Propostas para a Economia de Francisco e Clara

Tela de Kassio Massa, Arquiteto, urbanista e artista visual com graduação pela FAU Mackenzie, e mestrando na mesma universidade. Atua com desenho, fotografia e meios digitais.

22 Janeiro 2021

“A espiritualidade de Francisco e Clara não é etérea, abstrata, subjetiva apenas. É uma espiritualidade encarnada na vida e na História, vivenciada a partir da percepção da Presença do Divino em todos os seres, a começar por eles próprios. Ambos viam a Matéria como matriz (mãe) da vida, cuja evolução ocorre impulsionada por um estofo espiritual (Teilhard de Chardin, “O Fenômeno Humano”) e, portanto, tem uma natureza sagrada. Francisco e Clara desenvolveram a arte de ver a dimensão Divina de todos os seres. Ver o Divino presente em cada ser, em cada momento, em cada acontecimento. Conviver com o Divino que nos habita, do qual fazemos parte”, escreve Marcos Arruda para a coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”.

Marcos Arruda é economista e educador do Instituto PACS, Rio de Janeiro, colaborador da rede Solidarius, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS), da Rede Global Diálogos em Humanidade - Brasil, e da Ágora das e dos Habitantes da TerraBrasil. Marcos também é associado ao Instituto Transnacional, Amsterdam.

A arte que ilustra esta Coluna é uma obra de Kassio Massa, arquiteto, urbanista e artista visual com graduação pela FAU Mackenzie, e mestrando na mesma universidade. Atua com desenho, fotografia e meios digitais.

 

Eis o artigo.

 

1. Sentido econômico da proposta de uma economia de Francisco e Clara

 

As figuras de São Francisco de Assis e Santa Clara servem de guias para a visão de uma Economia da Vida, como pretende o Papa Francisco. Quais são as principais lições que emergem dessas figuras?

A primeira lição é a da simplicidade voluntária, ou da sobriedade feliz. Trata-se de dois desafios simultâneos. Um, em relação ao padrão de consumo das pessoas: a escolha de um modo de vida e de consumo simples e sóbrio, reduzindo as necessidades de bens materiais a um mínimo. A emoção envolvida nesta escolha é a do desapego. Uma das melhores consequências dela é a redução da demanda de energia e, portanto, das emissões de gases de efeito estufa (GEE). A escolha do uso de energia de fontes renováveis e limpas; de meios públicos de transporte em vez do automóvel; o uso da bicicleta em vez dos veículos de combustão interna sempre que possível, a substituição de chuveiro elétrico por chuveiros esquentados por energia solar; a economia no uso da água e a prática de recolha da água da chuva; a reutilização e a reciclagem de produtos descartados, o cuidado com a saúde das árvores e das florestas são alguns exemplos.

O outro desafio é de cunho social ou coletivo. A população pobre do Brasil não tem acesso a nutrição regular e de qualidade, muito menos a água morna para se banhar. Seu padrão de consumo não cobre suas necessidades básicas. Libertá-la destas carências deve ser a primeira prioridade para os fazedores de políticas públicas. As práticas de economias centradas na vida (biocêntricas) visam criar e manter as condições propícias para que cada pessoa, e o conjunto da sociedade, possa desenvolver seus potenciais humanos e sociais em harmonia com o meio natural. Incidir nos governos em todos os níveis em favor de políticas que revertam os fatores antrópicos (causados pela espécie humana) do aquecimento global e reconheçam por lei os direitos da Natureza. Organizar a cidadania planetária em torno destas políticas, eis o grande desafio de uma Economia da Vida neste momento.

A segunda lição de Francisco e Clara é a da solidariedade. Francisco e Clara vinham de famílias abastadas. Rejeitaram a vida no luxo para dedicar-se ao serviço divino na forma de oração e de cuidado com os oprimidos. Também dedicaram energias e tempo para promoverem a Paz e o respeito à diferença. Só economias humanizadas e realmadas, responsáveis, plurais e solidárias podem nos dias de hoje levar à prática o espírito destes dois santos. Mas entre a visão de economias do Bem Viver e sua concretização há grande distância. Definir a visão que sirva de guia das nossas ações e, ao mesmo tempo, definir os passos do nosso cotidiano que nos levem do caos social atual, e do colapso climático que se avizinha, até a realização daquela visão, este é o desafio metodológico, que trataremos em breve.

