Economia de Francisco: perspectivas para a Igreja no Brasil em nível local

Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”

21 Dezembro 2020

“Se a economia não é fruto da revelação divina, cabe-nos compreender que a crise humanitária de nosso país é fruto do atual modelo econômico, que vistos na perspectiva cristã, por si só já justificaria a discussão sobre uma nova economia: o cuidado da Casa Comum que o Papa Francisco tanto nos chama a realizar. Os dados econômicos apresentados também nos ajudam a refletir que a retomada da economia não reside em receituários neoliberais. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos”, escrevem D. Frei Severino Classen, O.F.M., arcebispo de Maringá, estudou Filosofia e Teologia no Instituto Teológico Francisco de Petrópolis (RJ), padre Marcos Roberto Almeida dos Santos, doutorando em História da Igreja na Universidade Gregoriana – Roma (Itália) e assessor da Economia de Francisco na Arquidiocese de Maringá, e Rafael Oberleitner Crozatti, mestre em Economia pela Universidade Estadual de Maringá e representante da Arquidiocese de Maringá no Encontro Mundial da Economia de Francisco, em artigo para a coluna "Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco".

 

Eis o artigo.

 

1. Introdução

 

O Papa Francisco convidou todos os jovens a refletir e propor um novo modelo econômico. Tomando por referência a carta convite, o Encontro Internacional da Economia de Francisco tem por objetivo despertar nos jovens a mentalidade de superação de uma economia que mata, exclui e desumaniza, por uma outra, bem ao contrário, que faz viver, inclui, humaniza e cuida da criação. No seu Magistério pontifício o Papa Francisco apresenta a necessidade urgente de se “corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das gerações vindouras”. É o Evangelho despertando nas gerações futuras a consciência de sermos parte de uma grande fraternidade universal, onde a natureza e a pessoa humana se integram na obra da criação.

A verdade é que «a simples proclamação da liberdade econômica, enquanto as condições reais impedem que muitos possam efetivamente ter acesso a ela (...), torna-se um discurso contraditório». Palavras como liberdade, democracia ou fraternidade esvaziam-se de sentido. Na realidade, «enquanto o nosso sistema econômico-social ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada, não poderá haver a festa da fraternidade universal»! (Fratelli Tutti 110).

Além do Encontro Internacional, em Assis-Itália, de maneira remota, nos dias 19 a 21 de novembro de 2020, o Papa Francisco propõe reestruturar a grade curricular dos cursos de Economia. O trabalho é assessorado pelo prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, no intento de auxiliar a Igreja na reflexão junto à juventude, da importância da conscientização global sobre a necessidade de “reimaginar e redesenhar” os novos conteúdos curriculares e as novas metodologias de ensino por meio das quais a economia e os negócios nas universidades de todo o mundo sejam aprendidos à luz da Laudato Si', da Fratelli Tutti e do pensamento dos próprios jovens estudantes.

O papa quer a ousadia da juventude a serviço de uma nova economia! Portanto, todos os segmentos juvenis intra e extra-ecclesia são convidados a levar adiante a promoção de uma nova economia. Mas para objetivo tão nobre, é necessário compreender o mundo e o país em que vivemos, portanto, a reflexão que segue é fruto compartilhado do Grupo Economia de Francisco na Arquidiocese de Maringá.

 

2. O mundo em crise

 

Pensava-se que a economia de mercado seria a resposta para todos os problemas da humanidade. O slogan sedutor de que, quanto mais o capital se expandir mais se terá para repartir com todos, se caracterizou como ledo engano. O fracasso desta teoria se vê no aumento exponencial de pobres, sobretudo das classes baixa e média cada dia mais decadentes diante da política neoliberal reinante ao redor do mundo. Se nas décadas de 1980-90 os governos se deixaram seduzir pelo discurso da celebração da liberdade individual e suas promessas de um libertarismo econômico sufocados pelo Estado opressor e burocrático, agora se veem numa encruzilhada em conciliar prosperidade econômica e demandas sociais arrasadas pelo capital especulativo dos mercados, sem compromissos com o desenvolvimento social e econômico dos seus países.

