O caso Dom Morris e a tensão entre liberdade e obediência. Entrevista especial com Paul Collins

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02 Julho 2011

A diocese de Toowoomba na Austrália abrange uma área de 488.000 quilômetros quadrados, quase uma vez e um terço o tamanho da Alemanha. Sua população é de 244.000 pessoas, das quais 26% são católicos. Seu pastor, D. William M. Morris, buscava soluções para equilibrar a balança entre o déficit de vocações e as grandes dimensões geográficas e populacionais de sua diocese. Mas foi removido pelo Vaticano em maio deste ano por defender saídas consideradas extremas, como a ordenação de mulheres e de homens casados.

O historiador e escritor australiano Paul Collins, amigo de D. Morris, analisa, nesta entrevista por e-mail à IHU On-Line, a "abordagem democrática" do bispo perante o seu povo. "A honestidade democrática, direta e franca não cai bem em Roma, onde eles transformaram o equívoco e a dissimulação em uma forma de arte, e onde a chamada "obediência’ é o valor principal".

Collins afirma que, ao longo do processo de remoção de D. Morris, a Santa Sé deu mais ouvidos aos "relatórios enviados por pequenas minorias de católicos reacionários, que, na Austrália, são muitas vezes chamados de "católicos talibãs’ ou "a polícia do templo’". "Dado que a reputação da Igreja Católica da Austrália já está em frangalhos, o caso D. Morris simplesmente aprofunda a percepção popular de que a Igreja é uma organização autoritária, injusta e opressiva, com pouco ou nada em comum com Jesus", resume.

Paul Collins é historiador e escritor de Canberra, na Austrália. É mestre em Teologia pela Harvard University e doutor em história pela Australian National University. Padre católico por 33 anos, renunciou ao ministério sacerdotal ativo em 2001, devido a uma controvérsia com o Vaticano a partir do seu livro Papal Power (1997). Também trabalhou em várias funções na TV e no rádio para a rede australiana ABC desde 1986 e durante três anos foi seu editor de religião. É autor de 12 livros e de numerosos artigos nos principais jornais e revistas da Austrália e do exterior, e escreve regularmente para diversos jornais australianos, assim como para a revista católica inglesa The Tablet, para o jornal norte-americano National Catholic Reporter e para diversas revistas da Alemanha e da Áustria. Seu livro God’s Earth foi transformado em um documentário de TV. Sua obra mais recente é Judgment Day. The struggle for life on Earth (University of NSW Press), sobre ecologia e religião.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Depois de dois meses da remoção de D. Morris, qual a sua análise desse episódio? Que sinais ele apresenta sobre a vida da Igreja?

Paul Collins – A Austrália, assim como o Brasil, é um país grande. É um pouco menor do que o Brasil, com uma massa de terra de 7,5 milhões de quilômetros quadrados. A diferença entre os dois países se encontra na população. A população da Austrália é de 22,6 milhões; a do Brasil é de 201 milhões. Menciono essas estatísticas porque elas ajudam a destacar o problema que o bispo William Morris, recentemente removido da diocese de Toowoomba, enfrentou. Aliás, pensa-se que a palavra "Toowoomba" é o termo aborígene local para "pântano". A diocese de Toowoomba abrange uma área de 488.000 quilômetros quadrados, que é quase uma vez e um terço o tamanho da Alemanha. Ela tem uma população total de 244.000 pessoas, das quais 63.000 são católicos, aproximadamente 26% da população, que é exatamente a mesma proporção de católicos de toda a população australiana.

 

"Dom Morris enfrentou uma diocese enorme, com muito poucos padres para o serviço à população dispersa"

 

É importante compreender essas estatísticas porque o problema que D. Morris enfrentou era de uma diocese enorme, com muito poucos padres para o serviço à população dispersa. Esse é o mesmo problema enfrentado por todas as dioceses rurais da Austrália. Por exemplo, a maior diocese em área do mundo católico é a diocese de Geraldton, na Austrália Ocidental, que abrange 1,3 milhão de quilômetros quadrados e tem 13 sacerdotes para oferecer a Eucaristia e os sacramentos. Dezoito das 28 dioceses territoriais da Austrália são rurais, isto é, abrangem áreas rurais não urbanas, dedicadas à agricultura ou a terras ainda em seu estado natural, geralmente com populações dispersas que vivem em fazendas, grandes ranchos ou em pequenas cidades.

