Não é a pós-verdade, mas muito pior, é a pós-realidade

Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”

20 Março 2021

 

"Se voltarmos à realidade, claramente observada pelo intelectual excepcional e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Noam Chomsky, o mundo hoje tem dois níveis: um nível é o dos estados, o outro dos movimentos populares. Assim, podem surgir nesta pós-pandemia: uma versão mais dura da globalização neoliberal, com a eliminação das democracias e o aumento da vigilância sobre as pessoas, e por outra parte, a construção de um mundo onde todas as energias e recursos sejam orientadas para atender as verdadeiras necessidades humanas e não a uma pequena minoria. Será a luta de classes ao nível global", escreve Rosendo A. Yunes, para a coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”. O artigo foi publicado originalmente em espanhol por Religión Digital e traduzido ao português pelo autor.

Rosendo A. Yunes é doutor em Química pela Universidade Del Litoral (1965). Atualmente é pesquisador Sênior do CNPq, foi professor em diversas universidades da Argentina e no Brasil atuou como professor visitante e coordenador da Pós-Graduação em Química da Universidade Federal de Santa Catarina e foi professor voluntário da Universidade do Vale do Itajaí. Yunes é um pensador interdisciplinar, escreve também sobre o pensamento filosófico-teológico espanhol latino-americano, com destaque para a Xavier Zubiri e Ignacio Ellacuría.

 

Eis o artigo.

 

Gianni Vattimo, o filósofo italiano, em seu livro "Adeus à Verdade" (2005), escreve: "Adeus à verdade: para que possamos espremer, de certa forma, mais ou menos paradoxal, a situação da nossa cultura atual, seja em seus aspectos teóricos e filosóficos, ou na experiência comum. E quando nos referimos a este último, fica cada vez mais evidente a todos que "a informação em massa mente", que tudo se torna um jogo de interpretações não livres de interesses e não necessariamente falsas, mas exatamente dirigidas de acordo com diferentes projetos, expectativas e escolhas de valores".

A grave mentira de Bush e Blair sobre as armas de destruição em massa do Iraque de Saddam reposicionou a questão do que a verdade representa na política. Vattimo escreve: "Este exemplo mostra que hoje aos políticos e a política são permitidos muitas violações da ética e, portanto, também do dever da verdade, sem qualquer ser chocado".

Segundo Vattimo, o crepúsculo da verdade “objetiva” na filosofia e na epistemologia já existia, mas não havia alcançado a mentalidade comum. Se eu digo que não me importo com as mentiras de Bush e Blair, uma vez que elas são justificadas por um bom propósito, ou seja, que o fim justifica os meios, isso significa que quando é um fim que eu concordo, por ideologia ou qualquer outro paradigma, é cair em maquiavelismo puro.

Por enquanto, devemos ir à essência, segundo Vattimo, do problema: A conclusão que espero chegar é que "adeus à verdade" é o início, a própria base, da democracia. Se haveria uma verdade objetiva das leis sociais e econômicas (economia não é uma ciência natural) a democracia seria uma escolha totalmente irracional: seria melhor confiar o Estado, aos especialistas, aos filósofos de Platão ou aos atuais prêmios Nobel de todas as disciplinas".

Assim, Vattimo esclarece sua posição: "Quando a Igreja defende a ordem natural da família reprodutiva monogâmica contra qualquer ato de caridade com pessoas (naturalmente) gays (homossexuais) ... ela demonstra uma preferência pelo Deus da ordem natural em oposição à mensagem de Jesus. Não surpreende que uma Igreja orientada a esse respeito também seja "naturalmente" reacionária, sempre do lado da (des)ordem existente, exceto no caso em que essa ordem viola direitos específicos do clero".

Para Vattimo, o amor aos inimigos, proposto por Jesus, não é o que a natureza comanda, nem o que ocorre naturalmente. Por esta razão, para ele, a solução é que a caridade não dependa mais da verdade.

Quando ele fez parte do comitê do Parlamento Europeu sobre o sistema Echelon, ele corajosamente escreveu: "Interceptações indiscriminadas de todas as comunicações através da rede de satélites composta pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Nova Zelândia e Austrália. Isso mostra que somos controlados por um Grande Irmão, que não tem nada de imaginário, representado pelos Estados Unidos e seus aliados mais fiéis".

A atitude, esvaziada da caridade, podemos agora observar nos grupos de católicos que apoiam o "nacionalismo cristão" de Trump e Bolsonaro, não observando que na "realidade" são dois mentalmente desequilibrados, despreocupados para desempenhar funções tão importantes, que levantam essas bandeiras em benefício próprio e seus aliados íntimos. São milhões de americanos enganados pelas mentiras de Trump sobre fraude eleitoral sem dar qualquer evidência concreta. Como disse um jornalista: "Exalta o penúltimo para o ódio dos últimos que são os índios, negros e hispânicos, os imigrantes desprezados, e para isso, constrói o grande muro erguido entre o México e os EUA. E milhões de brasileiros enganados por Bolsonaro sobre o efeito da cloroquina, como tratamento precoce. E a guerra contra a ciência que aconselha a vacina. Para isto coloca um geral da ativa, que não é medico, como Ministro de Saúde.

Esse grave problema que opõe à verdade "objetiva" com a democracia só pode ser resolvido, se formos mais profundos, e estamos falando de "adeus à realidade" que é muito pior do que dizer "adeus à verdade", porque a realidade previa a verdade, ao ser, a essência e a existência, e todas as outras interpretações. Do contrário, chegamos ao niilismo de Nietzsche que escreveu: "É tudo interpretação e esta é mais uma interpretação".

Agora, devo apresentar de forma muito resumida a filosofia sobre a realidade do proeminente filósofo espanhol Xavier Zubiri.

A realidade, segundo Zubiri (1987), é algo antes do ser e da verdade. Ser é algo que é fundado na realidade como um de "seu". E a verdade é a atualização da realidade. Atualização, na medida em que a realidade total é possível, é por isso que você só pode recuperar a realidade de Jesus, no Jesus histórico, o verdadeiro Jesus no meio do Império Romano com sua realidade econômico-social. De vida comum etc.

Por essa razão, a questão da evolução cósmica afeta a realidade em primeiro lugar e radicalmente. Não afeta ao ser, não afeta a verdade. Ele só faz isso de uma forma derivada.

Ignacio Ellacuria (1988), seu discípulo mais ilustre, escreve que Zubiri "é um filósofo revolucionário, um educador da liberdade de crítica do pensamento".

Zubiri, critica toda a filosofia antes da sua, pela "logificação da realidade” que é que as diversas categorias eram acessíveis ao homem, passando anteriormente pelos sentidos, na fase de logos e a razão. Ele acha que a realidade das coisas não é nem "objetividade", nem entidades, mas simplesmente realidade.

A outra crítica é a "enteficação da realidade" que determina que é o ente (ou o ser). a primeira coisa que o homem concebe e na qual, por último, todos os conceitos são resolvido. Assim, perdemos a realidade do mundo exterior.

Zubiri, propõe um realismo materialista, sub dois pontos de vista: (i) um “físico-metafísico", porque tudo, intra-mundanamente, surge na matéria, da matéria e dinamicamente pela matéria, ate chegar à individualidade plena e substantiva que é típica da pessoa humana. O homem é a fronteira do cosmos, mas ele está enraizado nele para continuar vivendo. (ii) o outro é "epistemológico" porque a realidade é sempre aprendida na impressão da realidade, que é um sentir e inteligir ao mesmo tempo, inteligência senciente juntos, Assim, perdemos nossa realidade e dignidade humanas.

O homem pela inteligência senciente é um animal de realidades, que não percebe apenas as coisas como meros estímulos que requerem uma resposta, como é o caso dos animais, o homem vai mais longe, percebe as coisas como realidade e daqui deve escolher a resposta de acordo com essa mesma realidade.

A vida de cada pessoa não parte do nada, mas em um certo contexto vital: tempo, sociedade, linguagem, religião etc. etc. Cada homem é, portanto, um agente de sua própria existência, como uma essência aberta a um mundo de possibilidades.

Essa essência aberta, a inteligência senciente (sensibilidade e inteligência em conjunto) e a volição (que deve assumir suas tendências) são as três características que moldam o ser humano. O homem deve se apropriar de algumas possibilidades que o mundo lhe oferece e isso significa sua liberdade, como um princípio da ética. Desta forma, o homem é estruturalmente moral e é por isso que ele deve ter sempre na mente o seu próprio bem e o bem comum.