A terceira lição é a da busca de coerência entre a espiritualidade e a luta pela paz com justiça. Toda economia competitiva é, por natureza, uma economia de guerra. Francisco e Clara foram veículos da mensagem divina da Paz. Uma economia de guerra jamais pode levar a uma economia e uma cultura da Paz. Foram as práticas cooperativas e solidárias dos grupos de hominídeos e de humanos que ofereceram as condições para a subsistência e a evolução destes seres com o cérebro em processo de complexificação. Desde cedo esses nossos antepassados perceberam a dimensão invisível da realidade do mundo e a incorporaram no seu viver cotidiano. O entendimento humano foi alcançando fatos que estão na base de uma Economia da Vida e de uma Ecologia Integral, como a riqueza da biodiversidade (da qual fazemos parte também), a consciência de que somos todos interconectados, entre nós e com todas as outras formas de vida; e a compreensão de que as diferenças de gênero, de talentos e atributos, são fontes de maior riqueza enquanto família humana, em vez de serem motivo de maus sentimentos como a inveja, a cobiça e o espírito de competição. As emoções que alimentam estas atitudes e práticas são a paz interior, a compaixão, a empatia e a não-violência (expressão positiva em sânscrito – persistência na verdade, resistência passiva.)

Um desdobramento desta terceira lição é o trabalho pela paz, justiça e equidade em escala planetária. Em busca de um acordo pacífico entre Cruzados e Muçulmanos, Francisco e Illuminato navegaram até o Egito. Se horrorizaram diante da carnificina e da postura antievangélica dos Cruzados. Essa guerra levou Francisco a tentar persuadir os Cruzados a negociar a paz. O Sultão al-Khamil chegou a oferecer Jerusalém aos Cruzados em troca da paz, mas eles rejeitaram sua oferta. Francisco e Illuminato decidiram ir ao campo muçulmano com surpreendente audácia, e criaram com o Sultão e seus sábios Sufis um diálogo de vários dias sobre a espiritualidade das duas religiões. Daí emergiu um laço de amizade entre o Sultão e Francisco. Francisco nos ensina que a Política da Amizade é a matriz da Paz com Justiça. As disputas políticas e econômicas tendem à demonização do “inimigo” e a busca de soluções violentas. Hoje em dia, o sistema do capital joga empresário contra empresário, trabalhador contra trabalhador, país contra país, povo contra povo. A ganância e a voracidade visando acumular dinheiro e riquezas materiais é a marca dos que praticam o capitalismo como sua religião.

Que audácia, que profundo compromisso de Francisco e seus irmãos com os valores fundantes do Cristianismo! O desafio do Encontro de Assis é encontrar modos de fazer a Economia coerentes com essas virtudes de Francisco e Clara.

As lições de Clara

Além da escolha por abandonar a riqueza e o luxo da família para abraçar com alegria a simplicidade e a pobreza voluntárias como modo de vida, Clara enfrentou o patriarcalismo de sua época e, ainda muito jovem, abriu sua própria trilha e seguiu o apelo do seu coração a despeito da oposição do pai. Foi uma mulher que encarnou as virtudes do Sagrado Feminino. No Mosteiro de São Damião, onde ela se instalou, logo acompanhada por sua irmã Agnes e outras devotas, elas viviam em comunidade, ninguém tinha posses privadas, a alimentação excluía toda carne, e a pegada ecológica era exemplar.

Aprendendo de seu exemplo, a Economia de Francisco e Clara deve ser enraizada na comunidade, uma economia do suficiente em termos materiais, rejeitando a ideologia do crescimento econômico ilimitado, e com ele o excesso de consumo e de produção sem consideração com as gerações futuras e os limites dos ecossistemas. A vida em comunidade gerida pelos seus membros permite a partilha da posse dos bens produtivos e o acesso responsável de todas e todos aos bens comuns que a Terra oferece; o cuidado e o respeito a cada outra pessoa, colaborando para que os direitos de todo ser sejam respeitados; a ausência de exploração do trabalho humano e o reconhecimento legal dos direitos da Natureza; a promoção de outras comunidades autogestionárias como unidades de produção e reprodução da vida e, portanto, protagonistas do planejamento e da implementação do seu próprio desenvolvimento econômico, social e humano, são apenas alguns elementos que devem marcar a Economia de Francisco e Clara.