A teoria econômica de que se deve reduzir ao mínimo os poderes do Estado sobre o capital, no intuito de maximizar a liberdade individual e estimular a criatividade das pessoas, se viu fracassada com o advento da crise econômica oriunda da pandemia do coronavírus. Se ao Estado cabia apenas uma intervenção mínima, apenas para garantir a integridade do dinheiro, manutenção do aparato de defesa militar, policial e jurídico da propriedade, agora o Estado teve que ceder sua célebre teoria de concentração ilimitada para a injeção de dinheiro público na manutenção do sistema econômico-social do próprio país.

 

3. É possível conciliar democracia e economia de mercado?

 

Se políticas governamentais acreditaram ser possível estabelecer uma democracia madura e consensual entre as diversas forças políticas da sociedade, adotando os ditames do mercado financeiro, sem considerar a distribuição de renda e a implementação de políticas públicas para a população, se viram enganados. O resultado foi o oposto com a inauguração de uma nova era na história da política liberal: a pós-política. A pós-política é a hegemonia do capital financeiro em detrimento do liberalismo clássico e democrático sustentado pelas forças produtivas, do capital e da mão-de-obra constituídas no país e seus aliados. A pós-política fundada na globalização do capital financeiro eliminou os espaços democráticos, passando a imperar uma visão liberal-individualista que celebra a sociedade de consumo e a liberdade que oferecem os mercados para vender e consumir. Prometeu-se que a crença neste dogma seria a redenção da humanidade dos seus males de desigualdade e subdesenvolvimento. A esperada transformação não aconteceu. As democracias desacreditadas ruíram e a pobreza aumentou exponencialmente.

O Papa Francisco na sua encíclica Fratelli Tutti faz uma dura crítica ao incapacitado mercado neoliberal para resolver os problemas da humanidade. O fim da história previsto pela ascensão e hegemonia do livre-mercado neoliberal se demonstrou falido e gerador de pobreza e miséria, e isto ficou evidenciado com a pandemia do coronavírus.

O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. O neoliberalismo reproduz-se sempre igual a si mesmo, recorrendo à mágica teoria do «derrame» ou do «gotejamento» – sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais (...). O fim da história não foi como previsto, tendo as receitas dogmáticas da teoria económica imperante demonstrado que elas mesmas não são infalíveis. A fragilidade dos sistemas mundiais perante a pandemia evidenciou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado (Fratelli Tutti 168).

 

4. O povo contra a democracia

 

Yascha Mounk em seu livro O povo contra a democracia faz uma análise pertinente das consequências de um povo traído por uma democracia que beneficiou os bilionários às custas das classes médias e baixa. A estagnação do padrão de vida é o ponto de partida para se compreender a cabeça dos “revoltosos” dos dias atuais. Enquanto o crescimento econômico aumentava o Produto Interno Bruto (PIB) dos países, a desigualdade afundava grupos sociais historicamente situados como participantes do bolo das riquezas produzidas. A família de classe média que, não está mais rica do que há trinta anos, vê sua promessa de futuro e prosperidade apenas como uma utopia no rol das ilusões. A sensação que estas pessoas têm é de que, embora muitas ainda sejam ricas, a sua expectativa de progresso material foi destruída e invalidada.

Por outro lado, estas populações empobrecidas se veem diante de níveis enormes de imigração de estrangeiros, transformando seus sonhos e desejos em ressentimento racional e preconceitos culturais. O medo da democracia multiétnica fortaleceu um populismo de ódio numa retórica de que as populações nativas possam deixar de ser a maioria em detrimento de uma cultura plural e diversificada, como se as culturas fossem estáticas e puras por sua natureza.

A ascensão das mídias sociais em redes virtuais de interesses afins potencializou em determinados grupos o ressentimento e a desconfiança na democracia popular como instrumento político de construção civilizacional. O empoderamento de outsiders e influenciadores digitais eivados da insatisfação e do preconceito desestabilizou o controle da informação e da formação das consciências. As plataformas digitais se transformaram em verdadeiros oráculos de delfos, desestabilizando governos e desacreditando na democracia participativa. Sem contar que as redes sociais imprimiram o conceito de pós-verdade, sendo o real e verdadeiro aquilo que creio ser e leio na internet.

