O relatório da Igreja na França: 13 abusos contra menores por dia durante 70 anos

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07 Outubro 2021

 

"Je n'ai rien qu'aujourd'hui", costumava repetir a santa francesa Teresa de Lisieux, e hoje a igreja francesa só tem o presente para acertar as contas com o seu passado e futuro após a publicação do relatório Sauvé: 2.500 páginas elaboradas em dois anos e meio, que relatam preto no branco o dramático balanço da Igreja francesa dos anos 1950 até os dias de hoje. Treze abusos por dia durante 70 anos.

A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 06-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Hoje, a esperança anunciada pelo Evangelho rompe-se com as palavras desalentadas da Irmã Veronique Margron, presidente da Conferência dos Religiosos e Religiosas da França: “Como superar tudo isso? Não sei". Uma geração inteira de bispos sai irremediavelmente afetada por sua própria negligente responsabilidade.

Fala com exclusividade sobre o tema Astrid Kaptijn da Ciase, a Comissão de Abusos independente formada por 22 membros entre teólogos, magistrados e psiquiatras - nem todos crentes -, que redigiu o relatório: “O número de agressores corresponde mais ou menos ao que já sabemos pelas Comissões de outros países. O que chama a atenção, porém, é o número de vítimas incrivelmente alto”, admite.

Poucos dias atrás, Monsenhor Eric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal francesa, usou palavras duras: “A extensão do fenômeno é maior do que poderíamos temer”. Palavras que se transformam em pedregulhos na boca das vítimas: "Precisam pagar por todos esses crimes", frisou na segunda-feira François Deveaux, cofundador da associação La Parole Libérée, uma das primeiras vítimas ouvidas.

 

392 vítimas por mês durante 70 anos

 

Jean-Marc Sauvé, ex-membro do Conselho de Estado e presidente da Ciase, definiu os números do relatório como "extraordinários". Os menores abusados por pessoas consagradas em setenta anos variam de 216 mil a 330 mil: “Números que de forma alguma podem ficar sem consequências e exigem medidas muito fortes”, acrescentou Sauvé, que ressaltou como os ambientes eclesiásticos têm registado uma prevalência de violências sexuais maiores do que outros ambientes de socialização, como as escolas e as colônias de férias.

80% das vítimas são garotos com idades entre 10 e 13 anos. Para a Ciase, a alta incidência de vítimas do sexo masculino em comparação com as do sexo feminino, em parte pode ser explicada pelo chamado "efeito oportunidade" em ambientes predatórios como oratórios e sacristias, por outro lado não explicaria totalmente essa peculiaridade, e a Igreja Católica deveria enfrentar o tema. Entre os termos que apareceram durante a coletiva de imprensa da última segunda-feira está o de "agressão sexual": em setenta anos, o número de agressores na igreja oscila entre 2.900 e 3.200 pedófilos de um total de 115.000 clérigos e religiosos no país.

Mas as palavras de Sauvé são também um ato de acusação às instituições eclesiásticas: "A Igreja não soube ver, não soube escutar", declarou, apontando para a "extrema confusão do direito canônico sobre as responsabilidades do bispo", dividido entre a aplicação das penas, promoção da justiça e gestão dos recursos humanos na diocese. Em um exame do direito canônico, a Ciase observa também a ausência da vítima de abuso dentro dos procedimentos do direito canônico. A responsabilidade da Igreja justapõe-se, assim, à dívida que "contraiu para com as vítimas". Por isso, a Comissão convida e evita considerar os ressarcimentos como dons da Igreja: "É um ato devido", portanto não pode ser fixo.

 

Isolados como em Chernobyl

 

“O que chama a atenção é a relação entre o número de agressores e o de vítimas, porque são realmente muitas para cada agressor”, enfatiza Astrid Kaptijn. Além do escândalo, no relatório são marcantes os testemunhos, os rostos imersos no silêncio de famílias que anularam a si mesmas diante do papel social dos sacerdotes. Muitas vítimas decidiram falar depois de cinquenta anos de silêncio: "Eu gostaria de me cercar de uma estrutura de contenção como Chernobyl, trancar aí uma parte inteira da minha história como para me libertar e ficar sem respirar", revela uma vítima, hoje diretor aposentado.