O homem não obedece a tendência mais forte, ele é livre, a liberdade é auto-determinação. A liberdade nos torna donos de nós mesmos. O bem humano é ser capaz de auto-realização. Percebo em mim mesmo as possibilidades das quais posso me apropriar e, assim, realizar minha personalidade. O que é diferente do que Zubiri chama de "personeidade", que é o simples fato de ser uma pessoa. A apropriação de possibilidades que permitem minha realização como pessoa, formam minha personalidade. O bem é precisamente o que promove a minha realização como pessoa.

O homem está ligado à realidade e à base dessa realidade. Assim, por estar religado a realidade, esta impõe ao homem sua realização como uma pessoa relativamente absoluta. Absoluto por ser ela mesma, relativa por ser cobrada. Além de ser religado o homem é obrigado, forçado a escolher as possibilidades que o ajudam a levar uma vida boa e feliz, mas não uma felicidade qualquer, uma felicidade que o leva à perfeição, a bondade absoluta.

Liberdade e moralidade mostram a abertura do ser humano para o outro. Somos entregues desde o início a liberdade de outros que nos recebem, cuidam de nós, nos reconhecem e nos amam. A liberdade, além de ser autodeterminação e realização, é relação com os outros.

O caráter da realidade como fundamento é o que Zubiri chama de "o poder do real". Esse poder do real é: (i) algo final nas ações humanas, (ii) na escolhas de possibilidades, a "realidade" é a possibilidade de todas as possibilidades, iii) é a realidade que impõe ao homem sua realização como uma pessoa relativamente absoluta. E isso é o que Zubiri chama de Deidade. A Deidade não é Deus, mas a própria realidade munda como poderosa e religam-te.

Esse poder da realidade se manifesta, na minha interpretação, pelas estruturas lógica-matemáticas (Yunes 2005), que contribuíram para a evolução do ser humano, até que, pelo princípio da identidade, como atrativo, chegou a entrar em contato com o Infinito Absoluto, que segundo o renomado matemático alemão Georg Cantor, é Deus, que pelo princípio da Reflexão participa de suas propriedades, com o homem, fazendo-lhe à sua imagem e semelhança.

Por esse motivo, Deus fica no inconsciente humano, como demonstrado pelo criador da terceira escola de Viena, Viktor Frankl (1981), mas não como algo impulsivo, mas decisivo. Os seres humanos devem decidir se aceitam, ignoram ou rejeitam sua proposta, porque a religiosidade é existencial ou não é. Respeita assim, a liberdade humana. Ao perder contato com a "realidade", no "adeus à realidade", o homem perdeu seus logos e sua razão que derivam dela, perdeu a sensibilidade de entender a beleza, a harmonia e a lógica que existem no mundo, pois logos e razão não servem para chegar à realidade, mas emergem dela e estão incorporadas nessa mesma realidade. O transcendental da realidade se manifesta nessa lógica, beleza, harmonia etc. Por isto, a razão não é mero raciocínio, mas caminho transcendental para o mundo, para a realidade simples e pura.

O conteúdo real das coisas não esgota a realidade delas, o transcendental é o que transcende as próprias coisas, mas de si mesmas e em elas, é por isso que é um âmbito constitutivo das coisas, por exemplo: beleza, bondade, verdade etc. O transcendental envolve todas as coisas e a metafísica é saber sobre o transcendental das coisas.

Saber comum e o cientista-técnico das coisas não é o saber primário, mas secundário. O transcendental das coisas é o primário, o mais radical e profundo das coisas.

A dificuldade de observar o transcendental é como observar um vidro totalmente transparente, com o qual às vezes colidimos, porque para observá-lo devemos forçar nossa visão.

Por essa razão, a base da realidade é problemática. E esse problema se manifesta de várias maneiras. Uma maneira é a preocupação que aparece como perguntas: O que será de mim? Ou o que vou fazer de mim? Em troca, há a voz da consciência que emerge do fundo da minha própria realidade e que me envia ou impele para o poder do real como um enigma.

O problema e o enigma se manifestam na vontade. O homem enfrenta possibilidades e deve escolher uma para realizar sua realidade. A vontade é vontade de realidade e como a realidade atualizada na inteligência é a verdade, em última análise, a vontade de realidade é uma vontade de verdade.

