O mundo e a política precisam de Deus

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16 Julho 2019

"Um discurso que tem muitos pontos de contato com algumas anotações do já citado livro de Carlo Rovelli, que também diz que estamos imersos no mistério e na beleza de um mundo feito de campos quânticos e atravessado por uma densa rede de interações recíprocas. Reflexões que parecem dar razão a Einstein quando afirmava que 'a ciência sem religião é manca e a religião sem ciência é cega', fazendo assim justiça ao fundamentalismo religioso e ao cientificismo dogmático", escreve Michele Di Schiena, magistrado italiano, em artigo publicado por Manifesto Quattro Ottobre, 13-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O mundo e a política têm uma grande necessidade de Deus, mas é uma exigência que se coloca nos antípodas de todo o temporalismo e toda forma de fundamentalismo religioso, porque o Deus de que necessitam o mundo e a atividade concernente à direção da vida pública não é aquele Senhor do céu e da terra adorado em sua solenidade e nem mesmo aquela divindade dominante alheia à realidade e compreensivelmente rejeitada pelos ateísmos. Em vez disso, é aquela alma criativa do Universo que dá impulso ao seu desenvolvimento caracterizado pelo contraste entre ordem e desordem, entre harmonia e caos, entre bem e mal: um conflito conjunto com toda a realidade existencial sem o qual falharia toda forma de evolução e de liberdade.

Aquele Deus que é, como diz o teólogo brasileiro Leonardo Boff, "a suprema realidade relacional... a comunhão da Trindade que penetra e sustenta todo ser e todo o Universo". Em suma, é a linfa vital dos princípios e dos valores supremos que estão no fundamento do cristianismo e permeiam até mesmo todas as grandes tradições culturais e espirituais desde os primórdios da civilização: o princípio da humanidade que exige o respeito para cada pessoa como critério de avaliação também das atividades econômicas e do princípio da reciprocidade, essa "regra áurea" já presente nos ensinamentos de Confúcio e retomada pelo Evangelho com o preceito "tudo o que você quer que os homens façam a você, você também o faça a eles". São princípios sobre os quais podem unanimemente se encontrar crentes e não crentes, abrindo o caminho para uma frutuosa colaboração entre uma espiritualidade secular e uma espiritualidade religiosa, ambas nutridas com a interioridade e destinadas a buscar o significado do destino dos homens.

Qualquer oposição entre "crentes" e "não-crentes", portanto, parece quase artificiosa porque, como o cardeal Carlo Maria Martini afirmava, essas são duas formas diferentes de pensamento, mas ambas mais marcadas por propensões solapadas pela dúvida que dotadas de inquestionável certeza. Portanto causa surpresa que Carlo Rovelli, físico teórico e escritor de excelente qualidade, em seu livro intitulado “La realtà non è come ci appare”[A realidade não é como nos aparece] (Raffaello Cortina editora, 2014) tenha criticado, referindo-se aos crentes, aqueles "que dizem conhecer a verdade .... porque eles aprenderam isso dos padres, porque a leram em um Grande Livro, porque a receberam diretamente de um Deus" e tenha acrescentado, referindo ao Papa, "existe sempre algum cavalheiro vestido em branco que diz 'escutem-me, sou infalível’ (sem especificar que a infalibilidade papal diz respeito apenas às verdades da fé).

Destaques mesquinhos, porque prescindem dos aprofundamentos e das atualizações a partir do Concílio Vaticano II implementados pelo Papa Francisco, que em uma carta a Eugenio Scalfari ("Diálogo entre crentes e não-crentes" Einaudi- da República, 2013) explica que "a questão também para quem não acredita em Deus está em obedecer à sua consciência" porque ..."nessa decisão, a bondade ou a maldade de nossas ações é jogada" e acrescenta "eu não falaria, nem mesmo para os crentes, da verdade absoluta" porque "absoluto é aquilo que é desvinculado, aquilo que é desprovido de relações ... e a verdade é uma relação". E o próprio Pontífice na encíclica "Laudato si" (24 de maio de 2015) fala sobre o "mistério do universo" e de um mundo constituído por "uma trama de relações" e afirma que "tudo está conectado e nos convida a amadurecer a espiritualidade da solidariedade global”.

Um discurso que tem muitos pontos de contato com algumas anotações do já citado livro de Carlo Rovelli, que também diz que estamos imersos no mistério e na beleza de um mundo feito de campos quânticos e atravessado por uma densa rede de interações recíprocas. Reflexões que parecem dar razão a Einstein quando afirmava que "a ciência sem religião é manca e a religião sem ciência é cega", fazendo assim justiça ao fundamentalismo religioso e ao cientificismo dogmático.

Vivemos em uma época em que estão em crise todos os projetos políticos de matriz liberal que nos deram uma economia desigual, os socialismos que na versão comunista fracassaram e na versão socialdemocrata perderam a força motriz de suas instâncias de transformação social e os partidos de inspiração cristã que não conseguiram traduzir em programas concretos as instâncias de liberdade e de justiça. Estamos diante de um mundo dilacerado por mil contradições: as inadmissíveis desigualdades sociais que tornam indispensável uma mudança radical do modelo de economia hegemônica; o drama das imigrações que exigem políticas de integração de visão ampla e não medidas defensivas míopes e cínicas; as guerras sangrentas, os terrorismos e a violência que mostram como é criminoso o lema "si vis pacem para bellum" e a urgência de repropor o grande princípio "si vis pacem para iustitiam".

Em suma, deve ser superada a tendência a lançar políticas que visam fortalecer os poderes, evidentes e às vezes ocultos, comprometidos com o condicionamento e controle da cultura e da economia, tentando credenciar como inevitáveis as escolhas dominantes. É preciso então uma grande revolução ética que reproponha aquele imperativo vital da fraternidade que nos chega da grandiosa beleza relacional do cosmos e daquele amor absoluto que parece permeá-lo em que muitos veem o mistério de Deus e outros um edificante Mistério. A política de ideais e dos valores deve deixar de lado aquela do pragmatismo de baixo nível, da ocupação do poder e das negociadas.

É necessário que os personagens dos aparatos e dos "palácios" deem lugar a homens que queiram lutar pelas coisas em que acreditam e que sejam mais propensos a dar do que a receber. Sem a realização desse sonho, o futuro da política corre o risco de se tornar cada vez mais pobre de tensões morais, mais cinza e mais marcado por arrogâncias e por prevaricações.

Uma reforma radical da política é necessária para devolvê-la ao confronto entre grandes opções ideais diferentes e à competição leal entre modelos de organização social e econômica alternativos. Precisamos redescobrir a luta competitiva porque sem esse ingrediente a luta política se torna o exercício do nada, o campo de todos os golpes, o espaço ocupado por quem busca o poder pelo desejo de poder e de domínio.

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