Uma avaliação da assembleia especial para a Amazônia: um processo sinodal que continua. Entrevista com Cláudio Hummes

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31 Outubro 2019

Foram necessários dois anos de trabalho para chegar a realizar o Sínodo dos Bispos dedicado à região pan-amazônica. E agora os frutos desse compromisso encontram um ponto de chegada com a publicação do documento final.

O jornalista Silvonei Protz conversou com o cardeal Cláudio Hummes, relator-geral do Sínodo. A conversa foi publicada em Vatican News, 29-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

No seu discurso à 15º Congregação Geral, o senhor falou de “um momento de emergência ecológica” e convidou a Igreja a escutar o grito da Amazônia.

Acima de tudo, quero dizer que a realização deste Sínodo foi realmente uma grande alegria. E o processo não termina com o Sínodo: é um processo sinodal que agora começa realmente a ser realizado. Quero dizer com isso que o pós-Sínodo é igualmente importante nesse processo: a aplicação do Sínodo. É claro que o Sínodo é um ponto alto, é o ponto alto que ilumina os caminhos. Mas todo o processo continua agora, continuará também na aplicação pós-sinodal, localmente e em todos os lugares onde houver uma conexão. É um processo que continuará. Voltaremos ao nosso território e lá realmente recomeçaremos a trabalhar.

É verdade que se deve entender esse Sínodo dentro do momento de grande risco que o planeta Terra corre: nós sabemos, tanto por meio da Laudato si’, quanto por meio da COP-21 de Paris, que ocorreu alguns meses após a publicação de Laudato si’, que estamos em uma situação de crise climática e ecológica grave e urgente. Grave, porque realmente está em risco o futuro do planeta e, portanto, também o futuro da humanidade. Isso não é dito de forma apocalíptica, de grande alarme: é dito na serenidade da ciência. A ciência nos diz serenamente: “É assim”, e devemos tomar medidas para que essa crise seja vencida. Então, façamos isso, porque ainda temos tempo para fazê-lo. É verdade que o tempo está cada vez mais curto, mas há tempo e podemos fazer isso e queremos fazê-lo. Queremos unir. A Igreja também quer ser uma voz que une as forças da humanidade, não fazendo parte daquela que sabe tudo, mas a Igreja também quer apresentar uma luz ao mundo. E nós sabemos que essa luz é importante. Mas, no mundo, também existem muitas outras luzes, para que, juntos, possamos fazer esse trabalho de vencer essa crise.

E, nessa grande crise, grave e urgente, também em Paris se disse com muita razão que mais tarde será tarde demais, e isso significa “agora”. Não no sentido alarmista ou apocalíptico, mas sim no sentido de suscitar o trabalho imediato das nações e de toda a humanidade para salvar o planeta. Nessa grande crise do planeta – todos sabem disso, e os cientistas também nos dizem isso – a Amazônia tem um papel fundamental, decisivo, porque, se perdermos a Amazônia, o planeta corre riscos muito graves, irrecuperáveis, e seria verdadeiramente um desastre para toda a humanidade e para a nossa história. É dentro desse contexto que se pode compreender melhor a importância histórica desse Sínodo: ele tem uma importância verdadeiramente histórica. E, a esse respeito, é preciso ver e ler esse documento como um documento que se situa nessa grande crise.

Então, que chave de leitura podemos oferecer sobre esse documento final?

O documento, é preciso dizer isto imediatamente, não se pode lê-lo como um livro ou como um texto de um autor, porque um autor também faz literatura e também faz uma sequência muito mais conectada, muito mais lógica. Este é um texto feito a muitas mãos. São muitas as mãos que colaboraram na redação desse texto, porque foi uma assembleia. E essa também é a riqueza do texto: isso não o empobrece, não, é a sua riqueza, propriamente. Mesmo que a leitura do texto seja diferente do que a leitura do texto de um livro, que tem mais literatura, até mais conexão, isso significa que devemos olhar, acima de tudo, para os conteúdos, mais do que para a sequência. Obviamente, há uma sequência e uma lógica, mas não a mesma que se teria se fosse fruto de um único autor. Devemos olhar, acima de tudo, para os conteúdos: são os conteúdos que são importantes.

