Pierre Teilhard de Chardin: a sabedoria do teólogo da noosfera

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13 Abril 2015

"O pensamento teilhardiano é otimista. Apesar das duas guerras mundiais, Teilhard conserva uma esperança que se fundamenta na Revelação e na ciência, uma porta aberta para uma nova maneira de viver e de expressar o cristianismo."

Por ocasião do 60º aniversário da morte de Pierre Teilhard de Chardin, no dia 10 de abril, publicamos um texto do pastor evangélico francês Vincens Hubac.

O artigo foi publicado no sítio Il Sismografo, 09-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um menino recolhe seixos pelos caminhos de Auvergne. A localidade se presta para esse hobby, graças à sua riqueza geológica. Pierre Teilhard de Chardin nasceu no dia 1º de maio de 1881, nos arredores de Orcines Puy de Dôme, em uma antiga e muito católica família de Auvergne.

Aos 11 anos, Pierre entrou no colégio dos jesuítas. Toda a vida de Pierre Teilhard de Chardin seria marcada por essa dupla filiação: científica (como geólogo) e espiritual. As duas configurações da sua vida jamais se dividiriam.

Pierre Teilhard é, acima de tudo, um cientista conhecido em todo o mundo. Foi admitido entre os jesuítas em 1899 (no noviciado em Aix-en-Provence), fez os seus primeiros votos em 1901 e, nesse meio tempo, continuou os seus estudos e as suas pesquisas. Sempre com os jesuítas, mas na ilha anglo-normanda de Jersey (por causa das leis anteriores à separação entre Igreja e Estado), ele estudou filosofia até 1905, depois tornou-se leitor de química no Colégio da Sagrada Família no Cairo (Egito).

Após quatro anos de teologia perto de Hastings (Inglaterra), Pierre Teilhard foi ordenado sacerdote em 1911, o acontecimento central da sua vida. Paralelamente, continuou os seus estudos de geologia. Em julho de 1912, encontrou-se com Marcellin Boule, renomado geólogo e paleontólogo, fundador da escola francesa de paleontologia humana.

Pouco depois, Teilhard fez outro encontro fundamental, com o abade Breuil, apelidado de "o papa da pré-história"! A Grande Guerra interrompeu as suas pesquisas e os seus encontros, mas não o deixou desprovido de perguntas sobre o ser humano. Foi justamente durante a guerra de 1914-1918 que se especificou a sua vocação.

Em 1918, fez os votos solenes e permaneceria fiel toda a sua vida à Igreja Católica, sobre a qual tinha uma opinião elevada, embora nunca a tenha realmente reconhecido. Retomou os seus estudos, depositou a sua tese na Sorbonne, em 1921, e defendeu-a em março de 1922. Ficou encarregado do curso de paleontologia no Instituto Católico de Paris.

Sempre apaixonado de geologia, de pedras e de fósseis, participou das pesquisas paleontológicas do Museu de História Natural. Sob a influência de Marcellin Boule e do abade Breuil, Pierre Teilhard foi cada vez mais atraído pelo problema das origens e da paleontologia humana; não nos esqueçamos de que a tese defendida em 1922 tratava dos "Mamíferos do eoceno inferior francês e os seus habitats".

Por toda a sua vida, continuou a sua formação científica e as suas pesquisas, e fez grandes descobertas em âmbito pré-histórico. Pierre Teilhard defendeu o transformismo contra o fixismo, debate que na época estava longe de se encerrar. As suas pesquisas se acompanhavam de viagens incessantes, como à China, onde chegou pela primeira vez em 1923 com o padre Licent, ele também jesuíta e paleontólogo.

Voltou para Paris, de novo na China, depois Paris, o Cantal e o Ariège (terra da pré-história), seguidos por uma viagem a Obock e Abissínia (África Oriental), a convite de Henri de Monfreid. De 1929 a 1936, ele esteve de novo na China, onde fez a descoberta capital do Sinanthropus e assim por diante!

Em 1931, encontramo-lo como participante, na qualidade de geólogo, na mítica "Travessia Amarela" de André Citroën. Pierre Teilhard também foi convidado para muitas outras expedições desse tipo, como a "Harvard-Carnegie" na Birmânia (1937-1938).

Por fim, assinalamos uma viagem à Rodésia e à África do Sul em 1953. Na África Oriental, perdeu por pouco a expedição do doutor Leakey em Olduvai. Teilhard também participou de inúmeros congressos e debates sobre a paleoantropologia.

