O que Hans Urs von Balthasar aprendeu com Santo Inácio. Entrevista com Jacques Servais

09 Agosto 2019

O jesuíta Jacques Servais é um teólogo belga que lecionou Teologia Espiritual Sistemática na Universidade Gregoriana e dirigiu a Casa Balthasar, uma escola de discernimento e formação para jovens cristãos leigos, desde a sua fundação em Roma em 1990.

Ele também atua como presidente da Associação Lubac-Balthasar-Speyr, criada pelos discípulos de Henri de Lubac, o teólogo suíço Hans Urs von Balthasar e a escritora espiritual Adrienne von Speyr, sob o patrocínio do cardeal Joseph Ratzinger.

Sendo indiscutivelmente a principal autoridade do mundo na espiritualidade inaciana de Balthasar, ele publicou várias obras e articulações sobre as fontes espirituais do seu pensamento – em particular, Santo Inácio de Loyola, Adrienne von Speyr, John Henry Newman e Maurice Blondel.

Recentemente, o Pe. Servais terminou de editar uma nova antologia dos escritos de Von Balthasar sobre os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, como uma ajuda para as pessoas que os fazem ou dirigem, lançada nos EUA sob o título “Hans Urs von Balthasar on the Ignatian Spiritual Exercises: An Anthology” [Hans Urs von Balthasar sobre os Exercícios Espirituais inacianos: uma antologia].

A entrevista foi concedida por e-mail a Sean Salai, SJ, e publicada por America, 07-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Embora Hans Urs von Balthasar tenha desfrutado de um ressurgimento nos círculos acadêmicos, muitos cristãos comuns e até mesmo católicos que vão a retiros talvez não conheçam o seu nome. Quem foi Balthasar e por que os não teólogos deveriam se importar com os seus escritos?

Por quase 10 anos, Balthasar foi um ministro da pastoral universitária e, até a sua morte em 1988, ele permaneceu como diretor da editora Johannes Verlag, que ele fundou, e editor de uma “bibliotheca” curada para ajudar os cristãos que vivem e atuam no mundo secular. Ele não considerava os seus escritos teológicos como o seu trabalho mais importante. De fato, sua tese de doutorado foi em literatura alemã.

Ele desconfiava da abordagem racionalista ao conhecimento adotada pela teologia do seu tempo. Sua maneira de lidar com o assunto da teologia – o Deus trino e a sua revelação à humanidade – estava mais alinhada com Boaventura ou Pascal. Talvez seja possível caracterizar o seu ponto de vista com as palavras do poeta Petrarca a Giovanni Colonna: “A filosofia deve se tornar para nós nada mais do que amor à sabedoria; a sabedoria de Deus, no entanto, é o seu logos – é Cristo; e, por isso, devemos amá-lo a fim de nos tornarmos verdadeiros filósofos”.

Mesmo em círculos teológicos, as pessoas muitas vezes se surpreendem ao saber que Balthasar viveu 21 anos como jesuíta, deixando a Companhia de Jesus em 1950 somente porque o seu trabalho de cofundação de um instituto secular com a mística leiga Adrienne von Speyr divergia das prioridades da ordem. De que modo Balthasar continuou sendo um “jesuíta de coração” e um grande amigo da Companhia durante os últimos 38 anos de sua vida?

Balthasar estava convencido de que a Companhia de Jesus, nos nossos dias, recebeu a missão de difundir a herança inaciana para uma sociedade moderna secularizada, e de que, a fim de cumprir essa missão, há necessidade de uma nova e complementar comunhão entre leigos e leigas capazes de penetrar no mundo como fermento na massa. Ele imaginou uma comunidade de cristãos vivendo sob votos e atuando não tanto com os métodos apostólicos tradicionais (que parecem se tornar cada vez mais ineficazes na nossa época), mas sim com uma discreta presença de amor, dentro de uma profissão mundana. Essa visão exigiu que ele revisitasse o “Chamado do Rei Eterno” dos Exercícios inacianos – tão decisivo para as missões tradicionais e distantes, como a de Francisco Xavier – e o interpretasse à luz de uma teologia da cruz mais explícita.

