"O estudo universitário de qualidade deve ir acompanhado pela consciência de se reconhecer como servidores da justiça e do bem comum", afirma Francisco em universidade jesuíta do Japão

Papa Francisco discursando na Sophia University, Tóquio, Japão. Foto: Vatican Media

26 Novembro 2019

"Em uma sociedade tão competitiva e tecnologicamente orientada, essa universidade deveria ser um centro não somente de formação intelectual, mas também um lugar onde se possa ir tomando forma uma sociedade melhor, um futuro mais cheio de esperança", afirma o papa Francisco, em discurso proferido à comunidade acadêmica da Sophia University, em Tóquio, no Japão, 26-11-2019, na despedida da visita apostólica à Tailândia e ao Japão. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Antes de iniciar a viagem de retorno, o Papa Francisco se encontrou com o Padre Adolfo Nicolás, ex-Superior Geral da Companhia de Jesus. Segundo Religión Digital, 26-11-2019, "Nicolás, muito envelhecido, acolheu o abraço de Bergoglio com um sorriso emocionado. É a sensação de um círculo que se encerra. O sonho do Japão, que um dia enamorou o padre Arrupe, e que reuniu emocionalmente Nicolás e Bergoglio, voltou a uni-los em Tóquio. Há três anos que não se viam".


Durante sua visita ao Japão, o Papa Francisco encontrou e abençoou o padre Adolfo Nicolás, ex-Superior Geral da Companhia de Jesus. Foto: Antonio Spadaro | Twitter

Eis o discurso.

 

Queridos irmãos e irmãs:

 

Alegra-me muito em poder estar alguns minutos com vocês ao final da minha visita apostólica, pouco antes de deixar o Japão e retornar a Roma. É o adeus. Minha estadia nesse país foi breve, porém intensa. Agradeço a Deus e a todo o povo nipônico pela oportunidade de poder visitar esse país, que deixou uma grande marca na vida de São Francisco Xavier, e onde tanto mártires deram testemunho da sua fé cristã. Apesar de os cristãos serem uma minoria, sua presença pode ser sentida. Eu mesmo fui testemunha da estima geral que se tem com a Igreja Católica, e espero que esse respeito mútuo possa aumentar no futuro. Também observei que, apesar da eficiência e da ordem que caracterizam a sociedade japonesa, se percebe que se deseja e se busca algo mais: um desejo profundo por criar uma sociedade cada vez mais humana, mais compassiva, mais misericordiosa.


Recepção ao papa Francisco no Japão. Foto: Antonio Spadaro | Twitter

O estudo e a meditação são parte de toda cultura, e vossa cultura japonesa está, nesse sentido, orgulhosa da sua herança antiga e rica. O Japão pode integrar o pensamento e as religiões da Ásia em seu conjunto e criar uma cultura com identidade definida. A Escola Asikaga, que tanto impressionou São Francisco Xavier, é um exemplo da capacidade da cultura japonesa para absorver e transmitir o conhecimento. Os centros de estudo, meditação, investigação, seguem desempenhando um papel importante na cultura atual. Por essa razão, é necessário que conservem sua autonomia e sua liberdade, em vistas de um futuro melhor. Posto que as universidades seguem sendo o lugar principal no qual se capacitam os líderes futuros, é necessário que o conhecimento e a cultura, em toda sua amplitude, inspirem todos os aspectos das instituições educativas, tornando-se cada vez mais inclusivas e geradoras de oportunidade e de promoção social.

Sophia. O homem para administrar seus recursos de maneira construtiva e eficiente sempre necessitou da verdadeira Sophia, da verdadeira sabedoria. Em uma sociedade tão competitiva e tecnologicamente orientada, essa universidade deveria ser um centro não somente de formação intelectual, mas também um lugar onde se possa ir tomando forma uma sociedade melhor, um futuro mais cheio de esperança. No espírito da encíclica Laudato Si’, adicionaria que o amor pela natureza, tão típico das culturas asiáticas, aqui deveria se expressar em uma inquietude inteligente e prospectiva pela proteção da terra, nossa Casa Comum. Inquietude que pode se amalgamar com a promoção de uma nova episteme capaz de ampliar e questionar toda tentativa reducionista de parte do paradigma tecnocrático (cf. nn. 106-114). Não percamos de vista que “a humanidade autêntica, que convida a uma nova síntese, parece habitar no meio da civilização tecnológica de forma quase imperceptível, como a neblina que filtra por baixo da porta fechada. Será uma promessa permanente que, apesar de tudo, desabrocha como uma obstinada resistência daquilo que é autêntico? ” (ibid., 112).


