Como Francisco superou o “dispositivo de bloqueio”. Artigo de Andrea Grillo

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28 Janeiro 2020

Depois da publicação da entrevista para a RaiNews dedicada ao exame do livro “Do fundo de nossos corações” [em tradução livre], Giovanni Grandi escreveu: “Li e apreciei a entrevista de Andrea Grillo para a RaiNews após as antecipações sobre o novo livro de Sarah e Ratzinger: além do novo ‘caso’, ela ajuda a focar alguns temas importantes, sobre os quais é preciso refletir nesta temporada da Igreja Católica. Andrea Grillo publicou um ensaio que merece ser lido sobre os pontos mais densos assinalados no fim da entrevista – em particular sobre a ideia de ‘tradição’ e sobre o seu ‘bloqueio’: "Da museo a giardino. La tradizione della Chiesa oltre il 'dispositivo di blocco'" [De museu a jardim. A tradição da Igreja para além do dispositivo de bloqueio, em tradução livre]”.

O comentário é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua. O artigo foi publicado por Come Se Non, 27-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo. 

O próprio Giovanni Grandi contribuiu com o livro citado, com um valioso “Convite à leitura”. Gostaria, aqui, de publicar um trecho desse livro, no qual tento definir o “dispositivo de bloqueio” e a descrever o seu porte e a sua superação por parte do Papa Francisco.

Creio que a discussão que deve ser conduzida sobre os “dois papas” e sobre os “conflitos” internos à Igreja deve reconhecer, com muita honestidade, que o Papa Francisco, colocando novamente no auge a lógica do Concílio Vaticano II, rompeu um equilíbrio eclesial que havia “bloqueado” gradualmente toda reforma possível.

Por isso, parece-me útil tentar apresentar melhor esse “dispositivo de bloqueio”, contra o qual Francisco trabalha há quase 7 anos. Um discurso institucional deve esclarecer necessariamente esse ponto, sobre o qual, muitas vezes, as análises são evasivas ou cheias de remoções. Por esse motivo, retomo integralmente a Introdução do meu livro “De museu a jardim”, dedicado precisamente ao esclarecimento desse “dispositivo”.

Eis o texto.

Introdução

“Nas atuais condições da sociedade humana, eles (os profetas da destruição) não são capazes de ver nada além de ruínas e problemas; vão dizendo que os nossos tempos, se comparados com os séculos passados, são totalmente piores; e chegam ao ponto de se comportarem como se não tivessem aprendido nada com a história, que é mestre de vida, e como se nos tempos dos concílios anteriores tudo acontecesse alegremente em relação à doutrina cristã, à moral, à justa liberdade da Igreja.”

João XXIII, Gaudet Mater Ecclesia

Há algum tempo, eu reflito sobre um paradoxo que me parece realmente curioso. Temos uma tradição muito recente que oferece um espetáculo verdadeiramente surpreendente. Há um papa que, com base em uma teologia plenamente inspirada no Concílio Vaticano II, pede uma nova e estrutural “abertura” à Igreja. Não se sentia algo de tamanha força há 50 anos ou mais.

Ao lado dele e ao seu redor, além do entusiasmo popular e da ampla colaboração pastoral e acadêmica, diversos pastores e teólogos mostram que têm medo desse projeto e levantam barreiras para evitar qualquer abertura.

E, enquanto o papa sabe que a abertura, a saída é vital para a própria essência da Igreja, os seus adversários identificam a Igreja com o fechamento, com a autossuficiência e com o julgamento.

Neste livro, gostaria de tentar interpretar melhor esse paradoxo. E a raciocinar sobre a evolução da “forma ecclesiae”, a quase 60 anos do Concílio Vaticano II, na abençoada contingência do papado de Francisco, mas também na perspectiva de uma retomada da pesquisa teológica, em direção a soluções até agora sequer previsíveis e com um novo impulso de imaginação e de criatividade.

