A missão da Companhia de Jesus hoje. Entrevista com Arturo Sosa

Revista ihu on-line

Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

Edição: 536

Leia mais

No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

Edição: 535

Leia mais

Etty Hillesum - A resistência alegre contra o mal

Edição: 534

Leia mais

Mais Lidos

  • Bancos vão ficar com 62% da renda do trabalhador se capitalização for aprovada

    LER MAIS
  • A democracia representativa está esgotada. Entrevista com Jean Ziegler

    LER MAIS
  • O pessoal é digital. Artigo de Slavoj Žižek

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

01 Agosto 2017

Para Arturo Sosa, que há nove meses é o primeiro superior geral dos jesuítas não europeu, é a primeira festa de Santo Inácio que ele vive à frente da Companhia e que celebra na igreja romana do Gesù, onde se venera o corpo do fundador, que morreu no dia 31 de julho de 1556. Este aniversário é o ponto de partida para uma entrevista ao L’Osservatore Romano sobre o início do seu generalato.

A reportagem é de Giovanni Maria Vian, publicada por L’Osservatore Romano, 31-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Passou-se pouco mais do meio-dia do dia 28 de julho, um quente dia em pleno verão, e o encontro com o prepósito geral ocorre a poucos passos de São Pedro, no quarto andar da Cúria Generalícia, na sala onde ele trabalha desde quando está em Roma, sentados à uma grande mesa redonda nua como as paredes claras e que, evidentemente, serve para as frequentes reuniões.

Graças a esses encontros e graças às viagens, o sucessor do santo de Loyola governa a Companhia de Jesus, articulada em 85 províncias reunidas em seis conferências dos provinciais. Em nove meses, o geral venezuelano, eleito em 14 de outubro passado, já participou de quatro dessas reuniões, mas os países que visitou são muitos mais: Índia, Peru, Espanha, Alemanha, Ruanda, Burundi, República Democrática do Congo, Quênia, Indonésia, Camboja, aos quais em breve se somará a Bélgica.

Uma vida em que os dias passam repletos de encontros e de compromissos, rigorosamente marcados e abertos todas as manhãs por pelo menos duas horas de oração antes da missa, que ele celebra às sete: “Mas, se você quiser matar um religioso, basta atrasar o seu almoço e o seu repouso”, diz ele com ironia, acompanhando o hóspede até o elevador, depois de quase uma hora de conversa relaxada e tranquila, mas aberta, inevitavelmente, por uma pergunta sobre a atualidade dramática do seu país.

Eis a entrevista.

Como você vê a situação na Venezuela?

Apesar de tudo, eu tenho um olhar otimista, embora ignore o futuro. Mas é obviamente grande a preocupação com a sucessão das notícias, como se expressaram várias vezes os bispos e os jesuítas do meu país, o papa, o cardeal secretário de Estado e, de várias outras maneiras, a Santa Sé. Mas eu quero enfatizar um fato: o referendo do dia 16 de julho foi a manifestação civil mais importante de toda a história venezuelana, porque dela participaram sete milhões e meio de pessoas, ou seja, a metade do eleitorado. O percurso do debate político seria a única via para frear a violência e fazer verdadeiramente política a serviço das grandíssimas necessidades do povo.

Passaram-se mais de nove meses desde a sua eleição: como você os passou?

Com grande paz, com muito trabalho e com a necessidade de aprender muitas coisas novas, rapidamente. Acima de tudo, com paz espiritual, porque eu detenho um cargo que não busquei e que nem sequer imaginava que poderia recair sobre mim: eu o recebi dos meus irmãos na congregação geral, mas eu o entendo e o vivo como algo proveniente do Senhor Jesus, que eu escolhi como companheiro há mais de meio século. O trabalho é realmente muito, e não é simples conhecer, a partir desta minha nova posição, um corpo tão rico e variado como a Companhia de Jesus e os meus companheiros na missão. Tudo isso em grande velocidade, porque as decisões não podem esperar.

O que faria Inácio de Loyola hoje?

Essa é a pergunta que eu me faço todos os dias, junto com todos os jesuítas. Acima de tudo, junto com os 13 conselheiros gerais, que, a cada semana, eu encontro regularmente, um por um, quando não sou impedidos pelas respectivas viagens, enquanto nas terças e quintas-feiras todo o conselho se reúne. E, três vezes por ano, em janeiro, junho e setembro, por uma semana inteira, temos um encontro ampliado aos presidentes das seis conferências provinciais e a quatro secretários, 24 pessoas ao todo.

A que visa esse método de governo tão complexo e desafiador, que eu imagino que seja muito útil para as decisões que o padre geral deve tomar?

A intenção é a de entender justamente as escolhas a serem feitas, porque, para a Companhia de Jesus e, portanto, para todos os jesuítas, é fundamental e necessário ser criativamente fiéis à própria vocação e à missão. Olhando para Santo Inácio, devemos continuamente percorrer o caminho do retorno às nossas fontes originais. Foi isso que quis o Concílio Vaticano II, e essa decisão foi a salvação para a vida religiosa, que, na visão católica, é uma inspiração do Espírito.

Existem critérios para entender como realizar essa fidelidade?

Olhamos para a experiência dos primeiros dez jesuítas, quando Inácio e os seus companheiros estavam em Veneza para ir à Terra Santa. O projeto revelou-se impossível e se transformou na viagem a Roma, decisiva para a Companhia, como relatam as fontes e como recordou, há alguns meses, a nossa 36ª Congregação Geral, reunida para eleger o prepósito. Esse é o modelo de Veneza: a união da mente e do coração, a prática de uma vida austera, a proximidade afetiva e efetiva aos pobres, o discernimento comum e a disponibilidade às exigências de toda a Igreja identificadas e expressadas pelo papa.

Qual é a missão dos jesuítas?

Hoje, a Companhia deve encontrar, a cada dia, o caminho para pôr em prática a reconciliação. Em três níveis: com Deus, com os seres humanos, com o ambiente. Somos colaboradores da missão de Cristo, razão de ser da Igreja de que fazemos parte. E justamente a experiência de Deus nos restitui a liberdade interior e nos leva a dirigir o olhar para aqueles que estão crucificados neste mundo, para entender melhor as causas da injustiça e contribuir para elaborar modelos alternativos ao sistema que hoje produz pobreza, desigualdade, exclusão e põe em risco a vida sobre o planeta. Assim, devemos restabelecer uma relação equilibrada com a natureza. Contribuir com essa reconciliação significa também desenvolver a capacidade de diálogo, entre as culturas e entre as religiões. Acabei de voltar de uma viagem à Ásia: na Indonésia, o país islâmico mais populoso do mundo, conversei longamente com um grupo de intelectuais muçulmanos, e em Camboja me encontrei com monges budistas, para testemunhar as possibilidades de colaboração entre as religiões como fatores que favoreçam o entendimento e a convivência pacífica, e como vias para a busca espiritual.

Como é possível essa reconciliação?

A conversão é fundamental: pessoal, comunitária “para a dispersão”, ad dispersionem, um termo que significa a necessidade apostólica da missão, e institucional, para reorganizar as nossas estruturas de trabalho e de governo voltadas precisamente para a missão. Que é própria daqueles que se sentem chamados a ser companheiros de Jesus.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A missão da Companhia de Jesus hoje. Entrevista com Arturo Sosa - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV