“O uso e a posse de armas nucleares são imorais”. Entrevista com o Papa Francisco no voo de volta da Tailândia e do Japão

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27 Novembro 2019

No voo de Tóquio a Roma, Francisco reafirma a forte mensagem de Hiroshima, expressando dúvidas também sobre as usinas nucleares até que haja segurança total. Sobre a questão da investigação sobre as finanças vaticanas, ele diz: “Estou contente porque é a primeira vez no Vaticano que o pote é destampado por dentro, e não por fora”.

A reportagem é de Vatican News, 27-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“O uso das armas nucleares é imoral, por isso deve entrar no Catecismo da Igreja Católica, e não só o uso, mas também a posse, porque um acidente ou a loucura de algum governante, a loucura de uma pessoa pode destruir a humanidade.”

No diálogo no voo que o levava de Tóquio de volta para Roma, o Papa Francisco respondeu a muitas perguntas dos jornalistas, reiterando a forte condenação proferida em Hiroshima para fazer com que as pessoas compreendam o seu valor magisterial.

“Agradeço-lhes pelo seu trabalho – disse o papa no início do encontro – em uma viagem intensa com uma mudança de categoria: uma coisa era a Tailândia, e outra, o Japão. Não se pode avaliar as coisas com as mesmas categorias. As realidades devem ser avaliadas com aquilo que vem da mesma categoria. Japão e Tailândia são duas realidades completamente diferentes. Por isso, é preciso o trabalho duplo e, graças a vocês, também em dias muito intensos, eu me senti próximo de vocês nesse trabalho.”

Eis a entrevista.

Padre Makoto Yamamoto (Catholic Shimbum) – Agradecemos-lhe de coração por ter vindo ao Japão de muito longe. Eu sou sacerdote diocesano perto de Nagasaki. O senhor visitou Nagasaki e Hiroshima: como se sentiu? A sociedade e a Igreja ocidental têm algo a aprender com a sociedade e a Igreja oriental?

Começo pela última pergunta. Para mim, um ditado me iluminou muito: lux ex Oriente, ex Occidente luxus. A luz vem do Oriente, o luxo, o consumismo vem do Ocidente. Há precisamente essa sabedoria oriental, que não é sabedoria apenas de conhecimento, mas de tempos, de contemplação. Para a nossa sociedade ocidental – sempre com muita pressa –, ajuda muito aprender a contemplação, parar e também olhar as coisas poeticamente. Essa é uma opinião pessoal, mas eu acho que falta ao Ocidente um pouco mais de poesia. Há coisas poéticas belíssimas, mas o Oriente vai além. O Oriente é capaz de olhar as coisas com olhos que vão além. Eu não usaria a palavra “transcendente”, porque algumas religiões orientais não fazem referência à transcendência, mas a uma visão além do limite da imanência, mas sem dizer transcendência. Por isso, eu uso expressões como poesia, gratuidade, a busca da própria perfeição no jejum, nas penitências, na leitura da sabedoria dos sábios orientais. Acho que faria bem a nós, ocidentais, parar um pouco e dar tempo à sabedoria.

Nagasaki e Hiroshima, ambas, sofreram a bomba atômica, e isso as faz se parecerem. Mas há uma diferença. Nagasaki não teve somente a bomba, mas também os cristãos. Nagasaki tem raízes cristãs, o cristianismo é antigo, a perseguição dos cristãos existia em todo o Japão, mas em Nagasaki foi muito forte. O secretário da nunciatura me presenteou um fac-símile de madeira onde está escrito o “wanted” daquela época: “Procuram-se cristãos! Se você encontrar um, denuncie, e você receberá tanto. Se encontrar um sacerdote, denuncie-o, e você receberá tanto”. Isso afeta, foram séculos de perseguições, é um fenômeno cristão que, de algum modo, “relativiza”, no bom sentido da palavra, a bomba atômica. Em vez disso, ir a Hiroshima foi apenas para fazer memória da bomba atômica, porque não é uma cidade cristã como Nagasaki. Por isso, eu quis ir a ambas as cidades. Em ambas houve o desastre atômico.