O leitor pouco habituado à leitura de Teilhard não deve se surpreender diante dessa rapidíssima, mas necessária, corrida da vida e das pesquisas científicas de nossa parte. Teilhard é, acima de tudo, um fenomenólogo no sentido etimológico do termo, ou seja, um observador; ele vê, estuda, compreende, observa o mundo do qual é um "cidadão" ante litteram, é um hiperativo fascinado pela Criação, pela evolução, pelo coração da matéria.

Desde a infância, ficou impressionado com o ferro, para ele a matéria misteriosa e poderosa. Concebeu o cosmos como um todo e a Terra sobre a qual não parou de viajar. O seu pensamento, a sua reflexão, a sua ação não se curvam jamais sobre si mesmos. Pierre Teilhard se relacionou com um número incrível de países, de povos e de pessoas de todos os tipos. Encontrou filósofos como Huxley ou Le Roy, sucessor de Bergson no Collège de France, com o qual lançou a revista Géobiologie, aventureiros como Henri de Monfreid e, obviamente, os cientistas do seu tempo.

Junto com Boule, Licent, Breuil, o conde Begouën e Cartaillac, fundou a paleontologia e a antropopaleologia modernas. Teilhard repensaria a evolução e o ser humano. O homem é um dos centros do pensamento teilhardiano, que traz consigo um profundo respeito pelas culturas exóticas dos países que ele atravessa: pensemos apenas em todos aqueles que trouxeram consigo os tesouros arqueológicos do Oriente, enquanto Teilhard contribuiu com a construção de museus in loco com as suas descobertas, como o de Zhoukoudian, na China, onde se encontram os fósseis do homem mais antigo então conhecido, o Sinanthropus, um pitecantropo de cerca de 600 mil anos de idade.

O museu fundado por Teilhard sobreviveu à Revolução Cultural, e uma estela foi preparada em sua honra. Não é possível compreender o seu pensamento, muito difícil e exigente, se ignorarmos o seu percurso científico, as suas viagens e o seu caminho religioso. Não se pode compreender Teilhard de Chardin se, segurando na mão um micaxisto, um calcário ou um granito, vermos apenas um cascalho vulgar e não uma pedra cósmica, ao mesmo tempo resultado da evolução e portadora da potencialidade da vida, graças a uma energia que veio de fora.

O cientista e o místico

Teilhard é um cientista, mas também um visionário e um místico. Se Pierre Teilhard é um homem da terra, do cosmos, também é um homem de Deus, que desde a infância busca o Absoluto... talvez, no fim, a busca de toda a sua vida.

"Quanto mais eu posso rastrear nas minhas recordações (de antes da idade de 10 anos), noto em mim a existência de uma paixão claramente dominante: a paixão pelo Absoluto... A necessidade de possuir, em tudo, 'algum Absoluto' era, desde a minha infância, o eixo da minha vida interior. Entre os prazeres daquela idade, eu não era feliz (se bem me lembro) senão em relação com uma alegria fundamental, que consistia geralmente na posse (ou no pensamento) de algum objeto precioso. Ora se tratava de qualquer pedaço de metal, ora de um salto para a outra extremidade, eu me comprazia no pensamento de Deus-Espírito" (O meu universo).

Lendo essa citação, vocês compreenderão que, se Teilhard é um cientista, é igualmente um homem de altíssima espiritualidade, se não um místico. Para começar a ler as suas obras, "A missa sobre o mundo" é uma boa introdução, assim como "O ambiente divino".

É nesse tipo de escritos que se mede a altura da sua visão. Aqui estão algumas linhas: "Verdadeiramente, através da operação ainda em curso da encarnação, o Divino penetra tão bem nas nossas energias de criaturas que nós não poderemos, para encontrá-lo e abraçá-lo, encontrar um ambiente mais apropriado do que a nossa própria ação. Na ação, para começar, eu faço adesão ao poder criador de Deus; coincido com ela; torno-me não apenas o seu instrumento, mas também o seu prolongamento vivo. E, como não há nada de mais íntimo, em um ser, do que a sua vontade, eu me confundo, de algum modo, através do meu coração, com o próprio coração de Deus. Esse contato é perpétuo porque eu ajo sempre e, ao mesmo tempo – porque não poderia encontrar um limite para a perfeição da minha fidelidade nem para o fervor da minha intenção –, me permite me assimilar a Deus ainda mais estreitamente, indefinidamente. Nessa comunhão, a alma nunca deixa de se alegrar nem perde de vista o fim material da sua ação. Não é, talvez, um esforço criativo aquilo com que ela se une?" (O ambiente divino).

