“Ver perfeitamente”. O que a conversão de Santo Inácio pode nos ensinar 500 anos depois

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01 Mai 2021

 

“Celebrar um jubileu reforça nossa esperança que as coisas podem mudar para melhor. O doente pode ser curado. A paz pode ser restaurada. A alegria do Evangelho pode florescer. Os reis da Espanha, França e Baviera estão aptos a deixarem suas rivalidades sangrentas de lado para canonizar Santo Inácio. Como eles, os cristãos podem ajudar a construir uma comunidade de paz global e criar novas redes de solidariedade e amizade para a grande glória de Deus e o serviço aos mais pobres. Ver novas todas as coisas é renovar nosso compromisso com a visão original de Inácio de desenvolvimento espiritual, amor e serviço da Igreja e sociedade”, escreve Jean Luc Enyegue, jesuíta camaronês, diretor do Instituto Histórico Jesuíta de Nairóbi, Quênia, em artigo publicado por America, 22-04-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Em 1597, no mesmo dia que ela ficaria completamente cega, uma mulher de Mallorca chamada Noguere foi tocada pelas relíquias de Santo Inácio. Ela relatou que um perfume de rosas a preencheu com uma doce consolação. A dor intensa em seus olhos subitamente diminui. Ela começou a ver as coisas fracamente, e no dia seguinte via perfeitamente. Essa cura foi um dos milagres para a canonização de Santo Inácio de Loyola.

Neste ano, começando em 20 de maio e continuando até 31 de julho de 2022, a Companhia de Jesus, e toda a família inaciana, celebra a jornada espiritual de Santo Inácio, dos 500 anos de sua conversão em 1521 a sua canonização em 1622. Neste contexto do Ano Inaciano, a história de Noguere ajuda a explicar a conversão como um processo de se recuperar da cegueira para uma visão melhor.


Imagem do século XVI retratando Inácio de Loyola vestindo uma armadura. Fonte: Autor desconhecido | Wikicommons

 

Em 20 de maio de 1521, em uma batalha na cidade espanhola de Pamplona, uma bala de canhão quebrou uma perna de Iñigo López de Loyola, e feriu outros. Iñigo havia chegado ao fundo do que havia sido uma existência bastante destruída, marcada por perdas e ambições insaciáveis. O homem ferido em Pamplona era um órfão de 26 anos que perdeu os pais muito jovem. Um de seus irmãos morreu na guerra. Outro se aventurou nas Américas e nunca mais voltou para casa. Na época da batalha de Pamplona, seu novo mestre e padrasto, Juan Velásquez de Cuéllar, o tesoureiro-chefe da coroa, que havia apresentado a Iñigo o decoro e a diplomacia da corte, havia perdido sua posição privilegiada.

Quando confrontado com uma situação desesperadora, Inácio criou maior intimidade com Deus.

A conversão de Inácio ocorreu durante sua longa recuperação dos ferimentos, enquanto ele lia sobre a vida dos santos, como Francisco e Domingos. Os sonhos de Inácio foram transferidos de feitos heroicos no campo de batalha para servir heroicamente a Cristo. A bula de canonização em 12 de março de 1622 relatou que Inácio foi chamado das honras mundanas e do serviço militar terreno para uma vida santa que levou à fundação da ordem dos Jesuítas e, em última instância, ao consolo das almas em todo o mundo.

Embora o tema geral deste ano jubilar seja a conversão, o convite subjacente relacionado a essa conversão é “Ver tudo de novo em Cristo”. (2 Coríntios 5:17). Ver “perfeitamente”, como Noguere, ou ver tudo novo, como São Paulo, é primeiro reconhecer alguma forma de cegueira. Então, quando tocados pelas relíquias de Inácio – ou seja, uma vez inspirados por sua experiência e tradição espiritual – seremos capazes de deixar Deus nos consolar e, assim, abraçar nosso presente e futuro com fé e esperança renovadas.

Nosso mundo enfrenta novos desafios. A covid-19 sozinha destruiu nosso modo de vida normal. Precisamos de fé para ver de novo. A 34ª Congregação Geral da Companhia de Jesus em 1995 declarou que “sem fé, sem os olhos do amor, o mundo humano parece mau demais para Deus ser bom, para existir um Deus bom. Mas a fé reconhece que Deus está agindo, por meio do amor de Cristo e do poder do Espírito Santo, para destruir as estruturas de pecado que afetam o corpo e o coração de seus filhos”.

