Inculturação e interculturalidade: desafios sinodais amazônicos. Entrevista com Maurizio Gronchi

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07 Novembro 2019

“Os povos indígenas estão bem-dispostos a uma pluralidade de ritos. A história da colonização não os fechou totalmente ao Evangelho. Mas os mitos, os ritos, as representações simbólicas dessas culturas são uma praeparatio evangelica adequada e imediatamente disponível? Por exemplo, tende-se a fazer uma representação dos povos amazônicos muito unitária, compacta, como de uma comunidade unida, viva e presente... Mas essa imagem é realmente realista? Por exemplo, por que não solicitamos a presença de missionários na Amazônia antes de ordenar homens casados? Há muitos padres latino-americanos fora do continente que poderiam ser missionários. Por que isso não ocorre?”

Essa é a opinião do padre Maurizio Gronchi, presbítero da Diocese de Pisa, na Itália, professor da Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi e Marco Bernardoni, publicada por Settimana News, 06-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Pe. Maurizio, os relatos do Sínodo sobre a Amazônia foram numerosos. O que o senhor acrescentaria?

O Sínodo foi relatado aqui entre nós sobretudo girando em torno de duas questões: a possível ordenação de homens casados e o ministério das mulheres. Mas foi um limite, uma miopia. O tema central que motivou a sua convocação era o anúncio do Evangelho, ou seja, “identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do povo de Deus, especialmente dos indígenas”, como indicado pelo papa no dia do anúncio.

A essa dimensão eclesial, conecta-se o tema da ecologia integral, isto é, dos povos e da criação. Substancialmente, são os temas da Laudato si’, um texto que, no diálogo com Dominique Wolton, o papa definiu como uma encíclica social com consequências ecológicas. Eis, portanto, que uma região particular do mundo, a Amazônia, por causa da globalização e da interdependência do mundo atual, é colocada como tema representativo para todos, quanto aos aspectos econômicos e sociais: o empobrecimento, a crescente brecha entre pobres e ricos, a marginalização dos excluídos, a destruição dos recursos naturais, a evacuação da cultura indígena etc.

Esses temas correm o risco de ser obscurecidos por questões intraeclesiásticas, que frequentemente são disputas de poder. Certamente, não é a intenção do papa transformar os problemas sociais em uma questão funcional para obter ganhos em relação a outros fatos eclesiais, como justamente a ordenação de homens casados ou o diaconato feminino. Sem o anúncio de Jesus Cristo e o encontro com ele, não se vai a lugar algum. É preciso levar em conta esse elemento decisivo quando tratamos de uma convocação eclesial.

Percorrendo a votação das proposições individuais, os temas citados estão entre os que tiveram mais dissensos...

O relatório dos votos, que o papa quis que fosse publicado junto com o documento final, mostra que, ao contrário do Sínodo sobre os jovens, onde bastava a palavra “sinodalidade” para motivar uma queda dos votos positivos sobre as proposições, isso não aconteceu. O uso amplo e sistemático da palavra não registra uma diminuição de votos sobre as proposições nas quais era mencionada. Parece que a maior parte dos Padres sinodais se somou aos Padres amazônicos (mais de uma centena) na partilha do percurso realizado. Dos 185 Padres sinodais convocados, é possível ver que, em quase todas as votações, faltou uma dezena de votos, mesmo naqueles pontos mais sensíveis. Esse é um sinal de uma abstenção, de fato, irrelevante.

É possível ler esse fato de modo positivo, ou seja, como o sinal de uma aquisição da sinodalidade como horizonte compartilhado e não mais discutido?

No documento final do último Sínodo sobre os jovens, a palavra sinodalidade não parecia receber um grande consenso. Desta vez, não foi assim. O tema é abordado em muitas partes do documento final, com afirmações até delicadas (vejam-se os nn. 88, 95...), sobre as quais não se percebe uma flexão. Pertence à lógica dos votos a focalização em alguns termos como tais, mesmo independentemente do mérito dos textos em que eles ressoam. É um dado interessante. Pode ser lido como um sinal encorajador do progressivo abrandamento de um conflito.

