“As igrejas ocidentais não devem apoderar-se do sínodo amazônico”. Entrevista com Andrea Grillo

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03 Março 2020

A exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, de Francisco, concluiu os trabalhos do sínodo e simultaneamente deu início ao envolvimento das igrejas locais à luz dos pronunciamentos sinodais.

Discutimos com Andrea Grillo os principais temas de Querida Amazônia. Professor de teologia dos sacramentos e Filosofia da Religião no Pontifício Ateneu S. Anselmo de Roma e Liturgia na Abadia de Santa Giustina de Pádua, Grillo ensinou como professor convidado na Faculdade Teológica de Lugano e na Pontifícia Universidade Gregoriana.

A entrevista é de Rocco Gumina, professor de Religião na arquidiocese de Palermo, presidente da associação cultural "A. De Gasperi" desde 2014 e publica em revistas especializadas artigos que desenvolvem temas relacionados à relação entre teologia, espiritualidade e política, publicada por Tuttavia, 01-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

"As Igrejas ocidentais não devem cometer o erro de "apoderar-se de um sínodo" que não tinha no centro "o seu" destino, mas o da Amazônia. As igrejas ocidentais - incluindo a cúria romana - devem aceitar que tenham sido, em relação ao Sínodo sobre a Amazônia, a periferia, reconhecendo que o centro estava e permanece localizado às margens do grande rio, que não se chama de Tibre, Sena, Danúbio ou Reno", afirma o teólogo italiano.

Eis a entrevista.

Os quatro sonhos propostos pelo Papa Francisco em Querida Amazônia parecem desapontar aqueles que esperavam novidades sobre uma nova regulamentação em vista do acesso ao sacramento da ordem. No entanto, o documento desenvolve com grande atenção algumas linhas sobre as urgências sociais, culturais e eclesiais da região amazônica. É possível que muitos estudiosos, observadores e crentes tenham entendido mal, com olhos ocidentais, as intenções do sínodo?

É bem possível que tenha havido tal mal-entendido. E esses observadores um tanto estrábicos, também são parcialmente justificados pelo fato de que, pelo menos formalmente, não sabemos como ser católicos, exceto de uma maneira "universal e abstrata". Parece-nos que um Sínodo, mesmo quando declaradamente "especial" como o aquele recém-celebrado, é sempre um ato que modifica a disciplina comum, ou até mesmo a doutrina geral. Não conseguimos sair de um modelo de Igreja unívoco, uniforme e, no fundo, monótono. O Papa Francisco, desde a "Evangelii Gaudium" vinha falando, com grande força, da exigência de uma diferenciação da disciplina, e até da doutrina, em relação às diferentes exigências que animam os diferentes continentes.

Aqui nos deparamos com um "continente no continente": a Amazônia é exatamente isso. E, como tal, há muito tempo exige um profundo respeito na abordagem pastoral. Os sonhos sociais, culturais e ecológicos respondem precisamente a esse imperativo. Agora Roma está elaborando uma estratégia para poder "diferenciar" o anúncio do evangelho, deixando-se moldar pela cultura, sociedade, história e geografia da Amazônia. Não se deve esquecer que a Amazônia traz, inclusive no nome, o traço indelével de uma mitologia grega em que as "mulheres guerreiras" surpreendem os conquistadores. Saber como integrar essa cultura "diferenciada" é o verdadeiro propósito "especial" do Sínodo. Diante de uma cultura marcada antigamente por "mulheres guerreiras e de autoridade", é surpreendente que a resposta possa ser medida no plano da admissão à ordem de "viri probati". Em vez disso, deveria tratar, antes de mais nada, de "mulieres probatae" ...

Em várias passagens, ao recordar a lição do Concílio Vaticano Segundo, o documento propõe inculturar a liturgia entre os povos indígenas. Para que êxitos poderia levar essa perspectiva?

Nesse ponto, o texto, em seu IV capítulo, parece bastante claro ao indicar em um "rito amazônico" a saída dessa elaboração. Alguém chegou a falar da instituição de uma "igreja católica de rito amazônico". Acredito que algumas coisas devem ser esclarecidas, para não cair também neste caso no mesmo vício da "abstração" que é típico da tradição romana mais recente. Dizer "rito amazônico" é fácil, mas se levarmos em conta que na Amazônia existem pelo menos 100 grupos étnicos, com diferentes tradições, culturas, rituais, é óbvio que um "rito amazônico" provavelmente corre o risco de ser uma "abstração romana", que permaneceria distante da cultura e que se imporia sobre ela de maneira completamente extrínseca.

