Superior Geral da Companhia de Jesus aponta dez grandes desafios ao celebrar os 50 anos do Secretariado para a Justiça Social e a Ecologia Integral - SJES

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06 Novembro 2019

"Quero convidá-los a fazer deste Congresso Mundial um momento de renovação espiritual, que busque, como nos apontam as preferências apostólicas universais e nos insiste o papa Francisco, aprofundar nossa relação com Deus para mostrar esse caminho de vida nova. Bebendo na fonte do Evangelho, orientados pelas luzes que oferecem as preferências apostólicas para o próximo decênio, abramos nossas mentes e corações aos sinais dos tempos através dos quais o Senhor nos mostra como atua na história presente e nos move a colaborar com Ele, entre nós e com os outros". 

O pedido é do Pe. Arturo Sosa, superior geral da Companhia de Jesus, durante seu discurso no Congresso Mundial do Apostolado Social da Companhia de Jesus. O texto é publicado por Secretariado da Justiça Social e da Ecologia Integral - SJES, 04-11-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o discurso. 

Seguir a Jesus acompanhando o povo em seu caminho para um mundo reconciliado.

Queridos participantes deste Congresso Mundial do Apostolado Social da Companhia de Jesus. Obrigado por estarem aqui; obrigado por seu compromisso ao serviço da fé, que luta pela justiça do Evangelho, em diálogo e colaboração com tantas pessoas de diversas religiões e culturas empenhadas em contribuir com a conciliação e a paz.

Em novembro de 2018, convidei-os para nos encontrarmos aqui em Roma, nesta data, não somente para compartilharmos belas recordações de nossos compromissos passados, mas também para convertermos a celebração dos primeiros 50 anos do Secretariado para a Justiça Social e a Ecologia Integral em um momento propício, no kairós, para juntos agradecer tantos bens recebidos, discernir os passos a serem dados e escolher os novos ou renovados chamados do Senhor no compromisso com a promoção da justiça e a reconciliação, como nos lembra a logo desse Encontro Mundial.


Pe. Sosa durante o discurso. Na mesa estão também os cardeais Czerny e Turkson e o Pe. Pe. Xavier Jeyaraj (Foto: SJES-Rome - Reprodução do Twitter)

Levamos 50 anos de um processo contínuo, em sintonia com importantes acontecimentos sociais e eclesiais, fora e dentro da Companhia de Jesus, desencadeados pelo vento fresco que significou o Concílio Ecumênico Vaticano II. Essa ocasião não se presta a tentar elencar detalhadamente os acontecimentos vividos neste tempo. No entanto, os convido a fazer memória deles em sua oração pessoal e partilha fraterna nestes dias. Acontecimentos como a Conferência de Bispos Latino-americanos em Medellín e Puebla, a Carta do Rio de Janeiro, do padre Pedro Arrupe sobre o compromisso social da Companhia de Jesus, o decreto 4 da 32ª Congregação Geral, a inspiradora síntese desta experiência feita na 36ª Congregação Geral quando nos chama a ser “companheiros em uma missão de reconciliação e justiça” ou a ventania levantada pela preparação e recente celebração do Sínodo da Amazônia, que colocou em movimento um processo de aprofundamento no compromisso pela vida das pessoas, dos povos e do planeta Terra.

Acontecimentos que, muitas vezes, estão associados a rostos concretos, que nos moveram profeticamente. De novo, tragam esses rostos a suas memórias durante suas orações e partilhas fraternas nestes dias, dando graças ao Senhor por figuras como dom Hélder Câmara, São Oscar Arnulfo Romero, Rutilio Grande, Franz van Der Lugt, Christophe Munzihirwa, A.T. Thomas, Richard Fernando, Thomas Gafney, ou Pedro Arrupe, fundador e inspirador do SJES. Seguindo figuras inspiradoras, convoquei um “ano inaciano” para deixarmos novamente nos comover por Inácio de Loyola, ferido em Pamplona, em 1521, e transformado pela ação de Deus, em Manresa, para se converter no peregrino que iniciou esse caminho que também nós escolhemos percorrer a serviço de Jesus Cristo e sua Igreja.

Aproveitemos, então, este momento tão especial a partir do que Deus está outra vez nos falando e convidando a fazer memória, agradecer, discernir e tomar decisões audaciosas, ousadas e arriscadas para acompanhar Jesus e seu povo nas realidades de fronteira, junto aos mais excluídos, pobres e vulneráveis.