O que é preciso acrescentar sobre o diaconato feminino e a ordenação de homens casados?

Onde está o problema relacionado à ordenação de homens casados na Amazônia? Escolher os líderes naturais das comunidades e conferir-lhes a ordenação, de maneira generalizada, poderia implicar o risco de transformar a ordenação em um acréscimo de poder. O documento final, por outro lado, prefere falar da instituição de um diaconato permanente “fecundo” para os homens casados. Os Padres sinodais optaram por prever um percurso de formação para esses chefes de aldeia.

O diaconato permanente permitiria uma verificação da formação e dos percursos ao longo de alguns anos. O aspecto crítico da solução adotada é o risco de clericalizar indevidamente o diaconato permanente. Não faltam problemas, mesmo imaginando um diaconato feminino. Podemos repensar a natureza do diaconato para abri-lo às mulheres? No Sínodo e no documento final, foram tocados temas delicados, que – entendeu-se muito bem isto – precisam de uma verdadeira escavação teológica.

Por exemplo, houve um congresso em 2016, promovido pela Congregação para a Doutrina da Fé, sobre “O papel das mulheres na Igreja”. Linda Ghisoni (canonista) – em um artigo ao qual remete os leitores – já disse, naquele âmbito, coisas muito interessantes sobre a potestas. Existe um poder (potestas) não ligado à ordem sagrada? O do juiz canônico, por exemplo. O encargo dos professores de teologia na Igreja também prevê um poder não ligado à ordem sagrada, mas sim à concessão de uma missio canônica. Como pode ser fundamentada e a que pode estar ligada canônica e teologicamente uma forma de autoridade designada a alguns em função do crescimento do povo de Deus? São questões que requerem um aprofundamento.

Percebeu-se na sala sinodal algum sinal de oposição à doutrina social de Francisco (defesa dos povos indígenas, defesa da criação, acolhida aos migrantes...)?

Não, acho que isso não aconteceu. As grandes questões que agitavam o mundo latino-americano precisamente durante os dias do Sínodo não encontram eco no texto final. A escolha de fundo, portanto, poderia ter sido a de não tocar questões imediatamente políticas, como, pelo contrário, alguns governos teriam esperado. Talvez haja uma sabedoria dos membros sinodais latino-americanos em razão da longa experiência dessas décadas pós-conciliares. As posições mais expostas, mesmo as recentes, nem sempre melhoraram as coisas.

Quais são os desafios principais para a teologia?

Quase todas as questões levantadas invocam um aprofundamento teológico. Por exemplo, o que é o rito amazônico exatamente? A que rito podemos assimilá-lo, aos orientais, aos asiáticos, a tradições rituais como a ambrosiana? Outra grande questão é a relação entre inculturação e interculturalidade, expressão, esta última, muito querida pelo Papa Bento. No documento, usam-se os termos como complementares e com uma interpretação totalmente positiva. Mas sabemos que a realidade não funciona assim. Quanto uma cultura é modificada pelo Evangelho?

Mesmo na Europa, o cristianismo conheceu o desafio de se defrontar com gigantes da reflexão como Platão e Aristóteles; e, apesar do bem que foi extraído do seu pensamento, não faltaram problemas. A ideia de que as culturas indígenas são o melhor da praeparatio evangelica nem sempre é realista. O modelo teológico que usamos para pensar a inculturação é a encarnação. Colocamo-nos dentro dela e assumimos uma cultura. A interculturalidade, por sua vez, corresponde mais ao modelo pascal: um morrer para ressurgir para uma vida nova, uma reavaliação profunda que não anula, mas reformula uma tradição. Algo se perde para que algo renasça renovado.

O missionário que leva o evangelho à Amazônia, se não estiver disposto a perder algo para fazer nascer a novidade, acaba impondo um modelo cultural e eclesial. Mas uma simples assunção do dado cultural também ameaça ser infecunda. Portanto, teologicamente, devemos aprofundar um percurso que iniciou a partir de questões práticas como a marginalização dos povos indígenas, a pobreza, a exploração dos recursos, a natureza ameaçada, o direito de participar da Eucaristia etc. O pedido do Sínodo também se alarga para nós, ocidentais. É um pedido exigente de aprofundamento e reflexão.

