"Cartas da tribulação". Para vencer a desolação. Artigo de Antonio Spadaro

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30 Janeiro 2019

Chega às livrarias italianas nesta terça-feira, 29 de janeiro, o livro de Jorge Mario Bergoglio – Francisco, intitulado “Lettere della tribolazione” [Cartas da tribulação, em tradução livre] (Milão, Àncora Editrice, La Civiltà Cattolica, 2019, 142 páginas).

Foto: Divulgação

O jornal L’Osservatore Romano, 29-01-2019, publicou a introdução escrita pelo Pe. Antonio Spadaro SJ, diretor da revista La Civiltà Cattolica. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No Natal de 1987, o Pe. Jorge Mario Bergoglio assinou um breve prefácio para uma coleção de oito cartas de dois Prepósitos gerais da Companhia de Jesus. Sete delas são do padre geral Lorenzo Ricci, escritas entre 1758 e 1773, e uma do padre geral Jan Roothaan, de 1831. Elas nos falam de uma grande tribulação: a supressão da Companhia de Jesus.

De fato, com o breve apostólico Dominic ac Redemptor (21 de julho de 1773), o Papa Clemente XIV decidira suprimir a Ordem como resultado de uma série de movimentos políticos. Posteriormente, em agosto de 1814, na capela da congregação dos nobres de Roma, o Papa Pio VII fez com que se lesse a bula Sollicitudo omnium ecclesiarum, com a qual a Companhia de Jesus era reconstituída para todos os efeitos.

O então Pe. Bergoglio, em 1986 – após concluir o período como provincial e, depois, como reitor do Colégio Massimo e pároco em San Miguel – mudou-se para a Alemanha para um ano de estudos. Depois, tendo voltado para Buenos Aires, continuou seus estudos e ensinou Teologia Pastoral.

Enquanto isso, a Companhia de Jesus preparava a 66ª Congregação dos Procuradores, que foi realizada de 27 de setembro a 5 de outubro de 1987.

A Província Argentina elegeu Bergoglio como “procurador”, enviando-o a Roma com a tarefa de relatar sobre o estado da Província, de discutir com os outros procuradores eleitos pelas várias Províncias sobre as condições da Companhia e de votar sobre a conveniência de convocar uma Congregação Geral da Ordem.

Precisamente nesse contexto, Bergoglio decidiu meditar e repropor as cartas dos padres Ricci e Roothaan, porque, na sua opinião, eram relevantes e de atualidade para a Companhia. E, para isso, escreveu um texto de prefácio, assinado três meses depois, com pouco mais de três mil palavras, metade delas em uma nota.

Antes de publicar tudo, ele havia falado e discutido o seu próprio texto com o Pe. Miguel Ángel Fiorito, pai espiritual e, de fato, mestre e guia de uma geração inteira de jesuítas.

Repropomos hoje esse texto, tendo-se tornado, de fato, inencontrável e publicado pela primeira vez em italiano pela Civiltà Cattolica. Apresentamos também as cartas dos Prepósitos gerais às quais o texto de Bergoglio se refere, traduzindo-as do latim pela primeira vez.

Francisco, nos últimos anos, não deixou de se referir a essas cartas e às suas próprias reflexões da época. Por exemplo, embora sem referências explícitas, elas constituíram claramente a espinha dorsal da sua importante homilia na celebração das Vésperas na Igreja do Gesù, em 2014, por ocasião do 200º aniversário da reconstituição da Companhia de Jesus.

A ocasião mais recente foi a conversa privada com os jesuítas durante sua viagem ao Peru. Nessa ocasião, Francisco afirmou que as cartas dos padres Ricci e Roothaan “são uma maravilha de critérios de discernimento, de critérios de ação para não se deixar sugar pela desolação institucional”.

Ele fez referência explícita a elas também quando falou com sacerdotes, religiosos, religiosas, consagrados e seminaristas em Santiago do Chile, em 16 de janeiro de 2018. Naquela ocasião, ele convidou a encontrar o caminho a seguir “nos momentos em que a poeirama das perseguições, tribulações, dúvidas etc. é levantada por acontecimentos culturais e históricos”, e a tentação é a de “ficar ruminando a desolação”.

