“A exortação ‘complementa’ o documento sinodal, sem anulá-lo”, comenta Víctor Manuel Fernández, arcebispo de La Plata, Argentina

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14 Fevereiro 2020

Pela primeira vez uma exortação apostólica não quer ser uma interpretação do Documento Final de um Sínodo, nem uma restrição de seus conteúdos, nem um texto oficial que deixa para trás o que o Sínodo concluiu.

É um texto suficientemente bonito, talvez o mais bonito que Francisco escreveu, com um tom que mistura poesia com denúncia. Poderia ser entendido como uma segunda parte da encíclica popular Laudato si'. Não podemos cometer o erro de silenciar a voz profética deste texto para a sociedade, para a política, para os movimentos sociais.

O comentário é de Víctor Manuel Fernández, arcebispo de La Plata, Argentina, publicado por Religión Digital, 13-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Muita gente, antes de ler “Querida Amazônia”, concentrou-se na lamentação porque não se falou dos viri probati (ordenação de alguns homens casados). Neste ponto não se soube acolher uma preocupação que Francisco expressou várias vezes: pensar em soluções muito clericais frente aos problemas da sociedade e da Igreja na Amazônia. Ele insistiu ainda em enfrentar as carências e dificuldades dando lugar, com maior audácia, a uma Igreja “marcadamente laical” (QA, 94).

Algumas pessoas progressistas, durante o Sínodo, lamentavam que as expectativas se concentraram nos viri probati em vez de olhar com maior amplitude os caminhos que necessita a Igreja na Amazônia. Trata-se de dar maior autoridade aos leigos, e em todo caso de acompanhá-los para que possam tomar as rédeas da Igreja na Amazônia.

Por isso Francisco pede explicitamente que não se relacione muito o sacerdócio com o poder. Ser sinal de Cristo-cabeça requer entender a essa Cabeça (Cristo) como fonte da graça mais que como autoridade. Francisco reivindica que os leigos na Amazônia desenvolvam mais suas atribuições e capacidades ainda para organizar e gerenciar as comunidades (89). Para isso, devem estar “dotados de autoridade” (94). A discussão sobre os viri probati fez com que alguns se concentrassem sobretudo nisso, em vez de imaginar com audácia os caminhos de uma igreja “marcadamente laical”.

No entanto, tampouco é de se afirmar, como disseram alguns meios de comunicação, que Francisco fechou as portas ou excluiu a possibilidade de ordenar homens casados. De fato, na introdução Francisco limita os alcances do seu próprio documento: “Não desenvolvi aqui todas as questões abundantemente expostas no Documento Final”. Refere-se ao documento com o qual concluiu o Sínodo dos Bispos celebrado em Roma. Está claro que se o Papa não desenvolve algum ponto não é porque fica excluído, mas sim porque propositalmente não quis repetir o Sínodo.

Pela primeira vez uma exortação apostólica não quer ser uma interpretação do Documento Final de um Sínodo, nem uma restrição de seus conteúdos, nem um texto oficial que deixa para trás o que o Sínodo concluiu. Somente um marco complementar do documento e disse explicitamente: “não pretendo substituí-lo, nem repeti-lo” (2). É tão claro que não quer substituí-lo que o que faz é “apresentar oficial” (3) esse documento e pedir que todos os bispos e agentes pastorais da Amazônia “empenhem-se em sua aplicação” (4).

Esta é uma enorme novidade sinodal que infelizmente passou despercebida. Ao mesmo tempo, mostra uma enorme abertura aos ritos e expressões indígenas, pedindo que não sejam acusados tão rapidamente de paganismo ou "idolatria" (79) e deixa espaço para um possível "rito amazônico" (nota 120). No Sínodo, foi dito precisamente, nas discussões que levaram a um certo consenso, que essa era a estrutura apropriada para pensar sobre a possibilidade de "viri probati".

Obviamente, a aplicação não será automática. Haverá várias maneiras de fazer isso, as equipes de estudo e aplicação, e alguns tópicos levarão mais tempo que outros. Obviamente, pensar em um "rito amazônico" é um trabalho de anos e décadas.

Mas também não podemos cometer o erro de silenciar a voz profética deste texto para a sociedade, para a política, para os movimentos sociais. Seria outra forma de clericalismo. É um texto suficientemente bonito, talvez o mais bonito que Francisco escreveu, com um tom que mistura poesia com denúncia.

Poderia ser entendido como uma segunda parte da encíclica popular Laudato si'. Ele também é marcadamente profético, em partes invulgarmente difíceis de sua crítica social, que acolhe muitas riquezas de pensadores, escritores e líderes amazônicos, e que coloca sérios desafios ao sofrimento dos povos da Amazônia. Portanto, após a primeira reação, talvez mais eclesiástica que social e popular, é possível sentar-se para ler essa exortação que “complementa” o documento sinodal sem anulá-lo.

Caso contrário, aqueles que continuarem explorando e devastando a Amazônia esfregarão as mãos, visto que nos divertimos em problemas eclesiásticos. Lembre-se de pelo menos um parágrafo da exortação de Francisco, que foi silenciada pela controvérsia eclesial: “A disparidade de poder é enorme, os fracos não têm recursos para se defender, enquanto o vencedor continua a tomar tudo... poderes locais, com a desculpa de desenvolvimento, participam de alianças com o objetivo de devastar a floresta com impunidade e sem limites” (13).

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