Assim, enquanto no Brasil o problema é a porcentagem de padres para o povo, na Austrália, é o pequeno número de padres esperados para a vasta área do nosso país. Na Austrália, muitas vezes falamos da "tirania da distância", e não é incomum que um padre tenha que dirigir até 800 quilômetros para rezar três missas.

Na diocese de D. Morris, "há apenas uma cidade – Toowoomba – com uma população de 90.000 pessoas. O resto da diocese abrange todo a região sul do estado de Queensland.


D. William M. Morris

Pontilhada por pequenas cidades, muitas vezes a 100 ou mais quilômetros de distância, a porção oriental é um território agrícola, mas, indo para oeste, a terra torna-se mais marginal e é dedicada a grandes fazendas de gado. Finalmente, torna-se um deserto.

IHU On-Line – Uma das principais questões de fundo no caso Morris é a escassez de padres e a defesa à ordenação de mulheres e de homens casados. Quais são os fundamentos dessas propostas do bispo australiano?

Paul Collins – Morris sempre esteve sintonizado com as necessidades pastorais da sua diocese e foi um bom ouvinte. Ele sempre consultou o povo e levou as suas opiniões a sério. Durante uma década, ele foi criticado pelo Vaticano por fazer precisamente isso. Seus piores problemas começaram com uma Carta Pastoral que ele enviou a todas as pessoas em posições de liderança na diocese no dia 17 de novembro de 2006, que se seguiu a uma exaustiva consulta pastoral junto à diocese. Na Carta, ele estabeleceu um Plano de Liderança Diocesano para os próximos nove anos até a Páscoa de 2014.

A diocese enfrentava uma situação terrível. A Carta Pastoral indica que, em 2014, haverá apenas seis padres com menos de 65 anos, e oito padres com idade entre 66 e 70 anos (que têm a opção de se aposentar) engajados no ministério paroquial para servir a toda a diocese, que tem 35 paróquias. Quatro outros padres com menos de 70 anos estarão envolvidos no ministério diocesano. Em outras palavras, haverá apenas 14 padres para atender as 35 paróquias da diocese.

A Carta Pastoral, então, afirma: "Dada a nossa profunda crença no primado da Eucaristia para a identidade, a continuidade e a vida de cada comunidade paroquial, teremos que ser muito mais abertos para outras opções a fim de garantir que a Eucaristia possa ser celebrada. Como têm sido discutidas internacional, nacional e localmente, essas ideias são:

  • Ordenar homens casados, solteiros ou viúvos que sejam escolhidos e endossados pela sua comunidade paroquial local.
  • Acolher ex-padres, casados ou solteiros, de volta ao ministério ativo.
  • Ordenar mulheres, casadas ou solteiras.
  • Reconhecer as ordens anglicanas, luteranas ou da Igreja Unida.

Permanecemos comprometidos em promover ativamente as vocações ao atual sacerdócio masculino celibatário e abertos a convidar padres do exterior".

Essa carta pastoral foi quase imediatamente denunciada à Congregação dos Bispos e à Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, em Roma. Ninguém sabe ao certo quem fez a denúncia. Normalmente, grupos de católicos reacionários são os acusados, mas, como vou indicar a seguir, penso muito mais que eminentes católicos australianos estiveram envolvidos nisso.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a postura de Morris perante as reivindicações do Vaticano? Por outro lado, como o Vaticano o tratou ao longo desse processo?