Em seu livro “O momento do testemunho cristão”, Balthasar propõe um critério claramente medido pelo Evangelho: “Tentar moldar a própria vida de acordo com uma resposta amorosa ao amor trinitário crucificado de Deus e, assim, colocar-se à disposição da obra de Jesus de estabelecer o reino do amor de Deus entre os homens”. Inácio queria que os jesuítas seguissem esse conselho em toda a sua radicalidade. Mas, quando um jesuíta não pode mais manter pessoalmente uma posição secular entre os seus contemporâneos mais agnósticos, esse se torna um lugar que um leigo consagrado pode ocupar – um lugar de esperança para um novo tipo de fecundidade, provavelmente mais ligada ao mistério do Sábado Santo do que com o ministério público de Jesus. Aos olhos de Balthasar, o padre jesuíta, então, seria aquele que acende entre as pessoas leigas as missões inacianas que, em última instância, têm completa independência da Companhia, de acordo com a verdadeira autonomia de uma vocação plenamente leiga.

Tendemos a classificar Balthasar como um “teólogo místico”, descrevendo-o até como um Boaventura do século XX que complementou o teólogo jesuíta canadense Bernard Lonergan como uma espécie de Tomás de Aquino do século XX. De que modo a frase “teólogo místico” descreve Balthasar?

Balthasar certamente não era um pensador especulativo como Lonergan. Ele nunca se tornou professor ou lecionou em uma faculdade universitária. Ele ministrou alguns cursos de curta duração promovidos por grupos católicos em universidades suíças e em outros fóruns educacionais, e jovens homens de língua alemã interessados em educação cultural e vida espiritual muitas vezes procuravam sua sabedoria e conselho. Sua atenção não estava voltada para a teologia sistemática. Tanto Henri de Lubac quanto Karl Rahner consideravam Balthasar um gênio, mas a sua genialidade era mais a de um músico, compondo, dispondo e ordenando.

A esse respeito, ele era mais parecido com outro teólogo jesuíta, Erich Przywara, seu grande mentor alemão, um músico e poeta que era muito próximo da espiritualidade dos carmelitas. Adrienne von Speyr desempenhou um papel central na vida e na missão de Balthasar, mas eu hesitaria em falar simplesmente de “mística” cristã. Não podemos negar que Adrienne, assim como Teresa d’Ávila, teve experiências extraordinárias exatamente na presença de Balthasar – experiências que realmente merecem o adjetivo “místico”. Mas ele as considerava como elas mereciam: uma graça concedida por meio dela ao povo de Deus, a fim de que ele pudesse viver melhor uma fé vital e cheia de esperança e obedecer mais de perto aos apelos do Espírito Santo. De fato, Balthasar usou livremente as ideias de Von Speyr ao desenvolver uma teoria do conhecimento teológico (a sua Trilogia), que ele aplicava não apenas às Escrituras e à Tradição, mas também ao vasto mundo da cultura antiga e moderna.

Como a reputação de Balthasar entre os católicos evoluiu desde a sua morte em 1988, alguns dias antes da cerimônia em que o papa João Paulo II planejava lhe entregar o barrete cardinalício?

Ele estava muito relutante em relação a aceitar uma honraria que Inácio queria que os jesuítas recusassem. No entanto, ele via no gesto do papa uma tentativa de permitir que o trabalho dele e de Adrienne von Speyr fosse recebido na Igreja. Depois de finalmente admitir, ele teve que suportar, tanto em seu próprio país quanto na Alemanha, todos os tipos de insultos de pessoas afligidas por aquilo que ele chamava de “uma profunda atitude antirromana dentro da Igreja Católica”. Providencialmente, ele pôde morrer como o pobre padre que ele queria ser, testemunhando a verdadeira e sempre maior glória de Deus.

Você lançou esse livro para pessoas que fazem e ministram retiros baseados nos Exercícios Espirituais, a obra-prima do nosso fundador jesuíta Santo Inácio, que guia as pessoas através de uma experiência de retiro místico de várias formas. Que contribuição específica você acha que Balthasar dá com esse livro aos diretores de retiros e aos retirantes?

Eu enfatizaria a dimensão joanina subjacente que Balthasar ressalta quando descreve a atitude mais fecunda para abordar os Exercícios, seja ministrando ou fazendo tais Exercícios. Ele interpreta o modo inaciano como um método para entrar em amizade com o Senhor, como o discípulo amado, e para obter uma compreensão da vontade de Deus seguindo seus passos. Isso fica claro quando Inácio oferece meditações sobre a vida de Jesus a partir de cenas do Evangelho. A escolha de excertos dessa antologia oferece – ou pretende oferecer – um glossário em execução sobre o clássico texto inaciano. Idealmente, o livro não será apenas um serviço para as diretoras e diretores espirituais, mas também conduzirá qualquer leitor interessado a uma compreensão vívida do carisma de Inácio e às principais intuições teológicas do teólogo suíço, que aparece claramente aqui como um discípulo do santo.