Página após página, no relatório, ganha cada vez mais corpo a dimensão transversal do mal, que penetra nos recessos da psique, por vezes sem ter um nome: “Não é preciso ficar deprimidos. Diante de algo tão grande a ser revelado, larga-se tudo como se afasta uma pedrinha, admite outra vítima. As centenas de audições coletadas em dois anos também contam a história de um passado difícil. Uma vítima, Martin, admite: “Há uma idade em que podemos voltar a essas questões sem causar danos, porque o dano já foi feito. Não piora mais, muito pelo contrário", explica com uma lucidez toldada de culpa, o verdadeiro triste fio vermelho que liga todas as vítimas, cujos silêncios foram costurados com grande habilidade por personalidades que tinham um domínio sobre as suas consciências de menores no limiar da puberdade, monstros muitas vezes acolhidos em casa ou nas escolas.

Há falsas promessas de amor declaradas diante dos tabernáculos, negações que ecoam uma confiança traída: "No abuso existe essa mistura com o lado religioso, com a parte mais profunda de um ser humano, e acho isso abjeto", confessa uma mulher, abusada pelo sacerdote de sua paróquia quando ainda era menor e nada sabia sobre sexualidade.

 

Padres cada vez mais sozinhos

 

A imagem dos clérigos e religiosos franceses sai irremediavelmente comprometida: “Há muito para mudar e melhorar. Quando se trata de estruturas em nível episcopal ou diocesano, cabe aos bispos franceses, assim como a formação dos seminaristas, que poderia ser melhorada. Uma mudança de mentalidade seria sair do clericalismo: isso é possível também na França, mas certamente requer mais tempo, porque se trata de um processo lento”, explica Astrid Kaptijn.

Hoje, o estado de saúde da igreja francesa não é bom. De acordo com um levantamento realizado no ano passado pelo Conselho Permanente da Conferência Episcopal francesa, de um terço dos padres que dela participaram, a metade declarou que vive sozinha e 40% se percebem como não realizados. A situação de mal-estar mesmo nos presbíteros mais jovens traduz-se em sintomas depressivos, mencionados por 20 por cento dos padres que vivem sozinhos, muitas vezes expressos no consumo abusivo de álcool (dois em cada cinco) ou em desordens alimentares (seis em cada dez).

As duas iniciativas da Conferência Episcopal francesa – o levantamento e a comissão sobre os abusos - refletem o desejo de combater os males crônicos da instituição. Apesar do caminho difícil a que os abusos levaram a igreja francesa, Astrid Kaptijn continua otimista: “Certamente há algumas coisas que são muito difíceis de ouvir e aceitar, mas estou convencida de que este pode ser um momento decisivo para a Igreja. É um momento crítico e delicado, mas ao mesmo tempo uma oportunidade. E tenho a certeza de que a Igreja dispõe de fontes e recursos para melhorar a situação: é uma questão de vontade”.

 

Ponto de viragem

 

Guillaume Cuchet, professor de história contemporânea na Universidade de Paris-Est Créteil e autor do recente livro "O catolicismo ainda tem futuro na França?", estudou profundamente o colapso da religião na França a partir de meados da década de 1960, e hoje traça uma tendência: "O lugar do catolicismo na sociedade francesa diminuiu significativamente: em 1965, 25 por cento dos adultos frequentavam a missa aos domingos, hoje menos de 2 por cento", explica ao Domani.

Para o editorialista do Le Figaro, trata-se "de uma tendência comum aos países da Europa ocidental. De um modo geral, pode-se admitir que países como França e Bélgica sejam mais secularizados do que Itália ou Portugal. Naturalmente, a atual crise dos abusos sexuais na igreja complica ainda mais a situação", acrescenta. Para uma das vítimas que quis se manter anônima, dois anos atrás começou o" momento de demolição" de toda a igreja católica.

Astrid Kaptijn sondou o seu e outros sofrimentos, reconhecendo a dimensão em todas as histórias misturadas de confiança traída e silêncio cúmplice: “Nestes dois anos descobri que todas as vítimas têm uma grande dignidade. Em cada história havia algo que me impressionou ou me desafiou: a duração do abuso, a natureza sistêmica, o funcionamento da memória e sua confiabilidade, o medo de se tornar por sua vez agressores. Hoje o medo tem um peso evidente. Cabe à igreja ouvir essa cruz que ela mesmo fabricou.

 

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