Conjuntura da Semana. Bento XVI. As primeiras avaliações de um pontificado

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03 Março 2013

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do IHU, com sede em Curitiba-PR, e por Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, parceiro do IHU na elaboração das Notícias do Dia.

Sumário:

Bento XVI. As primeiras avaliações de um pontificado

O Papa renuncia. Mais que surpresa, um rol de questionamentos
A força do significado da renúncia
Balanço do pontificado de Bento XVI
Um pontificado em discussão
Os “velhos-novos” desafios para o futuro pontificado

Conjuntura da Semana em frases

 

Eis a análise.

O Papa renuncia. Mais que surpresa, um rol de questionamentos

Na manhã do dia 11 de fevereiro deste ano, todas as atenções estiveram voltadas para a notícia que vinha do Vaticano. Bento XVI, surpreendendo a muitos fiéis, autoridades mundiais, teólogos e especialistas, serenamente anunciou a sua renúncia. Segundo o Papa, uma decisão livre e espontânea, expressa no seguinte fragmento: “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino”. A partir deste pronunciamento, uma chuva de interpretações, reflexões e debates tem circulado e, desde então, grande parte da população mundial, principalmente a mais interessada no futuro da instituição eclesial, tem presenciado um dos maiores debate sobre o significado do papado e da estrutura do Vaticano destes últimos tempos.

Sabe-se que qualquer tipo de avaliação é sempre parcial e limitada. Por isso, infelizmente, toda essa agitação em torno dos bastidores da renúncia nem sempre se converte em ponderações que, além de independentes, sejam responsáveis, ou melhor, razoáveis. Só o tempo ajudará nesse sentido. A excentricidade na forma como algumas vezes se analisou a renúncia, mesmo estando prevista pelo próprio Código de Direito Canônico, acarretaram especulações diversas. Assim, foi surgindo um mundo de interrogações. Afinal, qual é o significado desta decisão do Papa? Ele pode renunciar? O Papa renunciou por não suportar o fardo dos problemas do Vaticano? Estaria ele muito doente? Então, foram as raposas do Vaticano que venceram? Seu gesto foi de humildade ou foi mais uma sacada política do Papa-teólogo?

As questões, que parecem infindáveis, provenientes de todos os lados, colocam a cúpula da Igreja católica diante de um desafio enorme: apresentar uma resposta à altura daquilo que abarca a renúncia de Bento XVI. Será que aqueles que elegerão o novo papa buscarão oferecer uma resposta convincente para o atual momento da história? Ou, ao contrário, como é próprio do instinto de preservação, irão se prender aos velhos e conhecidos padrões de legitimidade (que hoje são duramente questionados) pelos quais a Igreja católica tem se fundamentado.

Quem acompanhou, nos últimos dias, as notícias e entrevistas do Sítio IHU, pôde contemplar uma seleção de diversos materiais a respeito desta atual conjuntura eclesial. Cabe aqui, uma breve exposição de algumas dessas contribuições.

A força do significado da renúncia

Certamente, o gesto de renúncia de Bento XVI mudará para sempre a visão que se tem de um papa. Talvez essa seja a primeira evidência imediata sobre sua renúncia. O papado não se trata de uma posse pessoal, mas de um ofício, de um serviço à Igreja, que quando não é mais possível ser exercido com todo o vigor necessário, pode ser transferido para outra pessoa que seja capaz de levá-lo adiante. É a partir daí que se desvela uma série de manifestações de apoio à decisão tomada pelo Papa.

O próprio teólogo Hans Küng, sempre crítico do pontificado de Bento XVI, reconheceu a grandeza de seu gesto: “A decisão de Bento XVI merece grande respeito, é legítima, compreensível e também corajosa. Nunca esperei que este Papa conseguisse me surpreender, algum dia, de maneira tão positiva”. Küng considerou revolucionária a atitude de Bento XVI, pois se assemelha a de um simples representante do mundo da política, trata-se de uma decisão secular.

De fato, Bento XVI ao se despir das insígnias provenientes do trono petrino, demonstrou a humildade de alguém que é humano, que possui fragilidades, que não se exclui da condição adversa que a vida oferece a qualquer pessoa. É neste sentido que o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman se manifestou: “Bento XVI, com a escolha de renunciar, trouxe o papado a um nível humano, confessando-se publicamente e admitindo que todo ser humano, até mesmo sendo papa, tem limites”. No parecer de Bauman, diferente de Wojtyla, que escolheu o papel do papado, Ratzinger escolheu o homem, ou seja, reconheceu que além das condições espirituais, também a condição física é necessária para o bom exercício do ministério petrino.

Segundo reportagem de Marco Politi, para o jornal "Il Fatto Quotidiano", a renúncia de Bento XVI é a sua única grande reforma, que entrará para a história. “Marca o fim da tradição vitalícia, torna-se um exemplo e uma sugestão para os futuros pontífices. A advertência de que, na época contemporânea, um papa exausto psicofisicamente não deve continuar representando um ícone, sob cuja sombra outros comandam”.