Hiroshima foi uma verdadeira catequese humana sobre a crueldade. Eu não pude ver o museu de Hiroshima por motivos de tempo, porque foi um dia pesado [devido aos ritmos muito acelerados], mas dizem que é terrível: cartas dos chefes de Estado, dos generais que explicavam como se poderia provocar um desastre maior. Para mim, foi uma experiência muito mais tocante. E lá eu reiterei que o uso das armas nucleares é imoral, por isso deve entrar no Catecismo da Igreja Católica, e não apenas o uso, também a posse, porque um acidente, ou a loucura de algum governante, a loucura de uma pessoa pode destruir a humanidade. Pensemos naquela frase de Einstein: “A quarta guerra mundial será travada com paus e pedras”.

Shinichi Kawarada (The Asahi Shimbum) – Como o senhor justamente indicou, não se alcança uma paz duradoura sem um desarmamento. O Japão é um país que goza da proteção nuclear dos EUA e também é produtor de energia nuclear, o que envolve um grande risco, como ocorreu em Fukushima. Como o Japão pode contribuir para a paz mundial? As usinas nucleares devem ser desligadas?

Volto à questão da posse de indústrias nucleares. Um acidente sempre pode acontecer. Vocês experimentaram o tríplice desastre [o terremoto, o tsunami e o desastre nuclear na usina de Fukushima em 2011]. A energia nuclear é o limite. Deixemos as armas de lado, porque essa é a destruição. O uso da energia nuclear está muito no limite, porque ainda não alcançamos uma segurança total. Você poderia me dizer que, mesmo com a eletricidade, é possível provocar um desastre por insegurança, mas seria um desastre pequeninho. O desastre de uma usina nuclear será um desastre grande. E ainda não foi elaborada a segurança. É uma opinião pessoal. Eu não usaria a energia nuclear enquanto não houver uma total segurança sobre a sua utilização. Alguns dizem que é um risco para a proteção da criação e que a energia nuclear deve ser parada.

Eu me detenho na segurança. Não há segurança para garantir que um desastre não ocorra. Sim, um a cada dez anos no mundo. Depois, há a criação, o desastre do poder nuclear sobre a criação, sobre a pessoa. Houve o desastre na Ucrânia [em Chernobyl, em 1986]. Devemos fazer pesquisas sobre a segurança, tanto para evitar desastres quanto por causa das consequências sobre o ambiente. Sobre o ambiente, eu acho que fomos além do limite, na agricultura com os pesticidas, na criação de galinhas com os médicos que dizem às mães para não dar de comer às crianças aquelas de aviários, porque são criadas com hormônios e fazem mal à saúde. Tantas doenças raras que existem hoje devido ao mau uso do ambiente. A proteção do ambiente é algo que ou ocorre hoje ou nunca. Mas voltando à energia nuclear: construção, segurança e proteção da criação.

Elisabetta Zunica (Kyoto News) – Akamada Iwao é um condenado à morte japonesa, à espera da revisão do processo. Ele esteve presente na missa no Tokyo Dome, mas não conseguiu falar com o senhor. Estava programado um breve encontro com o senhor? A questão da pena de morte está muito em discussão no Japão. Pouco antes da reforma do Catecismo sobre esse tema, foram executadas 13 condenações à morte. Nos seus discursos, não há uma referência a isso. O senhor conseguiu falar com o primeiro-ministro Shinzo Abe sobre isso?

Sobre esse caso da pena de morte, eu fiquei sabendo depois, não sabia sobre essa pessoa. Com o primeiro-ministro, eu falei sobre muitos problemas, de processos, de condenações eternas que não terminam, seja com a morte, seja sem ela. Mas eu falei de problemas gerais, que existem também em outros países: as prisões superlotadas, as pessoas que esperam com uma detenção preventiva sem a presunção de inocência. Há 15 dias, fiz um discurso no congresso internacional de direito penal e falei seriamente sobre esse assunto. A pena de morte não pode existir, não é moral. Isso deve se unir a uma consciência que se desenvolve. Por exemplo, alguns países não podem aboli-la devido a problemas políticos, mas fazem uma suspensão que é um modo de dar uma sentença de prisão perpétua sem declará-la.

Mas a condenação deve ser sempre para a reinserção. Uma condenação sem janelas de horizonte não é humana. Mesmo para a prisão perpétua, é preciso pensar como o condenado pode ser reinserido, dentro ou fora. Você me dirá: “Mas estamos condenados por um problema de loucura, doença, incorrigibilidade genética...”. Então é preciso procurar o modo para que eles façam atividades que os façam sentir como pessoas. Em muitas partes do mundo, as prisões estão superlotadas, são depósitos de carne humana que, em vez de crescer com saúde, muitas vezes se corrompe. Devemos lutar contra a pena de morte lentamente. Há casos que me dão alegria, porque há países que dizem: nós paramos. Um governador de um Estado, no ano passado, antes de deixar o cargo, fez essa suspensão quase definitiva: são passos de uma consciência humana. Mas alguns países ainda não conseguiram se incorporar nessa linha de humanidade.