No Brasil não é muito diferente do que está acontecendo no resto do mundo. O ressentimento social frente às conquistas populares de amplos direitos previstos na Constituição de 1988, permitiu a ascensão de um discurso de orientação neoconservadora, fundado num simulacro de valores tradicionais. O discurso de defesa da família tradicional, somados com a prática do punitivismo para pobres, negros, homossexuais e mulheres, facilmente comunicável com o militarismo combatente do comunismo e da corrupção e de uma linguagem evangélico-neopentecostal, traduz perfeitamente a crise civilizacional que o país vive. Aquilo que se chama de combate ao globalismo cultural não é nada mais do que o ressentimento social das conquistas da Constituição de 1988.

 

5. Vivemos uma economia que mata a Casa Comum

 

Uma simples consulta nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicado em 2019, nos permite compreender que a situação econômica no Brasil não foge a regra daquilo que o mundo vive. O convite do Papa Francisco aos jovens vem em boa ocasião, exatamente num momento em que o mundo passa por provas cruciais de sua capacidade de resolver grandes problemas da humanidade. Um estudo intitulado “Síntese de Indicadores Sociais (SIS): uma análise das condições de vida da população brasileira” nos permite perceber a crise em que o Brasil já estava. A SIS 2019 tem o interesse de organizar uma série de informações sobre a realidade social do país, através de temas estruturais relevantes com vistas à construção de um quadro abrangente sobre as condições de vida da população brasileira.

Desta reflexão destacaremos dois importantes eixos: Mercado e Rendimento do Trabalho e a Pobreza Monetária, os quais nos levam a entender as opções que os governos fazem na política socioeconômica do país. Nada acontece ao acaso, tudo é resultado das escolhas e opções que governos e sociedade civil fazem, tantas vezes em detrimento aos interesses populares.

 

5.1 Mercado e o Rendimento do Trabalho

De acordo com a SIS 2019 (Gráfico 1), os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) revelam que, até 2014, o mercado de trabalho brasileiro esteve aquecido, sobretudo na geração de emprego formal; houve redução do desemprego, que atingiu sua menor taxa na série (2014); e aumento dos rendimentos do trabalho. Porém, nos quatro anos seguintes, tais resultados positivos foram revertidos completa ou parcialmente. Destaque para as taxas de desocupação (desemprego) e de subutilização (subutilização da força de trabalho) que mostraram forte crescimento nos anos de 2015 a 2017; enquanto o nível de ocupação, definido como a população ocupada em relação à população em idade de trabalhar, registrou redução. Isto é, o contingente que ingressou na força de trabalho ou que estava ocupado, em parte, passou a compor a população desocupada ou subutilizada nos anos finais da série.

Entre 2016 e 2018, além do crescimento da subutilização da força de trabalho e da alta taxa de desemprego, notam-se condições desfavoráveis também para os que se mantiveram ocupados. A avaliação do emprego por posição na ocupação revela a interrupção do crescimento da participação dos empregados com vínculo formal de trabalho e a reversão da tendência para a proporção mais baixa já registrada, de 47,4%, em 2018. Por outro lado, a proporção da população ocupada sem carteira de trabalho, quanto a de trabalhadores por conta própria, registraram elevações contínuas a partir de 2015, como é possível observar no Gráfico 2. Pela primeira vez desde 2014, a ocupação apresentou variação positiva de forma significativa (1,3 milhão), todavia concentrada no pessoal ocupado sem carteira assinada e por conta própria. Assim, tais combinações de resultados ocasionaram a queda da participação do emprego com vínculo, revelando a dificuldade que atravessava o mercado de trabalho brasileiro.

A SIS 2019 ressalta que, a informalidade é uma característica histórica do mercado de trabalho brasileiro, e constitui importante marcador de desigualdades. Como consequência, por exemplo, há um elevado contingente de trabalhadores sem acesso aos mecanismos de proteção social vinculados à formalização, como a remuneração pelo salário-mínimo, o direito à aposentadoria e às licenças remuneradas, como para maternidade ou por afastamento laboral por motivo de saúde.

O grupo etário mais afetado pela desocupação é o dos jovens entre 14 e 29 anos de idade. Para esse grupo, a taxa de desocupação, passou de 13% em 2014, para 22,3% em 2018. Em 2016, a razão de jovens que não estudavam e não estavam ocupados era de 21,8%. Saltou para 23%, em 2017, percentual que se manteve em 2018. A média para os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi 13,2% em 2018.

