Por que Francisco evitou falar em padres casados no seu documento sobre a Amazônia?

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14 Fevereiro 2020

No início deste mês, muitos estadunidenses tiveram a frustrante experiência de acompanhar as primeiras eleições primárias do país, no Estado de Iowa, esperar os resultados e descobrir um vácuo total de informações. Problemas com um novo aplicativo, junto com linhas telefônicas congestionadas e uma variedade de erros de comunicação indicaram que nós ainda não sabemos realmente qual candidato democrata venceu de fato a primeira disputa da campanha de 2020.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois de meses de preparação, a ausência de qualquer resultado claro foi, para dizer o mínimo, um pouco decepcionante.

Os católicos estadunidenses podem sentir uma sensação de déjà-vu ao ler a “Querida Amazônia”, a exortação apostólica de 16.000 palavras do Papa Francisco concluindo o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que tem sido objeto de especulações e expectativas febris desde o encontro de prelados que terminou em outubro passado em Roma.

Durante a cúpula, o debate sobre os viri probati, ou seja, homens casados e de vida comprovada que poderiam ser ordenados padres para servir a comunidades rurais isoladas, foi a questão mais contenciosa, e, desde então, as pessoas se perguntam como Francisco legislaria.

No fim, o que recebemos foi o som do silêncio. O pontífice começa dizendo: “Não vou desenvolver todas as questões amplamente tratadas no documento conclusivo” do Sínodo, e continua ignorando o debate sobre os padres casados. Os defensores dos viri probati estariam perfeitamente no seu direito ao apontar que ele não diz “não”, mas os opositores ficariam igualmente justificados ao insistir que ele também não diz “sim”.

De fato, lendo a “Querida Amazônia”, você não teria absolutamente nenhuma ideia de que o Sínodo levantou uma discussão sobre os padres casados – nem mesmo nas notas de rodapé do documento, que foi onde Francisco lidou com a questão contenciosa da Comunhão aos católicos divorciados e recasados civilmente na exortação apostólica Amoris laetitia, de 2016, após dois Sínodos dos Bispos sobre a família em 2014 e 2015.

O silêncio certamente não se deve ao fato de Francisco não querer que as pessoas leiam o seu documento ou prestem atenção à Amazônia. De fato, na preparação para o lançamento da “Querida Amazônia”, o cardeal brasileiro Claudio Hummes, um aliado papal muito próximo e um dos principais nomes do Sínodo, enviou uma carta a todos os bispos do mundo, recomendando, entre outras coisas, que eles organizassem uma coletiva de imprensa ou outro evento para ressaltar o documento.

Então, por que o efetivo “chute” nos padres casados? Cinco explicações possíveis emergem, que não são mutuamente exclusivas e, de fato, podem fazer parte do mesmo quadro.

Primeiro, Francisco obviamente não sente que a questão do celibato seja o principal evento em relação à Amazônia. Sua ênfase sempre foi nas questões mais amplas, incluindo o fato de salvar a própria floresta tropical, de proteger as pessoas e comunidades indígenas da região e de lidar com os desafios da justiça social, como o uso da terra e os direitos trabalhistas.

Em grande parte, ele parece considerar as disputas intraeclesiásticas como uma distração dessa pauta mais ampla. A questão aparece claramente nos quatro grandes sonhos que o papa esboça em seu documento:

- uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida.

- uma Amazônia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.

- uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.

- comunidades cristãs capazes de se entregar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos.

Segundo, Francisco pode achar que não precisou entrar no debate sobre padres casados porque o Sínodo já abordou isso. No prefácio do seu texto, o papa diz também que quer “apresentar de maneira oficial o citado documento [final do Sínodo], que nos oferece as conclusões do Sínodo e no qual colaboraram muitas pessoas que conhecem melhor do que eu e do que a Cúria Romana a problemática da Amazônia, porque vivem lá, por ela sofrem e a amam apaixonadamente”.

Em outras palavras, sua posição pode ser a de que, salvo qualquer declaração expressa em contrário, as conclusões do Sínodo – nas quais mais de dois terços dos bispos votaram a favor dos viri probati – permanecem de pé e não exigem nenhuma elaboração por parte dele.

Terceiro, e relacionado com isso, o papa pode achar que, como aquilo que o Sínodo recomendou não foi uma dispensa geral do requisito de celibato para os padres, mas sim o discernimento em casos específicos, não há realmente nada a dizer até que esse caso se apresente. Em outras palavras, ele legislará quando uma decisão for necessária, e não antes.

Quarto, Francisco está claramente ciente das rixas que resultaram da contribuição do Papa Emérito Bento XVI com um ensaio para um livro em defesa do celibato sacerdotal de autoria do cardeal guineense Robert Sarah e pode achar que uma decisão clara agora inevitavelmente seria vista tanto como uma rejeição quanto como uma concessão ao seu antecessor.

Quinto, a decisão estratégica do papa de evitar o debate sobre os padres casados pode ter menos a ver com a Amazônia do que com outras partes do mundo, especialmente a Alemanha. Exatamente agora, os alemães estão se preparando para um “Caminho Sinodal” de dois anos, no qual se espera que o requisito do celibato para os padres receba uma atenção crítica, não apenas em casos limitados por motivos práticos, mas também em princípio.

Francisco pode estar preocupado com o fato de que qualquer coisa que ele dissesse sobre os viri probati no contexto da Amazônia seria rapidamente usado nesses debates, provocando um incêndio que ele não gostaria de ter que apagar em breve.

Moral da história: a ausência de um resultado claro sobre os padres casados na “Querida Amazônia” não significa necessariamente que o debate acabou. Pelo contrário, pode significar que a questão terá que esperar mais um dia e mais um conjunto de circunstâncias, para que o papa se sinta inclinado a assumi-la.

 

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