Sensação de Natal, e a busca da fraternidade e do bem comum como o verdadeiro negócio

Tela de Kassio Massa, Arquiteto, urbanista e artista visual com graduação pela FAU Mackenzie, e mestrando na mesma universidade. Atua com desenho, fotografia e meios digitais.

24 Dezembro 2020

"Arrisco-me a dizer que é da sensação de natal que Francisco escreve quando trata da fraternidade e da amizade social. O ser humano não se reconhece completamente se não no encontro com os outros. Francisco está preocupado com o tornar-se povo, que exige uma cultura do encontro, um trabalho permanente de integração, que não se coloca por cima da dignidade da pessoa humana, mas antes a promove em consonância com o bem comum", escreve Lucas Prata Feres na mensagem de final de ano em nome da equipe que colabora junto ao IHU na coordenação da Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco” .

Lucas é jovem inscrito no evento Economia de Francisco, e um dos coordenadores do Grupo de Pesquisa e Conjuntura da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara; é Economista pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e atualmente Mestrando no Instituto de Economia da mesma Unicamp, com pesquisa sobre o mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo.

Eis a mensagem.

Quando começamos a ver as luzes amarelas ou coloridas decorando as árvores, casas e ruas há uma sensação dentro de nós que costuma emergir, talvez atraída pelo brilho das lampadinhas, talvez assustada com a repentina aparição de verdes pinheiros e branquíssimos flocos de neve em nossos dezembros de 40 graus, repetindo nossa já conhecida tradição de sintetizar o que nos é estranho. Só a antropofagia nos une, disse Oswald de Andrade.

Essa sensação, se também devorada e deglutida da experiência estrangeira, talvez tenha surgido junto ao capitalismo industrial, na mesma Inglaterra vitoriana, por obra do fantasma de Marley. Não é nova a história, e muita gente já a leu em livros, assistiu em filmes, ou ouviu de algum sobrevivente da época em que ainda se contava histórias nas mesas de jantar. Scrooge, o velho “sovina, avarento, mesquinho, unha de fome e ganancioso” não gostava do natal.

“O que é o natal, se não a época de se dar conta de que está um ano mais velho e nem uma hora mais rico, ver que cada item do livro de contabilidade, nos doze últimos meses, só lhe trouxe prejuízo?”, questionava ao sobrinho.

Mas, é na noite de natal que o espírito de Marley, seu falecido parceiro de negócios, aparece para lhe revelar que vagava agora como fantasma a arrastar pesadas correntes, como castigo pela avareza cometida em vida. “A busca da fraternidade e do bem comum é que deveria ter sido meu negócio”.

Contada pelo talento de Dickens, não é difícil perceber que a sensação de natal aparece, na verdade, para resistir à economia sem alma que então nascia, e que se corporificava no homem de negócios do centro financeiro de Londres. Scrooge, enquanto tem seu espírito e seus modos tomados pelo amor ao dinheiro, também não consegue entender o empregado:

“Maluco! Ganhando quinze xelins por semana, com mulher e filhos para sustentar, ainda vem falar em feliz natal.”


Imagem: Basílica Giotto em Assis, Itália.

É inglês também o economista que, algumas décadas mais tarde, já com o capitalismo monopolista plenamente consolidado, teorizaria sobre a contradição entre o amor ao dinheiro e a vida material dos homens. Keynes era um dos amigos e amantes do grupo de Bloomsbury e, com eles, queria abolir a moral vitoriana, mas via os perigos contidos na natureza monetária da economia na modernidade. Em momentos de pessimismo exacerbado, homens como Scrooge exerceriam o papel de adoração ao dinheiro, atribuindo à sociedade o custo de seus medos. Nessa forma econômica, a vida dos homens depende das decisões e do espírito de aventura daqueles que possuem a riqueza e o controle do crédito.

A forma de vida que via nascer Scrooge haveria de dividir os homens uma vez mais, agora entre os que odeiam o natal por ser um dia de lucro a menos e os que fazem o mesmo por faltar dinheiro para a ceia. Abundância e escassez, dois produtos do capitalismo, duas formas opostas e combinadas de estranhar o outro.

Essa sensação que não tem nome, a que alguns, de certa forma repetidamente, chamariam espírito de natal, talvez seja essa repentina e provisória descoberta de que, quando as luzes das árvores piscam, piscam para todos. Ou não foi para que todos tenham vida, e vida em abundância, que Deus se fez presente na história em forma humana? Essa sensação que nos domina talvez seja, então, a humanidade revelada a si mesma através da encarnação de Deus, um Deus que, em perspectiva cristã, fez-se humano em Jesus (que revela o próprio Deus e a plenitude da humanidade), a fim de que os próprios seres humanos vejam que, quanto mais humanidade se busca, mais se caminha ao encontro do divino.

“(...) homens e mulheres parecem abrir de boa vontade seus corações fechados e pensar nas pessoas mais pobres como seus legítimos companheiros na viagem para o túmulo”, é o que responde o sobrinho ao tio sobre o dia de natal.

Pergunto-me se a sensação de natal haveria sobrevivido a 2020. Milhares de mortos, novos milhões de desempregados, famintos, miseráveis. As luzes de natal também piscam para eles? Poderemos ainda sentir o natal quando não podemos sequer nos sensibilizar diante de uma doença que tira a vida a centenas de milhares e de um sistema econômico que tira o sustento a tantos outros?

Arrisco-me a dizer que é da sensação de natal que Francisco escreve quando trata da fraternidade e da amizade social. O ser humano não se reconhece completamente se não no encontro com os outros. Francisco está preocupado com o tornar-se povo, que exige uma cultura do encontro, um trabalho permanente de integração, que não se coloca por cima da dignidade da pessoa humana, mas antes a promove em consonância com o bem comum.

Mas, como construir o povo em uma economia da exclusão? Há algo em comum entre os que vagam pelas ruas de Skid Row, bairro de Los Angeles, em busca da próxima picada de heroína, os que perderam a casa e a vida no incêndio da Torre Grenfell, em Londres, os que ficaram escondidos sob os escombros da fábrica de tecidos de Dakha, Bangladesh, e aqueles enlameados pelos deslizamentos de terra em Minas Gerais. Foram abandonados pela sociedade, existem apenas como “exilados ocultos”, “forasteiros existenciais”, na linguagem de Francisco. A abertura universal do amor de que fala o papa só pode existir em sociedades abertas que integram a todos.

Criamos, junto ao IHU, a coluna “Rumo a Assis” para pensarmos juntos na economia da exclusão que diagnostica Francisco. Reunindo diversos e plurais olhares e julgamentos do mundo, queremos dar base a um agir por outra economia possível. Queremos uma sociedade radicalmente democrática, ecológica, solidária, justa, participativa, criativa, colaborativa, inovadora, aberta.

Como lembra o filósofo italiano Franco Berardi, o futuro é sempre uma possibilidade inscrita no presente. O nosso desejo é que aqueles que se dedicam a disputar o nosso futuro ajudem a fazer com que “Rumo a Assis” não signifique apenas uma visita virtual à tumba de Francisco de Assis, mas a inspiração para a reconstrução da casa comum que, uma vez mais, cai em ruínas.

Texto de Lucas Prata Feres como mensagem de final de ano em nome da equipe que colabora junto ao IHU na coordenação da Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco" (Claudia de Andrade Silva, Klaus da Silva Raupp, Lucas Prata Feres, Roberto Jefferson Normando e Tatiana Fleming Machado Vasconcelos).

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