Evolução e consciência

Teilhard de Chardin, como muitos místicos, é um homem de ação, que alcança os recursos da sua ação, das suas pesquisas e das suas descobertas científicas na contemplação de Deus e na visão do mundo em evolução que a ela se acompanha e nas quais ele "vê" Deus – o que ele chama de "diafania".

É justamente nessa altura de visão, nessa mística a serviço da qual ele coloca todos os seus conhecimentos científicos, que Teilhard elabora a teologia evolucionista e viva que o caracteriza. Pierre Teilhard é um fenomenólogo que olha para as coisas e tenta penetrar no seu mistério e sentido.

O seu olhar de paleólogo remonta muito no tempo. A evolução é uma evidência que se impõe. Ao infinito do espaço e ao infinito do tempo de Pascal, ele acrescenta um terceiro infinito, o infinitamente complexo. Para Teilhard, a matéria se diversifica ao extremo, torna-se cada vez mais complexa no turbilhão da vida, sob a ação criadora da energia divina, até que parece o pensamento, o imaterial gerado pela matéria.

A matéria se espiritualiza, e, através dela, é o cosmos que se espiritualiza em um infinito atemporal e imaterial. Da matéria bruta à alga azul, do oceano primordial seguido pelo aparecimento da vida, Teilhard vê uma evolução que, por estágios sucessivos, vai desde a cosmogênese à biogênese e à antropogênese.

O "fenômeno humano" (título de uma das suas obras fundamentais) ilustra o surgimento de um "sempre mais" de consciência e de espírito. A antropogênese é o lugar, o cumprimento da evolução. Certamente, o ser humano é um ser inteligente, mais do que as outras espécies animais. Acima de tudo, o ser humano pensa e sabe em um nível jamais igualado: pense que pensa e sabe que sabe. No ser humano, existe a consciência, eis o que é – junto com o surgimento da vida e da inteligência – uma fonte de admiração.

O ser humano é mais do que o junco pensante pascaliano perdido no "gelo infinito" do espaço e do tempo. O ser humano é a própria presença do infinitamente complexo que pensa e é consciente. Ele é espírito, espiritual e sinal visível da noosfera ("esfera do espírito", em grego). A noosfera vem se sobrepor, completar e ultrapassar a biosfera. Camada pensante do ser humano, ela é o lugar e a união dos espíritos pensantes em comunicação uns com os outros e movidos pelo espírito dinamizante de Deus, o Cristo Evoluidor. A noosfera é centrada em Deus e resolutamente voltada para a frente, rumo ao ponto Ômega.

Essa antropogênese, sempre a ser construída, emerge somente através da dinâmica de uma energia espiritual inscrita no eixo evolutivo do mundo: o Cristo Evoluidor. Aqui, o padre jesuíta é influenciado pelos apóstolos Paulo e João. Nessa pesquisa, encontram-se evidentemente o Cristo Pantocrator do primeiro (cfr. as Epístolas aos Colossenses, aos Filipenses e aos Efésios) e o Verbo criador do segundo (cfr. João 1).

A antropogênese é a ponta do eixo da evolução, e no ser humano é a Igreja que é a ponta extrema desse eixo. O padre Teilhard vê na missa a presença do Cristo Evoluidor, ou seja, um Cristo presente no mundo, ativo, que dinamiza a cosmogênese e que é o centro das energias. O Cristo Evoluidor recentra em si a noosfera e atrai o mundo para Si no Cristo Ômega.

Através do Cristo Evoluidor, "pode-se passar, sem deformar a atitude cristã, do conceito de 'humanização através da redenção' ao de humanização através da evolução?" (A minha fé). Através da diafania crística – e da presença real –, o sacerdote associa o cosmos inteiro ao acontecimento. O pleroma aparece como a plenitude, a totalidade que reúne Deus e a multiplicidade da criação, sem confusão, mas preservando a sua identidade e alteridade na união.

O pleroma é o cumprimento da evolução material, biológica e espiritual em Deus, outro modo de definir o ponto Ômega. Não nos esqueçamos nunca de que Teilhard é católico e que, para ele, a Igreja Católica é "a ponta" da evolução. Em todo o caso, há uma criadora formidável na visão teilhardiana que reencontramos, em certa medida, na teologia do processo.

Uma busca do sentido do Cosmos

Se Teilhard conhece bem as obras de Bergson (e do seu sucessor Édouard Le Roy, com o qual mantém uma correspondência contínua), ele se distingue dele, porém, no sentido de que, para ele, a dinâmica do espírito é transcendente. Essa dinâmica chega rapidamente e atravessa o mundo para elevá-lo, dinamizá-lo, fazê-lo evoluir e espiritualizá-lo àquele "para a frente" que nada mais é do que o ponto Ômega.