Jean-Marie Guénois (Le Figaro) – O senhor disse que a verdadeira paz só pode ser desarmada, mas o que acontece com a legítima defesa quando um país é atacado por outro? Ainda existe a possibilidade de uma guerra justa? Ainda está sendo planejada uma encíclica sobre a não violência?

Um projeto... O próximo papa a fará... Existem projetos que estão na gaveta. Um sobre a paz está lá, está amadurecendo. Sinto que, quando for o momento, eu o farei. Por exemplo, o problema do bullying é um problema de violência. Eu falei sobre isso justamente aos jovens japoneses. É um problema que estamos tentando resolver com muitos programas educacionais. É um problema de violência. Uma encíclica sobre a não violência, eu ainda não a sinto madura. Tenho que rezar muito e tenho que procurar o caminho.

Existe aquele ditado romano: Si vis pacem para bellum. Ali não fomos maduros, as organizações internacionais fracassam, as Nações Unidas fracassam, fazem muitas mediações meritórias, países como a Noruega sempre dispostos a mediar. Isso me agrada, mas é pouco, é preciso fazer mais ainda. Pense no Conselho de Segurança da ONU: se há um problema com as armas, e todos concordam em resolvê-lo para evitar um incidente bélico, todos votam sim. Um com o direito ao veto vota não, e tudo para.

Não sei julgar se isto é bom ou não, é uma opinião que ouvi, mas talvez as Nações Unidas deveriam dar um passo adiante renunciando no Conselho de Segurança ao direito ao veto de algumas nações. Eu ouvi isso como uma possibilidade. No equilíbrio mundial, existem argumentos que, neste momento, não sou capaz de julgar. Mas tudo o que pode ser feito para parar a produção de armas, para parar as guerras, para favorecer a negociação, com a ajuda dos facilitadores, isso sempre deve ser feito e dá resultados. Por exemplo, no caso da Ucrânia-Rússia, não se fala de armas, foi a negociação para a troca de prisioneiros, isso é positivo. No Donbass, pensa-se em um planejamento de um regime governamental diferente, estão discutindo isso. Esse é um passo positivo.

Uma coisa ruim é a hipocrisia “armamentista”. Países cristãos, países europeus que falam de paz e vivem das armas: isso é hipocrisia, uma palavra evangélica. Jesus a dizia no capítulo 23 de Mateus: é preciso acabar com essa hipocrisia. É preciso a coragem de dizer: “Não posso falar de paz, porque a minha economia ganha muito com as armas”. Sem insultar e sem sujar esse país, mas falar como irmãos, pela fraternidade humana: “Vamos parar, pessoal, porque a coisa está feia”.

Em um porto, chegou um navio que tinha que passar as armas para outro navio, para ir para o Iêmen, e os trabalhadores do porto disseram não. Foram bravos, e o navio voltou para a casa. É um caso, mas que nos ensina como se deve ir nessa direção. Hoje, a paz está muito fraca, mas não devemos nos desencorajar.

A hipótese da legítima defesa sempre permanece, mesmo na teologia moral deve ser contemplada, mas como último recurso. Último recurso com as armas. A legítima defesa deve ser feita com a diplomacia, com as mediações. Último recurso: legítima defesa com as armas. Mas enfatizo: último recurso! Nós estamos avançando em um progresso ético que me agrada, questionando todas essas coisas. Isso é bonito, porque diz que a humanidade também avança com o bem, não só com o mal.

Cristiana Caricato (TV 2000) – As pessoas leem nos jornais que a Santa Sé adquiriu imóveis por centenas de milhões no coração de Londres e ficam um pouco desconcertadas com esse uso das finanças vaticanas, particularmente quando o Óbolo de São Pedro também está envolvido. O senhor sabia dessas operações financeiras e, acima de tudo, na sua opinião, está correto o uso que é feito do Óbolo? O senhor disse muitas vezes que não se deve fazer dinheiro com dinheiro. Denunciou esse uso inescrupuloso das finanças, mas depois vemos que essas operações também envolvem a Santa Sé, e isso escandaliza. Como o senhor vê todo esse caso?