Entre os homens a taxa de desemprego foi menor do que a das mulheres. A menor diferença foi encontrada em 2014, 2,8 pontos percentuais, e a maior em 2017, 3,7 pontos percentuais. Ao longo de toda a série histórica, o desemprego entre a população preta ou parda foi maior do que a população branca, tendo alcançado a maior diferença em 2017 e 2018, de 4,6 pontos percentuais. Como explica a SIS 2019, ainda que a população branca seja mais escolarizada que a população preta ou parda, outro marcador de desigualdade, esse aspecto não pode ser apontado como explicação cabal para tal resultado. Dado que, quando comparadas, pessoas pretas ou pardas e pessoas brancas, com o mesmo nível de instrução, a taxa de desocupação é sempre maior para os pretos ou pardos.

No que diz respeito aos rendimentos do trabalho, o rendimento habitual mensal da população ocupada elevou-se, em média, 4,7% em termos reais, passando de R$ 2065 para R$ 2163, entre 2012 e 2018. Contudo, essa ascensão não foi constante, tendo alcançado seu ponto mais elevado em 2014 (R$ 2218). A distribuição dos rendimentos médios por atividade confirma a tradicional disparidade entre os grupos de atividades da economia brasileira, como pode ser visto na Tabela 1. Em que pese tenha apresentado crescimento em termos reais nos sete anos disponíveis (11,7%), os Serviços domésticos registraram os menores rendimentos médios da série, equivalente a pouco mais de 40% do rendimento médio total. Administração pública, educação, saúde e serviços sociais, por sua vez, registraram o maior crescimento (13,4%) e os rendimentos médios mais elevados. Juntamente com Indústria, Transporte, armazenagem e correio e Informação, financeiras e Outras atividades profissionais, são os quatro grupos de atividades que apresentam rendimentos médios por pessoa ocupada acima da média nacional, de R$ 2163 por mês, em 2018. 

Por sua vez, o recorte por cor ou raça, assim como a diferenciação por sexo contribui para o diagnóstico das desigualdades de rendimentos do País. Na média, em 2018, os brancos ganhavam 73,9% mais do que pretos ou pardos e os homens ganhavam, 27,1% mais que as mulheres.

Ao observar o número de horas trabalhadas e o nível de instrução, a desigualdade nos rendimentos médios por cor ou raça permanecem significativas. Em 2018, a população ocupada de cor ou raça branca recebia um rendimento-hora superior à população preta ou parda segundo qualquer nível de instrução, sendo a diferença maior no nível de instrução mais elevado, R$ 32,80 contra R$ 22,70, isto é, 45% a mais para brancos.

Regionalmente, as desigualdades entre os rendimentos do trabalho são também expressivas. Em 2018, de acordo com a SIS 2019, os rendimentos médios do trabalho principal das pessoas ocupadas nas Regiões Norte e Nordeste eram equivalentes a, respectivamente, 77,1% e 66,6% da média nacional. Maranhão foi a Unidade da Federação que apresentou o menor rendimento médio (R$ 1249), seguida por Piauí (R$ 1320). Por outro lado, os maiores rendimentos médios foram do Distrito Federal (R$ 3749), São Paulo (R$ 2800) e Rio de Janeiro (R$ 2551).

 

5.2 Pobreza Monetária

De acordo com a SIS 2019, o Brasil não possui uma linha oficial de pobreza, desta forma, são construídas linhas que buscam ilustrar diferentes métodos de identificar pessoas com rendimentos considerados insuficientes para que possam atingir o bem-estar, recebendo valores que as vão impedir de participar plenamente em sociedade, o que se traduz, por exemplo, em dificuldades para comprar alimentos, despesas de habitação, transporte etc. O estudo, explora linhas de pobreza absolutas construídas a partir de valores definidos em dólares por dia, adotadas em nível internacional a partir de diversos estudos feitos pelo Banco Mundial.

O Banco Mundial publica há muitos anos a incidência da pobreza monetária nos países a partir da linha global de US$ 1,90 Paridade Poder de Compra (PPC) – sugerida para países de baixo rendimento, como parte dos países da África e países marcados por conflitos recentes como Afeganistão, Haiti e Síria –, mas adicionou, a partir de 2017, outras duas opções às suas publicações, US$ 3,20 PPC e US$ 5,50 PPC, construídas para dar conta das diferenças em níveis de desenvolvimento em países com rendimento médio-baixo e médio-alto. O Brasil é classificado entre os países com rendimento médio-alto, com base na Renda Nacional Bruta (RNB) per capita, para os quais o Banco Mundial sugere a linha de US$ 5,50 PPC para classificar as pessoas na pobreza.