 

2. Aprofundando a espiritualidade da Economia de Francisco e Clara

 

A espiritualidade de Francisco e Clara não é etérea, abstrata, subjetiva apenas. É uma espiritualidade encarnada na vida e na História, vivenciada a partir da percepção da Presença do Divino em todos os seres, a começar por eles próprios. Ambos viam a Matéria como matriz (mãe) da vida, cuja evolução ocorre impulsionada por um estofo espiritual (Teilhard de Chardin, “O Fenômeno Humano”) e, portanto, tem uma natureza sagrada. Francisco e Clara desenvolveram a arte de ver a dimensão Divina de todos os seres. Ver o Divino presente em cada ser, em cada momento, em cada acontecimento. Conviver com o Divino que nos habita, do qual fazemos parte.

Criar familiaridade com Ela/Ele no nosso cotidiano, entendendo esta Presença como a dimensão infinita e eterna do nosso ser, tem profundas implicações para o sentido da nossa existência pessoal e coletiva enquanto família humana partícipe da grande família da vida. Este conjunto Francisco chamava de mundo das Criaturas. Realmar este mundo ao mesmo tempo material e espiritual não é dar-lhe alma, pois ele já a tem. É reconhecer nele a Divina Presença, louvar, adorar, glorificar e dar graças pela maravilha que é o mundo das Criaturas animado pela Presença, pelo Sopro que mantém vivos todos os seres.

Realmar a economia, que é obra humana, isto sim! É o que veremos abaixo. Mas antes, mais um aspecto da espiritualidade que nos ajudará a realmar a economia. A percepção de Francisco e Clara do sagrado da Matéria os conduziu a um entranhado amor pela Natureza, em particular os animais, e o reconhecimento deste ser complexo que é o ser humano, animado por uma consciência reflexiva desabrochada, e em processo de complexificação, espiritualização e amorização. Eles perceberam que as inúmeras formas de vida na Terra, dentre elas a vida humana, manifestam a Essência Divina, que é responsável pela tendência de tudo à unificação, à superação da separatividade, à complementaridade das diferenças. Para as pessoas que vêem a Presença Divina em tudo, é Ela que faz com que tudo e todos estejamos interconectados. A missão dos dois passou a ser criar pontes entre os seres, unir o que está desunido, integrar o que está desintegrado, esperançar os que estão desesperados, alegrar os que estão tristes, iluminar os que estão capturados pelas trevas. A Essência Divina é o amor incondicional, que inspira a atitude de generosidade, de acolhimento das diferenças, de gratuidade no dar, simplicidade no receber, e empatia no retribuir.

Que economia seria capaz de incorporar tão ampla e profunda espiritualidade?

A economia “de mercado”, centrada no capital e comandada pelos que dominam o capital, só tem um deus: o dinheiro, o “bezerro de ouro” dos tempos modernos. Sua ética é a do benefício próprio a qualquer custo e o controle de tudo aquilo que o dinheiro pode comprar, inclusive pessoas e consciências. Sua premissa antropológica é o “eu-sem-nós”. Esta tem sido uma economia solitária e é por isso que as classes ricas apresentam altos índices de alcoolismo, consumo de drogas e antidepressivos, assim como de suicídios.

Talvez sirva como exemplo o governo Bolsonaro. Jair trouxe para o Brasil a bíblia do ódio, do atirar para matar, da separação entre “bons” (o clã e seus seguidores) e “maus” (as oposições, as e os oprimidos, as e os despossuídos, as e os “de cor”, as e os “diferentes”). Para gerir a economia Jair nomeia o ultraliberal Paulo Guedes, admirador do golpista Pinochet, com a missão de desmontar a economia brasileira, debilitar o papel regulador e equilibrador do Estado, cancelar direitos constitucionais do povo trabalhador, privatizar tudo, mercantilizar tudo, e empregar a polícia e as forças armadas para reprimir “o inimigo interno”. Além disso, rasgar a Constituição cidadã de 1988, a primeira a conter uma contribuição significativa da sociedade civil, que ressurgia ativa depois de 21 anos de brutal repressão e mordaça. Uma das maiores vítimas do desmonte da Constituição é a soberania nacional. A submissão de Jair e sua gangue ao domínio unilateral do império estadunidense implica na entrega do nosso petróleo e minérios – sobretudo os mais raros e preciosos, como o nióbio, o ouro, a platina, o urânio -, do nosso território nacional, com a venda de terras e águas a empresas transnacionais, e o desmonte das empresas estatais, estratégicas para o desenvolvimento econômico, social e humano do país.

