Francisco escreve ao cardeal Müller e estende a mão aos tradicionalistas

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16 Fevereiro 2020

“Querido hermano”, querido irmão, “muito obrigado pelo livro ‘O papa, missão e dever’ e pelo documento sobre a exortação pós-sinodal ‘Querida Amazônia’, que me agradou...” A carta – sete linhas em espanhol escritas com a caligrafia microscópica e inconfundível de Francisco – chegou ao cardeal Gerhard Müller com a data de 12 de fevereiro, o brasão pontifício e o cabeçalho a caneta com as palavras “Santa Marta”, o hotel dentro do Vaticano onde o papa mora desde sempre.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada por Corriere della Sera, 16-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E, desde essas primeiras linhas, o ex-prefeito alemão da Doutrina da Fé, substituído abruptamente por Jorge Mario Bergoglio em julho de 2017, teve uma feliz surpresa. Aquele “me agradou” referente ao seu texto fez passar para segundo plano as amarguras e o isolamento dos últimos anos. Pareceu-lhe uma mão estendida que talvez ele não esperasse. Mesmo assim, devia imaginar, de algum modo.

O seu comentário sobre o Sínodo da Amazônia, enviado a Francisco nos dias anteriores e publicado também no National Catholic Register, jornal conservador estadunidense, reconhece que o papa fez “um ato de reconciliação”.

Não ter endossado o fim do celibato dos sacerdotes, como os bispos brasileiros e alemães progressistas pediam juntos, evitou uma ruptura da qual um indício foram as polêmicas em torno do livro do cardeal Robert Sarah, com a contribuição de Bento XVI.

Mas isso também alcançou o resultado imprevisível e quase paradoxal de reunir novamente em torno de Francisco pelo menos alguns daqueles que, nos últimos anos, foram os seus críticos mais ferozes no front tradicionalista.

E quem oficializou essa novidade foi o próprio Müller, alvo das flechas do “círculo mágico” bergogliano, na Argentina e entre os jesuítas italianos: o teólogo conservador, pupilo de Ratzinger, que nunca escondeu suas perplexidades sobre o calibre doutrinal dos conselheiros de Francisco, nem poupou críticas ao próprio papa.

Por outro lado, já haviam chegado alguns sinais no início do ano, por ocasião das saudações aos cardeais pela Epifania. Apertando as mãos na fila das “púrpuras”, quando Francisco chegou diante da figura imponente de Müller, eles trocaram algumas piadas animadas. O cardeal lhe assinalou, sacudindo a cabeça, que, entre os amigos de Bergoglio, há quem o considere um inimigo do papa. Sorrindo, o pontífice teria lhe respondido que não presta atenção em certas bobagens, acrescentando que lhe queria bem.

Mas o verdadeiro sinal de reconciliação foi a dissertação de Müller sobre o controverso Sínodo sobre a Amazônia e sobre a mensagem escrita e recebida em resposta nos últimos dias. É estranho: aquele encontro corria o risco de abrir um novo front polêmico dentro da Igreja. Nos Estados Unidos, mas não só, alguns haviam evocado novamente cenários cismáticos. E o pastiche editorial sobre o livro de Sarah levou à desautorização de Dom Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário pessoal do papa emérito, bode expiatório da disputa de poder entre pretorianos de Bergoglio e opositores.

Em vez disso, o resultado final mostrou que Francisco não estava tão inclinado a conceder o fim do celibato; e não estava desde o início, embora seu silêncio sobre os sacerdotes casados tenha sido interpretado como um passo atrás e tenha decepcionado as vanguardas do episcopado brasileiro e, sobretudo, alemão, verdadeiro diretor financeiro e cultural do Sínodo.

O alter ego argentino de Francisco, Víctor Manuel Fernández, bispo de La Plata, tentou minimizar a questão no dia 14 de fevereiro. Ele explicou que, na realidade, o papa não teria fechado nenhuma porta definitivamente com relação à hipótese de um “rito amazônico”. Mas parece mais uma maneira de aplacar a irritação daqueles que confiavam em uma ruptura papal e que agora se calam com uma pitada de espanto.

Até porque Müller, indicado no passado como possível líder de um alinhamento conservador contra Bergoglio, sempre rejeitou esse papel, declarando-se leal ao pontífice. No entanto, ele não renuncia a criticar tanto Francisco quanto Bento XVI, que, em sua opinião, teriam contribuído, de maneiras e por razões diferentes, para desgastar a instituição papal.

Por outro lado, ele também não é suave em relação ao último Sínodo. Segundo Müller, os setores progressistas da Igreja alemã teriam dado “milhões de euros para fazer propaganda sobre o fim do celibato dos sacerdotes. O objetivo deles não era fazer com que os padres na Amazônia se casassem, mas sim abrir a porta para o fim do celibato também na Europa. Por sorte, o papa impediu a manobra”.

Para o ex-prefeito da Doutrina da Fé, até mesmo o desfile de indígenas no Vaticano pareceu pouco convincente. “Aqueles 40 índios com penas na cabeça, rostos coloridos e ídolos da Mãe Terra, recebidos pelo papa, não me pareceram ter vindo da floresta amazônica. Tenho a impressão de que foram levados para a Itália desde Brasília, desde São Paulo, e hospedados em Roma em hotéis cinco estrelas, pagos pelos bispos alemães”, explica Müller.

Palavras abrasivas das quais se intui que o “documento de reconciliação” é vivido pelo catolicismo conservador como uma meia revanche, e, pelos aliados tradicionais de Francisco, como um recuo ou, no máximo, como uma desaceleração das reformas.

Em suma, a recomposição da Igreja parece ainda uma tentativa mais do que uma realidade.

 

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