Tal Espírito vem de Deus e permite a conscientização do cosmos, a aparição da noosfera. É "para a frente" que se desdobra o presente, é para a frente que tendem as energias criadoras e espiritualizantes, apesar daqueles que veem o fim dos tempos como a destruição do mundo ou o "Big Crunch" (o contrário do Big Bang).

Aqui, a curva evolutiva da complexidade-consciência sai do espaço-tempo, foge da matéria, segue o eixo crístico e foge, assim, da entropia. Essa entropia é uma forma de mal que se opõe ao "esforço" de espiritualização e de Amor.

Hiroshima, assim, para Pierre Teilhard, é um exemplo do mal, porque, além dos danos humanos e materiais, a energia foi desviada do uso que deveria ter tido: em vez de estar a serviço do Espírito, foi posta a serviço da destruição e da morte.

A questão das energias desviadas já tinha chamado a atenção de Pierre Teilhard durante a Primeira Guerra Mundial. É na frente de nós, rumo ao ponto Ômega, que se encontra a imortalidade. O seu pensamento e a sua vida, de fato, são uma busca de sentido para o Cosmos e para o ser humano.

Teilhard permanecerá sempre um pouco a criança que recolhia seixos pelos caminhos de Auvergne, como Théodore Monod, outro visionário. As suas estradas se cruzam: para eles, Deus é Deus do Mundo, este mundo que é preciso amar.

O Amor

O amor, obviamente, é uma ideia central para Teilhard. Amor pelo outro, pelo próximo no sentido mais clássico do ágape, mas Teilhard não desenvolve o seu pensamento nesse sentido, talvez evidente, mas para ele insuficiente.

O Amor também é o amor do casal, em que cada parceiro é portador "da realidade universal que brilha espiritualmente através da carne". Esses dois modos de ver o amor, de fato, são englobados em uma terceira concepção do amor, que vê no Amor um modo dinâmico e dinamizante de amar, que permite tecer e construir a noosfera.

Todo o sistema de pensamento de Teilhard se fundamenta na caridade. Toda relação marcada pelo selo do Espírito se inscreve nesse modo de ver. Talvez hoje diríamos "tecer laços". Todas as relações de amor permitem, assim, que o mundo se encontre em Cristo e entre na espiral aspirante em torno do eixo que conduz ao ponto Ômega.

O Cristo Evoluidor está bem presente nessa forma dinâmica de viver o amor cristão, reserva sagrada de energia. "O Amor é a mais universal, a mais formidável e a mais misteriosa das energias cósmicas", escreve ele no seu livro "Eu me explico".

O Amor, energia cósmica, permite a união que tudo diferencia, assim como diferencia a união com o Cristo cósmico. Nesse campo, o padre Teilhard se insere na visão genésica para a qual o ato criador é um chamado, uma diferenciação, a identidade dos elementos que compõem o caos inicial. "Na mente, Elohim criou os céus e a terra, a terra era tohu e bohu (caos), uma treva sobre a superfície do abismo, mas o sopro de Elohim pairava sobre a face das águas […]" (Gênesis 1, 1, na tradução de André Chouraqui).

O Amor crístico, amor de Deus, é justamente um ato criador contínuo. Essa maneira de ver o amor é típica do seu pensamento e da sua visão do universo e de Deus, toda movimento e ação. "No universo tornado pensante, tudo se move no e rumo ao pessoal, é obrigatoriamente o Amor que forma e que formará cada vez mais, em estado puro, o tecido da energia humana... O Amor não pode ser, pura e simplesmente, na sua essência, a própria atração exercida sobre cada elemento consciente pelo Centro do Universo?"

O Centro aqui é um Deus presente no mundo e à frente em relação ao mundo, que Ele atrai para Si. O Amor, para Teilhard, não é simplesmente caridade: o Amor engloba a caridade em uma dinâmica de vida total.

O dinamismo de Deus

Vocês poderiam pensar que Teilhard é um criacionista. De modo algum. Deus é energia, dinamismo, dinamizante, força convergente que atrai, envolvendo-o em Si mesmo, o modo espiritualizado rumo ao seu cumprimento Ômega.

Teilhard continua sendo um cristão clássico que evita toda confusão, independentemente do que digam os seguidores da Nova Era, que muitas vezes o recuperam e o citam. Ele não vê Deus como um "Grande Tudo" no qual se possa se perder, se diluir: ao contrário, a convergência em Cristo presente no mundo permite conservar a identidade de todos os elementos que concorrem para a noosfera, porque no amor há a individuação.