Aproveitar este momento para fazer memória significa renovar nosso compromisso com o melhor desse passado, atualizando e fortalecendo nosso desejo de seguir os chamados recebidos durante anos de procura, discernimento e tomada de decisões. Estamos aqui para fazer memória, ou seja, para renovar e fortalecer a fé que exige a justiça, o diálogo com as culturas, o compromisso com a ecologia integral, e promover nossa reconciliação com Deus e toda a sua Criação. Ao fazer memória, também reconhecemos nossos erros e aceitamos nossas quedas, buscando tirar proveito do que aprendemos das experiências vividas. Ao tomar consciência do nosso pecado e de nossas omissões, fazemos presente nossa fragilidade, necessitada de ajuda. Ao mesmo tempo, experimentamos a misericórdia que nos capacita para nos convertermos em “ministros da reconciliação”, contribuindo na construção do futuro, guiados pelo Espírito.

Nos encontramos em um momento privilegiado para agradecer a Deus por sua presença, inspiração e acompanhamento, testemunhado, sobretudo, nas mulheres e homens que entregaram sua vida a serviço das pessoas mais pobres e excluídas. Agradecemos a Deus o presente que fez a sua Igreja na vida e compromisso de tantos mártires que, durante esses 50 anos, deram sua vida pela fé e pela justiça. Também é um momento para agradecer que a nós, pecadores, o Senhor chamou para ser servidores e servidoras da missão de Cristo, enviados às fronteiras.

É neste momento privilegiado, para discernirmos os novos caminhos, que o Senhor está nos chamando. Para isso, sabemos bem, se necessita ousadia; essa audácia para buscar o que parece impossível, pois contamos com sua graça, e isso nos basta. Aproveitemos esses dias, sobretudo, para olhar para o futuro, inspirados pelas aprendizagens do passado e urgidos por este presente cheio de desafios, desta Igreja que busca se renovar sob a inspiração e guia do papa Francisco.

Aproveitemos esse kairós para fazer memória, agradecer e discernir o chamado de Deus à luz das Preferências Apostólicas Universais 2019-2029 da Companhia de Jesus, o Sínodo Amazônico, os convites que nos faz o magistério do papa Francisco e os movimentos e instituições sociais mais comprometidos.

Permitam-me uma nota pessoal. Este aniversário do Secretariado para a Justiça Social e a Ecologia Integral é uma ocasião para agradecer ao Senhor sua presença em minha própria vida, pelo compromisso na luta pela justiça derivada do impulso da fé. Acabo de cumprir 53 anos da minha entrada no noviciado da Companhia de Jesus, em Los Teques, na Venezuela. Minha vocação, formação e missão apostólica na Companhia de Jesus foram alimentadas e marcadas pelo que chamamos de “apostolado social”.

Este encontro mundial é para mim a oportunidade de agradecer essa experiência ao mesmo tempo que sinto confirmada a centralidade dessa dimensão na missão da Companhia de Jesus hoje, porém sobretudo olhando a longo prazo. A Companhia de Jesus – lemos na Fórmula do Instituto, de 1550 – foi “fundada primeiramente para atender principalmente à defesa e propagação da fé e ao proveito das almas na vida e doutrina cristã”. Cumprir esse objetivo hoje como seguidores, companheiros e companheiras de Jesus de Nazaré somente é possível se encarnando, como ele, na humanidade crucificada pelo pecado do mundo e, juntos, contribuir para superar as causas que oprimem os seres humanos e maltratam o meio ambiente.

Reitero, assim, meu convite a cada um de vocês e a esse importante grupo de pessoas aqui reunido para fazer memória e agradecer do fundo do coração:

- primeiro a Deus e depois a sua Igreja porque, com o Vaticano II, nos convidou a nos renovarmos voltando às nossas fontes originais, processo que levou ao início desse Secretariado, cujos 50 anos de existência nos reúne;

- aos inumeráveis jesuítas, companheiros e companheiras no apostolado social. Como pioneiros, tiveram que viver situações difíceis em meio às críticas, incompreensões, ridicularizações. Porque em meio à tanta adversidade permaneceram fiéis à causa dos mais pobres e vulneráveis;

- ao padre Pedro Arrupe, que por sua intercessão oferecemos este Congresso Mundial. A partir de um autêntico “sentir com a Igreja” ouviu as suas intuições e em meio a sofrimentos e incompreensões, com audácia e generosidade, ajudou a renovar e atualizar a missão da Companhia de Jesus, nos dando um inestimável e entusiasmante exemplo de fidelidade criativa;

