“O que nos diz, hoje, o Inácio da Autobiografia? Artigo de Pedro Trigo, SJ

Fonte: Pixnio

17 Junho 2021

 

“Se estamos acomodados, não seguimos a Jesus: não agimos como filhos, mas como membros dessa ordem estabelecida. Este é o sentido, realmente transcendente e exemplar, de que Inácio chame a si mesmo de 'peregrino', em sua Autobiografia”, escreve Pedro Trigo, padre jesuíta de origem espanhola, naturalizado venezuelano, em artigo intitulado "Ignacio hoy”: Si Ignacio viviera hoy, ¿cuáles serían sus propuestas de actuación y sus recomendaciones para el abordaje de la problemática social en nuestro continente?, compartilhado em sua exposição à Rede de Centros Sociais da Conferência de Provinciais Jesuítas na América Latina e CaribeCPAL, no dia 02 de junho de 2021, em alusão ao Ano Inaciano.

Abaixo, segue a primeira parte de seu artigo, publicada pela CPAL, 07-06-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o texto.

 

Este ano inaciano tem a ver com a conversão de Inácio, que aconteceu devido ao ferimento que sofreu com uma bala de canhão [1], quando defendia Pamplona das tropas francesas. O ferimento atingiu um joelho e destroçou o outro. Aconteceu há cinco séculos: no dia 20 de maio de 1521. Acreditamos, portanto, que o que fizermos neste Ano Inaciano precisa estar realçado pelo que, concretamente, significou a sua conversão e pelo caminho de discernimento que a pauta.

Conforme ele expõe na Autobiografia, este caminho tem duas etapas: a primeira vai de Loyola, onde passou sua convalescença e ocorreu sua conversão, até Jerusalém, onde pensava em permanecer nos lugares onde Jesus viveu, alimentando-se de sua presença latente e ajudando as almas; e a segunda começa em Barcelona, ao se perguntar sobre o que Deus lhe pede, já que não foi sua vontade que ele permanecesse na terra de Jesus, como pensava em fazer. E na medida em que vai respondendo, vai direcionando definitivamente a sua vida.

A primeira etapa está centrada em Jesus de Nazaré. Dela brotam os Exercícios Espirituais, e abarca, de modo mais geral, “ajudar as almas” para que possam fazer um processo equivalente ao que ele estava fazendo. É possibilitada pelos dois livros que leu em sua convalescença: a Vita Christi, de Ludolfo de Saxónia – O Cartuxo, traduzida por Ambrosio Montesino [2], e o Flos Sanctorum, de Jacobo de la Vorágine [3].

Na segunda etapa, Inácio se propõe a estudar para melhor ajudar as almas e o objetivo desta ajuda é mantido, ainda que se complexifique muitíssimo. Justamente para este objetivo, reúne um grupo de companheiros [4], através da prática dos Exercícios Espirituais, e deles surgirá a Companhia de Jesus. Como se nota, o nome expressa o laço de união entre eles, que é Jesus, e o objetivo, que é participar de sua missão como seus companheiros [5].

A celebração deveria, portanto, relançar o que nestas vivências é transcendente. O que está relatado na Autobiografia é o que o próprio Inácio avaliou o que era. Eu também penso que fundamentalmente é assim. Isto é o que iremos desenvolver brevemente.

 

Logo do Ano Inaciano.

 

O Peregrino pede para não nos acomodarmos

A primeira coisa que teríamos que considerar é que, para Santo Inácio, a conversão o coloca na condição de “peregrino”, já que é assim que sempre denomina a si mesmo [6]. Assim como Jesus, que ao ir em missão deixou casa, família e ofício e viveu no caminho, sem ter onde reclinar a cabeça (Lc 9,58).

Agora, Jesus esteve em caminhada para viver de relações: para semear a fraternidade das filhas e filhos de Deus. Do mesmo modo agiu o peregrino.

Assim tinha que ser, se está correto que as pessoas divinas são relações subsistentes [7], ou seja, se o que subsiste no Deus de Jesus e, portanto, no Deus cristão, não é a substância, o monarca divino, o mandachuva, mas as relações que diferenciam (Pai, Filho e Espírito) e mantêm unidos (um só Deus verdadeiro).

Na ordem estabelecida, o absoluto é o indivíduo e nele o saber, o ter e o poder, e as relações não são personalizadas, mas são para vender, comprar e consumir.