Recepção ao papa Francisco no Japão. Foto: Antonio Spadaro | Twitter

A Sophia University esteve sempre marcada por uma identidade humanista, cristã, internacional. Desde sua fundação, a Universidade se enriqueceu com a presença de professores de vários países, inclusive às vezes de países em conflito entre si. No entanto, todos estavam unidos pelo desejo de dar o melhor aos jovens do Japão. Esse mesmo espírito perdura também nas muitas formas nas quais vocês brindam ajuda àqueles que mais necessitam, aqui e no estrangeiro. Estou seguro que esse aspecto da identidade de vossa Universidade se fortalecerá cada vez mais, de modo que os grandes avanços tecnológicos de hoje possam colocar-se ao serviço de uma educação mais humana, mais justa e ecologicamente responsável.

A tradição inaciana, na qual se baseia a Sophia, deve impulsionar professores e estudantes por igual a criar uma atmosfera que fomente a reflexão e o discernimento. Nenhum estudante dessa universidade deveria se graduar sem ter aprendido como escolher, responsável e livremente, o que em consciência sabe que é o melhor. Que em cada situação, inclusive nas mais complexas, se interessem pelo que em sua conduta é justo e humano, cabal e responsável, decididos defensores dos vulneráveis, e sejam conhecidos por essa integridade que tanto se necessita nesses momentos em que as palavras e as ações, com frequência, são falsas ou enganosas.


Papa Francisco no refeitório da comunidade jesuíta da Universidade de Sofia. Foto: Antonio Spadaro | Twitter

As Preferências Apostólicas Universais que propus à Companhia de Jesus deixam claro que o acompanhamento dos jovens é uma realidade importante em todo o mundo, e que todas as instituições inacianas devem fomentar esse acompanhamento. Como demonstra o Sínodo dos Jovens e seus documentos, a Igreja universal também olha com esperança e interesse aos jovens de todo o mundo. Vossa Universidade, em seu conjunto, deve se centrar nos jovens, que não somente são receptores de uma educação preparada, mas também parte dessa educação, oferecendo suas ideias, compartilhando sua visão e esperanças para o futuro. Que vossa Universidade seja conhecida por esse modelo de trocas e pelo enriquecimento e vitalidade que isso gera.

A tradição cristã e humanista da Sophia University está totalmente em consonância com outra das Preferências que mencionei: a de caminhar com os pobres e os marginalizados de nosso mundo. A Universidade, focada em sua missão, deveria estar aberta sempre para criar um arquipélago capaz de interconectar o que social e culturalmente pode chegar a se conceber como separado. Os marginalizados serão criativamente envolvidos e incorporados no currículo universitário, buscando possibilitar as condições para que isso se traduza na promoção de um estilo educativo capaz de diminuir brechas e distâncias. O estudo universitário de qualidade, mais que ser considerado o privilégio de alguns poucos, deve ir acompanhado pela consciência de se reconhecer como servidores da justiça e do bem comum; serviço a se implementar na área que cada um queira desenvolver. Uma causa que compete a todos; o conselho de Pedro a Paulo segue sendo certo hoje: não esqueçamos dos pobres (cf. Ga 2, 10).

Queridos jovens, queridos professores, queridos todos os que trabalham na Sophia University: que essas reflexões e nosso encontro de hoje deem fruto em suas vidas e nas desta comunidade acadêmica. O Senhor e sua Igreja contam com vocês para que participem na missão de buscar, encontrar e expandir a Sabedoria divina e oferecer alegria e esperança à sociedade atual. Por favor, não se esqueçam também de rezar por mim e por todos os que mais necessitam de nossa ajuda.

E agora, enquanto me preparo para deixar o Japão, lhes agradeço, e por meio de vocês a todo o povo japonês, pela amável acolhida e recepção que me brindaram durante essa visita. Asseguro-lhes que os terei presentes em meu coração e em minha oração. Muito obrigado.

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