Paul Collins – Eu acho que é importante delinear o que aconteceu com Morris, porque isso dá uma ideia da forma como Roma trabalha com aqueles a quem ela mira. A primeira vez em que Morris soube que estava com problemas foi pouco antes do Natal de 2006, cerca de um mês depois da publicação da Carta Pastoral. Morris recebeu uma convocação do cardeal Giovanni Battista Re, então prefeito da Congregação para os Bispos, para que ele fosse pessoalmente a Roma, em fevereiro de 2007. Morris se recusou, alegando que precisava ajudar a rezar as missas nas paróquias durante o período de Natal e que havia um padre muito doente que estava para morrer. Ele já estava planejando em ir para Roma em maio de 2007 e se ofereceu para visitar os escritórios da Congregação quando estivesse lá.

 

"Na Austrália, falamos da "tirania da distância’. Não é incomum que um padre tenha que dirigir até 800 km para rezar três missas"

 

Então, de repente, sem aviso, em abril de 2007, o arcebispo norte-americano Charles Chaput, de Denver, Colorado, apareceu como Visitador Apostólico para inspecionar e informar-se sobre a diocese. Esse arcebispo-estrela esteve em ascensão por algum tempo nos círculos eclesiásticos dos EUA. Ele se apresenta como um neoconservador político e um "intelectual" eclesiástico. Seus pontos de vista, entretanto, são prosaicos e previsíveis, particularmente quando ele discute o papel da Igreja em relação ao Estado secular. Continua sendo um mistério quais qualificações ele tinha precisamente para a sua tarefa como Visitador Apostólico de Toowoomba.

Enquanto esteve lá, ele conversou com alguns padres locais, grupos de leigos e com o pequeno grupo de críticos de Morris. Chaput ficou na diocese (lembrando, ela é maior do que a Alemanha) durante três dias e meio, e Morris disse mais tarde, no programa Compass na ABC TV, que Chaput "estava mais interessado em ver cangurus e "emus" [grandes aves que não voam típicas da Austrália] do que em qualquer outra coisa". Chaput escreveu um relatório para o Vaticano, que Morris nunca viu.

Mais tarde, quando ele estava em Roma, em maio de 2007 Morris cumpriu sua promessa de contatar Re, mas o cardeal não o recebeu. Obviamente, o relatório de Chaput foi negativo, porque, em setembro de 2007, Morris recebeu de repente uma comunicação sem assinatura da Congregação para os Bispos exigindo que ele renunciasse.

Houve ainda mais exigências de Re, em outubro de 2008, para que Morris renunciasse, ou senão, ameaçou Re, ele seria removido. Morris se manteve firme, dizendo que não podia, em consciência, renunciar. Ele pediu para ver o papa e, em junho de 2009, ele se encontrou com Bento XVI. Naquilo que Morris descreveu como um "monólogo", o Papa Ratzinger simplesmente repetiu a demanda de que ele renunciasse. Morris não estava disposto a se submeter a esse assédio [bullying].

Foram feitas exigências adicionais por Re, e então, em dezembro de 2009, Bento XVI exigiu novamente a sua renúncia, concentrando-se especificamente na questão da ordenação de mulheres e do reconhecimento da validade da ordenação anglicana e protestante. Como Morris explicou-me, "Bento XVI simplesmente me disse: "Eu contrato e eu demito!’" [I hire and I fire!]. Uma forma não muito cristã de agir. Foi nesse ponto que Morris se ofereceu para se retirar mais cedo, em maio de 2011, em vez de renunciar, o que, em consciência, ele não estava disposto a fazer.

Durante todo esse período, Morris lidou com um caso de abuso sexual que estava perante os tribunais civis envolvendo um professor leigo em uma escola primária católica de Toowoomba. O tratamento dado por Morris a esse caso foi muito elogiado pela mídia secular devido à sua abordagem aberta e eficaz. Isso está em contraste com muitos outros bispos que, muitas vezes, administram mal esse tipo de casos. Assim, o Vaticano concordou que ele permanecesse até que tivesse resolvido o caso de abuso sexual. Então, como concordado, Morris retirou-se antecipadamente no dia 2 de maio de 2011. Ele tinha 67 anos. No fim, Morris teve a última palavra quando, em uma carta pastoral à diocese, ele anunciou publicamente sua retirada antecipada sob pressão do papa. A mídia vaticana simplesmente declarou que foi "removido".