Para quem acompanhou o pontificado de Bento XVI, sua renuncia não causou tanta surpresa assim. É o que reconhece o historiador e especialista do catolicismo e do papado, Philippe Levillain. Ele considera que “a renúncia sempre fez parte do horizonte de governo de Bento XVI... desde os primeiros dias de seu pontificado ele pensava nisso como uma possibilidade que lhe permitiria retomar sua qualidade de homem comum, caso se sentisse muito cansado”. As conclusões do historiador é a de que com a renúncia do Papa impõe-se a imagem de uma Igreja moderna. Neste sentido, “há verdadeiramente um antes e um depois de Bento XVI: doravante, o papa poderá renunciar ao seu cargo caso se sentir oprimido pelo ritmo da modernidade. Ele será confrontado com o prazo da sua fraqueza. É uma verdadeira modernidade”.

A força da renúncia de Bento XVI também respinga nos poderes laicos. Na opinião do filósofo Giorgio Agamben, trata-se de uma oportunidade para que os poderes se interroguem novamente sobre sua própria legitimidade, uma vez que “esse homem, que estava à frente da instituição que exibe o mais antigo e significativo título de legitimidade, revogou em questão, com o seu gesto, o próprio sentido desse título”. Uma verdadeira lição interna, para uma Cúria muito preocupada com o poder temporal e bastante esquecida do poder espiritual, além de ser um exemplo para todos os que concentram o poder político.

Afora todos esses aspectos que enobrecem a renúncia de Bento XVI, é preciso deixar claro que as crises e escândalos no Vaticano, tais como o vatileaks, as lutas internas entre os cardeais, os problemas com o banco do Vaticano (IOR), os escândalos de pedofilia, as contestações abertas de vozes progressistas, entre outros elementos, provavelmente contribuíram para também solidificar ou encorpar a renúncia do Papa.

Talvez seja a consideração do professor de História do Cristianismo, Massino Faggioli, da Universidade São Tomás, de Minnesota, Estados Unidos, a interpretação mais cabível para coroar tudo o que se expôs sobre essa renúncia. Em seu parecer, “o papa Bento XVI provavelmente sabia que o ministério papal tinha se tornado algo diferente do que ele achava que devia ser: exposição excessiva à mídia, excesso de responsabilidades para com o mundo e a política, excesso de tarefas administrativas. Ser papa no catolicismo global se tornou uma tarefa muito moderna e desafiante, e é provável que um teólogo conservador a sinta como um fardo insuportável (além das razões relacionadas à sua saúde)”. Desta maneira, o Papa considerado de transição finalizou sua participação na difícil tarefa de liderar uma Igreja atordoada pela ideia de diálogo com as demandas contemporâneas.

Balanço do pontificado de Bento XVI

A renúncia de Bento XVI lança sinais contraditórios: por um lado, representa um gesto de extrema coragem e ousadia, o que provocou o respeito e a admiração mesmo entre seus críticos mais contundentes. Não se aferrou ao poder, soube, pelo contrário, abrir mão dele e antecipar sua retirada de cena. Por outro lado, revela fraquezas e fracassos. Um homem foi vencido pelas resistências que encontrou, especialmente, dentro da própria Igreja. Suas pretendidas reformas não foram levadas a cabo ou da maneira não pretendida por ele. Seu lado de teólogo (“Papa ensinante”) não resistiu às tramas e aos meandros da administração de organização religiosa, que também é social (“Papa administrador”).

Por essas razões, a sua renúncia pode dar a impressão de obra concluída, uma vez que diversos analistas apontam para o fato de que esteja renunciando em uma época de relativa calmaria e tranquilidade dentro da Igreja. Entretanto, há brechas para se concluir que sua obra ficou a meio caminho e que, portanto, seu pontificado é de transição. Isso poderia estar na mente do próprio papa, assim como esteve, na hora do conclave que o elegeu, na mente dos cardeais eleitores. É tradição na Igreja católica intercalar um pontificado mais longo, como foi o de João Paulo II, com um mais curto e de transição, como acabou sendo o de Bento XVI, abreviado por sua renúncia.

Un pontificado em discussão

Possivelmente, Bento XVI passará para a história como o primeiro papa que enfrentou séria, profunda e abertamente a questão da pedofilia dentro da Igreja, mas também aquele que flertou com as alas mais conservadoras da Igreja, usando como moeda de troca o legado deixado pelo Concílio Vaticano II.

O seu pontificado é marcado por altos e baixos. Elencamos, a seguir, alguns pontos sem a pretensão de totalidade.

— Abusos sexuais. Bento XVI notabilizou-se por ter tido a coragem de enfrentar essa questão espinhosa dentro da Igreja. Deu à pedofilia, na medida do possível, um tratamento sério. As denúncias de abusos sexuais eclodem nos Estados Unidos ainda antes do seu pontificado, em 2002, mas se alastram como rastro de pólvora pela Europa, em 2010, especialmente pela Irlanda, Alemanha, e Holanda. Em menor escala pela América Latina, onde o caso mais conhecido é o do padre Karadima, no Chile, e o de Marcial Maciel, no México, sem dúvida o caso mais escabroso.

Como mostram as diversas denúncias vindas a público, o problema não é novo, remontando, em alguns casos, aos anos 1960. Embora houvesse denúncias e fossem do conhecimento do Vaticano, sempre eram abafadas, resolvidas tangencialmente, algumas vezes com a transferência dos abusadores. E ficava nisso. As vítimas carregavam pelo resto da sua vida um fardo muitas vezes impossível de carregar.