De fato, deve sempre ser levado em consideração que a liturgia não é um "elemento exterior" que possa ser impingido sobre uma cultura de fora. Quando se procede dessa maneira, se geram equívocos, distorções e, acima de tudo, "duplicações". Ritos paralelos se afirmam, com uma obediência formal a ritos vazios e com a máxima experiência reservada a ritos paralelos e às vezes clandestinos. Para evitar esses desvios, é necessário assumir a cultura ritual de um povo como linguagem primária da liturgia cristã. Não sem adaptações, mas sem forçar. Nem tudo o que é originariamente indígena deve ser considerado "pagão".

No número 94 de Querida Amazônia, o Papa Francisco afirma que é urgente desenvolver uma cultura eclesial propriamente laical. Na sua opinião, e em termos concretos, que significado essa afirmação pode assumir?

Como é evidente, Querida Amazônia desenvolve com coragem uma grande releitura do "sacerdócio batismal" dos fiéis, para o qual, no entanto, usa apenas a terminologia do "leigo". A escolha talvez se deva à necessidade de falar diretamente aos povos da Amazônia. Mas é certo que essa linguagem é tipicamente europeia e romana, possui limites estruturais, o que dificulta bastante depois sair de uma leitura do sacerdócio e do sacramento marcada por um certo clericalismo e por uma consideração muito parcial do papel ministerial da mulher. De certa forma, essas são consequências necessárias da palavra "laico".

Eu acredito que, para entender a verdadeira intenção de abertura do n. 94, deve-se tentar reformulá-lo em termos de "sacerdócio comum". Isso levaria o texto a desenvolver o tema do sacerdócio e do sacramento de maneira menos rígida e a configurar, de maneira significativa, a necessária ministerialidade eclesial a ser confiada a mulheres que sentem a vocação para isso. Também aqui deve-se tomar cuidado para não impor prioridades europeias ou romanas às dinâmicas sociais e culturais do rio Amazonas.

No sonho eclesial, Francisco pede às comunidades amazônicas que formem os operadores pastorais à doutrina social da Igreja. Por que, em sua opinião, o papa enfatiza a importância fundamental da dimensão social dos Kerygma em todas as oportunidades?

A dimensão social do Kerygma não é apenas um "componente" que a Laudato si’ descobriu tão relevante para todas as igrejas, mas é ainda mais nas dinâmicas ecológicas, geográficas e históricas da Amazônia. Também neste caso, deve-se lembrar que estamos diante de uma região muito singular em termos de território, tradições, estruturas sociais e isolamento. Na vida de homens e mulheres assim colocados, a mínima alteração do ambiente se torna perda de meios de subsistência, abandono da casa, necessidade de migrar, não reconhecimento da dignidade.

A defesa dos direitos e culturas da Amazônia torna-se o caminho privilegiado do Evangelho e a redescoberta do destino comum dos bens da terra, que a Amazônia propicia com uma generosidade e com uma grandeza inigualáveis. A construção de comunidades cristãs aqui inevitavelmente passa pela justiça social e a responsabilidade em relação ao ecossistema, que estão estreitamente conectadas.

Que lições as igrejas ocidentais podem tirar do trabalho sinodal e das teses finais do sínodo amazônico?

Primeiro, é necessário um ato de humildade. Se a "região pan-amazônica" estava no centro do sínodo, a hermenêutica última desse documento deve ser deixada a eles. O Papa Francisco também disse isso com muita clareza: existem homens e mulheres que, com sua vida, paixão e experiência, conhecem a Amazônia muito melhor do que o papa e a cúria romana. As Igrejas ocidentais não devem cometer o erro de "apoderar-se de um sínodo" que não tinha no centro "o seu" destino, mas o da Amazônia. As igrejas ocidentais - incluindo a cúria romana - devem aceitar que tenham sido, em relação ao Sínodo sobre a Amazônia, a periferia, reconhecendo que o centro estava e permanece localizado às margens do grande rio, que não se chama de Tibre, Sena, Danúbio ou Reno.

Em segundo lugar, as igrejas ocidentais não devem iludir-se de "colocar um remendo" da maneira habitual, sem enfrentar o problema verdadeiro e sério: ou seja, o de uma "mudança de época" que exige, também da Igreja, um novo paradigma do magistério, no qual particular e universal, local e central, absolutamente normativo e relativamente normativo podem ser articulados com nova liberdade. Às Igrejas da Amazônia terá que ser dada autoridade para assumir "in loco" determinações diferentes Roma. Essa será uma "autolimitação" do magistério central, que tem como objetivo não a dissolução da unidade, mas um novo arranjo da comunhão no Senhor e serviço ao evangelho. No fundo, será um reconhecimento da autoridade amazônica, através da qual Roma exerça sua antiga autoridade de reconhecimento.

Nada de revolucionário, senão o ressurgimento de uma antiga verdade esquecida. Mas, às vezes, as verdades só ressurgem na forma de um sonho. Como E. Canetti disse: "todas as coisas que esquecemos, pedem ajuda em nossos sonhos".

 

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