Essa saída da realidade, "adeus à realidade", explica que muitos, respondendo a ideologias, necessidades ou simbolismos, aceitam e participam do que certos mentalmente desequilibrados com algum poder, os guiem em caminhos opostos à democracia, ao diálogo e à criação de pontes e não de muros. Este é o grave problema que estamos vendo atualmente: a formação de grupos de extrema-direita que querem tomar o poder à força para realizar sua ideologia neoliberal, disfarçada de certo nacionalismo, que não é sustentada pela verdadeira democracia.

A observação da realidade como ela é, nos leva a pensar que a fonte mais importante da prosperidade moderna é a riqueza social na forma de conhecimento acumulado e tecnologia herdada, o que significaria que uma parcela muito importante da riqueza deve ser realocada para todos os membros da sociedade de forma igualitária. Um exemplo disso, é que o milionário Bill Gates, se não fosse pela invenção de transistores e semicondutores, além dos sistemas lógicos desenvolvidos durante a Segunda Guerra Mundial, ainda estaria brincando com tubos de raios catódicos em sua garagem.

Como comenta o professor Dowbor (2020), "a produção é mais social do que nunca e a apropriação de resultados mais privada do que nunca foi". A realidade não falsifica dados como a mídia de massa falsifica. É por isso que podemos perguntar qual é o significado das patentes hoje, eles só demonstram uma capacidade criminosa, uma vez que as grandes empresas farmacêuticas não deixaram o coquetel anti-aids produzir-se em países pobres e, portanto, aproximadamente 32 milhões de pessoas morreram.

A pirâmide da desigualdade não é mais possível em um mundo globalizado. Em 2013, o Credit Bank Suisse publicou um gráfico conhecido como "pirâmide da desigualdade" mostrando que 91,7% da população mundial tinha acesso a apenas 17% da riqueza daquele ano, enquanto 0,7% da população acessava 41%. Assim, a desigualdade entre os pobres, que devem pagar seus impostos, e os ricos que os evitam nos chamados "paraísos fiscais" aumentou.

É por isso que é necessário um pacto fiscal, se o poder “real” de base econômica, Deus ou o dinheiro, se normalizaria, o que envolveria a redistribuição da riqueza, o que significa:

i) Colocar dinheiro de paraíso fiscal em circulação que é entre US$ 21 milhões e US $ 35 bilhões

ii) Reconhecimento por parte da Europa e dos Estados Unidos que exploraram países africanos e sul-americanos e, assim, cuidar do seu desenvolvimento real.

iii) A defesa do clima, da poluição e da ecologia para recuperar a verdadeira natureza

iv) A desconcentração do poder econômico e militar para alcançar uma paz duradoura.

No entanto, se voltarmos à realidade, claramente observada pelo intelectual excepcional e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Noam Chomsky, o mundo hoje tem dois níveis: um nível é o dos estados, o outro dos movimentos populares. Assim, podem surgir nesta pós-pandemia: uma versão mais dura da globalização neoliberal, com a eliminação das democracias e o aumento da vigilância sobre as pessoas, e por outra parte, a construção de um mundo onde todas as energias e recursos sejam orientadas para atender as verdadeiras necessidades humanas e não a uma pequena minoria. Será a luta de classes ao nível global.

Zubiri escreve que o homem não precisa chegar a Deus porque ele está vindo dele, como o Deus inconsciente de Frankl prova. O futuro está em suas mãos pelo poder da realidade que permite a verdadeira democracia em sua forma mais completa. Por isto a mensagem espiritual da encíclica Fratelli tutti do Papa Francisco chega num momento de definições para o mundo, ela desperta o entusiasmo dos economistas mais jovens que observam nela a possibilidade de construir um mundo mais fraterno e humano, sustentável. Mas, a pergunta é: pode ela superar o mal comum instalado em nossas sociedades por um inimigo hábil e inteligente?

 

Referências Bibliográficas

Ellacuria, I. Aproximação para o trabalho completo de X. Zubiri. Estudos da América Central em San Salvador. 1988.

Frankl, V. E. A Presença Ignorada de Deus. Psicoterapia e religião. Pastor Barcelona. 1981.

Vattimo, G. Adeus à verdade. Ed. Vozes, RJ, Brasil. 2016.

Zubiri, X. Sentindo inteligência. Inteligência e realidade. Aliança, Ed. Madrid. 1987.

Yunes, R.A. A evolução da mente humana e das estruturasl ógica-matemática. J. teor. O Biol. , 236, 95-110. 2005.

 

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