"Audácia, imaginação e coragem": a Companhia de Jesus do futuro. Entrevista com Adolfo Nicolás

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26 Agosto 2016

"O jesuíta deve ter três cheiros: de ovelha, ou seja, da vivência da sua gente, da sua comunidade; de biblioteca, isto é, da sua reflexão profunda; e de futuro, isto é, de uma abertura radical à surpresa de Deus", afirma Adolfo Nicolás, Superior Geral da Companhia de Jesus, em entrevista concedida ao jesuíta italiano Antonio Spadaro, publicada na última edição da revista La Civiltà Cattolica.

Segundo Nicolás, "os desafios da Companhia de Jesus são os mesmos da humanidade (...). A nossa pergunta é: como nos dirigimos a esses desafios? Hoje, precisamos de audácia, imaginação e coragem para enfrentar a nossa missão como parte da missão maior de Deus em relação ao nosso mundo."

Uma síntese da entrevista foi publicada no jornal Corriere della Sera, 25-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor viveu em primeira pessoa os dois Sínodos sobre a família. Notou diferenças em relação aos Sínodos anteriores dos quais participou?

O papa disse que, no Sínodo, não queria se ver caminhando à frente sozinho, mas com os bispos. Não há a menor dúvida de que o papa pode prosseguir sozinho, mais rapidamente, e tomar decisões que sempre serão bem acolhidas na Igreja. Mas ele não quis fazer isso, para valorizar a contribuição de todos. Portanto, é uma pena que ele não receba o mesmo respeito de alguns daqueles que, na Igreja, são postos no comando para guiar os fiéis com a palavra e com o exemplo. Para que o ensinamento do papa seja uma realidade viva, é preciso mudar a formação do clero em uma formação ao discernimento.

Qual é a perspectiva justa para se olhar o fenômeno das migrações?

Devemos sempre lembrar que a comunicação entre as várias civilizações ocorre justamente através dos refugiados e dos migrantes. O mundo que conhecemos se desenvolveu assim. Não se tratou apenas de acrescentar culturas a culturas: ocorreu um verdadeiro intercâmbio. Os migrantes nos deram o mundo, sem o qual estaríamos fechados dentro da nossa cultura, convivendo com nossos preconceitos e os nossos limites.

Mas isso não implica ver o mundo de forma diferente?

Chegou o momento em que se deve pensar a humanidade como uma unidade e não como um conjunto de muitos países separados entre si com as suas tradições, as suas culturas e os seus preconceitos. É necessário que se pense em uma humanidade que precisa de Deus e que precisa de um tipo de profundidade que só pode vir da união de todos.

Durante a entrevista concedida à La Civiltà Cattolica em 2013, o Papa Francisco me disse que "o jesuíta deve ser uma pessoa de pensamento incompleto, de pensamento aberto". O que significa para você?

O elogio da liberdade interior: não importa nada mais do que a vontade de Deus. Somos todos buscadores e somos sempre impulsionados a discernir onde está a vontade de Deus (...). O nosso pensamento é sempre "incompleto", aberto a novos dados, a novas compreensões, a novos juízos sobre a verdade etc. Temos muito a aprender com o silêncio da humildade, da simples discrição. O jesuíta, como eu disse uma vez na África, deve ter três cheiros: de ovelha, ou seja, da vivência da sua gente, da sua comunidade; de biblioteca, isto é, da sua reflexão profunda; e de futuro, isto é, de uma abertura radical à surpresa de Deus.

Você gosta muito do Japão. O que a missão nesse grande país, nessa cultura, pode nos ensinar, hoje, a todos?

A sensibilidade musical. Os japoneses estão entre as pessoas mais musicais do mundo. A religião é muito mais semelhante a esse sentido musical do que a um sistema racional de ensinamentos e explicações. Os japoneses – graças também às raízes do budismo – vivem uma sensibilidade profunda, uma abertura às dimensões da transcendência, da gratuidade, da beleza que subjazem às nossas experiências humanas. Mas, naturalmente, essa é uma sensibilidade que está ameaçada hoje por uma mentalidade puramente econômica ou materialista. A missão hoje no Japão e na Ásia pode nos ajudar a descobrir, ou a redescobrir, a sensibilidade religiosa como sentido musical. A Ásia é uma fonte de esperança.

Quais são as "periferias" apontadas por Francisco aos jesuítas? Como você imagina a Companhia de Jesus do futuro?

Eu sempre estive convencido de que os desafios da Companhia de Jesus são os mesmos da humanidade (...). A nossa pergunta é: como nos dirigimos a esses desafios? Hoje, precisamos de audácia, imaginação e coragem para enfrentar a nossa missão como parte da missão maior de Deus em relação ao nosso mundo. E eu também acredito que as características de uma revista tão especial como a La Civiltà Cattolica, hoje e em vista ao futuro, devem ser: abertura a novos acontecimentos, novas ideias, novos estilos, diversidade de culturas, valores, perspectivas; (...) antecipar, em vez de seguir, a sociedade e a modernidade; continuar oferecendo perspectivas a grupos humanos que se preocupam com o futuro; enfrentar os desafios do momento presente, especialmente a falta de alegria, de esperança e de sentido.

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