Nisso Bento XVI tem mérito. Em seu pontificado, a problemática dos abusos sexuais recebeu grande acolhida e tratamento mais enérgico – a chamada “tolerância zero”. Ele próprio encontrou-se com vítimas de abusos sexuais e pediu diversas vezes perdão por esse pecado, como demonstração dessa mudança de tratamento. Ordenou que os casos não mais fossem abafados, mas denunciados à justiça civil, e seus autores afastados imediatamente das funções religiosas, embora com cuidado para que não cheguem à imprensa. Encaminhou também às conferências episcopais do mundo inteiro medidas que endurecem a punição dos pederastas, assim como de acolhida e acompanhamento das vítimas.

Por conta disso, teve que enfrentar problemas não apenas na base da Igreja, isto é, no clero, mas também na cúpula. Aceitou a renúncia de vários bispos, arcebispos e cardeais envolvidos diretamente ou indiretamente em casos de pedofilia, como ocorreu na Irlanda, nos Estados Unidos e, agora, na Escócia. Os casos de pedofilia representaram o maior sofrimento de Bento XVI.

A presença ou não de clérigos envolvidos na pedofilia rebate diretamente sobre a lisura do conclave. Com toda a certeza, o tema da pedofilia pesará na escolha do novo papa.

— Revogação da excomunhão dos lefebvrianos. Possivelmente, no extremo oposto, está o tratamento dado por Bento XVI à Fraternidade São Pio X, fundada em 1970 por Marcel Lefebvre, excomungado por negar-se a reconhecer o Concílio Vaticano II. Bento XVI deu passos significativos rumo à reconciliação. O primeiro deles foi a restauração da missa tridentina, com a publicação, em 2007, do Motu Próprio Summorum Pontificum. Voltaremos a isso mais adiante. Insatisfeitos e querendo mais, o Papa foi ao seu encontro com a revogação da excomunhão de quatro bispos lefebvrianos, em 2009, gesto que causou muita surpresa, apreensão e contestação dentro e fora da Igreja. Dois anos depois, aventou-se a possibilidade da criação de um ordinariato para os lefebvrianos, o que acabou não se concretizando.

Entretanto, estes gestos não tiveram contrapartida. Os lefebvrianos persistiram irredutíveis em suas posições. A principal delas é a não aceitação do ensinamento do Concílio Vaticano II, que eles consideram uma ruptura inaceitável com a Tradição da Igreja. Para a comunhão plena com a Igreja católica, Bento XVI propõe à Fraternidade São Pio X a aprovação de um Preâmbulo Doutrinal, com o que efetivamente não aceitaram. O Preâmbulo proposto, reafirmava os princípios fundamentais da fé católica necessários para manter a unidade da Igreja.

Questão igualmente grave no tratamento da questão era o reiterado espírito antissemita demonstrado por alguns lefebvrianos, singularmente pelo bispo Williamson, o que era do conhecimento de Bento XVI. O gesto de tentar reintegrar na Igreja católica figuras com esse tipo de atitude, criou também enormes tensões com os judeus, e que contribuíram para o desgaste do papa nesta questão. A presença de Williamson na Fraternidade era motivo de desgaste para ambos os lados. No longo prazo, tornava-se insustentável, razão pela qual a própria entidade achou melhor expulsar, em 2012, o bispo negacionista de suas fileiras. Mas o estrago já estava feito e era irreversível. Ao final, Ratzinger fracassou na tentativa de reatar com os lefebvrianos.

— Reforma litúrgica. A reforma litúrgica empreendida por Bento XVI insere-se numa perspectiva revisionista do Concílio Vaticano II. A apenas dois anos de seu pontificado, o papa Ratzinger empreende seu desejo de abolir abusos na liturgia – ele descreve a situação como "no limite do suportável" –, devidos ao Concílio Vaticano II, com a publicação do Motu Próprio Summorum Pontificum, que restaura o Rito de Pio X e abre a possibilidade de celebrar novamente a missa em latim, assim como os outros sacramentos. Em sendo doravante um direito a que cada cristão tem direito, nenhum pároco ou bispo pode proibir que grupos possam celebrar a missa tridentina.

Cinco anos depois, em 2011, o Vaticano publica a instrução Universae Ecclesiae, que estabelece alguns critérios aplicativos do Motu Proprio Summorum Pontificum.

O inédito está na coexistência de dois ritos, de duas missas, na mesma Igreja, além de que tem sérias consequências pastorais. Na esteira desta reforma, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos determinou, em 2006, uma mudança da fórmula da Eucaristia, abrindo uma nova frente de debates dentro da Igreja. O pivô dos enfrentamentos inclusive com conferências episcopais é a expressão “Derramado por todos”, que deverá ser substituída, pela expressão “por muitos”.

Em tudo isso, embora haja aspectos positivos a serem considerados nessa reforma, parece sobressair uma preocupação com a formalidade dos ritos e menos com os aspectos pastorais, comunitários. Segundo muitos, uma involução em relação à hermenêutica do Concílio Vaticano II.

— Intrigas na cúria romana. Muito embora as intrigas curiais não sejam de hoje, há fortes indícios para supor que as resistências oferecidas pelos membros curiais contribuíram para o debilitamento de Bento XVI, não excluída a renúncia. Bento XVI, sobretudo nas últimas semanas, fez fortes apelos chamando à unidade e à conversão. Ficou realmente muito sentido com o vazamento de informações secretas da câmara pessoal do Papa, no caso conhecido como “vatileaks” e que acabou na exoneração do ex-mordomo, Paolo Gabrieli. Uma investigação foi determinada pelo próprio Papa, mas que, no final das contas, não deu em nada – melhor dizendo, foi engavetado, sem que seu conteúdo fosse tornado público, contra o que há vozes se levantando. Em todo o caso, o “vatileaks” sinaliza para o clima de desconfiança e intrigas existente na cúria e a consequente necessidade da sua reforma, o que Bento XVI não conseguiu fazer.