1. O papa e os “sinais dos tempos”

Dizer que a teologia do Papa Francisco é “conciliar” poderia ser apenas um slogan vazio. Como tal, seria apenas uma afirmação prejudicial. Parece-me, no entanto, que a conciliaridade de Francisco reside em uma “abordagem” que poderíamos definir com uma palavra que acompanhou profundamente o percurso de elaboração do Concílio Vaticano II: ou seja, a percepção de uma relação – urgente e decisiva – da Igreja com os “sinais dos tempos”. Essa é uma das intuições mais fecundas de João XXIII, que está claramente expressada na sua última encíclica, Pacem in terris.

Com essa expressão, o Papa João XXIII indicava “experiências do mundo moderno” das quais a Igreja tem algo de decisivo a aprender. No texto papal, ele se refere às condições dos trabalhadores, às mulheres no espaço público e aos povos com igual dignidade: são eventos que se manifestaram no século XX e dos quais a Igreja deve tirar ensinamentos decisivos.

Poderíamos dizer que Francisco sabe que a Igreja deve ser, ao mesmo tempo, docente e discente. Ela não apenas pode ensinar coisas decisivas à história, mas também pode extrair dos desenvolvimentos econômicos, dos novos direitos das mulheres e da emancipação política dos povos compreensões mais profundas do Evangelho.

2. A abordagem “napoleônica” dos teólogos e dos canonistas

No entanto, enquanto Francisco caminha seguro por essa via, uma parte consistente do corpo eclesial, no centro e na periferia, no campo pastoral e teológico, nas cúrias e nas academias, permanece fixada a representações velhas e a práticas superadas. Continua considerando que a Igreja pode e deve “blindar-se” em um corpus completo e imutável de “leis” e de “doutrinas” que o Código e o Magistério estariam destinados a proteger zelosamente. Que ela tem apenas a ensinar e nada a aprender. Que pode gerir, a partir de dentro, toda questão, sem ter que jamais prestar contas “a terceiros”; que pode construir uma “lógica paralela” ao mundo, que alimenta a indiferença: leis diferentes, tribunais diferentes, comportamentos diferentes, entendidos não como “transcendência escatológica”, mas como “alternativa institucional”.

Ao lado da “Igreja em saída”, profetizada pelo Vaticano II e retomada por Francisco, vemos se expressar e resistir uma Igreja “antimoderna” e “com as portas blindadas”. Tal ideia de Igreja – hermeticamente fechada – aplica a si mesma, paradoxalmente, aquele ideal iluminista e napoleônico, precisamente, da “lei universal e abstrata”, que, durante 100 anos, havia sido combatido e que, depois, a partir do início do século XX, tornou-se a estratégia maior do magistério católico, assumida no Código e no Magistério, garantidos pelo centro de autoridade e de poder romanos. Ideologia antimoderna e recursos jurídicos modernos se aliam para “bloquear” a tradição.

3. A “liberdade” da teologia segundo Francisco

O que a teologia pode fazer nesse âmbito? É evidente que, na perspectiva do Vaticano II e de Francisco, de acordo com a lógica de João XXIII dos “sinais dos tempos”, um pensamento teológico vivo e afiado, capaz de reflexão e de oração, é um dos instrumentos essenciais para “abrir” a Igreja.

Em muitas ocasiões, no magistério do Papa Francisco, este relato foi proposto: é o relato de uma teologia que não está “na sacada” ou “na escrivaninha”, mas “na rua”. Ele foi expressado, de modo singularmente vivo, no famoso discurso ao Colégio de Escritores da revista La Civiltà Cattolica (2015), como uma “teologia” dos três “Is”: uma teologia da inquietação, uma teologia da incompletude e uma teologia da imaginação. São os três “Is” que, no início dos “Tempos Difíceis”, de Charles Dickens, são postos sobre o banco dos réus pela nova cultura “geral e abstrata”.