Em 2018, no Brasil, havia 25,3% da população com rendimentos inferiores a US$ 5,50 Paridade Poder de Compra (PPC) por dia, aproximadamente R$ 420 mensais, o que equivale a cerca de 44% do salário mínimo vigente naquele ano. Quase metade (47%) dos brasileiros abaixo da linha de pobreza em 2018 estava na Região Nordeste. A Tabela 2 indica a proporção de pessoas abaixo das linhas e as variações para as duas faixas aqui destacadas, a saber, US$ 1,90 (ou cerca de R$ 145 mensais) e US$ 5,50 PPC por dia. Assim como destacado no Mercado e Rendimento do Trabalho, a pobreza monetária não afeta a todos de maneira similar, existindo alguns perfis populacionais que estão mais propensos a possuir rendimento inferior aos US$ 5,50 PPC por dia. Recortes de grupos específicos permitem identificar grupos populacionais mais vulneráveis. Por exemplo, em 2018, dentre as crianças (0 a 14 anos), 42,3% estavam abaixo da linha considerada, enquanto para idosos (60 anos ou mais), esse percentual era de 7,5%. Já dentre pessoas de cor ou raça preta ou parda, o percentual era de 32,9%, ante 15,4% de pessoas de cor ou raça branca.

5.3 Fome no Brasil

No que diz respeito à fome, o IBGE publicou em setembro deste ano dados alarmantes. O levantamento realizado entre junho de 2017 e julho de 2018 apontou piora na alimentação das famílias brasileiras. Ressalta-se que entram na conta apenas os moradores em domicílios permanentes, isto é, estão excluídas do levantamento as pessoas em situação de rua, o que certamente aumentaria ainda mais a chaga da fome pelo país. Em cinco anos, aumentou em cerca de 3 milhões o número de pessoas sem acesso regular à alimentação básica, chegando a, pelo menos, cerca de 10,3 milhões o contingente nesta situação em 2018.

A pesquisa mostrou também que: (a) o Brasil atingiu o menor patamar de pessoas com alimentação plena e regular; (b) a fome é mais prevalente nas áreas rurais; (c) quase metade dos brasileiros em situação de fome vivem na Região Nordeste do país; (d) metade das crianças com até 5 anos tem restrição no acesso à alimentação de qualidade; (e) mais da metade dos domicílios onde há fome são chefiados por mulheres e; (f) quanto maior o número de moradores no domicílio, menor é o acesso à alimentação plena.

 

5.4 Violência

De acordo com o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em outubro deste ano, pessoas negras são 74,4% das vítimas de violência letal, enquanto brancos representam 25,3% e amarelos e indígenas, 0,4%. A estatística tem como base dados oficiais dos estados para o ano de 2019. Segundo o estudo, a maior parte desses crimes são cometidos por armas de fogo, com sete a cada dez mortes causadas por tiros. O perfil dessa vítima é majoritariamente de homens (91,2%) com até 29 anos (51,6%), isto é, jovens. Por outro lado, 2019 e 2020, aponta um crescimento de 120,3% no total de armas sob posse dos CACs, sigla para Caçadores, Atiradores e Colecionadores. O número saltou de 225.276 para 496.172. Dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal, informam a existência de 1.056.670 registros ativos de armas de fogo.

Portanto, se a economia não é fruto da revelação divina, cabe-nos compreender que a crise humanitária de nosso país é fruto do atual modelo econômico, que vistos na perspectiva cristã, por si só já justificaria a discussão sobre uma nova economia: o cuidado da Casa Comum que o Papa Francisco tanto nos chama a realizar. Os dados econômicos apresentados também nos ajudam a refletir que a retomada da economia não reside em receituários neoliberais, sucedidos de ajustes fiscais, estabelecimento de teto de gastos públicos com redução dos serviços públicos essenciais à população, privatização de empresas essenciais para o desenvolvimento econômico-social do país, flexibilização das leis econômicas e trabalhistas, entre tantas outras. Neste período de pandemia se percebeu a importância do investimento público no equilíbrio e manutenção do bem-estar da população. E, acreditemos nisso, se as desigualdades sociais já são discrepantes em nossos dias, não duvidemos que o pós-pandemia aprofundará ainda mais o abismo entre ricos e pobres.

Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos (Fratelli Tutti 8).

 

6. O Papa Francisco propõe uma nova economia

 

O Papa Francisco propõe uma nova mentalidade econômica que salvaguarde a dignidade da pessoa humana, o cuidado da natureza e igualdade entre as pessoas: a Casa comum. É preciso restabelecer uma humanidade solidária e fraterna, sustentada pela inclusão social, respeito com toda a criação. Redescobrir que pertencemos a uma grande família em toda a humidade.

Trata-se, sem dúvida, doutra lógica. Se não se fizer esforço para entrar nesta lógica, as minhas palavras parecerão um devaneio. Mas, se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples fato de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz, e não a estratégia insensata e míope de semear medo e desconfiança perante ameaças externas. Com efeito, a paz real e duradoura é possível só a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana”. (Fratelli Tutti 127).

Crescem sinais de esperança, reação contra a violência, causada por uma economia que mata. O Encontro do Papa Francisco com os Movimentos Populares (18/10/2014), abrem caminhos para um humanismo solidário, incluso e fraterno. A mudança de mentalidade, na fraternidade universal, perpassa pela experiência do Evangelho. É preciso retomar a risca as exigências do Evangelho. O texto do Filho pródigo (Lc 15,11-32), o pai acolhe o filho perdido e concede-lhe dignidade, acolhimento, integra no seio da família e faz festa. Há um olhar autêntico para a vida e não para a economia que matou a dignidade do filho.

Igualmente podemos nos dirigir ao Evangelho dos talentos, (Mt 25,14-30). Enquanto a insensibilidade humana permanece no lucro econômico do texto, Jesus chama para criar vínculo, inclusão, participação, colocar as forças humanas a serviço do Senhor. Nele está a verdadeira alegria do bem viver.

Convocamos as pessoas de boa vontade para participar dos projetos sociais em nossas igrejas e façamos a conversão nos hábitos de acolher os necessitados e abramos nosso olhar para as realidades sociais. Rezemos ao Senhor que nos desperte para novas formas de busca de modelo de trabalho, novas formas de sustentabilidade, dar ênfase à criatividade e a organização social.

Evangelizar é fomentar a novidade, o surpreendente que encanta, que governa, que sustenta e que elimina toda forma de empobrecimento na humanidade. Organizar os setores de solidariedade, profissionalizar nossas experiências junto aos pobres, é comprometer toda a sociedade para um novo olhar para a humanidade fragilizada e oprimida. A liberdade evangélica nos estimula e o Papa Francisco abre portas para uma nova ordem econômica mundial.

Por isso, o chamado do Papa Francisco para este encontro mundial almeja refletir e encontrar novos caminhos econômicos para o mundo dilacerado em ódio e divisões, é uma esperança de que ainda é possível acreditar na força do Evangelho. A Igreja precisa cada vez mais tomar consciência de sua fidelidade ao Evangelho e propor luzes aos jovens na construção de caminhos para a humanidade e, consequentemente, vencer os obstáculos que impedem de sermos uma verdadeira família humana.

 

Referências

BRIGHENTI, Agenor (org). Os ventos sopram do sul: o papa Francisco e a nova conjuntura eclesial. São Paulo: Paulinas, 2019;

D´ANCONA, Matthew. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake News. Barueri. Faro Editorial, 2018;

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 2020. Disponível neste link. Acesso em: 1 nov. 2020.

FRANCISCO. Fratelli Tutti. São Paulo: Paulinas, 2020.

FRANCISCO. Laudato Si. São Paulo: Paulinas, 2015.

FRANCISCO. Carta do Papa Francisco para o evento "Economy of Francesco".

IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira - 2019. 2019. Disponível neste link.

LACERDA, Marina Basso. O novo conservadorismo brasileiro. Porto Alegre, Zouk, 2019;

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro, Zahar, 2018;

MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia. São Paulo. Companhia das Letras, 2019;

SILVEIRA, Daniel. Fome no Brasil: em 5 anos, cresce em 3 milhões o nº de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, diz IBGE. Disponível neste link. Acesso em: 10 nov. 2020.

 

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