“Querida Amazônia”, um texto aberto à criatividade eclesial. Entrevista com Andrea Grillo

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14 Fevereiro 2020

"Em nível universal, devemos descobrir o valor 'particular' das experiências eclesiais que vivemos. E devemos poder conceber formas ministeriais, formas de exercício do sacerdócio, formas de serviço à Igreja, reconhecidas no seu exercício por parte de homens casados e de mulheres, que não sejam pensados apenas pela lógica um pouco obsessiva da conformidade com a 'floresta curial', que mede toda a realidade entre a Via della Conciliazione e a Praça de São Pedro".

Essa é a opinião do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma.

A entrevista é de Pierluigi Mele, publicada por Confini, 13-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

Professor, foi publicada nessa quarta-feira, 12, a exortação pós-sinodal do Papa Francisco “Querida Amazônia”. Tentemos fazer uma pequena avaliação. Para começar, partamos da ausência de consideração sobre a proposta, presente no documento final do Sínodo Amazônico de outubro, referente à ordenação de viri probati, ou mesmo de diáconos permanentes casados, ao sacerdócio para resolver o problema da falta de clero em muitas comunidades eclesiais da Amazônia. A proposta havia recebido uma grande maioria entre os Padres sinodais. Mas também tinha levantado polêmicas e ataques da ala conservadora e de cardeais da Cúria. Como você explica esse comportamento do papa? Acha que ele sofreu fortes pressões?

Há vários aspectos a serem avaliados. Por um lado, assistimos a uma espécie de “mutação do magistério sinodal”. O fenômeno já havia começado com o sínodo duplo sobre a família, mas assumiu, desde essa quarta-feira, uma espécie de versão acelerada: o documento papal não “recebe” apenas em parte o documento final, mas pretende explicitamente “não substituí-lo” e introduzi-lo, diretamente e com o seu teor integral, no exercício da autoridade magisterial. Portanto, não é exato dizer que haja uma “falta de consideração” daquilo que o Sínodo havia elaborado.

É justo dizer, ao invés, que o Sínodo tem como resultado um duplo nível de pronunciamento, que é indicado pelo papa como duplamente normativo. Isso é algo novo e que também cria um certo embaraço, compreensível principalmente no nível “operacional”. De fato, o documento final não tem, diríamos em essência, “intenções operacionais”, enquanto a exortação, que poderia tê-las, não considera que deve assumi-las. E a referência entre os dois textos poderia gerar um grande conflito de interpretações. Mas é certo que esse modo de proceder está mudando o modo de funcionar do Sínodo e a própria função do Sínodo dos Bispos. Eu poderia dizer que isso subverte essa sua lógica, que havia se afirmado a partir dos anos 1970 e na qual o Sínodo estava destinado a nunca reservar surpresas. Agora, talvez, ele reserva até demais! Mas isso é um sinal de vitalidade e de movimento, mesmo que ainda não esteja codificado e não seja imediatamente eficaz.

Falemos ainda das dinâmicas eclesiais. Para o cardeal Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, esse documento é de reconciliação (no sentido de que põe fim ao conflito eclesial). Para outros, por sua vez, não se fecha a possíveis soluções futuras. Para outros ainda, é uma derrota de Francisco. E para você?

É inevitável que muitos tenham se deixado levar pelo calor do momento: por um lado, leu-se: “Não muda nada”. Por outro “Tudo ainda pode mudar”. Ou: “O papa fracassou”. Eu diria que a impressão de “paralisia”, que certamente pode surgir da leitura do texto, deve abrir espaço a duas considerações diferentes.

Em primeiro lugar, o “dispositivo de bloqueio” ao qual estávamos acostumados há décadas, interrompeu-se. Precisamente porque a palavra definitiva de “impotência” e de “mudança impossível” não foi dita. As questões mais candentes “permanecem sobre a mesa”, como disse o cardeal Czerny. E isso é promissor, embora não resolutivo.

Em segundo lugar, a mudança linguística, o tom poético e profético de 3/4 das páginas do texto (pelo menos até o número 85) fala de uma retomada poderosa da linguagem conciliar, que caracteriza todo o pontificado de Francisco e que se fez ouvir desde as primeiras palavras de março de 2013. Tudo isso está longe de ser um detalhe irrelevante. E qualifica aquela “mutação do magistério” que algumas pessoas ligadas à imprensa, até mesmo da Sala de Imprensa do Vaticano, custam a entender e a apresentar corretamente.

Na exortação, retomando o documento final do Sínodo Amazônico, fala-se com palavras belíssimas do sonho eclesial do papa de desenvolver uma Igreja de rosto amazônico, com grande espírito missionário. Mas a solução para a falta de sacerdotes na região amazônica, segundo o documento, é o de enviar mais missionários para a Amazônia. Em suma, uma solução clássica. Como os bispos da Amazônia reagirão?

Essa pergunta, como é justo, compara o tom inspirado e profético da primeira parte com as soluções “de pequena cabotagem” da última parte. Mas essas soluções, justamente, vêm da “floresta curial”. Diz-se claramente que a floresta amazônica deve elaborar soluções diferentes, a partir de uma cultura e de uma experiência eclesial diferente, do mesmo catolicismo “romano”, mas que vive longe de Roma, a 10.000 quilômetros de distância. Francisco foi muito honesto sobre isso ao admitir que as soluções devem ser encontradas e assumidas pelos especialistas “in loco”, não pelo papa ou pela Cúria Romana. Isso é muito bonito e importante. E permite que se olhe com um olhar mais sereno e indulgente para aqueles números em que a “floresta curial” parece permanecer totalmente alheia à “floresta tropical” e se detém nas pequenas categorias que organizam tudo corretamente: o padre, a mulher, Jesus, Maria, a missa e a confissão. Mas aqui ficamos sem poesia e sem profecia. Como se isso fosse preciso.