- a todos e cada um dos anteriores secretários do SJESFranciscoPacoIvern, Michael Campbell-Johnston, Henry Volken, Michael Czerny, Fernando Franco e Patxi Alvarez – por sua entrega e liderança, agora impulsionado pelas mãos de Xavier Jeyaraj. Todos eles contaram com pessoas generosas para apoiar um trabalho imenso, com recursos escassos bem aproveitados, que merecem nosso sincero reconhecimento e agradecimento;

- a todas as Conferências Superiores Maiores, delegados provinciais, diretores de obras e centros sociais, que assumiram em diversas partes do mundo a liderança na promoção da justiça que brota de nossa fé;

- a todas as obras, em todos os campos do trabalho apostólico da Companhia de Jesus, que incorporaram “o social e a ecologia integral” como dimensão fundamental da missão que realizam;

- a tantas pessoas, leigas ou religiosas, com as quais experimentamos ser parte do mesmo corpo, em cujos ombros descansaram o compromisso cotidiano desses 50 anos. Sem todas elas, sem cada um de vocês, o terreno não teria sido marcado, nem a semente plantada, nem os frutos colhidos. É claro que a liderança presente e futura desta missão recai sobre vocês e aqueles que, seguindo o caminho já iniciado, serão os sucessores e inovadores de uma missão que se faz cada dia mais complexa e mais urgente.

Quero convidá-los a fazer deste Congresso Mundial um momento de renovação espiritual, que busque, como nos apontam as preferências apostólicas universais e nos insiste o papa Francisco, aprofundar nossa relação com Deus para mostrar esse caminho de vida nova. Bebendo na fonte do Evangelho, orientados pelas luzes que oferecem as preferências apostólicas para o próximo decênio, abramos nossas mentes e corações aos sinais dos tempos através dos quais o Senhor nos mostra como atua na história presente e nos move a colaborar com Ele, entre nós e com os outros.

Uma das mais importantes aprendizagens do discernimento em comum das preferências apostólicas universais foi entender que elas não indicam o que devemos fazer, mas sim como viver no que fazemos. As preferências apostólicas são orientações vitais que nos levam a entender a vida e a missão como algo intrinsecamente unido; nos levam a buscar convergências e integração entre as muitas maneiras pelas quais levamos adiante nossa colaboração na missão do Senhor, evitando a tentação de setorizar o que são dimensões necessariamente presentes no que somos e fazemos.

O discernimento que se inspira na memória agradecida e mira a longo prazo pode se enriquecer com o que a espiritualidade inaciana, com refinada originalidade, chama o exame. Recomendo vivamente uma releitura da Carta sobre o Apostolado Social do padre Peter-Hans Kolvenbach, de 24 de janeiro de 2000. Recordo o seguinte parágrafo:

Ao mesmo tempo e paradoxalmente, essa consciência da dimensão social da nossa missão nem sempre encontra expressão concreta em um apostolado social pujante. Pelo contrário, este manifesta algumas debilidades preocupantes: parecem ser cada vez menos preparados os jesuítas dedicados ao apostolado social, e os que ali estão frequentemente se encontram desanimados e dispersos, faltando-lhes talvez colaboração e organização. Fatores externos à Companhia estão também enfraquecendo o apostolado social: nossos dias estão marcados por imprevisíveis e rápidas mudanças socioculturais difíceis de interpretar e às quais é ainda mais difícil responder com eficácia (globalização, excessos da economia de mercado, tráfico de drogas e corrupção, migração em massa, degradação ecológica, explosões de brutal violência). Visões da sociedade que antes inspiravam e estratégias para uma mudança estrutural ampla cederam o posto ao ceticismo ou, no melhor dos casos, a mera preferência por projetos mais modestos e abordagens restritas. O apostolado social corre assim o perigo de perder seu vigor e impulso, sua orientação e impacto”.

Como insumo para esses dias, eu me atrevo a lhes oferecer dez pontos os quais podemos examinar com transparência e coragem:

1. A dimensão espiritual de nosso compromisso com a justiça social e a ecologia integral: o quanto o nosso compromisso social pessoal e o de nossas obras nos aproxima de Deus e nos mostra o caminho rumo a Ele?

