Caso Viganò: quem quer atacar o Papa Francisco? Entrevista com Andrea Tornielli

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03 Setembro 2018

O caso Viganò continua fazendo um grande barulho na mídia internacional, criando uma confusão dentro e fora da Igreja.

A reportagem é de Marina Tantushyan, publicada em Sputnik News, 02-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O ex-diplomata vaticano Carlo Maria Viganò afirma ter encontrado o Santo Padre e ter evocado um volumoso dossiê contra o ex-arcebispo de Washington McCarrick, que era culpado de violência sexual contra alguns adultos. Segundo Viganò, Francisco estaria a par do flagelo da pedofilia nos Estados Unidos, mas não teria feito nada.

Apesar de essa notícia ter causado uma grande confusão, o Papa Francisco não quis comentar a acusação que o ex-núncio Carlo Maria Viganò publicou contra ele, convidando os jornalistas a lerem atentamente esse comunicado e a fazerem o seu próprio julgamento.

Eu não vou dizer uma palavra sobre isso. Creio que o comunicado fala por si mesmo, e vocês têm a capacidade jornalística suficiente para tirar as conclusões”, enfatizou o pontífice durante a coletiva de imprensa no voo de volta de Dublin.

O que há por trás das palavras de Viganò? Que consequências isso poderia ter sobre o futuro da Igreja Católica em geral e sobre o pontificado de Francisco em particular? O Sputnik Italia falou sobre isso com Andrea Tornielli, coordenador do site católico Vatican Insider e profundo conhecedor do assunto.

Eis a entrevista.

Você é um vaticanista de longa data. Que opinião elaborou sobre esse caso? Como devemos lê-lo?

É um fato inédito, que não tem precedentes. Um ex-núncio que, violando seu juramento e fidelidade ao papa, desfere um ataque direto e frontal para pedir a renúncia do pontífice. Não devemos esquecer que o ponto central do comunicado de Viganò não é tanto a preocupação de esclarecer, mas sim o pedido final de renúncia. Mas há um problema: se lermos com atenção o memorial, mesmo considerando como verdadeiro tudo aquilo que Viganò diz quanto à sequência dos fatos, não nos deparamos com essa verdade inequívoca. Porque nós temos um papa (João Paulo II), que tornou McCarrick bispo, promoveu-o a arcebispo de Washington e criou-o cardeal. Depois, há outro papa (Bento XVI) que, após ter recebido as primeiras acusações, teria intervindo, pedindo que McCarrick levasse uma vida retirada, de oração, mas não lhe deu qualquer sanção pública, porque McCarrick celebrava missas, participava de conferências públicas. E isso era bem conhecido, porque o cardeal, em um ano, foi ao Vaticano três vezes, e o próprio Viganò participou várias vezes com ele de encontros públicos – e não se trata apenas de celebrações de missas, mas também de jantares de gala, de recepções etc.

E, depois, temos um terceiro papa, que é Francisco, que, depois da denúncia credível de um abuso de um menor, tomou uma decisão duríssima contra esse cardeal que nenhum papa tinha tomado nos últimos 90 anos: o Papa Francisco não apenas o obrigou à vida retirada, mas também removeu a sua púrpura cardinalícia. McCarrick não é mais cardeal. Esses são os fatos. A pergunta a este ponto é: é bom esclarecer e é justo limpar, mas por que Viganò pede a renúncia do único papa que fez algo contra McCarrick?

Existe alguma coisa nesse documento que corresponda à verdade ou se trata de uma notícia completamente falsa, divulgada por um funcionário frustrado nas suas expectativas de carreira?

Eu não julgo Viganò e não sei quais são as razões que o motivaram, mas nunca considerei Viganò um carreirista. Não julgo suas intenções, não as conheço e não intervenho sobre isso. Ao contrário, estou disposto a dar crédito de que os fatos documentados (e não a interpretação) são todos verdadeiros. Se alguém ler com atenção a cronologia dos fatos, fica claro como é absurdo pedir a renúncia do Papa Francisco. O ponto que eu contesto é a veracidade de um ou outro ponto do documento, mesmo que seja provado por alguns vídeos que Viganò nem sempre se lembra bem. Por exemplo, ele disse que Francisco o agrediu de modo muito descortês e malvado na primeira vez que se cumprimentaram. Mas nós encontramos o vídeo, no qual o papa está acolhedor e sorridente. Por isso, algumas lembranças de Viganò, infelizmente, estão um pouco desfocadas...