Em certo sentido, podemos dizer que os ideais do “sistema institucional” olham com preocupação para toda manifestação de inquietação, de incompletude e de imaginação. Até mesmo o “sistema eclesial” – quando renuncia à própria substância profética e escatológica – exige total completude, tranquila autossuficiência, rigoroso princípio de realidade. E o sistema eclesial, como qualquer outro sistema, corre o risco de reivindicar essa “blindagem” até mesmo daqueles “funcionários” que se chamam teólogos. Que deveriam apenas justificar o status quo, sem introduzir elementos de inquietação e de perturbação, simplesmente repetindo o que o Código e o Magistério historicamente afirmaram: como se a história tivesse acabado, e a Igreja pudesse ser apenas “retro oculata”. Uma teologia que produzisse um pensamento inspirado apenas por esse “medo” – e que, portanto, utilizasse a razão apenas a serviço desse “afeto temeroso” ou “apego nostálgico” – seria um mais graves dos motivos de crise da Igreja.

4. A incompatibilidade entre Veritatis gaudium I e Veritatis gaudium II

Essa condição paradoxal aparece em toda a sua dilaceração no texto da Veritatis gaudium (2018), que é a nova constituição apostólica sobre os estudos eclesiásticos. Seria difícil imaginar um contraste mais forte entre um Proêmio, cuja abertura é realmente impressionante, e a subsequente “articulação normativa”, da qual o fechamento impressiona altamente.

Se, na verdade, a estrutura dos estudos eclesiásticos deve assumir a tarefa de uma “mudança de paradigma” e de uma “revolução cultural” – como se afirma com tons peremptórios nos seis primeiros números do documento –, a partir daquilo que é articulado em seguida, parece que isso só é possível em uma Igreja na qual essa tarefa seja confiada apenas ao papa e na qual todos os teólogos possam repetir uma doutrina já completa e perfeitamente coerente, que recebem do alto e à qual obedecem sem reticências.

A história da Igreja, porém, demonstra que as coisas nunca funcionaram assim. E se deve dizer, com grande clareza, que dar forma aos estudos eclesiásticos de acordo com a mens de VG 1-6 não pode, em caso algum, seguir as normativas estabelecidas pelo que se segue. Ao contrário, a doutrina de uma “Igreja em saída” segue uma normativa de uma “Igreja sem saída”.

O título – Veritatis gaudium – refere-se aos seis primeiros números. Todos os outros deveriam se intitular Veritatis angor! E eu não gostaria que os teólogos tivessem que ser forçados a reagir com uma “objeção de consciência” em relação à parte normativa, para permanecerem fiéis às intenções do Proêmio.

5. A advertência de Wolfgang Boeckenfoerde e o silêncio imposto

Uma Igreja realmente capaz de “aprender também com a história contemporânea” precisa de outra liberdade de pensamento e de outra estrutura de relações acadêmicas e institucionais. O jurista alemão Wolfgang Boeckenfeorde já havia assinalado isso muito lucidamente quando denunciou o maior fechamento da normativa sobre a liberdade teológica do Código de 1983 em comparação com o Código de 1917.

Gostaria de apresentar em detalhes a posição do grande canonista alemão no capítulo II deste texto. Aqui, antecipo apenas o sentido, ou seja, a transformação da normativa “negativa” de 1917 para a “positiva” de 1983 reduziu pesadamente a margem de manobra da pesquisa teológica livre. A imposição do “silêncio” nos âmbitos que merecem uma discussão competente constitui um sinal de perigosa “autorreferencialidade”, sobre a qual a normativa da VG força ainda mais a mão.

É verdadeiramente paradoxal que, a um Proêmio em que, pela primeira vez na história da Igreja, se adquirem perspectivas de abertura e de liberdade verdadeiramente consoladoras e promissoras, corresponda uma normativa que é menos aberta do que a de 1917 e de 1983!

É preciso dizer com clareza: sem uma modificação radical da normativa, as palavras do Proêmio correm o risco de ser entendidas como uma envernizada ideológica sem raiz. Que não impedem que o papa seja profeta, mas que, de acordo com o que se segue, proíbem estritamente qualquer olhar profético e escatológico para todos os sujeitos diferentes dele. E não seria exatamente uma boa maneira de honrar os “sinais dos tempos”.