O tratamento dado por Bento XVI ao escândalo do IOR Instituto para as Obras de Religião –, comumente conhecido como o Banco do Vaticano, reflete o ritmo próprio à cúria, marcada pela lentidão. Nesse assunto, é possível notar um descompasso entre a cúria e as intenções de Bento XVI. O Papa dá sinais de agir com maior determinação ao publicar, por exemplo, em 2010 um Motu Próprio para a transparência financeira. Em 2012, demite o então presidente, Ettore Gotti Tedeschi, assim que apareceram as denúncias contra ele e sua administração. É acusado de lavagem de dinheiro e "por não ter cumprido várias funções de importância prioritária". Ou seja, o banco do Papa encontra-se envolvido em escândalos financeiros, enquanto ele próprio denuncia a avidez de um sistema financeiro que jogou o mundo numa das suas maiores crises econômicas.

Embora já houvesse suspeitas contra a gestão do banco, a cúria, envolvida em intrigas internas, parece frear sensivelmente diversas ações postas em ação para solucionar tal situação.

Ainda no final de 2009, contra a vontade de curiais, Bento XVI tomou a decisão de adequar a normativa do Estado da Cidade do Vaticano às normativas internacionais "sobre a prevenção e o combate às atividades financeiras e monetárias ilegais".

Como sinal da sua vontade de concluir a reforma do IOR, um dos últimos gestos de Bento XVI foi a nomeação do seu novo presidente, o alemão Ernest Von Freyberg.

Há diversos outros exemplos de como na cúria vaticana falta uma coordenação mais sintonizada. Pode-se tomar o último, envolvendo a ex-Pontifícia Universidade Católica do Peru, que opõe, de um lado, decisões do próprio papa, ladeado pelo secretário de Estado, Tarcisio Bertone, e, de outro, os prefeitos Gerhard Müller, da Congregação para a Doutrina da Fé, e Zenon Grocholewski, da Congregação para a Educação Católica. Em jogo: se a ex-PUCP deve ou não continuar a ser Pontifícia e Católica, status que lhe foi retirado pelo arcebispo de Lima, Juan Luis Cipriani, e confirmado pelo Vaticano. Situações que representam enorme desgaste.

Tendência ao centralismo e ao disciplinamento. A partir do pontificado de João Paulo II, inicia uma tendência ao centralismo, continuada e assentada por Bento XVI, mas que ignora uma novidade trazida pelo Concílio Vaticano II, a colegialidade na responsabilidade da condução da Igreja. Progressivamente, as conferências vão sendo esvaziadas, há uma submissão cada vez maior a Roma, os bispos escolhidos devem apresentar como uma de suas características a docilidade para com o que vem de Roma... Há um reforço da Igreja hierárquica em detrimento da Igreja mais horizontal, participativa. Esse modelo de Igreja não admite modelos diferentes, visões pluralistas. Neste sentido é paradigmático o processo sucessório ocorrido na Igreja San Miguel de Sucumbíos, no Equador. Igualmente sugestivo é o caso da remoção forçada de dom William M. Morris, na Austrália. Sua remoção levanta questões teológicas sobre a relação entre os bispos e o bispo de Roma.

Ao mesmo tempo, o pontífice também trabalhou o músculo disciplinar. Uma repressão de grande porte foi lançada contra a Leadership Conference for Women Religious, o principal grupo de lideranças das ordens femininas dos Estados Unidos; teólogos liberais foram censurados (Peter C. Phan, John Sobrino, entre outros), incluindo vários padres irlandeses de alto perfil (Tony Flannery) e a Ir. Margaret Farley, das Irmãs da Misericórdia, nos Estados Unidos; e o padre norte-americano Roy Bourgeois foi excomungado devido ao seu apoio à ordenação de mulheres.

Relação com a América Latina. Uma pergunta que, sem dúvida, vem à mente é esta: o que o pontificado de Bento XVI representou para a Igreja na América Latina? Em termos gerais, a Igreja no mundo está mergulhando num longo processo neoconservador. A América Latina não foge à regra. Pode-se mesmo dizer que com Bento XVI consolida-se o giro conservador iniciado por seu antecessor. Entretanto, como estava excessivamente preocupado com questões que não diziam respeito propriamente à América Latina, como é o caso, por exemplo, dos escândalos dos abusos sexuais, o seu pontificado projeta uma imagem de um papa pouco significativo para a região.

No Brasil, Bento XVI se “identificou com as aspirações básicas da Teologia da Libertação, com a crítica de um sistema econômico injusto e em colocar a Igreja do lado dos pobres, mas insistiu na primazia da fé em oposição à análise sociológica”. Esta é a análise do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr.

Interpretação do Concílio Vaticano II. Ponto nodal do pontificado de Bento XVI é a sua interpretação do Concílio Vaticano II. Mais de uma vez, o papa refere-se a esse tema. Uma vez foi no seu discurso de dia 22 de dezembro de 2005, em que o papa distinguia entre "hermenêutica da continuidade e da reforma" e "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura".

