Kim Davis e a armadilha para Francisco

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04 Outubro 2015

Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas, em artigo publicado por Huffington Post, 01-10-2015, comenta o incidente midiático o incidente midiático causado pelo encontro entre o Papa Francisco e Kim Davis que, segundo ele, "risca obscurecer o sucesso da visita do Papa nos EUA".

A tradução é de IHU On-Line.

Eis o artigo.

O incidente midiático causado pelo encontro entre o Papa Francisco e Kim Davis risca obscurecer o sucesso da visita do Papa nos EUA.

É um incidente que diz muito do clima criado nos EUA em torno da visita do Papa e da incapacidade de algumas pessoas da Igreja receberem Papa Francisco. Não diz nada da posição do Papa nem sobre o caso concreto de Kim Davis nem sobre a questão homossexual em geral nem sobre os matrimônios na sociedade civil. Para compreender os contornos do incidente é preciso que se tenha presente algumas coisas.

Primeiro ponto. Os papas encontram muitas pessoas e muito variadas durante as audiências gerais e tanto mais durante as viagens. Os modos de organizar estes encontros variam muito, especialmente quando o Papa viaja. Um incidente pior coube a Bento XVI – ele não teve nenhuma culpa – quando encontrou no Vaticano, num dos encontros com milhares de peregrinos, Rebecca Kadaga, personagem político de Uganda que se projetou por ocasião do debate legislativo sobre a criminalização da homossexualidade.

Segundo ponto. É claro que o encontro reservado e não público, entre o Papa e a funcionária pública de Kentucky, presa por ter se negada a encaminhar o documento de matrimônio homossexual, foi arquitetado por alguém que forçou a mão do Papa e do seu ‘entourage’ mais próximo, de modo a fazer dizê-lo algo que o Papa sempre evitou de dizer durante toda a viagem nos EUA (como também precedentemente).

Os advogados de Kim Davis fizeram o resto, escolhendo o ‘timing’ perfeito para a revelação: ou seja, quando o Papa já tinha deixado o país e num horário em que era impossível para o Vaticano reagir. Mas o “never complain, never explain” da rainha Vitória não funciona mais, nem para o Papa, na era  do ‘news cycle’ 24 por 24 horas.

Terceiro ponto. Que o caso foi muito bem montado se revela não somente pelo embaraçada relutância do Vaticano em comentar o encontro (depois de tê-lo confirmado), mas pelo clima precedente da visita do papa nos EUA.

No seu discurso aos bispos americanos o papa os alertou para a tentação de usar a cruz como símbolo para as lutas políticas.

A visita de Francisco foi uma desilusão para os ideólogos das ‘guerras culturais’ político-religiosas nos EUA. Ou seja, ele desiludiu aqueles (também católicos) que tentaram fazer de Kim Davis uma mártir do contra-testemunho da Igreja contra o matrimônio homossexual.

Talvez na Itália (ou quem organizou o encontro por parte do Vaticano) ignorou ou não sabia das ligações de Kim Davis com vários candidatos republicanos à presidência dos EUA. Francisco nos seus discursos públicos evitou acuradamente se apresentar com um ‘cultural war’. Mas alguns planejaram de colocar na mesma sala e na frente do papa a testemunha de um estilo cristão exatamente contrário ao de Francisco.

Quarto ponto. Mais que o Papa seja informado sobre o mundo, é muito improvável que estivesse a par de quem era a personagem e da controvérsia gerada pela sua recusa em obedecer à lei do Estado. Seria interessante saber quantos sabiam, na Itália, dois dias antes, quem era a personagem. Mas, certamente, quem organizou o encontro com o Papa Francisco sabia.

Quinto ponto. Não sabemos o que o Papa disse para Kim Davis – a não ser que acreditemos (sem evidências concretas) no que os advogados dela disseram. O presente de um rosário e o apelo a “stay Strong” é algo que o Papa daria e diria a todos.

João XIII, em 1963, também presenteou um rosário para filha de Kruschev recebida em audiência, no Vaticano, juntamente com o marido. Rada Kruschev guardou aquele rosário para sempre.

Concluindo, o que o incidente (que teve uma repercussão muito maior nos EUA que no exterior)?

Duas coisas.

Em primeiro lugar, não diz nada do que o Papa pensa dos homossexuais nem do que pensa sobre o matrimônio homossexual. Também as suas afirmações sobre o direito de objeção de consciência, referida na entrevista concedida no voo de volta para Roma, nunca fizeram referência ao caso de Kim Davis. Para compreender Francisco e a questão da homossexualidade na Igreja e na sociedade há os discursos, recentes como Papa e menos recentes como bispo e cardeal. O Sínodo dos bispos que se abre no domingo em Roma falará sobre isto.

Em segundo lugar, o encontro entre o Papa e Kim Davis confirma os riscos correlatos da visita de Francisco num país onde os liberais progressistas fazem um esforço para compreender o Papa e onde os conservadores tradicionalistas o entendem bem e tentam calar a mensagem e emitir sinais de confusão, que paradoxalmente são acolhidos mais pelos liberais progressistas que pelos tradicionalistas (que sabem muito sobre o poder na igreja). A luta interna na igreja acerca da novidade do pontificado é um elemento essencial para compreender o Papa em geral, e hoje Francisco.

A coisa alarmante – para quem vive a Igreja e conhece o seu tecido institucional – é a tentativa cínica e despudorada de usar a pessoa do papa para marcar um gol ideológico a favor dos opositores do Papa.

Não é estranho que o façam Kim Davis e os seus advogados, mas o estranho é que isto é feito por membros da Igreja – em alguns casos também nas instâncias do poder eclesiástico. O desafio de Francisco é reorientar a Igreja, à luz das questões atuais, sem o método das purgas e sem ocupar o poder da igreja com os bergoglianos. A misericórdia do Papa Francisco se estende também aos opositores. O incidente de Kim Davis faz parte de um cenário mais amplo da luta entre o pontificado da reforma com a misericórdia e um leninismo clerical agonizante.

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