''O dia do juízo'': foi assim que McCarrick foi nomeado como arcebispo de Washington

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07 Novembro 2018

O sítio Vatican Insider, 06-11-2018, publicou um trecho do novo livro de Andrea Tornielli e Gianni Valente, publicado pela editora Piemme, que aprofunda o processo da nomeação do cardeal de quem o Papa Francisco retirou a púrpura.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

(Foto: Divulgação)

Eis o texto.

No momento da nomeação de McCarrick, que vinha da Diocese de Newark, o núncio nos Estados Unidos era Dom Gabriel Montalvo. O prefeito da Congregação para os Bispos (que tomara posse há poucas semanas) era Giovanni Battista Re. De acordo com a hipótese de Viganò, quem teria desempenhado um papel importante na nomeação foi o cardeal secretário de Estado, Angelo Sodano. O ex-núncio acusador do Papa Francisco, de fato, escreve que Re se opôs a isso porque o nome de McCarrick era apenas o 14º na lista dos candidatos. A pergunta que pode ser feita é esta: por que o novo prefeito dos bispos não concordava com a designação? E, ainda, por que McCarrick estava tão embaixo na lista dos possíveis candidatos para a liderança da Diocese de Washington?

A oposição de Re leva a intuir que já haviam chegado à nunciatura dos Estados Unidos relatos sobre os comportamentos de McCarrick. “É verdade, não posso negar isso”, confidencia aos autores deste livro um arcebispo que, na época, por razões de ofício, tomou conhecimento da documentação, “havia perplexidade, relatos e também denúncias anônimas, muito graves, porque não se referiam apenas a assédios e abusos de adultos. Certamente, se deveria ter investigado mais e melhor, antes de promover McCarrick a Washington e de elevá-lo imediatamente ao cardinalato”.

Mas, se a primeira denúncia de Gregory Littleton ao bispo de Metuchen remonta a 1994, como foi possível que não se tenha aprofundado o assunto? Como foi possível que a denúncia de um fato tão grave tenha sido ignorada no momento em que era preciso escolher se se queria mandar justamente aquele bispo para liderar uma das dioceses mais em vista do mundo, com o seu pastor regularmente convidado para a Casa Branca? (...)

“Houve um personagem muito influente na Igreja dos Estados Unidos que se opôs a essa nomeação”, conta ainda a nossa testemunha, “o cardeal John O’Connor.” John Joseph O’Connor foi arcebispo de Nova York de 1984 a maio de 2000, quando morreu ainda no cargo, três meses depois de completar 80 anos, por causa de um tumor no cérebro. (...)

Ele pode ser considerado o mais wojtyliano dos bispos estadunidenses e também encarnava em seu temperamento uma sintonia com o estilo do papa polonês, convicto apoiador das batalhas contra o aborto e o sacerdócio feminino, e capaz de dar voz aos fracos e aos marginalizados. Estamos falando, portanto, de um eclesiástico ouvido, importante e influente. (...)

Mas antes de chegarmos aos meses decisivos para a nomeação a Washington, para situar exatamente a indicação contrária de O’Connor, devemos retroceder alguns meses. Ainda no primeiro semestre de 1999, de fato, a Santa Sé deu início a um processo para identificar o sucessor do cardeal Hickey, 79 anos, à frente da diocese da capital federal estadunidense. A nossa fonte, sobre isso, fala com dificuldade. Tenta se esquivar. “Tratou-se”, explica, “de um processo um tanto focado na figura de McCarrick. Em Roma, queriam saber sobre ele, havia um interesse específico nele, uma coleção de informações sobre ele.”

Quem podia ordenar e realizar uma sondagem preventiva e específica sobre um determinado arcebispo? É difícil imaginar que tal iniciativa possa ser tomada autonomamente pelo prefeito da Congregação dos Bispos. Uma sondagem, ad hoc, focada só podia vir de um pedido mais alto. João Paulo II tinha conhecido McCarrick, tinha visitado a sua diocese quatro anos antes, havia ficado impressionado com aquele bispo brilhante, que sabia encher os seus seminários, dialogar em todos os níveis com a política, ser protagonista do diálogo inter-religioso, firme sobre os princípios da doutrina moral e aberto sobre os temas sociais.

É nesse contexto que se insere a consulta do arcebispo de Nova York O’Connor por parte do núncio apostólico Gabriel Montalvo. O cardeal deu um parecer negativo. “Com efeito, o cardeal, já muito doente”, revela a nossa fonte que testemunhou aquele processo de nomeação, “escreveu uma carta sincera, na qual se referia ao problema dos assédios de natureza homossexual. Declarou que McCarrick era carismático, muito bom para arrecadar fundos. O’Connor lembrou que ele mesmo o havia recomendado no passado, mas que agora, em consciência, considerava que ele não deveria ser escolhido. A carta dava a entender que, se o papa fizesse essa nomeação, o clero estadunidense se dividiria, e a reputação da hierarquia seria destruída, jogando lama na Igreja. Palavras que ressoam hoje como uma premonição.”

A carta de O’Connor, de acordo com os dados em nossa posse, teria sido dirigida a Montalvo e talvez também à Congregação dos Bispos, em outubro de 1999. (...)

A nossa fonte acrescenta um detalhe: “Após aquela primeira sondagem sobre McCarrick, dados os pareceres do arcebispo de Nova York e de outros, a Santa Sé fez uma segunda rodada de consultas, sempre entre os bispos”. (...)

“Os fatos a serem lembrados são dois”, explica a nossa testemunha, “isto é, a contrariedade de Re e a confidência que, na época, o próprio Re tinha feito a quem lhe pedia contas da nomeação de McCarrick: tinha sido uma vontade ‘do apartamento’.” Isso também dá a entender que a nomeação do arcebispo de Washington, naqueles meses de 2000, não foi aprovada pela plenária da Congregação dos Bispos e discutida por eles, mas, ao contrário, chegou “por vias muito diretas”, como às vezes acontecia e acontece para algumas nomeações, decididas precisamente “pelo apartamento”, sem a passagem pela discussão colegial por parte dos membros do dicastério. (...)

“Lembro que, nas semanas decisivas antes da nomeação a Washington, falou-se de uma viagem de McCarrick a Roma, para um encontro importante, mas eu não tenho nenhum testemunho certo sobre isso”, confidencia a nossa fonte. Com quem o arcebispo de Newark se encontrava e com que razões ele convenceu o “apartamento” de que aquilo que lhe dizia respeito eram apenas boatos?

Segundo algumas fontes, McCarrick teria posto por escrito uma refutação das acusações que lhe diziam respeito, definidas por ele como absolutamente falsas e caluniosas. A negação e todos os elementos que acompanhavam essa aflita autodefesa do arcebispo candidato à liderança da Arquidiocese de Washington, evidentemente, obtiveram o efeito desejado sobre quem devia tomar a decisão final. McCarrick sabe ser muito convincente.

A nomeação, apesar da opinião contrária de O’Connor, as denúncias apresentadas há anos e o parecer negativo do futuro cardeal Re, portanto, foi aprovada. Aquele nome que, na sondagem da nunciatura e nos materiais coletados pela Congregação dos Bispos, estava apenas no 14º lugar na lista dos possíveis candidatos, saltou inexplicavelmente para o primeiro lugar.

Evidentemente, o fato de uma personalidade como a do arcebispo de Newark estar tão atrás na lista torna evidente a existência de algum problema em seu nome.

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