Menos de dois anos depois, no dia 24 de julho, em plenas férias, Bento XVI retorna ao assunto em um encontro com o clero de duas dioceses italianas. Aí Bento XVI fala das duas rupturas que o Vaticano II sofreu. A primeira se deu em 1968, chamada de “grande crise cultural do ocidente”. Ela seria decorrência do fracasso do projeto de modernidade que explode com “a crise da cultura ocidental”.

Desta crise, nasce o desejo da construção de grandes relatos, dentre os quais está o marxismo, citado pelo papa. Mas a segunda cesura se dá em 1989, com o desmoronamento dos regimes comunistas, que coincide com a crise dos grandes relatos. A queda abre caminho não para um “retorno à fé”, como esperava ele, mas para o niilismo, o “ceticismo total, a assim dita pós-modernidade”.

Neste novo contexto, chama para redescobrir a grande herança do Concílio que se encontra acima de tudo na humildade que se adquire diante do “Crucificado ressurgido, que tem e conserva as suas feridas”.

Para Ratzinger, que participou do Concílio como perito e assessor do cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colônia, na Alemanha, o Vaticano tivera entre as suas preocupações a relação entre a Igreja e o Estado moderno. As experiências políticas que se dão na Europa na segunda metade do século XX, especialmente as da social-democracia, acenam na direção desejada por Ratzinger, isto é, apontam para a possibilidade da relação com o Estado moderno, uma relação de aliança e de diálogo, não de confronto e negação. Ratzinger explicita isso em outra ocasião, como mostra o artigo do historiador norte-americano Joseph A. Komanchak. Diz Ratzinger: “estadistas católicos mostraram que pode existir um Estado moderno laico que, no entanto, não é neutro com respeito aos valores, mas vive retornando às grandes fontes éticas abertas pela cristandade”. Seria essa uma referência a Konrad Adenauer?, pergunta Komanchak. Em todo o caso, estas ainda são experiências cristãs. Bento XVI destacará isso na conversa com o clero italiano: “Acabara a geração do pós-guerra, uma geração que, após todas as destruições e vendo o horror da guerra, do cruel combater-se, e constatando o drama daquelas grandes ideologias que haviam realmente conduzido as pessoas para a voragem da guerra, haviam redescoberto as raízes cristãs da Europa e haviam começado a reconstruir a Europa com estas grandes inspirações”.

No entanto, se a primeira cesura não rompe com o cristianismo, a segunda o fará. Passa a imperar o niilismo, nessa que passaria a ser uma sociedade sem ética. Diante deste contexto, há alguns caminhos que podem ser tomados, caminhos que implicam em hermenêuticas diferenciadas. Para Bento XVI, há ou a hermenêutica da continuidade dos “grandes textos conciliares” ou a hermenêutica da descontinuidade. Na prática, para Bento XVI, a hermenêutica da continuidade se afirma melhor na volta para trás, ou seja, no reforço da hierarquia, na centralidade do papado e no Vaticano, na centralidade da Igreja no mundo, no retorno da missa em latim...

Mas seria essa a única hermenêutica possível?, pergunta-se Komanchak. E vai dizer que sim, mas que Bento XVI teve pouco a dizer justamente sobre a “hermenêutica da descontinuidade”, isto é, da continuidade na descontinuidade. Uma perspectiva que, segundo o historiador norte-americano, está presente na chamada Escola de Bologna que tem no historiador Giuseppe Alberigo.

Bento XVI, diz Komanchak, “simplesmente admoesta contra a ideia de que há ‘rupturas’ na história da Igreja, como se fosse possível dar à Igreja uma nova constituição, e contra a tentativa de identificar um ‘espírito do Concílio’ à parte dos textos conciliares”. Mas, acredita ele, “uma hermenêutica da descontinuidade não precisa ver ruptura por toda parte, e uma hermenêutica da reforma, por sua vez, admite algumas descontinuidades importantes”.

A crítica de Komanchak refere-se à dureza na disjunção “entre orientações hermenêuticas rivais” que se tornam muito menos “duras no decurso de sua argumentação”. As hermenêuticas contrapostas poderiam representar aquilo que os sociólogos chamam de “tipos-ideais”. “A ‘reforma’ que Bento vê como o coração da realização do Concílio é ela própria um tema de ‘novidade e continuidade’ de ‘fidelidade e dinamismo’, pois, de fato ela envolve importantes elementos de ‘descontinuidade’”, conclui.

Agora, poucos dias antes da sua renúncia, falando aos padres da diocese de Roma, Bento XVI retorna uma vez mais à questão das interpretações. Desta vez o centro do discurso está na contraposição entre "o Concílio dos Padres do Concílio, o da fé" e "o Concílio dos meios de comunicação". Aponta uma contraposição entre Concílio teológico (dos bispos, dos teólogos, dos fiéis) e Concílio sociológico (dos meios de comunicação e do "mundo", na sua acepção metafísica).