Obrigado. Acima de tudo, a boa administração normal: você recebe a soma do Óbolo de São Pedro, e o que eu faço, ponho na gaveta? Não, essa é uma má administração! Eu tento fazer um investimento, e, quando preciso doar, quando há necessidade, em um ano, pega-se o dinheiro, e esse capital não desvaloriza, se mantém ou cresce um pouco. Essa é uma boa administração. A administração da gaveta é ruim. Mas é preciso buscar uma boa administração, um bom investimento. Está claro? Até um investimento como se diz entre nós, “de viúvas”, como as viúvas fazem: dois ovos aqui, três aqui, cinco ali. Se um cai, tem mais, e nada se arruína. E sempre de modo seguro e sempre de modo moral: se você faz um investimento do Óbolo de São Pedro em uma fábrica de armamentos, o Óbolo não é o Óbolo ali. Se você faz um investimento e, durante anos, fica sem tocar no capital, isso não está certo. O Óbolo de São Pedro deve ser gasto em um ano, um ano e meio, até que chegue a outra coleta que é feita mundialmente. E essa é a boa administração: de um modo seguro... Também se pode comprar um imóvel, sim, alugá-lo e depois vendê-lo, mas de modo seguro, com todas as seguranças pelo bem das pessoas do Óbolo.

Depois, aconteceu aquilo que aconteceu, um escândalo: fizeram coisas que não pareciam limpas. Mas a denúncia não veio de fora. Aquela reforma da metodologia econômica que Bento XVI já havia começado seguiu em frente, e foi o auditor das contas internas quem disse: “Aqui tem uma coisa ruim, aqui tem algo que não funciona”. Ele veio ao meu encontro, e eu lhe disse: “Você tem certeza?”. “Sim”, ele me respondeu, me mostrou e me perguntou: “O que devo fazer?”. E eu: “Há a justiça vaticana. Vá e faça a denúncia ao promotor de Justiça”. E eu fiquei contente com isso, porque se vê que agora a administração vaticana tem os recursos para esclarecer as coisas ruins que ocorrem lá dentro, como esse caso, que, mesmo que não seja o caso do imóvel de Londres – porque isso ainda não está claro –, houve casos de corrupção.

O promotor de Justiça estudou o assunto, fez consultas e viu que havia um desequilíbrio no orçamento. Depois, me pediu a permissão para fazer as buscas: existe uma presunção de corrupção, e ele me disse que tinha que fazer isso, neste e naquele escritório. Eu assinei a autorização. A busca foi feita em cinco escritórios, e hoje – embora exista a presunção de inocência – existem os capitais que não são bem administradas, até mesmo com corrupção. Eu acho que, em menos de um mês, começarão os interrogatórios das cinco pessoas que foram bloqueadas porque havia indícios de corrupção. Você poderá me dizer: “Esses cinco são corruptos?”. Não, a presunção de inocência é uma garantia, um direito humano. Mas há corrupção, se vê isso. Com as buscas, será possível ver se são culpados ou não. É uma coisa ruim, não é bonito que isso ocorra no Vaticano. Mas foi esclarecido pelos mecanismos internos que começam a funcionar, e que o Papa Bento XVI começou a fazer. Por isso, eu agradeço a Deus. Não agradeço a Deus porque há corrupção, mas lhe agradeço porque o sistema de controle vaticano funciona bem.

Philip Pullella (Reuters) – Nas últimas semanas, houve preocupação com o que está acontecendo nas finanças do Vaticano, e, segundo alguns, há uma guerra interna sobre quem deve controlar o dinheiro. A maioria dos membros do Conselho de Administração da AIF (Autoridade de Informação Financeira) renunciou. O Egmont, que é o grupo dessas autoridades financeiras, suspendeu o Vaticano das comunicações seguras após as buscas do dia 1º de outubro. O diretor da AIF ainda está suspenso, como o senhor disse, e ainda não há um auditor geral. O que o senhor pode fazer ou dizer para garantir à comunidade financeira internacional e aos fiéis chamados a contribuir com o Óbolo que o Vaticano não voltará a ser considerado um pária a ser excluído, no qual não se pode confiar, e que as reformas continuarão e que não se voltará aos hábitos do passado?

O Vaticano deu passos na sua administração: por exemplo, o IOR (Instituto para as Obras de Religião) hoje é aceito por todos os bancos e pode agir como os bancos italianos, algo que, há um ano, ainda não existia. Houve progressos.