 

"Morris sempre esteve sintonizado com as necessidades pastorais da sua diocese e foi um bom ouvinte"

 

D. Morris tem todo o direito de se sentir muito ofendido. Foi-lhe negado até mesmo a justiça natural básica, e foi isso que lhe garantiu um enorme apoio entre os católicos australianos. Como ele disse, "eu nunca vi o relatório preparado pelo arcebispo Chaput, e sem o devido processo foi impossível resolver essas questões, sendo-me negada a justiça natural, sem qualquer possibilidade de defesa e advocacia apropriadas em meu favor. O Papa Bento XVI confirmou-me isso ao declarar: "O Direito Canônico não faz previsões para um processo referente a bispos, a quem o Sucessor de Pedro nomeia e pode remover do Ofício". Essa é uma situação ultrajante, e em toda a Austrália, em todos os setores da sociedade, há simpatia por Morris.

IHU On-Line – Vê-se hoje que grupos "conservadores" ou "tradicionalistas" ganham espaço e força na Igreja, além de uma maior centralização das decisões em Roma, com uma disciplina também mais rígida. A partir desse cenário, que tipo de prioridades do Vaticano fica evidente no caso Morris?

Paul Collins – Aqui é importante fazer uma pausa e perguntar quem orquestrou todo esse caso. Você não obtém uma resposta rápida em Roma, a menos que alguém importante esteja envolvido; claramente, há uma política eclesiástica australiana interna em jogo aqui. A explicação popular da mídia tem sido a de que o Vaticano respondeu aos relatórios enviados por pequenas minorias de católicos reacionários, que, na Austrália, são muitas vezes chamados de "católicos talibãs" ou "a polícia do templo". Embora eles possam ter tido alguma influência menor sobre Roma, é mais provável que tenham sido clérigos australianos influentes que moveram o Vaticano a agir.

O dedo da suspeita aponta claramente para o cardeal George Pell, arcebispo de Sydney, que é amigo pessoal tanto de Re, quanto de Chaput. Significativamente, no ano passado, Pell era um dos favoritos para suceder Re como prefeito da Congregação para os Bispos. Depois da demissão de Morris, Pell deu uma entrevista à imprensa para a Catholic News Agency (28 de maio de 2011) afirmando que "Roma foi muito paciente" com Morris. Pell alegou ainda que, "infelizmente, D. Morris se sentiu incapaz de dar esclarecimentos satisfatórios". Ele continuou dizendo que "a diocese [de Toowoomba] ficou muito dividida, e o bispo não demonstrou ser um jogador de equipe. Quero dizer, mesmo no final ele não esperou o anúncio oficial do Vaticano". Pell não ofereceu nenhuma concretização de nenhuma dessas afirmações.

Dado que a reputação da Igreja Católica da Austrália já está em frangalhos, como resultado do tratamento incompetente e inepto dado aos abusos sexuais de crianças por padres, o caso D. Morris simplesmente aprofunda a percepção popular de que a Igreja é uma organização autoritária, injusta e opressiva, com pouco ou nada em comum com Jesus. Isso minou completamente a autoridade dos bispos e levou a uma considerável perda de confiança e de fé por parte de muitos católicos – e de não católicos simpatizantes. É aí que D. Morris é visto como um dos melhores bispos do país. Ele enfrentou honestamente o problema dos abusos sexuais quando surgiu em sua diocese.

 

"O caso D. Morris aprofunda a percepção popular na Austrália de que a Igreja é uma organização autoritária, injusta e opressiva"

 

IHU On-Line – Especificamente com relação à ordenação de mulheres, Bento XVI defendeu a infalibilidade papal sobre essa questão. Como o senhor vê isso?

Paul Collins – Claramente, a questão-chave em tudo isso é a ordenação de mulheres. Em sua carta a Morris, Bento XVI diz: "O falecido Papa João Paulo II decidiu infalível e irrevogavelmente que a Igreja não tem o direito de ordenar mulheres ao sacerdócio". Essa é uma afirmação surpreendente para qualquer papa, uma vez que nenhuma das condições estabelecidas de forma inequívoca pelo Concílio Vaticano I (1870) foram cumpridas para que se emitisse uma declaração infalível.