Se há panteísmo, é um panteísmo de convergência e de união, certamente não de confusão e de unificação. Deus se manifesta no mundo através do Cristo Evoluidor. A diafania crística permite a visibilidade de Cristo no mundo e do mundo em Cristo. Se Deus continua sendo o Deus clássico que conhecemos através da Revelação e da encarnação em Jesus Cristo, a especificidade de Deus tal como o concebe Teilhard de Chardin é de ser transcendente.

Deus chama o mundo e o ser humano a um "sempre mais" de espiritualidade, de humanidade, de laços e de vida entre cada pessoa. A altura de visão, a mística revestem-se de um interesse particular. O apelo ao "sempre mais" vem do Deus "diante de nós", que espera, atrai, dinamiza a cosmogênese, ou seja, a evolução do mundo da matéria ao Espírito.

Se Teilhard não rejeita as ideias clássicas sobre a redenção fundadas sobre a morte e a ressurreição de Jesus, isso não impede que, para ele, a Salvação do mundo e o sentido se encontrem também na evolução, na cosmogênese.

Para ele, o cristianismo moderno (e futuro) não pode não levar em consideração esse aspecto da Salvação ligado à evolução. Eis um aspecto dos mais fundamentais do seu pensamento: a Salvação em Cristo Evoluidor, Cristo Ômega na sua inteireza em Deus Ômega. O ponto Ômega, no horizonte da nossa vida e do mundo, não é, portanto, um ponto de diluição, mas Deus inteiramente personalizante em que é posto o nosso ser, a nossa personalidade.

O pensamento teilhardiano é otimista. Apesar das duas guerras mundiais, Teilhard conserva uma esperança que se fundamenta na Revelação e na ciência, uma porta aberta para uma nova maneira de viver e de expressar o cristianismo.

Uma Sabedoria criadora

A leitura das obras de Pierre Teilhard de Chardin, muitas vezes, é difícil porque criou uma linguagem própria (noosfera, Cristo Evoluidor, ponto Ômega, cosmogênese etc.) e porque mistura implacavelmente ciência, mística, filosofia e dogmática.

Muitas vezes, é preciso passar por um ou dois volumes para ver claramente. Mas o esforço (também um conceito teilhardiano) vale a pena. O seu pensamento é deslumbrante, de alta espiritualidade, um pensamento que pertence ao fundo comum do cristianismo, embora os protestantes possam se surpreender com a abordagem às vezes bastante católica do padre jesuíta.

Como classificar esse pensamento cristão e moderno? Como no caso do pastor Georges Crespy, um dos melhores conhecedores de Teilhard, nós não vemos uma gnose (embora moderna) no seu sistema, mas sim uma Sabedoria como a da tradição judaica, uma Sabedoria criadora como a do capítulo 8 dos Provérbios, uma Sabedoria como a que inspirou o logos criador do prólogo de João ou o Cristo Pantocrator da Epístola aos Colossenses.

Essa sabedoria, essa palavra que atua, essa presença de Cristo não se manifestaria, talvez, diante dos nossos olhos de maneira espetacular na nossa sociedade moderna da hipercomunicação, em que cada elemento da humanidade pode estar em relação com todos os outros?

Resta prosseguir o esforço de espiritualização na sociedade moderna, se quisermos que a curva da complexidade-crescimento que nos trouxe até aqui realmente reflita o mundo espiritualizado da noosfera. No contexto da noosfera, que é Cristo no alto dos céus, a festa da Ascensão, hoje um pouco esquecida, é uma das festas mais importantes do cristianismo.

Jesus Ressuscitado que sobe ao céu nos mostra a direção, nos atrai para o eixo da evolução do mundo que se espiritualiza e se torna mais complexo, envolvendo-se em si mesmo, dinamizando-se e aproximando-se do eixo que conduz ao ponto Ômega, o Cristo em glória, ponto final da espiritualização e da vida que se realiza no fim em Cristo.

Para encerrar, deixamos a palavra a Pierre Teilhard. Em março de 1955, poucos dias antes da sua morte ocorrida em Nova York no dia 10 de abril, ele escreve: "Há muito tempo, em 'A missa sobre o mundo' e 'O ambiente divino', diante daquelas perspectivas que ainda se formam fatigantemente em mim, eu tentei conter a minha admiração e o meu estupor. Hoje, depois de 40 anos de contínua reflexão, é exatamente a mesma visão fundamental que eu sinto a necessidade de apresentar e de compartilhar, na sua forma levada à maturação uma última vez. Não com o mesmo frescor e exuberância de expressão que tinha no momento do seu primeiro encontro, mas sempre com a mesma maravilha – e a mesma paixão" (O ambiente divino).

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