“Papa Francisco foi obstruído. E se encontra mais sozinho a partir de hoje”

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14 Fevereiro 2020

O Papa Bergoglio foi obstruído. O documento pós-sinodal dedicado à Amazônia não diz uma única palavra sobre a possibilidade de ordenar sacerdotes a homens casados e também se cala sobre a possibilidade de dar um status especial às mulheres, que lideram as comunidades católicas espalhadas pela floresta amazônica.

O comentário é do vaticanista Marco Politi, publicado em Il Fatto Quotidiano, 13-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tendo chegado ao momento de tomar a decisão, o papa Francisco freou bruscamente, ciente de que a oposição a uma virada era ramificada e forte, e ainda mais poderosa por ser subterrânea. É uma derrota para o impulso reformador do pontificado.

A oposição, capitaneada pelo cardeal Müller – ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé –, canta a vitória. “É um documento de reconciliação”, declara Müller, acrescentando com linguagem eloquente: servirá para evitar que se formem facções intraeclesiais, para reduzir o risco de abandonos silenciosos ou a manifestação de “oposição aberta”.

Uma grande personalidade da Cúria, ex-presidente da Conferência dos Bispos da França, o cardeal Roger Etchegaray, dizia no seu tempo: “Nos primeiros tempos, Francisco gozará de uma espécie de lua de mel, mas depois chegará o momento em que ele se verá encurralado”. O momento é este.

Para Francisco, não é apenas difícil ter que constatar que as relações de poder dentro da Igreja não estão a seu favor sobre esses temas. A dificuldade em que ele foi posto é exacerbada pelo fato de Bergoglio se encontrar agora em aberta contradição consigo mesmo.

De fato, foi ele quem encorajou abertamente a discussão sobre o tema dos viri probati (homens casados de comprovada fé e moral que possam se candidatar ao sacerdócio). Foi ele quem quis que o assunto fosse tratado no Sínodo. Foi ele quem escolheu como relator geral o cardeal Cláudio Hummes, abertamente favorável a essa solução. E também foi ele quem autorizou que o documento preparatório, o Instrumentum laboris, contivesse uma passagem explicitamente dedicada ao tema.

Mas, acima de tudo, Francisco se encontra em contradição com um princípio defendido por ele desde o início do pontificado: o princípio da sinodalidade, pelo qual os bispos são chamados a participar com o papa na liderança da Igreja. Francisco até emitiu um documento, de futura memória, para permitir que haja sínodos de bispos com poder deliberativo. E, agora que um Sínodo como o da Amazônia, toma uma decisão com uma maioria regular de dois terços, ele salta por cima da questão e não a menciona de modo algum.

No ano passado, o geral dos jesuítas, Pe. Arturo Sosa, confessava que, “dentro da Igreja, trava-se uma luta” e que atuam forças voltadas a influenciar o próximo conclave e a escolha do sucessor de Francisco. A obstrução imposta às aberturas sobre a ordenação de homens casados e sobre o diaconato feminino faz parte dessa guerra civil subterrânea, que agita o catolicismo.

O papa Francisco percebeu que não tem no episcopado e entre cardeais de todo o mundo aliados suficientes para impor uma virada. Porque os papas são onipotentes quando são conservadores; quando são reformistas, devem levar em conta as relações de força internas à Igreja.

Com linguagem simbólica, Francisco informou na segunda-feira passada a uma delegação de bispos estadunidenses que, sobre o tema dos sacerdotes casados, ele “não sentia” o Espírito Santo atuando no momento atual. Foi o que contou o arcebispo John Charles Wester, de Santa Fe.

Paradoxalmente, os adversários de Bergoglio também usam esse argumento de modo debochado. Na rede, pode-se ler que “o Santo Padre, há alguns dias (felizmente), foi reconduzido pelo Espírito Santo a conselhos mais mansos. (...) As suas declarações referentes aos migrantes e às inovações fora de lugar na Igreja Católica tinha há algum tempo afastado os fiéis. E a mão do Espírito Santo, na sua imensa grandeza (...), induziu Sua Santidade a ter uma atitude mais moderada”. Guerra é guerra, dizem os romanos.

A freada brusca também provoca contragolpes. É difícil acreditar que o repentino anúncio do cardeal Reinhard Marx de não querer mais se recandidatar em março para um segundo mandato à frente da Conferência dos Bispos da Alemanha não tem relação com o resultado do Sínodo.

Marx, grande defensor das reformas bergoglianas, deve ter entendido que começou uma fase de estagnação no reformismo do pontificado. E, certamente, não gostaria de passar os próximos anos defendendo os “nãos” papais ao clero casado e ao diaconato feminino: temas sobre os quais ele mesmo e uma grande parte do catolicismo de ambos os lados do Atlântico são extremamente sensíveis.

O papa Francisco se encontra hoje mais sozinho, tendo provocado decepção em uma massa considerável dos seus apoiadores. O documento pós-sinodal “Querida Amazônia” é muito bonito e estimulante na parte que diz respeito às injustiças que afetam os indígenas, à importância do cuidado da natureza, à proteção de um ambiente cultural, à necessidade de envolver na liturgia católica os elementos fundantes das tradições espirituais dos povos amazônicos. No entanto, o golpe pela falta de uma reviravolta sobre os padres casados continua sendo forte.

Porque o problema das paróquias desprovidas de sacerdotes já é dramático por toda parte. Um pároco, encarregado de acompanhar de cinco a dez paróquias (como também ocorre na Itália) não é mais um guia comunitário, mas corre o risco de se tornar um funcionário que corre de um centro para o outro.

No entanto, o documento do Sínodo, votado pelos bispos, continua sobre a mesa. Representa uma reivindicação da hierarquia eclesial amazônica. Não pode ser apagado.

Francisco, diziam em Buenos Aires, “tem a cabeça de um político”. Se espaços forem abertos, ele sempre poderá tirar da gaveta as deliberações sobre os diáconos casados para serem ordenados sacerdotes. Elas têm um valor que não expira.

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