Mas, teoricamente, um pontífice reinante, como Francisco, pode renunciar porque um bispo pede isso a ele? Existem regulamentos desse tipo?

A Igreja não prevê processos de impeachment de um pontífice, e, portanto, não existem os procedimentos. O papa pode renunciar, como fez Bento XVI, mas não deve apresentar a ninguém a sua renúncia, porque, naturalmente, o Santo Padre não tem superiores na Terra. Porém, esse ato de renúncia deve ser livre (não deve ser forçado, não deve haver pressão alguma) e espontâneo. O Papa Bento renunciou livremente, e o Papa Francisco também pode escolher livremente fazer a mesma coisa. O que é inédito, estranho e absurdo é que essa pressão sobre o papa vem de um arcebispo. É algo inimaginável. Parece que se trata de um ataque político organizado pelos poderes que estão por trás de Viganò.

Em um artigo recente na revista Famiglia Cristiana sobre as acusações contidas no memorial do ex-núncio apostólico, afirma-se que o ataque de Viganò não está ligado apenas ao escândalo dos abusos, mas que ele também seria dirigido impulsionado por uma corrente interna à Igreja Católica, que vê no pontificado do Papa Francisco um perigo para os aspectos conservadores da Igreja. Você acha que está em curso um “complô” contra Bergoglio? Na sua opinião, quem são as forças que visam a derrubar Francisco do trono de Pedro?

Eu não quero usar a palavra “complô” e prefiro, em vez disso, definir esse movimento como “operação político-midiática”, estudada detalhadamente, porque houve jornalistas italianos e executivos de mídia estadunidenses que contaram publicamente que participaram na redação desse comunicado e prepararam a sua divulgação. Além disso, essa “operação” é apoiada por um pequeno grupo de ultraconservadores (especialmente nos Estados Unidos, mas não só) dentro da Igreja, que querem derrubar o Santo Padre não pela questão dos abusos, mas porque não gostam do Papa Francisco, não gostam do seu magistério. Eles tentam derrubá-lo para chegar ao novo conclave.

Digo dois fatos. Esses conservadores sempre estiveram na vanguarda da defesa da família tradicional, mas não têm nenhum problema em divulgar esse comunicado que se tornou uma bomba midiática em todo o mundo no dia em que o Papa Francisco estava celebrando em Dublin a importância da família, do matrimônio entre um homem e uma mulher. Isso leva a entender que essas pessoas, mesmo sendo bispos e teólogos, na realidade, não se importam nada com a família e com defender a família. Fazem isso apenas por política.

O segundo fato que me escandaliza muitíssimo é ver e ler verdadeiras reações de alguns bispos ultraconservadores dos Estados Unidos que, assim que viram o comunicado, logo disseram publicamente, fazendo até mesmo cartas para todos os fiéis, que Viganò é uma pessoa credível e que é preciso fazer uma investigação. E, naturalmente, todos eles apoiaram esse documento que pede a renúncia do papa, sem dizer uma palavra de solidariedade ao pontífice. Então, temos os bispos que dão solidariedade a Viganò e não ao papa. E isso leva a entender que, nos Estados Unidos, há um pequeno grupo de bispos que construíram uma Igreja paracismática: uma Igreja nacional estadunidense que agora se separa completamente do papa e da Santa Sé.

E o que acontecerá agora? Começará uma nova temporada de venenos na Igreja?

A época dos venenos na Igreja não deve começar, porque nunca acabou: Vatileaks 1, Vatileaks 2, Vatileaks 3. Os venenos infelizmente nunca acabaram e continuam. Então, eu não sei o que se deve esperar. Provavelmente, Viganò publicará documentos e continuará fazendo as suas acusações. Mas eu acho que há um povo de cristãos e de fiéis que manifestam o seu grande amor e afeto pelo Papa Francisco, que vê como o pontífice, junto com os seus colaboradores, junto com toda a Igreja, está tentando fazer tudo o que é preciso fazer para viver o Evangelho com fidelidade, vê que o Papa Francisco se compromete com a paz, com o respeito entre os povos, com a amizade entre os povos, não se compromete com a guerra, para criar muros e novas divisões na Europa e no mundo. E esse povo de cristãos (não só católicos, creio eu) olha para o Papa Francisco com simpatia. Portanto, eu acredito que esses pequenos grupos de ultraconservadores não conseguirão alcançar o seu objetivo também desta vez.

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