O problema básico com a posição romana sobre a infalibilidade é que aqueles que a ela aderem têm confundido cada vez mais o ordinário com o magistério infalível. Bento XVI está se referindo claramente, em sua carta a Morris, ao chamado "magistério ordinário e universal", isto é, quando os bispos e o papa estão universalmente de acordo em propor um ensinamento que deve ser sustentado definitivamente por todos os fiéis.

Mas, como o eclesiólogo jesuíta Francis A. Sullivan afirma claramente, para que algo seja ensinado definitivamente, deve-se demonstrar que "a tradição se manteve constante, e que ainda hoje o corpo universal dos bispos católicos ensina a mesma doutrina como algo a ser definitivamente sustentado". Mas como você pode demonstrar isso? Sullivan diz que:

  1. bispos do mundo devem ser consultados;
  2. o ensinamento deve ser "sustentado pelo consenso universal e constante dos teólogos católicos como algo que deve pertencer à fé;
  3. e, finalmente, que esse ensinamento se manifesta "pela adesão comum dos fiéis de Cristo" (Francis Sullivan, Guideposts from Catholic tradition. Infallibility doctrine invoked in statement against ordination [of women] by Congregation for the Doctrine of the Faith, The Tablet, dezembro de 1995, p. 1.646).

À luz dessas declarações da maior autoridade teológica sobre o magistério, a declaração de Bento XVI em sua carta a D. Morris deve ser tomada com um pouco de ceticismo. Nenhuma dessas três condições essenciais foi cumprida em relação à ordenação de mulheres. De fato, a maioria dos fiéis e dos teólogos católicos, pelo menos no mundo desenvolvido, apoiam a ordenação de mulheres. Certamente, na Austrália, uma considerável minoria dos bispos também a apoia.

Assim, o fato de Bento XVI afirmar que a ordenação de mulheres está excluída com base no "magistério ordinário e universal" é contradizer uma doutrina claramente estabelecida sobre a autoridade do magistério a ensinar, e também mostra, a meu ver, uma grave irresponsabilidade. Isso também significa que a tentativa de parar a discussão sobre essa questão também não tem a menor justificativa. É esse tipo de comportamento que afasta cada vez mais os católicos instruídos e os leva a tratar todas as alegações de infalibilidade com considerável ceticismo.

IHU On-Line – Alguns analistas apontam que o caso de D. Morris levanta a questão da relação entre o bispo, enquanto pastor do seu povo, e o papa, bispo de Roma, primus inter pares. Como o senhor analisa essa relação hoje? Que aspectos poderiam ser aprimorados?

Paul Collins – Isso nos leva a outra das diferenças entre D. Morris, e Bento XVI e o Vaticano. Morris acreditava que era seu dever como bispo consultar os leigos, conversar com eles e ouvi-los, pedindo sua opinião honesta sobre uma série de questões. Um assunto que causou um considerável atrito anterior entre Morris e o Vaticano foi o uso do "Terceiro Rito da Confissão", ou seja, uma confissão genérica do pecado pela comunidade, seguida pela absolvição geral, sem a confissão individual, um a um, com um padre. Isso foi amplamente utilizado na Austrália na década de 1990 e levou a conflitos com Roma.

 

"Disse D. Morris: `Eu havia dado às pessoas liberdade para falar, e eles [o Vaticano de Bento XVI] não queriam isso`"

 

Morris foi um dos que, depois de consultar o seu povo, apoiou essa forma do sacramento. Para o Vaticano, isso era anátema. Mas ainda pior a partir de seu ponto de vista era a sua tendência de consultar os leigos. Como Morris disse à ABC TV, "eu havia dado às pessoas uma liberdade para falar, e eles [o Vaticano de Bento XVI] não queriam isso".

Dessa forma, Morris foi muito australiano. Com a quarta tradição democrática mais longa e sem interrupções do mundo, os australianos tendem a dar a sua opinião, não importa quão poderosos ou importantes são aqueles que estão no lado do receptor. Um elemento real na popularidade de Morris em sua diocese foi a sua abordagem democrática. Mas a honestidade democrática, direta e franca não cai bem em Roma, onde eles transformaram o equívoco e a dissimulação em uma forma de arte, e onde a chamada "obediência" é o valor principal.