Mas esse resultado paradoxal é a desembocadura de um desdobramento recente, que eu acho que posso identificar em uma “estrutura” do magistério católico marcada por um “princípio” ou, melhor, por um “dispositivo”, que introduz um elemento de substancial “paralisia” ou “bloqueio” da tradição. A tradição, que o Concílio Vaticano II colocou novamente em movimento, é relida de acordo com uma lógica que a “encerra em si mesma”.

O sentido deste breve texto é especificar a “forma” e as “implicações” desse “dispositivo”, que eu defino como “dispositivo de bloqueio” e que eu remonto à influência teológica e disciplinar do pensamento de Joseph Ratzinger. Nele, ganha forma uma espécie de “resistência aos sinais dos tempos”, que se torna o princípio de autorreferencialidade, leitura redutora da cultura e exclusão da liberdade.

6. Mais um “além”

Há cerca de 13 anos, às vésperas daquela que hoje podemos reconhecer como a mais surpreendente aplicação do “dispositivo de bloqueio”, eu havia escrito “Para além de Pio V”. Era essa a perspectiva que, na época, me parecia que eu devia ressaltar, com um olhar atento acima de tudo às dinâmicas litúrgicas da tradição.

Mas, hoje, à distância de 13 anos, com tudo o que se manifestou, para o bem e para o mal, ao longo desse percurso, parece-me que, em um quadro muito mais complexo, continua sendo atual a preposição “além”. Trata-se de superar não simplesmente um “ordo” ritual, mas sim um modo de pensar a história e a tradição da Igreja, que é o fundamento intelectual e sentimental de uma “sociedade fechada”, que vive de acordo com a “honra” e não de acordo com a “dignidade”.

Como é evidente, esse olhar passa da “forma ritual” para a “forma eclesial” e descobre, como G. Dossetti já havia feito há mais de 50 anos, que a forma ritual é precisamente a mais radical e visceral das “formas eclesiais”. Por isso, colocar-se não apenas “além de Pio V”, mas também “além do dispositivo de bloqueio” torna-se o caminho inevitavelmente estreito e acidentado de permanecer fiel ao Vaticano II e de reconciliar doutrina e realidade, fé e cultura, autoridade e liberdade.

Em certo sentido, poderíamos dizer que “para além de Pio V” se tornou hoje uma aplicação específica do dispositivo geral, que entrou em vigor no fim dos anos 1970 e permaneceu ativo até hoje, com a abençoada exceção do Papa Francisco, que dele se livrou amplamente, embora não completamente.

7. O percurso do texto

No livro, gostaria de percorrer um breve itinerário em quatro passagens: acima de tudo, focalizo a atenção no “dispositivo de bloqueio”, mostrando como, entre o fim dos anos 1970 e o início da segunda década do século XXI, a autoridade de Joseph Ratzinger (primeiro como arcebispo de Munique-Freising, depois como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, por fim, como Papa Bento XVI) introduziu no magistério católico um “dispositivo de bloqueio”, para proteger a Igreja de toda possível dinâmica, confirmando a sua autoridade mediante uma “negação de autoridade” (§.1).

Depois, aprofundarei o papel de “paralisia” que investe sobre a “liberdade do teólogo” no sistema afirmado pelo “dispositivo” (§.2), com relação ao qual encontramos uma primeira exceção na Amoris laetitia, que se justifica, precisamente, mediante uma “compreensão diferente do magistério”, como fica claro em seus primeiros números.

Em seguida, gostaria de retomar as duas “tentações” (neognosticismo e neopelagianismo) que podem ser compreendidas como suporte da “autorreferencialidade” e do “dispositivo de bloqueio”, como seu fundamento teórico, finalmente superado pelas afirmações decisivas da Veritatis gaudium (§.3) e, depois, concluir com uma breve série de teses sobre a relação entre autoridade e liberdade na Igreja a 60 anos do primeiro anúncio do Concílio Vaticano II e do sexto ano do papado de Francisco (§.4).

 

 

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