Ao mesmo tempo, o domínio político e ideológico de Jair sobre a população enfraquece dia-a-dia, e a ameaça de golpe aflora na boca de generais e intelectuais orgânicos do capital. O bloco de Jair vai implodindo aos poucos. O partido de Jair se divorcia dele, levando-o a criar um partido do clã, de caráter fascista. As vinculações do clã com as milícias, sobretudo no Rio de Janeiro, se tornam manifestas. E a vinculação de Jair Presidente com igrejas neopentecostais, em particular a Igreja Universal, propriedade privada de Edir Macedo, tende a liquidar com o Estado laico e instalar um Estado a serviço do poder de uma só fé, cuja âncora é a mesma do sistema do capital: o deus dinheiro. A revista Forbes publicou que em 2013 Edir Macedo já possuía um patrimônio de R$ 2 bilhões...

O mau uso do Evangelho está intoxicando a política - a arte de gerir a coisa pública em benefício de todas e todos - e a economia – a arte de cuidar da casa para o benefício dos seus habitantes. Como compatibilizar o “amor” pelas armas de Jair e seus filhos com a mensagem de Paz da figura do Cristo, e o exemplo de Francisco dialogando com os chefes da Cruzada e o Sultão Al-Khamil em busca de uma solução pacífica que acabasse com a guerra? Como compatibilizar o discurso e a prática do ódio e do medo contra o diferente com a prática amorosa de Jesus, convivendo com os “pobres” e os “pecadores” de sua época e pregando o amor e o entendimento aos povos de toda a Terra?

Vista com o olhar da História e ao mesmo tempo o da espiritualidade, a economia do deus dinheiro não é sustentável, como não foi o culto ao bezerro de ouro. O ser humano é muito mais do que sua dimensão animal. Quanto mais ele se espiritualiza, mais ele desenvolve seus potenciais de vivenciar a Ética do acolhimento da Outra pessoa, a Economia da partilha solidária e do Bem Viver, a Ecologia do amor e respeito à mãe Terra e a todos os seus filhos e filhas, a Educação que liberta e empodera, e a Estética que reflete a Beleza da Luz eterna.

 

3. Economia de Francisco e Clara: o desafio metodológico

 

A metodologia é o conjunto de procedimentos que permitem definir o caminho a seguir para se alcançar o objetivo maior, que aqui chamamos de visão. O método é a caminhada concreta para realizar esse objetivo. Se o método não é congruente com a metodologia, ele leva a resultados ou finalidades não desejadas. Para uma reflexão minuciosa do desafio metodológico, recomendo a leitura do meu livro “Educação para uma Economia do Amor” [1], onde ilustro meu postulado da Metodologia da Práxis com experiências concretas, que podem fornecer pistas para a construção da Economia de Francisco e Clara.

No esforço de colaborar no lançamento das bases de uma Economia de Francisco e Clara, consideremos primeiro o desafio de definir os passos ou etapas da caminhada. Como quando vamos fazer uma excursão ao pico de uma montanha, precisamos ter conhecimento prévio do terreno e planejar as etapas da caminhada. Ao final, avaliar todo o processo, tirando as lições que permitam acertar mais e errar menos na próxima excursão.

Visão

Precisamos primeiro afirmar a visão utópica de outra Economia, fundada num novo paradigma (conjunto de premissas que informam o comportamento e as ações das pessoas e das instituições). O Papa Francisco esboçou os elementos básicos da visão de uma Economia de Francisco na Encíclica Laudato Sì, falando em Economia da Vida e da Ecologia Integral, e no convite à construção de uma Economia de Francisco [2]: “estudar e praticar uma economia diferente, que faz viver e não mata, que inclui e não exclui, que humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não a depreda. Um evento (o Encontro de Assis, março de 2020) que nos ajude a estar juntos e nos conhecer, e que nos leve a fazer um "pacto" para mudar a atual economia e dar uma alma à economia do amanhã. Sim, precisamos "re-almar" a economia!” Não temer a utopia positiva, pois em muitos espaços micro, locais, comunitários ela já é topia! São milhões de pessoas, comunidades intencionais, movimentos e redes espalhadas pelo mundo anunciando em palavras e em ações a emergência de novas economias, centradas no ser humano e na harmonia com o conjunto da Natureza.