Também houve uma forte percepção no Vaticano e na opinião de Bento XVI de que a Austrália era um país virulentamente "secular" e sem Deus, no qual o catolicismo estava morrendo. No entanto, todas as evidências sociológicas são de os que australianos são consideravelmente mais "espirituais" e interessados pelo sentido último e pela transcendência do que os religiosamente pomposos norte-americanos ou o profundamente secularizado Reino Unido.

Recentemente, na influente revista britânica católica The Tablet (4 de junho de 2011), Elena Curti apontou que os dois países onde há uma oposição aberta ao Vaticano são a Alemanha e a Austrália. Isso é compreensível na Alemanha, com uma longa tradição de ensino teológico nas universidades seculares, que criou uma massa crítica de católicos informados, qualificados e articulados. Na Austrália, a situação é diferente.

Aqui, a resistência ao Vaticano tem mais a ver com o fato de que os católicos australianos são geralmente bem instruídos, valorizam a conversa franca, suspeitam da autoridade e, em uma sociedade vigorosamente pluralista com uma mídia livre, nós aprendemos a viver e a respeitar pontos de vista diferentes dos nossos. Os australianos são totalmente intolerantes com aqueles – como o Vaticano – que não discutem as suas opiniões, mas tentam impô-las por meio da dominação e da força – como pela proibição de discussão sobre a ordenação de mulheres.

 

"A honestidade democrática, direta e franca não cai bem em Roma"


IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre o futuro do sacerdócio e da Eucaristia, levando-se em consideração episódios como o de D. Morris? Que Igreja do futuro nos espera?

Paul Collins – No coração da diferença entre D. Morris e o Vaticano de Bento XVI está a questão do ministério. Toda a abordagem de Morris em Toowoomba foi determinada pelas necessidades do ministério. Como a diocese poderia oferecer a Eucaristia e os sacramentos para os católicos da diocese? Como a Igreja poderia comunicar eficazmente a pessoa e o ensinamento de Jesus? Como a energia ministerial dos leigos poderia ser liberada? E à luz da aguda escassez de padres celibatários, como a diocese poderia encontrar presbíteros ordenados para preencher as lacunas?

De certa forma, a tentativa de Morris de liberar a energia ministerial da comunidade é a maior ameaça de todas à ideologia do controle que caracteriza o atual governo papal. Também é uma ameaça aos bispos e hierarcas que ainda pensam possuir a Igreja completamente. Morris vê a Igreja como um povo peregrino que luta para realizar o reino de Deus dentro das realidades do mundo contemporâneo e uma democracia pluralista moderna.

Em contraste, o Vaticano de Bento XVI deseja estabelecer uma espécie de agenda restauracionista, em que eles tentam ressuscitar a Igreja pré-Vaticano II. No fim, isso será impossível, porque a história mudou, e nós não vivemos na década de 1940 e 1950. Isso também vai resultar não só em uma espécie de catolicismo de gueto, mas também em algo pior – uma seita.

O perigo desse tipo de mentalidade sectária foi destacada em 2001 pelo teólogo John May, ao comentar sobre o documento Dominus Jesus emitido por Ratzinger, quando ele estava na Congregação para a Doutrina da Fé. May comentou que "não há nenhuma razão, em princípio, por que a Igreja Católica Romana, apesar do seu tamanho enorme e da sua presença global, não possa se tornar uma seita. O sectarismo é questão de atitude, não de tamanho" (The Journal of the College Theology Society, 28 (2001), p. 271-293).

Edward Schillebeeckx alertou sobre a mesma coisa, quando disse que há um perigo real de a Igreja se tornar uma espécie de "pequeno rebanho" ou um "resto santo".

Se permitirmos que isso aconteça, teremos traído Jesus, que nos disse para ir a todas as nações, e não para formar uma seita confortável.

(Por Moisés Sbardelotto)

 

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