A pergunta é se cada um de nós e cada obra em que estamos se acomodou ou está fundamentalmente aberto e aberta, porque vivemos de relações que são personalizadas. Esta abertura de base tanto tem a ver com o fato de que a nossa realidade está sempre em processo [8], como com que o reinado de Deus, que se expressa em relações, não pode viver de rendas, mas precisa se realizar constantemente: expressa-se em relações atuais. Ser filho de Deus no Filho não é somente considerar assim a si mesmo, mas sempre se relacionar consigo mesmo, com os outros e, claro, com Deus como filho no Filho.

Isto precisa ser discernido por cada pessoa, cada comunidade, cada obra. Se estamos acomodados, não seguimos a Jesus: não agimos como filhos, mas como membros dessa ordem estabelecida. Este é o sentido, realmente transcendente e exemplar, de que Inácio chame a si mesmo de “peregrino”, em sua Autobiografia.

Para a Companhia de Jesus, a maior tentação foi e continua sendo a de se entender, de fato, como parte do melhor da ordem estabelecida. O problema é que esta realidade nunca irá aflorar em nossa consciência. Sempre diremos a nós mesmos que somos companheiros de Jesus, dedicados à maior glória de Deus e ao bem dos outros.

Ver que se está acomodado quando se está na direção dominante desta figura histórica, exige um enorme discernimento, porque a acomodação em nível mundial sempre está em marcha e cada dia de forma mais vertiginosa, a partir de um presente desistoricizado que se amplia sem cessar, ou seja, a partir das mesmas coordenadas inalteráveis: o individualismo, o ter e o poder, o mundo equiparado a um mercado.

Estar empenhado em iluminar uma alternativa de superação que nos inclua, ou seja, não como meros agentes, mas como envolvidos pessoalmente, é uma atitude realmente transcendente, que não pode ser simplesmente conjecturada, e que precisa se convalidar de algum modo.

O que precisamos averiguar é quais são as nossas relações reais e analisar o seu conteúdo. No modo acomodado de viver, a transcendência consiste em não ser medíocre, mas o melhor do estabelecido, sem o que está ruim nele e sem se contentar com o que é pouco no estabelecido. Nessa direção vital, o magis se reduz a isto: aspirar às melhores qualificações e ao maior reconhecimento, com base no maior serviço, dentro dos cânones estabelecidos.

Este é o motivo pelo qual Nadal e Polanco, ao ter pedido com tanta insistência a Inácio que escrevesse como Deus foi lhe guiando, reforçando que se tratava nada menos do que concluir a fundação da Companhia [9], quando viram o manuscrito não o publicaram e ficou inédito, pois para eles o “peregrino” não era o jesuíta que tinham em mente, nem o que queriam ser [10]. Eles tinham em mente uma pessoa de enorme prestígio e influência por representar o melhor do estabelecido, esforçando-se o máximo possível para isso.

Por isso, Francisco de Borja mandou recolher todos os exemplares, porque a biografia oficial tinha que ser a escrita por Ribadeneira [11], que afirmava que a Autobiografia era “imperfeita” [12]. Parece incrível esta falta de respeito, mas aponta como ficou estabelecida, na sequência, a imagem do jesuíta como uma pessoa importante, que é totalmente o oposto a um peregrino [13].

É possível lutar contra a ordem estabelecida para criar outra que consideramos melhor, na qual nós tenhamos, junto a outros, a voz imperante. Isso não seria “não viver acomodados”, já que é combater a presente acomodação para nos instalar em outra melhor e na qual tenhamos o melhor lugar.

Ser como o peregrino que foi Inácio, e mais ainda Jesus, insistimos, é viver nas relações de seguidores de Jesus e, em seu coração, na relação de filhos do Pai, no Filho, e de irmãos de todos, no Irmão universal.

Por isso, para Inácio, a prova de que vivia dessas relações foi deixar não só as coisas, mas as relações estabelecidas, para viver como filho e irmão, e exercitar a fundo essas relações que acabaram moldando-o. Este foi o sentido, por exemplo, de ir para a Terra Santa sem nada. Agiu assim para fazer, em termos zubirianos, “a provação física de Deus” [14], ou seja, viver de fato da fé nele, da esperança nele e do amor dele e da correspondência a seu amor.

Assim o expressa: “ele desejava ter três virtudes: a caridade, a e a esperança; e levando um companheiro, quando tivesse fome, esperaria ajuda dele; e quando caísse, que o ajudasse a levantar; e assim também confiaria nele e teria afeição a estes aspectos; e desejava ter esta confiança, afeição e esperança só em Deus. E isto, que dizia desta maneira, sentia assim em seu coração” [15].