A situação atual como ponto de partida

A visão, porém, é apenas um farol brilhando diante de nós, guiando nossos passos. A construção das novas economias parte do agora - a situação do mundo atual. Pesquisar não apenas os sinais da opressão, das desigualdades e da agressão os ecossistemas, mas também e sobretudo os fatores que as formam e perpetuam, permite que pensemos e atuemos a partir do aqui-agora, ao mesmo tempo guiados pela visão. Identificar os atores do poder e suas premissas, os opressores e os oprimidos e os fatores que os separam ou os aproximam – fatores de opressão e de libertação -, os acertos e erros do sistema econômico-social dominante e seus modos de dominar, sua ética, seu modo de produção e desenvolvimento. É a etapa de analisar criticamente cada um deles e suas interações recíprocas. Decompor para conhecer as partes e os aspectos que compõem o sistema. Este é o momento de examinar criticamente as economias inovadoras que não deram certo (as do “socialismo real”), e outras já em curso mundo afora, tais como o movimento de Economias Solidárias, Economia da Libertação, Economia da Comunhão, Economia Criativa, Economia Circular, e outras, que formam campos de convergência e de divergência, e pertencem ao campo mais abrangente das “economias pós-capitalistas” (mesmo quando não têm explícito este objetivo).

Momento de ver o sistema em seu todo, o organismo no seu movimento, na sua transição de uma realidade para outra. É o momento de sintetizar o conhecimento sobre a situação num entendimento holístico, dialético e omnidimensional, capaz de iluminar a ação de planejar. Não é possível dar um salto com a vontade e passar da situação atual para a Economia da Vida. A ideia-chave aqui é a TRANSIÇÃO. Precisamos definir juntas e juntos os caminhos e as formas de ação que realizem a transição passo a passo, sabendo que a história e a vida progridem de forma não linear.

Momento de planejar as estratégias de ação de médio e longo prazos que nos guiem para a realização daquilo a que aspiramos; e as táticas, ou ações de curto prazo coerentes com as estratégias e orientadas pela visão. Quem serão os protagonistas do planejamento? Aqueles que serão responsáveis pela sua execução! Não pode ser que uns planejem para outros executarem. O planejamento deve ser participativo e, portanto, um ato de democracia. Para isto é necessário pactuar indicadores adequados, congruentes com a visão. O Butão, pequeno país dos Himalaia, definiu como eixo da sua visão a felicidade de cada cidadã e cidadão, e adotou nove campos de indicadores que abrangem os aspectos objetivos e subjetivos da vida da sua população. O planejamento econômico obedece a esses indicadores, que os butaneses chamam de “FIB – Felicidade Interna Bruta” [3]. Bom exemplo de uma Economia da Vida.

Momento de avaliar os processos levados à prática e os resultados das ações no espaço-tempo. Os processos têm resultados objetivos e subjetivos coerentes com a visão? Têm nos feito avançar no sentido desejado? Têm atuado sobre as causas da opressão, das desigualdades, da relativa impotência dos setores oprimidos da população? Têm colaborado para o empoderamento dos sujeitos envolvidos? Como se desempenharam os sujeitos envolvidos ao longo do processo (momento de crítica e autocrítica)? Que lições tiramos desta práxis, que nos inspirem a acertar mais na próxima etapa, e a evitar os erros, enganos, falhas e omissões da etapa que concluímos?

Estes passos não devem ser seguidos de forma linear. Há vezes em que é preciso avaliar a práxis no final de cada etapa. Noutras, é preciso retornar à análise da situação porque novos fatores geraram mudanças que obrigam a um reajuste em todo o plano de ação, mantendo intocada apenas a visão de médio ou longo prazo. As etapas 2 e 3 são decisivas, pois elas introduzem premissas importantes, que podem ter estado ausentes no momento da visão. Numa palavra, firmeza na visão e nos objetivos, e flexibilidade no caminhar.

 

4. A visão biocêntrica da Economia: o protagonismo das comunidades 

 

Uma crise civilizatória: conflito de paradigmas

Visualizar uma Economia de Francisco e Clara exige grande esforço, pois a economia dominante não só está distante dela como se contrapõe frontalmente a ela. Na verdade, a economia dominante está na raiz de uma crise civilizatória – uma composição de crises que atingem as próprias premissas e o próprio paradigma da civilização do capital globalizado [4].