Além disso, sabe-se que hoje a maioria não lê mais um livro, um livro inteiro ou um grande documento. As pessoas vão lá ver aquelas partes do livro ou do documento que lhes interessam e, talvez, depois, se interessarão em algum outro ponto. Então, sabemos que ele será lido assim. Certamente, o mundo acadêmico irá lê-lo de outra maneira, mas, na pastoral das pessoas, das comunidades, todos nós o leremos pelos seus conteúdos, e estes sempre são apenas lidos apenas em parte. Isso deve ficar muito claro. É preciso ver há grandes temas que são centrais, e outros temas que também são importantes, mas não centrais. Por exemplo, os grandes temas centrais são, acima de tudo, os povos originários, indígenas – o Papa sempre diz isso – porque eles correm um risco como nunca antes, um risco de verdade para a sua sobrevivência.

Os povos originários, indígenas veem como vão as coisas: eles não têm futuro. E é terrível não ter futuro. Sabemos que isso também vale hoje para a crise ecológica. Sempre se diz com razão: “Vocês que são pais, vocês que são avós, vocês que têm filhos e netos, olhem nos olhos dos seus filhos: qual é o futuro que vocês desejam para eles? Que o futuro deles seja não ter futuro?. Isso significa que todos nós devemos nos sentir interpelados: vocês que têm filhos, vocês que têm netos, todos nós que temos essa juventude, essa infância que nos olha e nos interpela, dizendo: ‘O futuro que vocês prepararam é não ter futuro!’”. E os indígenas também dizem isso com muita força: nós também, do modo como vão as coisas atualmente, não teremos futuro. E isso não está certo, isso é absolutamente inaceitável. Por isso, esse é o tema central, a questão dos indígenas.

Mas também se enquadra no tema central todo o restante da população, incluindo a urbana, entre os quais também há muitos indígenas, até mesmo nas cidades com situações muito difíceis: é muito difícil a situação dos indígenas nas cidades. Sim, alguns também conseguem progredir nas cidades, porque também temos indígenas engenheiros, que fizeram a universidade, que exercem profissões como qualquer outra pessoa das nossas sociedades ocidentais. Mas a grande maioria deles não consegue sobreviver de verdade nas cidades, com dignidade. Então, as cidades também estão envolvidas e são interpeladas. Além disso, todos juntos, há a questão do território, porque o território também está ameaçado, como eu dizia, por causa da crise climática, por causa da crise ecológica: lá, tudo está degradado, espoliado, cada vez menos em condição de poder continuar produzindo. Por quê? Acima de tudo, porque as grandes florestas – sabemos disto hoje, a ciência também diz isto – darão muito mais riquezas, obviamente em um período menos curto, mas darão mais riquezas do que uma floresta que tenha sido derrubada: uma floresta de pé é melhor, dará muitos mais recursos também para os países que as possuem e para o mundo.

Por isso, nós devemos realmente lutar para que sejam preservadas, porque, com as florestas, preservam-se também as águas: as águas, que são outro tema muito forte, a questão das águas contaminadas... Lá está grande parte da água doce, a água potável do mundo está lá! O ciclo das águas também é muito importante. Sem esse ciclo das águas, se ele for afetado, mesmo as regiões que hoje não fazem parte da Amazônia não terão mais futuro no que diz respeito à agricultura, e assim por diante. Esses são os grandes problemas centrais. Outro problema central – porque é a Igreja que fala e a Igreja fala da sua missão dentro desse contexto – é como a Igreja pode realizar melhor a sua missão na Amazônia. Então, estando com as pessoas, para que elas tenham melhores condições do que as atuais. Existem novos caminhos que devem ser decididos e depois também realizados. Sabemos que será um processo longo, mas é preciso saber em que direção se deve construir esse processo. Por isso, é muito importante que nós digamos: “Nesta direção e não naquela outra” e indiquemos as condições. Também entra nisso a questão dos ministérios, que não é o tema central do Sínodo. Não, o Sínodo não é sobre os ministérios na Igreja. Mas isso também era importante, para que a Igreja possa estar verdadeiramente junto com as pessoas e permitir que a sua dignidade e os seus direitos, também dentro da Igreja, sejam cada vez mais acolhidos e promovidos. Nesse sentido, falou-se dos ministérios.