Segundo o historiador italiano Massimo Faggioli, “estamos aqui no núcleo do pensamento ratzingeriano: uma antropologia agostiniana fundamentalmente pessimista, uma Weltanschauung que vê o mundo e a Igreja como duas forças em contraposição e irreconciliáveis senão às custas da eliminação do ‘caráter cristão’ da Igreja. O Concílio Vaticano II de Ratzinger é um Concílio ainda válido na sua teologia, especialmente naquela relativa à interpretação da Palavra de Deus nas Escrituras, a teologia da constituição Dei Verbum. Mas o Concílio foi, infelizmente, desviado pela interpretação interessada que lhe foi dada pelos meios de comunicação e – sobre isso, nessa última vez em que fala sobre o assunto, Bento XVI foi misericordioso – por aqueles teólogos e católicos convictos de que o Concílio havia finalmente reaproximado Igreja e mundo”.

Chegados aos 50 anos do Concílio Vaticano II a recepção e a interpretação deste evento seguem em discussão. Para aprofundar essa discussão, remetemos o/a leitor/a à Revista IHU On-Line n. 401, de 03-09-2012, intitulada “Concílio Vaticano II. 50 anos depois.

Os “velhos-novos” desafios para o futuro pontificado

Junto com o final do pontificado de Bento XVI, a Igreja tem a oportunidade histórica de encerrar o ciclo do medo, para iniciar o ciclo da esperança nas pessoas e no futuro. Como bem lembrou o saudoso cardeal Martini: “A Igreja ficou 200 anos para trás. Como é possível que ela não se sacuda? Temos medo? Medo ao invés de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem”. Na realidade, não se sabe quando e nem o quanto das reformas emergenciais serão destravadas, mas, em momentos de transição, sempre há uma renovação da esperança no amanhã. Resta saber se a coragem vencerá o medo, o momento pode ser propício para gestos de valentia.

Citando algumas provocações propositivas do cardeal Carlo Martini, o sociólogo Luiz Alberto Gómez de Souza destacou que as mesmas, agora, tornam-se assuntos estratégicos a ser enfrentados pelo próximo papa, tais como “a posição da mulher na sociedade e na Igreja, a participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, a sexualidade, a disciplina do matrimônio, a prática do sacramento da penitência, a relação com as Igrejas irmãs da ortodoxia e, em um nível mais amplo, a necessidade de reavivar a esperança ecumênica”. Podendo, ainda, ser acrescentada a questão do fim celibato obrigatório e o reavivamento da opção preferencial pelos pobres, entre outros.

Tais reformas exigem um reordenamento institucional da Igreja católica. Na opinião do sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira, a concentração do poder nas mãos do papa e de seus séquitos imediatos, favorecem uma organização centralizada e piramidal, que não mais corresponde às necessidades de um modelo mais flexível e ágil, que trabalhe em rede.

Neste sentido, a escritora, filósofa e teóloga, Ivone Gebara, também é muito incisiva nas imprescindíveis mudanças que a Igreja necessita enfrentar. Segundo a mesma, “é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar os problemas e desafios reais que estamos vivendo”. Refletindo sobre a renúncia do Papa, Gebara afirma que esse poderia ser “um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios, tanto do ponto de vista econômico, quanto político e sociocultural, mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte”.

A questão de fundo é que a Igreja terá que enfrentar a tensão existente entre uma postura fechada e outra de diálogo com o mundo. Para Leonardo Boff, no momento em que prevalece o chamado modelo do testemunho, que não abre mão da mediação da Igreja para a salvação dos homens, surgem posições fundamentalistas, que resumem o diálogo apenas em oportunidade para “facilitar a conversão” e em “gesto de civilidade”. Em contraposição, quando se adota o modelo do diálogo, que esteve presente no Concílio Vaticano II e que sempre aproxima pessoas, abrem-se perspectivas para que a instituição saia da atual crise em que se encontra e contribua, por meio da mensagem cristã, para a superação de uma crise ecológica e social de gravíssimas dimensões.

Conjuntura da semana em frases

Bem

"Renunciei pelo bem da Igreja e também dos meus sucessores" - Bento XVI - Corriere della Sera, 17-02-2013.

Peregrino

“Não sou mais Pontífice Sumo da Igreja católica: até às oito da tarde o serei ainda, depois não mais. Sou simplesmente um peregrino que começa a última etapa da sua peregrinação sobre esta terra” – Bento XVIL’Osservatore Romano, 01-03-2013.

Obediente

"Entre vocês, integrantes do Colégio dos Cardeais, está o futuro papa, a quem prometo desde já incondicional reverência e obediência" – Bento XVIL’Osservatore Romano, 01-03-2013.

Mudanças

“Pelo inusitado da renúncia (de Bento XVI), o fato se revestiu de expectativas de mudanças na vida da Igreja. Com seu gesto, Bento XVI acabou demonstrando que é possível provocar mudanças, mesmo num aparato tão monolítico como se tornou a estrutura da instituição eclesial” – Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP – Adital, 28-02-2013.

“Parecia que o impulso renovador do Vaticano II já tivesse se esgotado. De repente, a renúncia de um Papa acaba mostrando que é possível, sim, mudar muitas coisas, que o peso da história parecia canonizar como imutáveis!” – Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP – Adital, 28-02-2013.

Inteligente ou que ouça inteligentes

“Nos dois últimos conclaves, os cardeais elegeram o mais inteligente entre eles. Queremos continuar com isso ou eleger alguém que ouça às demais pessoas inteligentes na Igreja? Um problema de eleger alguém inteligente como o cardeal Joseph Ratzinger, ou mesmo como João Paulo II, é que seus subordinados relutam em desafiá-lo. Se você acha que alguém é a pessoa mais inteligente do mundo, não o questiona, e não o protege dele mesmo. Isso colocou Bento XVI em enrascadas” – Thomas Reese, teólogo e padre jesuíta americano, pesquisador do Centro Teológico Woodstock na Universidade de Georgetown, Washington – Folha de S. Paulo, 18-02-2013.

