que somos filhos desta terra. Se vive como se o ser humano tivesse vindo aqui e tivesse encontrado um tesouro para explorar de todas as formas possíveis. Mas não é certo. Nós somos filhos dessa terra, e o dano que fazemos à terra termina prejudicando a nós mesmos.

A Bíblia diz que Deus fez o homem do barro, da terra...

E isso nos indica que nascemos da terra. Por isso ela é a Mãe-Terra, somos filhos da terra, nascemos aqui, não viemos de fora. Nosso corpo está feito das coisas da terra. Deus soprou o espírito nesse corpo que vem da terra, o espírito da vida. Nós viemos da terra, somos, portanto, irmãos de todas as criaturas. E o papa diz também que os homens, tendo inteligência e livre-arbítrio, têm um dever muito especial de cuidar da terra, porque Deus nos deu inteligência e a capacidade de amar, de cuidar, de administrar bem essa terra que nos dá o sustento. Porém não podemos obter esse sustento à custa de outros seres criados e dos demais irmãos e irmãs. Tudo está interligado.

A ecologia integral tem um fundamento teológico? Existe uma visão teológica que você tenha amadurecido?

O papa Francisco falou sobre isso. O mais importante da ecologia integral, diz o papa, é que Deus também estava definitivamente relacionado em Jesus Cristo com esta terra. Posto que Deus está inter-relacionado, tudo está interligado. O próprio Deus está ligado através da encarnação de Jesus Cristo, e Jesus Cristo é o ponto culminante onde todos nós caminhamos. Há textos esplêndidos onde se diz que todas as criaturas andam, porque as outras criaturas não foram feitas para nós. Seu objetivo final não somos nós. Seu propósito final é transcendente, é Deus. É claro que também precisamos que as criaturas nos sustentem, mas sua vocação é transcendente e devemos louvar ao Senhor em seu nome e levá-los a Deus. Bem, um dia, todos eles, de uma maneira misteriosa, dentro da lógica da ressurreição, estarão participando do reino definitivo. Deus não destruirá sua criação, mas a transformará apaixonadamente.

Portanto, Jesus Cristo ressuscitado é o ápice para o qual tudo caminha e é o modelo que dá uma primeira revelação de como será esse caminho pelo qual estamos caminhando. A humanidade não anda em círculos, como sem norte, sem significado. Nós devemos andar. Existe um futuro real. O ressuscitado Jesus Cristo é o grande ponto transcendente em que caminhamos. Então, a ecologia integral é tudo isso junto.

É por isso que muitas vezes digo que é necessário reescrever a cristologia, porque São Paulo já fala desse ponto culminante de um modo que avança. Teilhard de Chardin já falou disso em seus estudos sobre evolução. Toda teologia e cristologia, e até mesmo a teologia dos sacramentos, devem ser de algum modo reescritas desde esta grande luz de que "tudo está interconectado", inter-relacionado.

Há uma canção brasileira que diz: "Tudo está interligado, como se fôssemos um, tudo está interligado nesta casa comum". Deus também está inter-relacionado, definitivamente, com nosso lar comum. Acredito que a ecologia integral é um conceito que ilumina todo o trabalho que temos que fazer na Amazônia para nos unirmos no caminho do Sínodo.

A Rede Eclesial Pan-Amazônica, REPAM, faz parte do processo de preparação do Sínodo. Onde nasceu a rede?

A REPAM nasceu da ideia da Quinta Conferência do Episcopado Latino-Americano de Aparecida, na qual participou o nosso amado papa Bento XVI. Naquela época ele fez uma grande contribuição desde o início, com uma abertura que nos surpreendeu a todos: a grande abertura de Bento XVI diante de um mundo que não era dele. Ele pertencia a um mundo europeu, mas estava aberto ao diálogo conosco, o povo, o território, a América Latina.

O que aconteceu em Aparecida? Como todos sabemos, Bergoglio também estava lá ...