Esses são dois temas que apareceram muito na mídia e também nos briefings: a questão dos viri probati e do diaconato feminino.

Sim, e é por isso que eu digo que o Sínodo não foi um Sínodo para discutir os ministérios: isso sempre ficou claro para nós, para o papa e para todos. Porém, muitas vezes, do lado de fora, as pessoas se fixaram demais nessa questão. Obviamente, é uma questão importante, mas o Sínodo não foi realizado para essa questão. No entanto, sabemos também que essa questão é importante para a Amazônia, principalmente para os povos indígenas e, por isso, isso também entrou.

Outro tema muito forte, e isto já tem mais a ver com a região, é o reconhecimento do trabalho das mulheres, das mulheres dentro do território, porque uma grande parte, cerca de 70% das comunidades dentro da Amazônia, são dirigidas por mulheres: elas são as dirigentes. E esse é um trabalho verdadeiramente maravilhoso que nós devemos reconhecer, elogiar, apoiar em tudo o que seja necessário. Elas dizem: “Não, não queremos que vocês digam ‘bom, bom’... não. Vocês devem nos reconhecer, acima de tudo, e também dar um passo a mais, dando-nos, como dirigentes, uma força maior, uma autoridade maior”. Nesse sentido, elas pediram acima de tudo um ministério instituído de mulheres dirigentes de comunidade. Não, não se falava de ministério ordenado, mas de ministério instituído para as mulheres. E, com isso, eu acho que, também no que diz respeito a outros aspectos de toda essa questão da mulher na Igreja, houve uma abordagem que indica – penso eu – que também demos passos nesse sentido, sim.

Tudo isso foi entregue agora nas mãos do Santo Padre.

Sim, é claro, porque vai para as mãos do Santo Padre e devemos esperar pelo que ele fará. Normalmente, ele faz um documento pós-sinodal, e então devemos esperar um pouco para ver como o papa dará publicidade ou autoridade para tudo isso... De todos os modos, sempre, mesmo quando o papa faz o seu documento pós-sinodal, tudo que o Sínodo fez, decidiu e indicou, continua sempre ajudando a entender também o que o Papa propõe no seu documento . E nós estamos tranquilos, serenos, todos nós, e também terminamos o trabalho com alegria e dizemos que, obviamente, estamos e continuaremos tranquila e serenamente cum Petro et sub Petro, que significa “com o papa e sob a orientação do papa”, porque é isso que a grande comunhão católica faz.

Pode nos fazer uma pequena fotografia para quem não esteve dentro do Sínodo? O que aconteceu nessas três semanas dentro do Sínodo?

O clima foi muito fraterno, embora também tenha havido momentos de discussão, porque havia coisas importantes a serem discutidas. Porém, sempre muito fraterno, um clima de muita oração, sempre muita oração, e no fim tudo isso foi crescendo, porque, pouco a pouco, cada vez mais se manifestou essa comunhão, mesmo que houvesse diferenças. Porque a comunhão eclesial tem muito a ver com isso. Nós, repito, não somos um parlamento no Sínodo. No Parlamento, há os partidos, e faz-se uma votação, cada um quer ser o vencedor, e os outros são os vencidos... Não. O Sínodo não pode trabalhar nesse espírito. O Sínodo não é um Parlamento. O Sínodo é a Igreja que está unida, tem uma comunhão forte, mas que também respeita as diferenças. As diferenças, menores ou maiores, não tiram de nós essa característica, essa realidade de sermos uma comunhão. O Papa sempre diz que é necessário construir uma comunhão, e não partidos; uma comunhão na qual todos se apoiam, mesmo que tenham pequenas diferenças, mas se apoiam pelo grande bem que significa a comunhão eclesial.