O desafio para as Igrejas da Amazônia é muito grande. Elas terão as forças para enfrentá-lo sozinhas?

É verdade que os povos indígenas estão bem-dispostos a uma pluralidade de ritos. A história da colonização não os fechou totalmente ao Evangelho. Mas os mitos, os ritos, as representações simbólicas dessas culturas são uma praeparatio evangelica adequada e imediatamente disponível? Talvez, em substância, sim; mas, depois, como prosseguimos a partir disso? Não é óbvio que a Igreja na Amazônia tenha a força crítica suficiente para enfrentar esse caminho sozinha. Por exemplo, tende-se a fazer uma representação dos povos amazônicos muito unitária, compacta, como de uma comunidade unida, viva e presente... Mas essa imagem é realmente realista? Por exemplo, por que não solicitamos a presença de missionários na Amazônia antes de ordenar homens casados? Há muitos padres latino-americanos fora do continente que poderiam ser missionários. Por que isso não ocorre?

É por isso que o papa também questionou a Cúria?

De fato, no seu discurso final, o papa lançou três pontes entre a Amazônia e a Cúria Romana. Será constituída uma seção amazônica no Dicastério para o Desenvolvimento Integral; a questão do rito amazônico será de competência da Congregação para o Culto; a nova comissão para o diaconato feminino será confiada à Congregação para a Doutrina da Fé. Ele lançou essa ponte tríplice como sinal de cuidado e de apoio concreto ao processo que começará agora na Amazônia. Essas Igrejas não serão deixadas sozinhas, e o centro romano continuará a se interessar pela Amazônia.

O reconhecimento para essa porção do povo de Deus de uma identidade tanto histórico-civil, quanto eclesial, quanto de referência para a consciência de toda a Igreja parece um gesto significativo e de grande coragem.

Com efeito, a Igreja é o único sujeito que, como instituição ao mesmo tempo universal e local, pode reconhecer e proteger as identidades dos povos mais frágeis. O que não está ao alcance ou não é do interesse dos Estados nacionais. Desse ponto de vista, deve-se apreciar também o trabalho diplomático. As nunciaturas expressam uma verdadeira proteção das Igrejas locais, especialmente quando as Conferências Episcopais são pressionadas pelos Estados ou por poderes econômicos transnacionais. Isso evidencia que existe uma recíproca interação benéfica entre todas as Igrejas locais e o serviço petrino, que se expressa precisamente na dinâmica do Sínodo. Somente uma realidade como a Igreja – na sua dialética entre universal e local – pode pôr em exercício um sistema de pesos e contrapesos que permite que que realidades locais mais frágeis (na reflexão e nos meios) também possam trazer à tona e explorar questões fundamentais.

Uma nota sobre as dificuldades no nível ecumênico.

O diálogo ecumênico na Amazônia é bastante complicado. A relação com as comunidades neopentecostais nem sempre é fácil. O documento final é testemunha disso: o diálogo vem substancialmente de um lado só. O financiamento das seitas é liderado por governos precisos, para evitar a integração católica da América Latina.

Sobre as estruturas eclesiais previstas no documento final: são adequadas?

Na Amazônia, trata-se muitas vezes de vicariatos apostólicos, com poucos padres e territórios muito amplos. Nesse caso, a linha que prevaleceu me parece ter sido a da moderação. A ideia de uma única Conferência Episcopal Amazônica deu lugar a uma conexão entre os vicariatos apostólicos chefiados pelo Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho) e pela Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica). No número 115, fala-se de um novo “organismo episcopal” permanente que promova a sinodalidade e faça emergir o rosto amazônico da Igreja, articulado com o Celam e a Repam. Não se trata de uma nova Conferência Episcopal, nem de um simples escritório do Celam. Na triangulação entre bispos (com as suas referências nacionais), o Celam e a Repam, quer-se favorecer a recepção das propostas que surgiram no Sínodo. Como dito, o caminho ainda terá o apoio de Roma.

 

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