Schönborn: “É preciso um anúncio de Cristo mais corajoso na Amazônia”

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14 Fevereiro 2020

A exigência de voltar ao anúncio direto de Cristo, o problema da inculturação, o pedido de utilizar intensamente todos os caminhos para remediar a precária situação da falta de sacerdotes, a solicitação para fortalecer o papel dos leigos e das mulheres. Esses são os aspectos mais relevantes da exortação "Querida Amazônia", na opinião do cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e presidente da Conferência dos Bispos da Áustria.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada por Avvenire, 13-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, depois de ler a exortação, como o senhor pode sintetizar o sonho eclesial do Papa Francisco pela Amazônia?

Sem a Laudato si’, o trabalho do Sínodo não teria se tornado o que se tornou: um grande apelo à ajuda do enorme ecossistema amazônico. Ainda consigo ouvir aquilo que o professor Schellnhuber, do Instituto de Pesquisa sobre o Impacto Climático de Potsdam, disse aos participantes do Sínodo: “A destruição da floresta amazônica é a destruição do mundo”. O Papa Francisco explica: “O equilíbrio da terra depende também da saúde da Amazônia”. E ainda mais claramente: “O interesse de algumas empresas poderosas não deveria ser colocado acima do bem da Amazônia e da humanidade inteira”. Mas aqui, mais do que protestar contra uma “economia que mata”, o Papa Francisco se preocupa com uma atitude que ele chama de “profecia da contemplação”, uma atitude que não usa o mundo apenas como matéria para a produção e o consumo, mas o vê e o respeita como um dom de Deus. No fim das contas, é uma questão de amor: “Podemos amar a Amazônia, e não apenas usá-la”. E essa atitude é, em última análise, a que diz respeito a uma “pastoral da presença” na Amazônia.

Quais são, em suma, as prioridades da Igreja na Amazônia?

Permito-me dar apenas algumas sugestões para o último capítulo detalhado da exortação. A premissa sobre todo o tema da pastoral na Amazônia é a urgência da evangelização. Francisco o entende principalmente como o anúncio direto de Jesus Cristo, o querigma. No Sínodo, eu perguntei a muitos por que os “pentecostais”, os evangélicos, as Igrejas livres na Amazônia tem tanto sucesso. Mais da metade dos católicos (alguns dizem de 60% a 80%) foram para essas Igrejas. Fiquei surpreso pelo fato de que esse assunto de vital importância não foi abordado. Mas uma coisa foi mencionada principalmente como causa: os “pentecostais” falam diretamente de Jesus Cristo. Pregam o querigma, enquanto a pregação católica não faz isso o suficiente. O Papa Francisco comemora, portanto, os grandes evangelizadores da América Latina como São Turíbio de Mongrovejo. E fala da inculturação como segunda prioridade pastoral.

O Sínodo havia se ocupado muito disso até o debate sobre o “rito amazônico”...

O Papa Francisco se ocupa aqui da questão da inculturação em geral. Ele cita o tema do rito próprio apenas em uma nota de rodapé, como uma proposta do Sínodo, sem avaliá-lo. São interessantes os esclarecimentos sobre os símbolos indígenas, que cresceram a partir dos mitos dos povos e são interpretados em sentido cristão, recordando durante o Sínodo as ações deploráveis contra as figuras da Pachamama.

Passemos à questão da escassez dos sacerdotes na Amazônia. Qual é a saída?

Por um lado, o papa sublinha a natureza inconfundível e insubstituível do sacerdócio sacramental; por outro, o seu caráter de serviço completo ao povo de Deus e à sua santificação. Se é verdade que “a Eucaristia faz a Igreja”, então os povos amazônicos não devem ficar sem os sacramentos da Eucaristia e do perdão. Na exortação, ele não menciona a proposta de abrir a possibilidade de que os diáconos permanentes sejam ordenados sacerdotes para as regiões mais remotas da Amazônia, como havia sido proposto no documento final do Sínodo.

Mas, mesmo que a exortação não retome esse ponto, apresentando o documento final do Sínodo “oficialmente”, esse ponto pode ser considerado confirmado de modo implícito?

Na exortação apostólica Amoris laetitia, o Papa Francisco costuma usar frases claras para dizer explicitamente que ele assumiu inteiramente algumas sugestões e pedidos que saíram do Sínodo. Desta vez, não há nenhuma cláusula que possa indicar de modo explícito ou pelo menos implícito a sua “assunção” de todo o documento do Sínodo amazônico. Expressando a vontade de “apresentar oficialmente” esse documento, o papa apenas sugere o que ele entende por sinodalidade. Se, portanto, ele não menciona a proposta do Sínodo de abrir a possibilidade para os diáconos permanentes, há, porém, o pedido do papa de utilizar intensamente todos os caminhos que não foram suficientemente usados para remediar a precária situação da falta de sacerdotes, sem fazer imediatamente padres casados, como uma saída.

A quais caminhos ele se refere?

A nota 132 aborda discretamente um grande problema. Foi mencionado diretamente no Sínodo que alguns países amazônicos enviam mais sacerdotes para a Europa ou para a América do Norte do que para o próprio vicariato na Amazônia. Somente na Colômbia, existem 1.200. Se apenas um terço ou um quarto desses sacerdotes estivesse disponível para as dioceses amazônicas, dificilmente haveria uma falta de padres localmente. Na nota 133, ele menciona a falta de seminários para os indígenas. A quase total falta de sacerdotes indígenas havia me abalado no Sínodo. Como é possível que, após 500 anos de cristianismo, praticamente não haja nenhum clero local nessa região? O testemunho do primeiro sacerdote indígena salesiano que falou no Sínodo foi impressionante.

Por fim, o papa menciona um argumento que também havia encontrado um lugar no documento final: a surpreendente falta de diáconos permanentes, “que deveriam ser muito mais na Amazônia”. Eu me pergunto: por que essa oportunidade aberta pelo Vaticano II não foi mais utilizada? O Papa Francisco, então, conclui a pergunta de maneira concreta: “Portanto não se trata apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados que possam celebrar a Eucaristia. Isto seria um objetivo muito limitado, se não procurássemos também suscitar uma nova vida nas comunidades”.

Na exortação, ele enfatiza fortemente a importância dos ministérios para os leigos. Mas pode ser uma forma de evitar o problema e deixar as coisas como estão...

Ele ressalta a necessidade de promover pessoas maduras e de autoridade, e, em particular, a presença de mulheres “fortes e generosas” que batizam, dão catequese, são líderes de oração e que deveriam ter um status estável e uma participação mais clara na Igreja sem serem clericalizadas. Ele vê uma tarefa prioritária no fortalecimento do papel das mulheres, que sempre foram insubstituíveis, especialmente nas comunidades remotas da Amazônia. Portanto, não se trata de relativizar os problemas, evitá-los ou deixar as coisas como estão. A “solução” está no “maior”, aquilo que Deus doa frequentemente de modo surpreendente. Com essa esperança na maior obra de Deus, na surpresa dos Seus caminhos, aceita com coragem e generosidade, o Papa Francisco observa a imensa complexidade da amada Amazônia. Ele não tem soluções simplistas, mas a alegria do Evangelho lhe dá uma confiança que não pode ser desencorajada. E ele diz tudo isso não só para a Amazônia, mas também para todos nós.

Leia a íntegra da Exortação aqui.

 

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