Francisco chora sobre a Amazônia. Não menciona os padres casados, mas pede respostas “corajosas”

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13 Fevereiro 2020

Na exortação apostólica, um claro “não” às diáconas, uma oração pelos “quatro grandes sonhos que a Amazônia me inspira”. Nesta quinta-feira, 13, o papa recebe Lula, para que Bolsonaro entenda.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada em L’Huffington Post, 12-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Poucas horas após a publicação, na manhã desta quarta-feira, 12, às 12 horas em Roma, da sua exortação apostólica Querida Amazônia, o Papa Francisco, durante a catequese sobre as Bem-aventuranças (“Bem-aventurados os que choram porque serão consolados”) cita Efrém, o Sírio (teólogo e santo que morreu em 353 d.C.), que defendia que “um rosto lavado pelas lágrimas é indescritivelmente belo”.

Pois bem, pode-se dizer que Francisco – no seu documento – chora sobre a Amazônia, um pouco como Jesus chorou sobre Jerusalém. Um texto sincero e poético (com amplas citações de poemas amazônicos que descrevem o rio como artéria cortada da terra), que termina com uma oração a Maria, “nesta hora escura”.

As palavras “celibato” ou “viri probati” (diáconos casados para os quais o Sínodo Pan-Amazônico de outubro desejava a ordenação sacerdotal para poderem celebrar a missa e consagrar a Eucaristia em um território infindável e desprovido de padres) não aparecem no texto. Não estão lá, absolutamente não foram escritas.

Mas, ao mesmo tempo, Francisco defende na exortação que a situação na Amazônia “exige uma resposta específica e corajosa da Igreja” e afirma isso no capítulo intitulado “A inculturação do ministério”, pois “o modo de configurar a vida e o exercício do ministério dos sacerdotes não é monolítico, adquirindo matizes diferentes nos vários lugares da terra”.

E acrescenta: “Nas circunstâncias específicas da Amazônia, especialmente nas suas florestas e lugares mais remotos, é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal”, pois, sem a celebração da Eucaristia, “nenhuma comunidade cristã se edifica (...) Se acreditamos verdadeiramente que as coisas estão assim, é urgente fazer com que os povos amazônicos não estejam privados do Alimento de vida nova e do sacramento do perdão”, que somente um homem que recebeu a Ordem sagrada pode consagrar.

Ele não cita partes individuais do documento do Sínodo, nem mesmo a respeito do famoso parágrafo 111 sobre a ordenação de diáconos casados, porque prefere – afirma – que ele seja lido “integralmente”, como resultado da reflexão de pastores e pessoas que “vivem lá [na Amazônia] e por ela sofrem”.

Diante de tudo isso, as polêmicas que se seguiram à publicação do livro escrito a quatro mãos pelo papa emérito que assinou como Bento XVI e pelo cardeal Robert Sarah (que ainda nos últimos dias ressaltou em uma entrevista “o perigo mortal que o sacerdócio corre”) parecem assunto de clérigos.

O ponto de vista do papa é a preocupação com uma vida cristã possível para os povos indígenas, e não a “pureza” do sacerdócio. No centro do raciocínio do papa está a Eucaristia, e não os padres. E ele reitera que a autêntica Tradição da Igreja “não é um depósito estático nem uma peça de museu, mas a raiz de uma árvore que cresce”.

As mulheres

O sacerdócio, por sua vez, não poderá ser estendido às mulheres, porque “Jesus Cristo apresenta-Se como Esposo da comunidade que celebra a Eucaristia, através da figura de um varão que a ela preside como sinal do único Sacerdote”. A participação das mulheres na vida da Igreja não passa pela “clericalização” delas.

O sonho social pela Amazônia

Na exortação apostólica, Francisco descreve quatro sonhos. Se o sonho da inculturação do ministério é o sonho eclesial, o primeiro sonho de Francisco é o social. “Às operações econômicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazônia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime”.

E, diante disso, “É preciso indignar-se, como se indignou Moisés, como Se indignava Jesus, como Se indigna Deus perante a injustiça”. O grito da Amazônia é como o grito do povo de Deus no Egito.

Ele fala de “instituições degradadas” no Estado, de uma “rede de corrupção” da qual “não podemos excluir membros da Igreja”. Descreve a exploração dos recursos naturais, a destruição da floresta, o empobrecimento do habitat natural que é de toda a humanidade, e não apenas de um país.

E talvez não seja por acaso que, nesta quinta-feira, 13, o papa receberá no Vaticano o ex-presidente brasileiro Lula da Silva, após os atritos que surgiram, precisamente sobre a Amazônia, com o atual presidente, Jair Bolsonaro.

Por fim, o sonho cultural e ecológico de se relacionar com povos que têm um forte senso comunitário faz Francisco dizer que “é possível receber, de alguma forma, um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico”. A referência às estatuetas da Pachamana não é pura casualidade.

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