Comecemos tocando numa questão fundamental do atual paradigma, que faz convergir a EFC com as Economias Solidária e da Libertação: o consumo consciente, dentro dos limites do ecossistema. Dizemos na Economia Solidária que o consumo ético e consciente atinge um dos pilares da atual civilização, que é o modo de desenvolvimento identificado como “crescimentismo”, ou “crescimento econômico ilimitado ou sustentado”. A EFC deverá adotar a lógica do que nas redes de Economia Solidária nós chamamos de economia do suficiente. Os protagonistas de economias inovadoras rejeitam a ideologia do crescimentismo, pois ela está fundada na falsa premissa de que os bens da Natureza são ilimitados, e porque dela resultam a acumulação crescente de rejeitos, a destruição de ecossistemas e a acelerada marcha da humanidade para o colapso climático. A economia biocêntrica tampouco poderá tolerá-los. Os defensores do capitalismo sabem que isto abala os fundamentos da civilização dominada pelo capital. Estamos diante da difícil tarefa de superar um paradigma que se esgotou e lançar outro, que represente um “salto quântico” da Evolução da nossa espécie e da vida.

Viver Bem: protagonismo das comunidades

Entre as diversas visões que povoam o imaginário das pessoas, comunidades, movimentos sociais e redes comprometidas com a transição para uma humanidade regenerada e feliz, destacamos a visão do Bom Viver (Quéchua) ou Viver Bem (Aymara), presente entre os povos andinos e outros povos originários. Esta visão tem gerado diálogos muito férteis, pois ela tem origem na sabedoria ancestral destes e de outros povos originários, e precisa ser contextualizada para a realidade de uma economia globalizada e uma sociedade humana sujeita a formas hoje globais de opressão, exploração e dominação. Esta visão procede de povos do Sul Global – povos originários de várias partes do mundo, que fazem parte das classes oprimidas, mantidas na periferia do sistema e geralmente excluídas dos benefícios do crescimentismo dominante.

Um autor indígena boliviano, Fernando Huanacuni [5], apresenta aos leitores o “paradigma ancestral comunitário”, mostrando que a diversidade de formas de expressão cultural das nações originárias do continente tem um manancial comum, ou um mesmo paradigma como base da sua cosmovisão: concebem a vida de forma comunitária. Para os que praticam este paradigma, a vida moderna, sobretudo urbana, que esfacela as relações e isola a pessoa e a família nuclear, é antinatural! A comunidade é o contexto social e natural adequado para a construção da identidade e do sentido de pertencimento da pessoa. É em comunidade que florescem as relações humanas interpessoais e a própria socialização do indivíduo. O Ubuntu africano (“eu sou porque você é”, “cuido de você porque você é minha irmã”, “cuidem os uns dos outros para todos prosperarmos”) é um paradigma semelhante ao do Viver Bem andino. Podemos ver nesses conceitos, também, uma correlação com “uma sociedade sem classes sociais, regida pelos princípios da igualdade, liberdade e irmandade”, ou também com a visão cristã do Reino de Deus, entre outras.

Euclides Mance explica como o conceito de Viver Bem já era corrente na Filosofia da Libertação no fim dos anos 90. Ele identifica Viver Bem com proteção e promoção das liberdades públicas e privadas eticamente exercidas: “A liberdade é eticamente exercida quando promove a liberdade eticamente exercida dos outros”. O autor apresenta quatro condições para a realização do Viver Bem:

- fluxos materiais: que ninguém seja explorado e todos tenham acesso aos bens de consumo e aos meios de produção e de troca;

- fluxos de poder: que cada pessoa tenha o poder de decidir sobre a micropolítica do seu cotidiano e a macropolítica relacionada ao Estado e à sociedade civil. Daí que o Bom Viver das pessoas, comunidades e povos envolve a autodeterminação dos fins e a gestão dos meios, levando em conta as interações entre pessoa e comunidade, a liberdade privada e pública;

- fluxos de conhecimento: que integram educação, informação e comunicação. A falta de qualquer uma delas significa privação da liberdade e Mau Viver; e

- a condição ética: a condição de liberdade e desenvolvimento que desejo e garanto para mim, tenho que desejar e garantir para os outros. Portanto, a economia deve gerar meios materiais para assegurar as liberdades de todos para a realização do Bom Viver de cada pessoa, comunidade e povo [6].

