O verdadeiro milagre de “Ignacio de Loyola”

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30 Agosto 2016

"“Ignacio de Loyola” é um dos três longas-metragens que falam sobre a vida do fundador da ordem jesuíta – o último sendo o filme espanhol de 1949 intitulado “El capitán de Loyola”. E é uma produção filipina, do começo ao fim. Com um orçamento apertado de 1,2 milhão de dólares, a equipe de produção enfrentou o desafio hercúleo de fazer um filme biográfico em escala épica com uma produção independente, construindo cenários e figurinos a mão em Manila e, então, enviando-os para os locais de filmagem na Espanha".

O comentário é Antonio D. Sison, publicada por National Catholic Reporter, 27-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

O Irmão Antonio D. Sison, da congregação Missionários do Preciosíssimo Sangue, leciona teologia sistemática na Catholic Theological Union, em Chicago. Escreveu o livro “The Sacred Foodways of Film” (Pickwick, 2016). “Ignacio de Loyola” estreou em algumas casas de cinema nos EUA em 26 de agosto.

Eis o comentário.

Pamplona, Espanha, 1521. Um jovem nobre espanhol chamado Iñigo rejeita as investidas da prostituta Anna, e propõe, em vez disso, ter uma conversa particular com ela. Em um hábil quebra-gelo pastoral, ele aponta suavemente para o fato de que seu homônimo não é ninguém menos do que a mãe da Virgem Maria e, em seguida, observa que as amigas mais próximos de Jesus eram prostitutas.

Ao escutar Anna narrar suas aspirações não alcançadas, Iñigo a conduz a um simples exercício espiritual. Pede-lhe que imagine Jesus sentado em uma cadeira vazia do outro lado da sala suavemente iluminada. Em tom frágil, quase infantil, Anna revela o que vê e sente: Jesus sorrindo para ela, dissipando seus temores, aceitando-a como ela é: “Para ele, não importa de onde venho, só importa para onde vou”.

Esta cena eloquentemente tranquila é tirada do filme “Ignacio de Loyola” (dirigido por Paolo Dy), filme biográfico de Santo Inácio de Loyola produzido pela Jesuit Communications FoundationJESCOM, agência midiática dos jesuítas filipinos.

Ignacio de Loyola” é um dos três longas-metragens que falam sobre a vida do fundador da ordem jesuíta – o último sendo o filme espanhol de 1949 intitulado “El capitán de Loyola”. E é uma produção filipina, do começo ao fim. Com um orçamento apertado de 1,2 milhão de dólares, a equipe de produção enfrentou o desafio hercúleo de fazer um filme biográfico em escala épica com uma produção independente, construindo cenários e figurinos a mão em Manila e, então, enviando-os para os locais de filmagem na Espanha.

Baseando-se em grande parte na autobiografia escrita por Santo Inácio, o filme segue a jornada transformadora do capitão cavaleiro Iñigo em direção ao “Inácio contemplativo na ação” por meio da narrativa à moda antiga e de uma acumulação paciente de detalhes.

Na primeira metade do filme, Iñigo é impulsionado por ideais militaristas diante do cerco de 1521 a Pamplona, pensando ser uma desonra se render ao exército francês sem lutar. Ele reforça esta ideia ainda mais por causa de sua lealdade cavalheiresca à princesa Catalina de cuja vida ele jurou proteger; assume uma postura heroica e marcha em frente destinado a se pôr contra as forças francesas superioras enquanto elas bombardeiam a cidadela.

Uma bala de canhão quebra uma das pernas de Iñigo na confusão e, assim, perde o seu futuro como cavaleiro. Quando o castelo cai, os franceses estendem um gesto cortês e oferecem assistência. Acabam mandando-o de volta para casa para receber tratamento. Este período representaria uma noite escura para Iñigo, lançando-o em um abismo existencial de tédio, depressão e sofrimento prolongado que, paradoxalmente, irá servir como solo fértil para a sua redenção e transformação final.

A segunda metade concentra-se na reviravolta de Iñigo após o encontro com as obras escritas de piedade católica. Inspirado nas hagiografias de São Domingos e São Francisco de Assis, Iñigo decide deixar o conforto de sua vida privilegiada e sai em peregrinação para encontrar o seu verdadeiro chamado. Mergulha em profunda contemplação no santuário de Nossa Senhora de Montserrat, e desta experiência ele sai como um homem mudado. Vestindo trapos de mendigos, começa uma nova vida de fé e de serviço como Inácio de Loyola.

Depois, o filme introduz o público no misticismo cada vez mais profundo de Inácio, representando cinematograficamente a sua jornada interior e exterior. O resto do filme desenvolve-se como uma sequência estendida de um julgamento, quando os Exercícios Espirituais de Inácio ficam sujeitos aos olhos examinadores dos inquisidores espanhóis.

A representação apaixonada feita pelo espanhol Andreas Muñoz ancora o elenco, todo ele espanhol, de uma maneira verdadeiramente convincente. Os atores proferem seus textos inglês com um sotaque castelhano, soando como os equivalentes próximos de seus personagens. Na maior parte do tempo, valores artísticos competentemente traduzidos para a época preenchem o filme com um certo brilho; há elegância, tons e iluminação com cores vivas. Embora às vezes faça fronteira com o barroco hollywoodiano, as roupas bordadas a mão parecem extremamente detalhadas e autênticas. Além disso, a trilha sonora exuberante, composta e regida pelo maestro filipino Ryan Cayabyab, complementa lindamente o contexto histórico e a ação que se desenrola.

Dito isso, o filme tem falhas técnicas que não são fáceis de ignorar. A estrutura dramática é bastante irregular, presumivelmente devido à exigência de transportar dados a partir de uma fonte escrita para a tela de cinema. Há a necessidade, por exemplo, de estender a primeira metade – sobrecarregada em decorrência de diálogos prolixos – onde a trama parece não avançar.

A sequência do cerco de Pamplona é um esforço sério de elevar o filme aos padrões vigentes de cinema mainstream mundial, porém é encenada de uma forma que faz referência muito de perto a uma sequência do filme de 1949 “El capitán de Loyola”, de maneira tal que certos elementos parecem um pouco datado. E a cena em que uma rocha cai sobre a perna de Iñigo parece desenho animado, fazendo o espectador se perguntar se é uma falha de efeitos especiais, ou simplesmente a artificialidade de adereços de isopor. Os problemas de um orçamento que é feito para ir muito acima de sua categoria ficam evidentes aqui.

Com certeza, o cerne do filme encontra-se no lugar certo. Ele soa autêntico. Mas soa menos quando se perde em suas próprias intenções piedosas e opta por uma representação mais literal do misticismo de Inácio. Embora a sequência surreal da luta de Inácio com seus demônios pessoais transmita poeticamente a profundidade e a complexidade de seu personagem em desenvolvimento, a cena de foco suave que retrata a aparição do Menino Jesus não se justifica na narrativa.

Esta produção alinha-se com o bem conhecido gênero cinematográfico católico-folclórico filipino, onde o próprio sol dança e estátuas religiosas ganham vida, dificultando a distinção entre milagre e magia. A produção pode ser tudo, menos redundante.
Logo no início, o filme insinua que o verdadeiro milagre inaciano acontece onde ele realmente importa: no coração de um ser humano despedaçado que, por causa da direção espiritual compassiva de Inácio, é capaz de ver Jesus em uma cadeira vazia.

Para mais informações sobre o filme, acesse aqui

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