Claramente, Francisco queria dizer à Igreja do Chile uma palavra em tempo de desorientação e de “turbilhão de conflitos”. Assim como – sempre se referindo a essas cartas – naquela ocasião ele falou justamente de Pedro. Com a pergunta: “Tu me amas?”, Jesus pretendia libertar Pedro de “não aceitar com serenidade as contradições ou as críticas. Ele queria libertá-lo da tristeza e especialmente do mau humor. Com essa pergunta, Jesus convida Pedro a escutar o seu coração e aprender a discernir”. Em suma, Jesus quer evitar que Pedro se torne um destruidor, um caridoso mentiroso ou um perplexo paralisado. Jesus insiste, até que Pedro lhe dá uma resposta realista: “Senhor, tu conheces tudo; tu sabes que eu te quero bem” (Jo 21, 17). Assim, Jesus o confirma na missão. E, desse modo, ele faz com que ele se torne definitivamente o seu apóstolo.

Essas cartas e as reflexões que as acompanham são relevantes para entender como o próprio Bergoglio sente que deve agir como sucessor de Pedro, isto é, como Francisco.

São palavras que ele diz hoje à Igreja, repetindo-as acima de tudo a si mesmo. E, sobretudo, são palavras que o pontífice considera fundamentais hoje, para que a Igreja seja capaz de enfrentar tempos de desolação, de perturbação, de polêmicas evasivas e antievangélicas.

Qual é o contexto das “Cartas da tribulação” de hoje, propostas na segunda parte deste livro? Depois da sua viagem ao Chile e ao Peru (15 a 22 de janeiro de 2018), Francisco, rejeitando a lógica do “bode expiatório”, assumiu em primeira pessoa a responsabilidade e a “vergonha” do escândalo dos abusos de menores cometidos por prelados no Chile e da sua gestão. Com esse espírito, o papa, retornando a Roma, constituiu uma comissão especial, liderada por Dom Charles J. Scicluna, para escutar diretamente os testemunhos das vítimas e coletar documentação.

Após a visita ao Chile e do relatório de tal “missão especial”, o Papa Francisco, em uma carta datada de 8 de abril de 2018, convocou a Roma todos os bispos chilenos “para dialogar sobre as conclusões da mencionada visita e sobre as minhas conclusões”. Foi precisamente o breve texto de 31 anos atrás que gerou esta nova “Carta da tribulação”.

No início do encontro, que aconteceu efetivamente de 15 a 17 de maio de 2018, o papa entregou aos bispos uma nova carta de dez páginas, por si só não destinada à divulgação, mas depois divulgada pela emissora chilena TV 13. Nós oferecemos aqui uma tradução italiana editada pela Civiltà Cattolica.

Ao término do encontro, Francisco entregou aos bispos uma breve mensagem pública e confiou-lhes uma carta ao “povo de Deus peregrino no Chile”, aqui presente em uma tradução italiana, também editada pela Civiltà Cattolica.

Encerra a segunda parte deste livro a “Carta ao Povo de Deus” de 20 de agosto de 2018, publicada após a divulgação do relatório sobre os casos de pedofilia nas dioceses da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

As “Cartas da tribulação” representam um volume epistolar que se formou ao longo do tempo, gerado diante de situações difíceis. Ele revela muito de Francisco e do seu modo de enfrentar o tempo da desolação.

A leitura dos textos de Francisco é acompanhada por um sólido guia para a leitura de dois jesuítas: Pe. Diego Fares, da Civiltà Cattolica, que conhece o pontífice há muito tempo e que esteve ao seu lado também nos tempos de desolação; e Pe. James Hanvey, da Universidade de Oxford, que escreveu uma profunda reflexão sobre a “Carta ao Povo de Deus” sobre os abusos.

Mas o próprio Papa Francisco decidiu escrever um prefácio a este livro, para sublinhar o significado no momento presente dos textos por ele propostos no já distante 1987. “Sinto que o Senhor me pede para compartilhar de novo as Cartas”, escreve. Ele confirma que as cartas dos Padres gerais constituem um tratado de discernimento nos momentos de confusão e de angústia, e expressa “o espírito paterno daqueles que nos precederam e que [as] anima”, convidando-nos a buscar a consolação.

Elas formam, assim, um todo com as outras cinco cartas escritas por Francisco hoje.

A primeira ideia desta coleção – sob a forma de republicação do livreto original de 1987 – surgiu em mim durante o voo de volta da viagem ao Chile e ao Peru. Depois, ela se confirmou à luz das “Cartas da tribulação” que o pontífice escreveu aos bispos do Chile e ao povo de Deus. Ela tomou forma no diálogo com o Pe. Diego Fares, que compôs os aparatos de comentários e, por fim, recebeu a sua aprovação final do próprio Francisco em 8 de novembro de 2018, acompanhada do seu prefácio com o qual ele a oferece não só à leitura, mas sobretudo à oração.

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