Sobre os leigos e as mulheres, também se deseja um maior protagonismo, e há um reconhecimento do papel forte das mulheres nas comunidades cristãs amazônicas. Porém, o papa se lança contra a clericalização das mulheres. E com isso se fecha à ordenação das mulheres. O assunto da clericalização é um tema forte. Onde está o limite do papa?

Seguramente, o texto é capaz de poesia até mesmo ao pensar a Igreja de maneira diferente. E nisso ele depende profundamente da tradição conciliar. Mas, ao refletir sobre esses perfis “institucionais”, o discurso utiliza uma linguagem que parece não estar totalmente à altura do desafio. Até mesmo o termo “leigos”, mesmo usado com verdadeira determinação e grande abertura, é um termo limitado demais. Especialmente no momento em que se torna especular e recíproco a “clérigos”. A insistência nos leigos, de certo modo, legitima aquela leitura clerical dos clérigos e da mulher, do sacerdócio e dos sacramentos, que, na “Querida Amazônia”, parece cansada e datada. Ali, o sonho se apaga, resta apenas uma “insônia preocupada”, que corre o risco da paralisia.

Aqui também é evidente que, em comparação com o tom da Amoris laetitia, a Igreja custa a compartilhar uma teologia do ministério verdadeiramente atualizada e comum. Uma teologia dinâmica é mais fácil hoje para pensar a família do que para pensar o sacerdócio. Os teólogos também têm a sua bela responsabilidade nisso. Por outro lado, como se poderia conceber uma comissão que estuda o possível diaconato feminino se fosse apenas um modo de expor as mulheres ao risco do clericalismo? Talvez deveríamos proteger as mulheres do contágio do ministério ordenado? Essas argumentações são muito frágeis em si mesmas e certamente não ajudam a compreender a floresta amazônica. Mas, repito, é bom que não pretendam fechar o discurso, porque deixam em aberto o texto do documento do fim do Sínodo, que fala desses temas com a competência da vida, do sofrimento e da paixão.

Para além desses “limites”, existe uma mensagem positiva para a Igreja universal?

Sobre esse ponto, gostaria de dizer duas coisas diferentes. A primeira diz respeito à natureza “especial” do Sínodo sobre a Amazônia. Muitas vezes, esquecemos que esse Sínodo não teve, desde o início, um caráter universal, mas sim especial. Por outro lado, o catolicismo, nos últimos séculos, experimenta uma certa dificuldade em fazer as contas a sério com a particularidade e a especialidade das questões. O texto, pelo menos nos seus três primeiros sonhos, é muito rico nessa “especialização” e realmente pensa a fundo as exigências de “inculturação” que brotam dessa abordagem.

A segunda coisa, ligada a essa primeira, é precisamente que, em nível universal, devemos descobrir o valor “particular” das experiências eclesiais que vivemos. E devemos poder conceber formas ministeriais, formas de exercício do sacerdócio, formas de serviço à Igreja, reconhecidas no seu exercício por parte de homens casados e de mulheres, que não sejam pensados apenas pela lógica um pouco obsessiva da conformidade com a “floresta curial”, que mede toda a realidade entre a Via della Conciliazione e a Praça São Pedro. Do Vaticano II em diante, o universal faz as contas com as culturas, com as línguas e com os sonhos de cinco continentes diferentes. Até o papa já sabe que faz parte, até com o seu corpo, dessa complexidade intercultural e continental.

Passemos agora aos aspectos sociais, culturais e ecológicos da exortação. Para cada um deles, o papa “desenhou” um sonho. “Sonhos” que formam um caminho amazônico para o desenvolvimento integral da sociedade. Que tipo de consequências políticas a exortação terá?

Penso que esse aspecto do texto, que, em uma perspectiva “especial”, justamente, soa como totalmente prioritário, pode ser avaliado como um impulso formidável à defesa da dignidade e das culturas que a região pan-amazônica vive com incerteza e com apreensão. Aqui, parece-me que o texto não mostra incertezas.

Uma frase final sobre a sinodalidade. Você acha que esse desenvolvimento do Sínodo Amazônico influenciará o Sínodo alemão?

Não há “sínodos especiais ou locais ou nacionais” que possamos ler como “disputas acadêmicas” sobre temas universais. Por outro lado, há Igrejas que, na Amazônia ou na Alemanha, refletem sobre a tradição e assumem orientações, diretrizes e decisões. Essa é a tradição sinodal. O fato de existirem essas possibilidades reconhecidas e instituídas já é o fruto de um caminho de transformação que devemos reconhecer como positivo. Uma possibilidade de transformação do ministério eclesial, ordenado ou não ordenado, está na lógica da tradição e das coisas.

Não creio que haja imediatamente uma influência entre os Sínodos locais, dado que, mesmo dentro da mesma tradição, deve-se responder a histórias e a formas eclesiais muito diferentes entre si. Como disse um bom comentarista, o documento de Francisco não se intitula Amazzonia in veritate ou De virginitate in Amazzonia, mas sim “Querida Amazônia”. Uma “contingência” que não se deixa dominar por nenhuma universalidade abstrata é constitutiva da lógica sinodal. Cuidar, com paixão, das Igrejas particulares e locais exige a elaboração de procedimentos novos, que estão nascendo lentamente na Amazônia, na Alemanha e também em Roma, ou seja, em uma cidade que às vezes aparece como uma “floresta escura”, mas que também sabe ser bosque ameno, prado sorridente e comunidade viva.

 

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