Nesses dias do Sínodo, a Repam foi muito citada: o papel do Repam com o Sínodo. O senhor é o presidente da Repam.

Sim, a Repam foi fundada em 2014, quando Francisco já era o Papa, e realmente queria ser um serviço que conectasse todas as dioceses, prelazias, missões e outras instituições da Amazônia, da Grande Amazônia dos nove países. Um serviço de conexão: e o fez. E realmente cresceu muito, porque muitas pessoas se uniram: hoje, somos realmente uma multidão que trabalha como Repam, e isso significa que a rede foi construída para colocar todos online. É um serviço: a Repam não é uma instituição a mais. Nós dizemos que não somos uma instituição a mais que tem o seu programa de trabalho. Não. Nós queremos ser um serviço que conecta aquilo que existe, que dá uma unidade maior para que possam se somar as vozes, as forças.

Porque existe o grande problema do isolamento na Amazônia, as distâncias são muito grandes, as florestas são grandes... Imagine uma prelazia, uma diocese, um vicariato no meio da floresta: pouco a pouco, cria-se a consciência de estar isolado. Eles se sentem sozinhos diante dos seus sonhos e diante dos seus problemas, porque não têm os pressupostos para realizar os seus sonhos e para combater os seus problemas. Por isso, às vezes, eles se sentem muito sozinhos. E, então, a Repam significa: “Não, você não está sozinho, vocês não estão sozinhos: nós estamos aqui. Façam ouvir a sua voz, nós estaremos lá com vocês. Queremos trabalhar todos juntos”. E esse trabalho realmente funcionou muito. Agora, a Repam obviamente continuará esse serviço com a base, com pessoas do território, com a Igreja, testemunhando uma Igreja que está com as pessoas e não simplesmente em casa, evangelizando e organizando a comunidade de longe.

E a participação do papa com vocês, na plenária, na Sala do Sínodo?

Foi uma coisa extraordinária! Todos estavam muito contentes, todas as pessoas, especialmente as pessoas que vieram do Brasil, da Amazônia, que nunca tiveram a oportunidade de ver o Papa. É claro que elas o tinham visto na televisão, mas estar lá, com o Papa, que esteve entre nós com uma simplicidade enorme, junto, próximo, se deixando fotografar e que dá força às pessoas, dá esperança às pessoas, sorri, abraça... isso foi algo absolutamente extraordinário. As pessoas estavam muito, muito, muito felizes com isso.

Um pensamento para os muitos operadores da comunicação que foram de todas as partes do mundo a Roma para o Sínodo.

Nós agradecemos muito a todos os comunicadores, porque, sem isso, hoje, não se faz mais nada, a voz não sai para fora da porta. É importante, e hoje a comunicação tem uma tecnologia fantástica, que é um grande progresso, obviamente. Depois, há problemas, mas o progresso é muito maior do que os problemas que ela envolve. Então, nós realmente agradecemos muito pelo trabalho que eles fizeram e continuam fazendo, tentando também manter no centro os grandes problemas, não alguns problemas – que também são importantes – como, por exemplo, o dos ministérios. Mas os grandes problemas são realmente a questão do planeta, a questão dos indígenas, a questão do território, a questão de um sistema global hoje muito predatório que realmente deve ser revisto: como enfrentar a grande crise, grave e urgente, que o planeta está sofrendo? E a Igreja quer estar entre aqueles que levam a sério esse problema, com muita responsabilidade.

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