Depois, sobre o grupo Egmont: é algo não oficial, internacional, é um grupo de membros da AIF, e o controle internacional não depende do grupo Egmont, que é um grupo privado, embora tenha o seu peso. O Moneyval fará a inspeção programada para os primeiros meses do próximo ano. O diretor da AIF está suspenso porque havia suspeitas de má administração. O presidente da AIF se fortaleceu com o grupo Egmont para retomar a documentação [apreendida], e a justiça não pode fazer isso. Diante disso, eu fiz uma consulta com um magistrado italiano, de nível: o que devo fazer? A justiça diante de uma acusação de corrupção é soberana em um país, ninguém pode se intrometer aí dentro, ninguém pode entregar os documentos ao grupo Egmont. Os documentos que trazem à tona aquela que parece ser uma má administração, no sentido de um mau controle, devem ser estudados: foi a AIF que não controlou – ao que parece – os crimes dos outros. O seu dever era controlar.

Eu espero que se prove que não foi assim. Agora existe a presunção de inocência. Mas, por enquanto, o magistrado é soberano e deve estudar como as coisas ocorreram, porque, caso contrário, um país teria uma administração superior que prejudicaria a sua soberania. O mandato do presidente da AIF vencia no dia 19 de novembro. Eu liguei para ele alguns dias antes, e ele não se deu conta, como ele me disse mais tarde. E eu anunciei que ele sairia no dia 19. Já encontrei o sucessor, um magistrado de altíssimo nível jurídico e econômico nacional e internacional, e, no meu retorno, ele assumirá o cargo de presidência da AIF. Teria sido um contrassenso que a autoridade de controle fosse soberana sobre o Estado. É algo que não é fácil de entender.

O que me incomodou um pouco foi o grupo Egmont, que é um grupo privado: ele ajuda muito, mas não é a autoridade de controle do Moneyval. O Moneyval estudará os números, estudará os procedimentos, estudará como o promotor de Justiça agiu, e como o juiz e os juízes determinaram a questão. Eu sei que, nestes dias, começará o interrogatório de alguns dos cinco que foram suspensos. Não é fácil, mas não devemos ser ingênuos, não devemos ser escravos. Alguém me disse, mas eu não acredito: com esse fato com o qual tocamos no grupo Egmont, as pessoas se assustam, e está sendo feito um pouco de terrorismo [psicológico]. Deixemos isso de lado. Sigamos em frente com a lei, com o Moneyval, com o novo presidente da AIF. E o diretor está suspenso: talvez ele fosse inocente, eu gostaria que sim, porque é uma coisa bonita que uma pessoa seja inocente e não culpada. Eu espero nisso. Mas houve um pouco de barulho com esse grupo, que não queria que se tocasse nos documentos que pertenciam ao grupo.

É a primeira vez no Vaticano que o pote é destampado por dentro, e não por fora. De fora, muitas vezes. Disseram-nos isso muitas vezes, e nós com tanta vergonha... Mas o Papa Bento XVI foi sábio, começou um processo que amadureceu, amadureceu, e agora existem as instituições. O fato de o auditor ter tido a coragem de fazer uma denúncia por escrito contra cinco pessoas está funcionando... Na verdade, não quero ofender o grupo Egmont, porque ele fez muito bem, ajuda, mas, neste caso, a soberania do Estado é a justiça, que é mais soberana do que o Poder Executivo. Não é fácil de entender, mas eu peço que entendam.

Roland Juchem (CIC) – Santo Padre, no voo de Bangkok para Tóquio, o senhor enviou um telegrama para Carrie Lam, de Hong Kong. O que o senhor acha da situação lá, com as manifestações e com as eleições municipais? E quando podemos acompanhá-lo a Pequim?

Os telegramas são enviados a todos os chefes de Estado, é algo automático e também é um modo cortês de pedir permissão para sobrevoar o seu território. Isso não tem um significado nem de condenação nem de apoio. É algo mecânico, que todos os aviões fazem quando entram tecnicamente, avisam que estão entrando, e nós fazemos isso com cortesia. Isso não tem nenhum valor no sentido da sua pergunta, tem apenas um valor de cortesia.