2. O lugar do discernimento pessoal e grupal em nossa vida-missão: o quanto estamos discernindo pessoal e institucionalmente a missão para a qual nos convida o Espírito que atua na história?

3. A colaboração entre jesuítas, leigos, leigas, outras pessoas e instituições: o quanto colaboramos com outras partes do corpo como algo normal, por necessário, em nosso trabalho? Em que grau estabelecemos uma relação fraterna, horizontal, entre todos e todas?

4. O lugar das mulheres em nossas instituições e prioridades sociais: que lugar ocupam as mulheres nos processos de discernimento, tomada de decisões de nossa vida-missão? Que lugar ocupam entre os desafios prioritários de um mundo que as marginaliza ou exclui e uma Igreja que reluta a reconhecer sua corresponsabilidade na direção da comunidade dos seguidores e seguidoras do Senhor Jesus?

5. O trabalho em Rede: o quanto estamos trabalhando em rede entre nós e com as demais obras apostólicas da Companhia e com outras instituições que desde sua identidade contribuem para o crescimento do reinado do Senhor?

6. A proximidade aos pobres como dimensão constitutiva do caminho redentor aberto por Jesus de Nazaré: o quão próximo dos pobres e excluídos nós estamos? Quanto estamos efetivamente dispostos a nos mover nessa direção, em nossa vida e estilo de trabalho? Como a proximidade aos pobres determina nosso olhar para o mundo e nossa sensibilidade ante as situações que vivemos?

7. Nosso trabalho intelectual. A Companhia de Jesus nasce associando a profundidade espiritual, a proximidade aos pobres e a compreensão intelectual dos processos humanos. O discernimento que leva a escolher as ações a serem realizadas necessita de profundidade intelectual. Estamos acompanhando nossos trabalhos sociais com a suficiente reflexão e pesquisa que exige a complexidade do mundo global que temos à nossa frente?

8. O fortalecimento da liderança dos pobres e excluídos: que lugar ocupam os grupos mais excluídos (migrantes, mulheres, jovens, pessoas mais vulneráveis de nossas sociedades) em nossos planos sociais? São somente objetos de nossa missão ou, pelo contrário, estamos abrindo espaços para que sejam sujeitos e tenham a liderança dos processos de libertação?

9. A incidência local e global: estamos preocupados em ir mais além do serviço direto para desenvolver processos de incidência que afetem as estruturas de exclusão e produzam um bem maior e mais universal?

10. O compromisso com a erradicação dos abusos dentro e fora da Igreja como dimensão necessária da transformação das estruturas injustas da sociedade. Até onde cresceu nossa sensibilidade ante os abusos sexuais, de consciência e de poder dentro de nossas instituições, dentro da Igreja e no conjunto das estruturas sociais? Elaboramos estratégias apropriadas para detectar, reagir e evitar todo tipo de abusos? Que posto ocupa a promoção de uma “cultura de salvaguarda” em nossa luta pela justiça social?

Do intercâmbio desses dias, surgirão, seguramente, outras matérias de exame, porém sobretudo novas luzes para enfrentar o futuro de nosso apostolado social. A melhor maneira de comemorar esse 50º aniversário do SJES é imitar Inácio de Loyola, que se põe a caminho, deixando para trás o passado, aprendendo a ser guiado pela mão do Senhor e colocando somente n’Ele toda sua confiança.

A missão do Secretariado da Justiça Social e da Ecologia Integral não é fazer do social e do ecológico a missão particular de uma parte ou grupo especializado da Companhia, mas sim promover o compromisso social e ecológico dentro de todo o corpo. Por isso, aqui estão presentes pessoas comprometidas em diversas atividades apostólicas da Companhia de Jesus, todos empenhados em viver o compromisso social e ecológico como uma experiência profundamente espiritual que nos permita a todos viver a ação social e ecológica como uma experiência de união íntima com a Trindade que contempla o mundo e, somente por amor, se encarna na história para redimi-la mediante a promoção da justiça, o cuidado e proteção da Casa Comum, exercendo o ministério da reconciliação de todas as coisas em Cristo.

Peçamos, por intercessão de Pedro Arrupe e nossos mártires, alcancemos a abertura de coração e mente necessária para aproveitar esse kairós e, por mediação de nossa Mãe Maria, nos façamos disponíveis a ser postos como Filhos.

Muito obrigado.

Arturo Sosa, S.J.
4 de novembro de 2019.

 

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