A Congregação foi significativa em parte porque ocorreu em um momento de autoexame para a Companhia. Foi um momento em que, como jesuítas, como escreveu a Congregação, “enfrentamos nossas limitações e fraquezas, nossas luzes e sombras, nossa pecaminosidade”. No entanto, em meio ao quebrantamento do mundo, os jesuítas “também encontraram muitas coisas sábias e boas”. Eles puderam ver tudo de novo e se comprometeram novamente a “seguir este Cristo, o Senhor Crucificado e Ressuscitado, em peregrinação e trabalho”.

O verdadeiro milagre pode não ser a realização imediata das orações. Em vez disso, é o consolo que surge do aprofundamento da fé em Deus.

A conversão de Inácio não foi concluída instantaneamente, após sua queda em Pamplona. Esse incidente, no entanto, estabeleceu um novo curso para sua vida. Isso virou sua vida de cima a baixo e forçou-o a um autoexame. A partir desse despertar espiritual, Inácio tinha um desejo ardente de santidade e zelo por fazer grandes coisas para Deus, o que no final das contas o levou a um longo processo de autoentrega.

 


"Inácio de Loyola", por Peter Paul Rubens, 1600. Fonte: Wikicommons

O apelo dessa conversão é que, quando confrontado com uma situação desesperadora, Inácio criou uma intimidade maior com Deus. Ao renovar seu relacionamento com Deus, ele foi capaz de redirecionar sua existência incerta. Inácio colocou Deus no centro de sua vida. Ele podia olhar para o mundo não com medo, mas com esperança e o desejo de incendiá-lo com o amor de Cristo.

Este ano inaciano não se limita à conversão de Inácio, mas culmina com sua canonização. Sua causa foi apoiada por milagres atribuídos à sua intercessão, como a recuperação da visão de Noguere por suas relíquias. Embora a linguagem das relíquias e dos milagres em si possa parecer diferente do extremo racionalismo de nosso mundo, todos nós temos a tarefa de tornar essas “relíquias” e milagres significativos para o nosso tempo. Como herdeiros da tradição inaciana, somos os guardiões das “relíquias” espirituais de Inácio. Continuamos em dívida com a rica tradição inaciana, que, embora enraizada no cristianismo medieval, corajosamente abraçou o mundo moderno. As oportunidades oferecidas pelo mundo no tempo de Inácio moldaram a Companhia de Jesus, que ajudou a transformar a Igreja e a forma como ela alcançou o mundo.

Milagres ainda são parte de nossa prática espiritual. Quando encaramos a tragédia, uma doença incurável, a perda de um emprego, um amigo amado ou um irmão, nós deveríamos rezar para Deus em segredo de nossos corações para intervir. O verdadeiro milagre não deve ser a realização imediata de nossos desejos ou orações para várias necessidades. Isso é, em vez disso, a consolação que cresce de nossa profunda fé em Deus. O milagre é acreditar que para aqueles, como Inácio, que creem em Deus e confiam no cuidado e providência de Deus, não há acidente, não há tragédia ou falha que eles não possam superar. O mais fundo que Inácio chegou em 1521 tornou-se um trampolim para grandes aventuras, autorrealização e sucesso. A Igreja considera a jornada de Inácio de 1521 a 1622 exemplar para outros.

Na África e nessa Igreja que cresce, existem amplas razões para a esperança, mas também para desalento. Celebrar um jubileu reforça nossa esperança que as coisas podem mudar para melhor. O doente pode ser curado. A paz pode ser restaurada. A alegria do Evangelho pode florescer. Os reis da Espanha, França e Baviera estão aptos a deixarem suas rivalidades sangrentas de lado para canonizar Santo Inácio. Como eles, os cristãos podem ajudar a construir uma comunidade de paz global e criar novas redes de solidariedade e amizade para a grande glória de Deus e o serviço aos mais pobres. Ver novas todas as coisas é renovar nosso compromisso com a visão original de Inácio de desenvolvimento espiritual, amor e serviço da Igreja e sociedade.

 

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