Vejamos as premissas que fundamentam o paradigma separatista do sistema do capital mundial, em contraste com as premissas holísticas que animam a Ecologia Integral do Papa Francisco, os movimentos de Economia Solidária, a cosmologia do Viver Bem, e outros.

Premissa cosmológica da cultura do capital: somos desconectados uns dos outros e cada um cuida de si e dos seus interesses (Eu-Sem-Nós do individualismo absoluto, ou Nós-Sem-Eu do coletivismo absoluto). Enquanto espécie, somos o centro da Terra e do Cosmos (antropocentrismo). Estamos na Terra para dominá-la e submetê-la aos desígnios humanos. A inteligência humana e sua técnica onipotente submetem aos seus interesses a Natureza e as outras formas de vida.

Premissa cosmológica da cultura de Francisco e Clara: somos todos interconectados entre nós, humanos, e com todas as formas de vida. Somos por natureza seres individuais, sociais e naturais ao mesmo tempo. O paradigma que deve fundamentar nossa visão de mundo é biocêntrico, pois reconhece a vida como eixo central da Evolução, e não a espécie humana. Estamos na Terra para aprender dela e para promover a convivência harmônica entre nós e com os biomas que sustentam nossa vida. A emoção do amor à Natureza – o mundo das criaturas – como reflexo do amor e da beleza do Ente Criador e Mantenedor da vida – prevalece sobre a mera razão.

Premissa antropológica da cultura do capital: a competição e a contraposição entre diferentes seres humanos são os únicos modos de relação possíveis. A economia é uma guerra permanente na qual os fortes e os espertos são vencedores, e o resto é perdedor, é resto, é descartável.

Premissa antropológica da cultura de Francisco e Clara: se somos interconectados entre nós e com todas as formas de vida no Planeta e no Cosmos, o único modo de relação que faz sentido é o respeito às diferenças, a cooperação fundada na confiança mútua e na complementaridade, a colaboração, a solidariedade consciente, o espírito comunitário para o qual cada pessoa é ao mesmo tempo importante em si, e pouco importante frente à complexidade que é a vida em comunidade e em sociedade (Eu-e-Nós ao mesmo tempo). Só uma economia, uma ecologia e uma educação integrais são capazes de contemplar todos os aspectos, dimensões e potenciais que aos seres humanos são dados para fazer florescer.

Resumindo, a visão biocêntrica da economia:

- É crítica do capitalismo, cujo protagonista é a empresa individual (“pessoa jurídica”) e cujo horizonte é o crescimento econômico ilimitado para acumular sempre mais dinheiro e bens.

- É crítica do socialismo de tipo estatista, cartesiano e materialista, cujo protagonista é o Estado e cujo horizonte tem sido a boa distribuição dos bens, mas também a perpetuação dos dirigentes do partido no poder.

- Preconiza o protagonismo da comunidade como unidade de produção e reprodução da vida, em vez da empresa privada e do Estado e promove circuitos de valor e redes de colaboração solidária capazes de empoderar econômica e politicamente as e os participantes/cidadãos das comunidades.

- Pratica a harmonia com a Natureza e o cuidado integral com todas as formas de vida; visa o Viver Bem e, podemos acrescentar, a felicidade de cada pessoa e de todas nos seus contextos natural, social e espiritual.

 

Notas

[1] Arruda, Marcos, 2009, “Educação para uma Economia do Amor”, Editora Ideias e Letras, São Paulo: 164;
[2] http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/589076-economia-de-francisco-assis-26-28-de-marco-de-2020-mensagem-do-papa-francisco-para-o-evento
[3] Arruda, Marcos, 2019, “Vivendo o Futuro no Presente: Notas de Viagem ao Butão, Laos e Vietnã”, http://pacs.org.br/?p=6842 (e-livro).
[4] Razeto, Luis M., 2018 – La Crisis de la Civilización Moderna y la Creación de una Nueva Civilización, monografia, Santiago, Chile.
[5] Fernando Huanacuni, 2015, “Vivir Bien/Buen Vivir – Filosofía, Políticas, Estrategias y Experiencias de los Pueblos Ancestrales”, CAOI, Coordinadora Andina de Organizaciones Indígenas. La Paz, Bolivia.
[6] Euclides Mance, 2017, “Buen Vivir y Economía Solidaria”, monografia, IFIL.

 

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