‘Lei do Pinto Limpo’

“O papa diz que cardeais envolvidos em escândalos sexuais não participarão do conclave. É a ‘Lei do Pinto Limpo’. No Brasil, tem a ‘Lei da Ficha Limpa’. Na Itália, a Lei das ‘Mãos Limpas’. E no Vaticano, a ‘Lei do Pinto Limpo’. Sendo que nenhuma das três funciona!” – José Simão, humorista – Folha de S.Paulo, 27-02-2013.

Papado

“Eu espero um papa corajoso para realizar uma grande ‘dança das cadeiras’, não só nos altos escalões, mas também nas estruturas intermediárias, onde estão os maiores problemas. Não será fácil” – Dom Geraldo Majella, arcebispo emérito de Salvador – Jornal do Brasil, 25-02-2013.

Paciência

"É preciso paciência porque há muitas coisas delicadas a enfrentar" – Timothy Dolan, cardeal arcebispo de Nova York, pronunciando-se contra a antecipação do conclave – Folha de S. Paulo, 21-02-2013.

Problemas

"A Igreja tem aqui (no Brasil) os mesmos problemas de outros lugares, exceto que o número de católicos é maior, e o de padres, menor. O principal desafio é como lidar com as questões modernas de uma maneira honesta a transparente” – James Alison, teólogo e escritor, inglês, que vive no Brasil – Valor, 21-02-2013.

Gordura para queimar

“A Cúria Romana, os dicastérios [governo da igreja] se tornaram bastante volumosos. Tem muita coisa aí a ser reparada, muita gordura para queimar. É preciso reformar a Cúria, que se tornou muito pesada. Me refiro principalmente ao segundo escalão, o grupo intermediário, que é fixo, como se fosse de carreira” – Geraldo Majella Agnelo, cardeal, arcebispo emérito de Salvador – BA – Folha de S. Paulo, 20-02-2013.

Enganado

"O papa foi enganado por pessoas do círculo estreito dos seus colaboradores: não lhe foi permitido nem esse importante espaço de proteção e de intimidade pessoal" - Robert Zollitsch, arcebispo de Freiburg e presidente da Conferência Episcopal Alemã - La Stampa, 19-02-2013.

Conservador

"Será um outro Papa conservador. Talvez o último antes de uma grande explosão na Igreja” - Cormac Murphy-O’Connor, cardeal, arcebispo emérito de Londres, em entrevista concedida ao jornal inglês The Telegraph - Vatican Insider, 17-02-2013.

Espelho

“A renúncia do papa Bento XVI colocou a Igreja diante do espelho” – Marco Politi, vaticanista – O Estado de São Paulo, 17-02-2013.

Conversa e diálogo

"Que o sucessor de Bento XVI seja um homem de conversa e de diálogo, um pastor disposto a enfrentar e acolher os grandes problemas do mundo, a começar pelas desigualdades sociais" - José Belisário da Silva, arcebispo de São Luís (MA) e vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – O Estado de São Paulo, 17-02-2013.

Teorias conspiratórias

“Parece mais fácil entender o mistério da Santíssima Trindade do que compreender o que aconteceu na Igreja Católica. Como não há uma cobertura sistemática de religião e a situação da renúncia é quase inédita (a última ocorreu há quase 600 anos), pululam teorias conspiratórias em que mal se entende quais são os lados em disputa” – Susana Singer, jornalista, ombudsman – Folha de S. Paulo, 17-02-2013.

Nova geração

"Há uma nova geração na cúpula da Igreja Católica brasileira" – Kenneth Serbin, autor do livro "Diálogos na Sombra", sobre as relações entre a igreja e militares durante a ditadura – Folha de S. Paulo, 17-02-2013.

Bispos fortes

"Dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Câmara, entre outros bispos fortes, foram ordenados numa época de abertura da igreja. Apenas [o cardeal] dom Cláudio Hummes pertence a essa geração anterior. Os bispos mais jovens foram nomeados no papado de João Paulo II e Bento XVI” – Kenneth Serbin, autor do livro "Diálogos na Sombra", sobre as relações entre a igreja e militares durante a ditadura – Folha de S. Paulo, 17-02-2013.

Sem liderança

"Nos anos 1960 e 1970, era atuante, criava a Teologia da Libertação e estava à frente da igreja mundial. Hoje não se vê mais essa liderança" – Kenneth Serbin, autor do livro "Diálogos na Sombra", sobre as relações entre a igreja e militares durante a ditadura – Folha de S. Paulo, 17-02-2013.

Mudanças

"Mudou a história do mundo, a história do Brasil, e eles lidam com desafios diferentes. Nos anos 1960, ninguém falava de homossexualismo” – Kenneth Serbin, autor do livro "Diálogos na Sombra", sobre as relações entre a igreja e militares durante a ditadura – Folha de S. Paulo, 17-02-2013.

Culminância

“O gesto de sua renúncia se constitui na culminância do seu pontificado. Vale a pena acompanhar agora seus desdobramentos” – Demétrio Valentini, bispo de Jales, SP – Adital, 14-02-2013.