Este discernimento, à luz da Autobiografia, parece-me a coisa mais radical que está nos pedindo o Deus de Jesus e o Peregrino ao qual nós, jesuítas, nos remetemos. É o discernimento mais radical, porque apenas se não vivermos acomodados poderemos propor realmente uma alternativa de superação e nos dirigir a ela. Em qualquer outro caso, em definitivo, vivemos do ambiente e, por isso, poderemos nos desprender dele ideologicamente, mas não verdadeiramente.

Este é o problema de grande parte da esquerda que ao ter aceitado a separação entre o público e o privado, proposta e praticada pela modernidade [16], e ter restringido o privado ao arbítrio de cada um, fixou-se meramente no público, não cultivou a própria pessoa [17] e, por isso, carece de consistência interna e acaba se corrompendo e pactuando.

Para ler o texto na íntegra, em espanhol, acesse aqui.

 

Notas

[1] Inácio, na Autobiografia, a chama de ‘bombarda’, que segundo o dicionário de antiguidades significa “Máquina militar de metal ou tiro de artilharia antigo de grande calibre, que pelo grande barulho que faz ao disparar, pôde se chamar assim do grego ‘Bombos’. Mas é mais aceitável que tenha recebido este nome pelo fato do uso ter vindo de canhões da Lombardia, e em nossos cronistas se chama Lombarda”;

[2] Publicada, adaptada ao castelhano moderno, por Libros Encasa, Málaga 2010. La vida de Cristo: fielmente recogida del evangelio y de los santos padres y doctores de la iglesia’, de Ludolfo de Saxónia (Emilio. Del Río, Traductor). Madrid: Instituto Historicum Societatis Iesu; Universidade Pontifícia Comillas, 2010;

[3] O Flos Sanctorum renascentista é datado em 1516, embora o original seja do século XIII;

[4] “…como neste tempo da prisão de Salamanca, para ele não faltava os mesmos desejos que tinha de aproveitar as almas, e para isso estudar primeiro e reunir alguns com o mesmo propósito, e conservar os que tinha. Determinado a ir para Paris, combinou com eles que o aguardassem lá, e que ele iria para ver se conseguiria encontrar um modo para que eles pudessem estudar” (Autobiografia, nº 71); “Neste tempo, conversava com Pedro Fabro, com Francisco Xavier, que depois ganhou para o serviço de Deus por meio dos Exercícios (n° 82);

[5] Disse Polanco: “visto que não tinham cabeça nenhuma entre si, nem outro propósito a não ser Jesus Cristo a quem só desejavam servir, consideraram assumir o nome do que tinham por cabeça” (Iparraguirre/Dalmases, Obras completas de san Ignacio de Loyola. BAC, Madrid 1977, 444 nota 3);

[6] Por isso, Rambla intitula sua edição da Autobiografia, El Peregrino. Mensajero. Sal Terrae 1998;

[7] Santo Tomás, Suma Teológica, p. I, q.40, a.2 ;

[8] “O modo humano de ser é ser sendo” (Zubiri);

[9] A expressão é de Cámara;

[10] No seu prólogo, que aparece na publicação de Rambla (pgs.143-144), expressa como foi insistentemente interpelado, mas não disse sequer uma palavra se o escrito corresponde às suas expectativas, coisa que resultaria óbvio esperar;

[11] Vida del bienaventurado Padre Ignacio de Loyola, fundador de la religión de la Compañía de Jesús, pelo Padre Pedro de Ribadeneira. Foi redigida primeiramente em latim (1572) e depois em castelhano (1583);

[12] Rambla, oct. pg. 16;

[13] Isto foi o mesmo que havia acontecido com a vida de São Francisco de Assis. Boaventura, sendo superior geral dos franciscanos, mandou recolher a biografia escrita por Celano e o que havia de anotações do santo, para que a biografia que ele escreveu transmitisse a imagem canônica do santo, ou seja, o retrato ideal de um franciscano e não tanto de Francisco de Assis. Embora, obviamente, para ele era o mesmo;

[14] El hombre y Dios. Alianza, Madrid 1988, 134-164;

[15] Autobiografia n° 35;

[16] Faz pleno sentido a distinção, mas não a separação e menos ainda restringir o privado ao arbítrio de cada um e, por isso, não cultivá-lo sistematicamente na educação e ambientalmente;

[17] Inclusive, chegou-se a dizer que insistir no cultivo pessoal para se unificar internamente em torno do mais genuíno era um desvio pequeno burguês.

 

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