Sim, participou também o cardeal Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires[4]. Nesse contexto, discutiu-se a necessidade de criar um plano pastoral conjunto para a Amazônia, e o papa Francisco afirma que foi lá que ele próprio acordou para o desafio da Amazônia. Antes, como arcebispo de Buenos Aires, a Amazônia era para ele algo muito distante. Como um mundo de fantasia. Mas ele diz que por causa da insistência dos bispos brasileiros em Aparecida sobre as questões da Amazônia, esse interesse despertou nele. Foi lá que ele entendeu que era algo importante. Ele diz que a partir daí começou a acordar para tudo o que era a Amazônia. Lá, como eu disse, falou-se da necessidade de um plano pastoral conjunto para a América Latina para toda a Amazônia. Era algo um pouco fora do comum, porque as conferências episcopais são nacionais, e a Amazônia não é uma nação, mas uma região transnacional, são nove países.

Como vocês criaram uma relação eficaz?

Primeiro, as conferências episcopais nacionais que têm território amazônico incluíram suas respectivas partes da Amazônia no plano pastoral nacional. Agora, depois de Aparecida e, acima de tudo, depois do anúncio do Sínodo para a Amazônia, devemos pensar em um plano específico para toda a Pan-Amazônia. No entanto, isso não tira das conferências episcopais nacionais sua responsabilidade por sua parte do território amazônico. Isso cria uma nova situação, uma espécie de novo sujeito eclesial, e é preciso ser capaz de compreendê-lo e aceitá-lo pouco a pouco. O papa fala de descentralização, e toda a descentralização é um pouco dolorosa, porque o poder e o prestígio do centro são um pouco afetados, mas devemos saber como entendê-lo, como caminhar juntos nessa direção.

A REPAM vem exatamente para fazer um serviço que começa a criar uma rede entre todas as realidades dos nove países amazônicos, uma rede que não deveria ser pensada como outra entidade com seus próprios projetos, mas como um serviço para articular todas as entidades, comunidades, missionários, agentes eclesiásticos no território, pessoas e iniciativas de defesa e preservação da Amazônia, para que todos possam entrar nessa rede e não se sentirem isolados, ali na floresta. É um serviço que sempre dependerá dos bispos locais, dos missionários locais, que precisam se sentir convidados a fazer parte dessa rede.


Hummes foi nomeado pelo papa Francisco como relator-geral do Sínodo Pan-Amazônico. Foto: Vatican News

E o papa? Quando lhe falou sobre o Sínodo?

Já em 2015 o papa começou a me dizer: “Estou pensando em fazer uma reunião com todos os bispos da Amazônia. Eu ainda não sei que tipo de reunião, que tipo de montagem, eu pensei que poderia até ser um Sínodo". Ele me disse: vamos rezar juntos por isso, e ele começou a falar com os bispos, com as conferências episcopais dos países amazônicos, sobre como fazer essa assembleia, e assim a ideia do Sínodo cresceu e amadureceu dentro dele, até que finalmente ele foi convocado, em 2017. Trabalhamos muito para o Sínodo e continuaremos trabalhando para esse serviço que é tão importante para o futuro. O Sínodo serve para encontrar e traçar novos caminhos para a Igreja.

Notas

[1] Francisco, Angelus do domingo 15 de outubro de 2017, disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/es/angelus/2017/documents/papa-francesco_angelus_20171015.html.

[2] O texto do Documento Preparatório, junto a outros materiais relativos ao Sínodo, estão disponíveis em: http://www.sinodoamazonico.va/content/sinodoamazonico/es.html.

[3] Sobre o Sínodo para a Amazônia ver: A. Peraza, «La Amazonía y los derechos humanos», en La Civiltà Cattolica Iberoamericana III, 2019, n. 26, pp. 86-99.

[4] Cf. D. Fares, «A 10 anni da Aparecida. Alle fonti del pontificato di Francesco», en La Civiltà Cattolica 2017, n. II, pp. 338-352.

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