O Papa Francisco pediu que seus companheiros jesuítas compartilhassem o dom do discernimento inaciano com toda a Igreja, um ministério que você pratica como diretor da Casa Balthasar, uma casa de discernimento em Roma para jovens de todo o mundo. Com base no seu trabalho lá, o que você pode dizer sobre os desafios que os jovens enfrentam hoje e como os instrumentos inaciano-balthasarianos podem ajudá-los, contribuindo com o aprendizado no discernimento que Francisco pede que a nossa Companhia promova?

O livro-entrevista com Balthasar intitulado “Test Everything: Hold Fast to What Is Good” [Examinem tudo: fiquem com o que é bom] foi dirigido principalmente a jovens homens e mulheres como aqueles pelos quais sou responsável na Casa Balthasar. Tendo passado muito tempo com Balthasar, eu pude aprender a habilidade do discernimento pessoalmente com ele, que gira em torno principalmente dos dramas da batalha que vem ocorrendo desde os primeiros anos da história cristã (“Meditação das Duas Bandeiras”).

Os Exercícios Espirituais são valiosos não principalmente pelo seu conteúdo, mas sim pelo seu método; não tanto pelo que eles dão diretamente, mas sim pelo que eles são capazes de ajudar a produzir na pessoa através da graça de Deus e da abertura do ser humano. É difícil para os jovens de hoje fazer uma escolha imutável, seja para o casamento, o sacerdócio ou a vida consagrada. A tentação é permanecer na esfera abstrata da inteligência ou da pura vontade. Um passo concreto os desconcerta. A melhor forma de proceder, e a mais verdadeira, é discernir e desejar o plano concreto e singular de Deus para nós: ut voluntas Dei apud me fiat integer. Balthasar, assim como Blondel antes dele, destacou esse aspecto central do método inaciano: a busca pela consonância entre a oferta totalmente livre de Deus de uma missão e a aceitação totalmente livre do homem.

No entanto, os Exercícios também nos lembram que estamos engajados na tradição humana e divina, que nos trouxe ao ponto onde estamos. Aprendemos a discernir não por conta própria, mas a partir de outros, e ninguém pode liderar um aprendizado em discernimento sem antes se formar pessoalmente na prática das regras. A esse respeito, o papa Francisco realmente desafia os jesuítas a oferecerem uma melhor educação pessoal. De fato, esse é o pressuposto mais essencial para um reavivamento da fé ativa entre os jovens.

Em seus escritos sobre os Exercícios, o que Balthasar oferece para a nossa compreensão da oração?

Aos meus olhos, sua principal contribuição é nos guiar para a atitude interior correta, sem a qual a oração facilmente permanece superficial. Muitas vezes, ele usa uma expressão alemã, “Bereitschaft”, que se traduz como “prontidão”, mas, na realidade, significa muito mais. Pesquisando alguns dicionários ingleses mais antigos, um ex-aluno estadunidense da Casa Balthasar descobriu a palavra “disponibilidade” [disponibility], que desde então caiu em desuso. Ela vem de “dispor” e corresponde ao próprio sentido dado por Inácio ao verbo “disponer”, pôr-se à disposição.

Esse conceito nos aponta para o cerne da compreensão de Von Balthasar e de Von Speyr sobre a “indiferença” inaciana: a disposição de ser atraído em qualquer direção para o maior louvor, reverência e serviço de Deus. A disponibilidade é o que caracteriza o cristão que se deixa formar do modo que Deus desejar. Podemos comparar a disponibilidade com a atitude de um dançarino de salão que se move em perfeita harmonia com outro que lidera. O corpo permanece equilibrado e pronto para se mover em qualquer direção, seguindo as mais leves indicações da liderança.

Em um sentido teológico, Deus sempre assume a liderança ao lidar conosco. O nosso chamado é estarmos “disponibles”, totalmente flexíveis, prontos para nos movermos em qualquer direção que Deus escolher. Essa noção é provavelmente o antídoto para a ênfase da cultura moderna na autoafirmação e na autorrealização. Ela encarna o ensinamento central de Jesus de que, para encontrar a si mesmo, é preciso perder-se no amor – que é o núcleo da verdadeira oração cristã!

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