Por outro lado, você me diz: se pensarmos bem, além disso, não é apenas Hong Kong. Pensemos no Chile, pensemos na França, a democrática França: um ano de coletes amarelos. Pensemos na Nicarágua, pensemos em outros países latino-americanos que têm problemas desse tipo e também em alguns países europeus. É algo geral. O que a Santa Sé faz com isso? Chama ao diálogo, à paz, mas não é apenas Hong Kong. Existem várias situações com problemas que eu não sou capaz de avaliar neste momento. Eu respeito a paz e peço a paz para todos esses países que têm problemas, incluindo a Espanha. Convém relativizar as coisas e chamar ao diálogo, à paz, para que se resolvam os problemas. E por fim: eu gostaria de ir a Pequim, eu amo a China.

Valentina Alazraki (Televisa) – Papa Francisco, a América Latina está em chamas. Vimos imagens na Venezuela e no Chile que não pensávamos em ver depois de Pinochet. Vimos a situação na Bolívia, na Nicarágua ou em outros países: revoltas, violência nas ruas, mortos, feridos, até igrejas queimadas, violadas. Qual é a sua análise sobre o que está acontecendo nesses países? A Igreja e o senhor, pessoalmente, como papa latino-americano, estão fazendo alguma coisa?

Alguém me disse isto: é preciso fazer uma análise. A situação hoje na América Latina se assemelha à de 1974-1980, no Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai com Strössner, e acho que também na Bolívia... Eles tinham a operação Condor naquele momento...

Uma situação em chamas, mas não sei se é um problema que se assemelha ou é outro. Eu realmente não sou capaz de fazer a análise disso neste momento. É verdade que há declarações precisamente não de paz. O que ocorre no Chile me assusta, porque o Chile está saindo de um problema de abusos que me fez sofrer muito, e agora um problema desse tipo que não entendemos bem. Mas está em chamas, como você diz, e é preciso buscar o diálogo e também a análise. Eu ainda não encontrei uma análise bem feita sobre a situação na América Latina e também existem governos fracos, muito fracos, que não conseguiram pôr em ordem e em paz, e, por isso, se chega a essa situação.

Valentina Alazraki (Televisa) – Evo Morales pediu a sua mediação, por exemplo. Coisas concretas...

Sim, coisas concretas. A Venezuela pediu a mediação, e a Santa Sé sempre está disposta. Existe uma boa relação, realmente uma boa relação, estamos presentes lá para ajudar quando necessário. A Bolívia fez algo assim, fez um pedido às Nações Unidas, que enviaram delegados e também alguns de algumas nações europeias. Não sei se o Chile fez esse pedido de mediação internacional. O Brasil certamente não, mas também lá há problemas. É algo um pouco estranho, mas eu não gostaria de dizer uma palavra a mais, porque sou incompetente e não estudei bem e, sinceramente, não entendo bem.

Aproveito a sua pergunta para acrescentar que vocês falaram pouco sobre a Tailândia, que é diferente do Japão, uma cultura da transcendência, uma cultura também da beleza diferente da beleza do Japão: uma cultura, tanta pobreza e tantas riquezas espirituais. Mas também há um problema que machuca o coração, que nos faz pensar em “Grecia e le altre” [livro sobre a violência contra a mulher de autoria de Valentina Alazraki e Luigi Ginami]. Você é uma mestra nesse problema da exploração, estudou-o bem, e o seu livro fez muito bem. E a Tailândia, alguns lugares da Tailândia são difíceis por causa disso. Mas existe a Tailândia do sul e também a bela Tailândia do norte, onde eu não pude ir, que é tribal e tem uma cultura totalmente diferente. Eu recebi cerca de 20 pessoas daquela região, primeiros cristãos, primeiros batizados, que foram a Roma, com outra cultura diferente, aquelas culturas tribais. E Bangkok, como vimos, é uma cidade forte, moderníssima, mas tem problemas diferentes dos do Japão e tem riquezas diferentes das do Japão.

Sobre o problema da exploração, eu quis enfatizá-lo para lhe agradecer pelo seu livro, assim como também gostaria de agradecer pelo livro “verde” de Franca Giansoldati: duas mulheres que estão no avião e que fizeram um livro, cada um dos quais abordando os problemas de hoje, o problema ecológico e o problema da destruição da mãe terra, do ambiente, e o problema da exploração humana que você tocou. Vê-se que as mulheres trabalham mais do que os homens e são capazes. Obrigado a vocês duas por essa contribuição.

E ainda não esqueci a camiseta de Rocio [a referência é à camiseta com o rosto de uma mexicana assassinada, que Valentina Alazraki havia presenteado ao papa durante uma entrevista em vídeo nos últimos meses]. E obrigado por fazer perguntas diretas, isso faz bem. Rezem por mim. Bom almoço.

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