Outro perfil

“Embora tenha se mostrado autoritário, não era apegado ao cargo. Fiquei aliviado porque a igreja está sem liderança que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de papa, mais pastor que professor” – Leonardo Boff, teólogo – Folha de S. Paulo, 15-02-2013.

Carismático

"Bento XVI, que para muitos parecia seguir uma linha jurídica, adota uma posição carismática, mostrando uma Igreja, cuja alma é o Espírito Santo, que anuncia o Evangelho” – João Batista Libânio, teólogo – O Estado de São Paulo, 15-02-2013.

Abertura

“Bento XVI aponta para uma Igreja aberta para o mundo de hoje, contra a exterioridade e a superficialidade” – João Batista Libânio, teólogo – O Estado de São Paulo, 15-02-2013.

Bertone

“Acredito que Bento XVI não confie mais em seu secretário de Estado. Os dois não conseguem mais prosseguir juntos na condução da igreja no mundo” – Gianluigi Nuzzi, jornalista, autor do livro “Sua Santidade”, livro que aponta um crescente antagonismo entre o papa e o número dois do Vaticano, o secretário de Estado Tarcisio Bertone – Folha de S. Paulo, 14-02-2013.

Blocos de poder

“O papa se chocou com blocos de poder, que exigem uma reforma radical de cunho político. Isso não é próprio de um papa que é e continuará sendo um teólogo” – Gianluigi Nuzzi, jornalista, autor do livro “Sua Santidade”, livro que aponta um crescente antagonismo entre o papa e o número dois do Vaticano, o secretário de Estado Tarcisio Bertone – Folha de S. Paulo, 14-02-2013.

Berlinda

"O papa foi colocado na berlinda em relação a várias questões ao longo de seu pontificado. Ele procurou fazer o melhor para o bem da igreja, mas nem sempre foi bem interpretado" – Odilo Pedro Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo – Folha de S. Paulo, 14-02-2013.

Tristeza

“Não seria sincero se não disséssemos que há um manto de tristeza em nosso rosto” – Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano – O Estado de São Paulo, 14-02-2013.

Sinal

"A nomeação do seu (Bento XVI) secretário particular, Georg Gänswein, soou como um alarme. Nunca um secretário pontifício recebera a ordenação episcopal enquanto o Papa ainda estava vivo. Não é um acaso que Stanislaw Dziwisz, secretário de João Paulo II, somente foi consagrado arcebispo de Cracóvia com Ratzinger, e não com João Paulo II" - Luigi Bettazzi, 91 anos, bispo emérito de Ivrea, Itália - Il Resto del Carlino, Il Giorno, La Nazione, 12-02-2013.

João XXIII


"Rezo para que seja eleito um novo João XXIII" - Luigi Bettazzi, 91 anos, bispo emérito de Ivrea, Itália - Il Resto del Carlino, Il Giorno, La Nazione, 12-02-2013.

Caixa-preta


“O Vaticano é a grande caixa-preta, a maior e mais duradoura de todos os tempos” – Jânio de Freitas, jornalista – Folha de S. Paulo, 14-02-2013.

Infalível?

“Uma questão: papa aposentado continua infalível ou esta qualidade é do cargo e não do homem? A situação do novo papa pode ser parecida com a da Dilma com relação ao Lula, que mesmo afastado continua dando palpite. Guardadas, claro, as devidas proporções” – Luís Fernando Verissimo, escritor – Zero Hora, 14-02-2013.

Sarney

“Bento XVI renuncia e Sarney assume. Vai empregar toda a parentada no Vaticano!” – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 14-02-2013.

Papa progressista

“Adoro aqueles que falam: ‘Queremos um papa progressista’. Não existe papa progressista. Todo papa é contra sexo fora do casamento, contra camisinha, contra gay, contra aborto, contra o rock e contra célula-tronco! Eu quero ser católico, mas o papa não deixa” – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 14-02-2013.

Gorbachov católico


"Os conservadores terão o cuidado de não eleger um papa que se converta numa espécie de Gorbachov católico” – Hans Küng, teólogo - Radio do Sudeste da Alemanha – SWR, 12-02-2013.

Petrificados

"Ficamos todos surpresos, estupefatos, como que petrificados. Ninguém o esperava. E assim muitos estavam com os rostos molhados pelas lágrimas. O cardeal Sodano, como decano do Colégio Cardinalício, assumiu a difícil tarefa de expressar todo o nosso ageto e a nossa proximidade ao Papa" - Raffaele Farina, cardeal, prefeito emérito da Biblioteca Apostólica, narrando o que ocorreu na segunda-feira, 11-02-2013, quando Bento XVI anunciou a renúncia - La Repubblica, 13-02-2013.

Não tinha entendido

“Foi uma reunião regular e os outros temas foram tratados normalmente. De repente, ele começou a falar e eu, sinceramente, achei que não tinha entendido o que ele havia dito. Logo percebi que, sim, era verdade e que ele estava renunciando. Foi uma grande surpresa. Ninguém nunca imaginava que isso ocorreria. Como é um fato raríssimo, sentimos o peso da coisa, também pela figura que ele representa” - João Braz de Aviz, cardeal, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica do Vaticano – O Estado de S. Paulo, 13-02-2013.

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Conjuntura da Semana. Bento XVI. As primeiras avaliações de um pontificado - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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